quinta-feira, 29 de abril de 2010

Uma coisa é uma coisa...


Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

Reflicto sobre a possibilidade de uma coisa ser outra coisa, assim como outra ser uma coisa.
Numa primeira abordagem à ideia surge-me a impossibilidade te tal. A menos que a coisa seja desprovida de coerência, identidade e orgulho, a troca pela outra ou a fusão em uníssono, dando origem à outra coisa, é totalmente impossível! Tal faria surgir uma terceira que teria a agravante de não ser nem uma nem outra, coisa, claro!
Isso não está previsto nesta reflexão.
Não obstante reconheço a possibilidade de uma coisa, apesar de não ser outra, poder através de processos complexos e insuspeitos, tais como uma acção proveniente do exercício de um acto, se transformar em outra coisa!
No entanto, este primordial processo de criação carece de um desconhecimento inicial da outra coisa, a fim de prevenir a existência do dito terceiro.

Mas agora reparo que tal acção indicia pouca honestidade da minha parte...

Extraordinário!...Perante a necessidade de ultrapassar um obstáculo, não hesitei, coagi-me a manipular a realidade, ferindo de morte e desrespeitosamente aniquilando a outra coisa, transformando-a na coisa, com o propósito convicto de atingir o meu objectivo!...

Serei eu de confiança?... Hum!... Francamente!...

Se a honra, a honestidade, o respeito e os meus princípios tivessem peso suficiente no meu carácter, atrasaria o relógio o tempo suficiente para que de novo pudesse proceder à reflexão de um modo eticamente correcto e honesto!
Mas, não posso deixar de reparar que isso não basta. Apesar de ter regredido no tempo, não anulei o processo de reflexão anterior! Assim terei de lidar com uma reflexão contaminada pelas conclusões da que a antecedeu...
Isso muda completamente o desenrolar espontâneo e aleatório do processo, visto que, poderei não resistir, à tentação hipócrita, de tentar parecer muito correcto nos meus actos e reflexões devido à consciência da conotação que me adveio da anterior experiência!...
Pois bem! Serei desmascarado!...
Reparem, tal como a espontaneidade, a aleatoriedade não existe. Rapidamente todos constatarão que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!


© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Tela branca, alva, calva...


Tela...
Tela branca, alva, calva...
Apesar de habitualmente não pintar, tive urgência em fazê-lo! Numa corrida furtiva, fui a uma loja e comprei uma tela branca, três pastéis pretos, duas bisnagas de acrílico vermelho...umas espátulas e carvão...

Em casa, isto é, num local de improviso montei o cavalete e agarrei a tela. Olhei demoradamente para o vazio da tela até ela ficar completamente branca...mas não consegui...ao fechar os olhos consegui vê-la finalmente vazia e branca!

Demorei-me um pouco, pelo receio de que a alvura de novo fugisse. Já está. Agora é que vou conseguir desenhar...

A fraqueza!...

Os momentos que tenho privado com ela, fazem-me sentir-lhe as formas. Formas esguias, ovais de coragem esbatida e medo berrante... Formas sem margens, de definições muito marcadas que quase rasgariam a tela, vermelhos incolores de vergonha...ou antes timidez... Não, são mesmo é de medo!

Tiro a tela do cavalete e ponho-a em cima de uma mesa. Vai-me dar muito mais jeito...
Com o pastel e o carvão traço marcas de vida, com rombos, curvas e vértices redondos como espinhos de roseira. Depois com a mão esfrego até atingir grandes zonas de sombra. Biombos de cobardia!...

Agora com o acrílico vermelho, vou traçar-lhe grandes áreas de ousadia!... Isso mesmo, ousadia e uns bouquets de coragem!...

Coloco uma boa porção da pasta na tela...mas aqui não me dá jeito!

Ponho-a no chão. Com uma espátula em cada mão atiro-me na disposição de a mutilar avidamente. Os biombos e os cenários de sombras haveriam de sofrer a brutalidade da coragem e da força. Calculo-lhes as formas das mandíbulas e em movimentos precisos e calculados começo a dar-lhes formas...

A luta é renhida, as sombras estendem-se com pouco esforço abafando o escarlate. As espátulas ficam moles como tiras de papel pardo!...aquilo não me agrada nada, sinto-me muito pouco potente, não obstante da minha valentia, luto contra aqueles riscos de carvão que a minha mão já tinha esbatido, mas que me exibem os caninos exuberantes!...

Num acto quase descontrolado salto com os dois pés juntos para cima da tela...
Então afundo-me... Enquanto me afundo olho para a superfície e vejo, em imagens pouco focadas, os pasteis e o carvão, nas suas enormes casacas de golas peludas rindo!... Rindo em gargalhadas de desdém que mostram os seus pútridos dentes negros em bocas de dominação!...

© Mário Rodrigues - 2010

domingo, 25 de abril de 2010

Abril ainda está por fazer…


Este, foi o primeiro post deste blog.
Hoje, republico-o na companhia da lágrima, que novamente me visita...

"segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Abril ainda está por fazer…
Abril…. Vagueando pelo meio dos meus documentários…..,dei com os olhos no “Capitães de Abril”, sei bem que não é um documentário, mas na minha prateleira está nesse lugar, dos documentários. Tinha 4 anos no dia 25 de Abril de 1974. Não resisti a dar uma olhadela; aí a 225ª vez e mais uma vez e como da 1ª vez que o vi, chorei novamente… e principalmente chorei por continuar a sentir vontade de chorar quando o vejo. Abril, ainda está por fazer. Abril foi e é todos os dias enxovalhado e vergonhosamente tomado por bocas e mãos que nunca o entenderam mas sempre o usaram. Abril ainda está por fazer… Abril ainda está por fazer… Abril ainda está por fazer…

© Mário Rodrigues - 2009"

sábado, 24 de abril de 2010

Por favor, fiquem com um...São uma ternura!...

Fofos e indefesos. Nasceram com os corpos despidos de qualquer pêlo.
São um amor e uma ternura. Se pudesse, não faría isto.
Gostava imenso de ficar com todos mas a minha varanda tornou-se pequena.

Oferece-se ninhada de hipopótamos!


© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

De noite, todos os gatos são parvos!...


Já tinha por lá passados algumas vezes. Lembro-me que da primeira, pareceu-me uma vala normal mas com uns "aparelhos" para alguns exercícios da praxe. Depois a sua fama começou a ouvir-se por lá...

Algumas vezes depois, imaginava-lhe as manhas nas manhãs, bem como as eventuais possibilidades de não "arranhar" lá muito...

Numa noite, sem que nada o fizesse esperar, fomos todos em "passo de corrida" embrenhados nas trevas até que algo me pareceu não ser exactamente desconhecido!
Terá sido uma das piores horas da minha vida... Levei sem saber de onde vinha, chorei e os tímpanos estilhaçaram. Quando acabei...não sei! Sentia-me muito exausto!...

Hoje perante o que já vivi, recordo-a como uma mera prova física.
Davam-lhe o nome de "Vala escura".


© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Eu não sou doutor!..."


Existem "experiências" que tal como as "realidades", nos "arrojam" a alma por veredas cortantes que nos lavram a existência.

Cheirava mal! Tinha um odor que disparou as minhas ligações neurais como no primeiro dia que tive contacto com a drenagem urgente de um quisto dermóide...
Mas não! Não tinha qualquer coisa do género. Duas fracturas e laceração de tecidos...

"Onze ou doze..." pensei eu, enquanto imaginava a abordagem de preparação do campo para a cirurgia...

"Mas porque razão cheiras tão mal?!..."

Não consigo, apesar de algum esforço, imaginar o meu filho, que terá eventualmente a mesma idade, naquela situação...
Sinto-me responsável por aquela situação que desconheço completamente... Não sei de que modo, mas sinto-me...
Bem! Já conheço demais...

"O que se passou?..."
"Foi um doutor, no parque, que depois de "coiso" me deu um pontapé..."
"Um pontapé?..."
"...atirou-me a merda do carro para cima..., ...e fodeu-me o guito..."
"...dass! Como é que te metes nessas merdas?..."
"Oh! Doutor!..."
"Eu não sou doutor! ouviste?..."
"Yap, desculpe doutor!..."
"Eu não sou doutor..."
" Yap, enganei-me."
"Sim e então?..."
"Deu-me uma trancada com o carro e não me deu o guito porque diz que eu estava cheio de medo e não abria o cú..., diz que depois falava com o "Lâmpadas"!..."
"Lâmpadas?..., dass, ca puta de nome?!..."
"Depois da cirurgia temos de ir ter com o agente para ver ali umas fotografias de uns...senhores..."
"Oh! Doutor!... Népia. Eu não quero problemas..., só quero o guito para dar ao "Boss" para ele me orientar o coiso...!..."

Saltam-me gotas de suor da cabeça, quando me assalta a imagem de ver o meu filho ali naquela cena... Imagino-me a...

"Escuta puto! Vais ver as fotografias e vais te recordar de uns senhores doutores que vais ver...certo?"
"Népia doutor!..."
"Eu não sou doutor..."


© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Também não sei para quê esse espartilho da lógica?!...


"És bom para ir aos figos!... Quando for aos figos levo-te comigo!..."

Esta expressão leva-me a pensar de imediato, que estou a falar de alguém muito alto. Aparentemente, posso ser empurrado de supetão para verdades absolutas em redor de apanhar figos! Isto é muito precipitado da minha parte. Avançar sem uma observação e reflexão do desenrolar do acto, leva-me a tomar conclusões precipitadas!

Teremos de observar toda uma série de factores para que mais fidedigna seja a conclusão. Em primeiro lugar temos de ter a certeza de que se trata de uma figueira. Depois temos de...esperem...o universo de variáveis é muito pouco finito...é quase infinito! Teríamos de reflectir sobre a espécie da figueira, a altura da figueira, a disposição da figueira, o tipo de terreno, etc, etc...

Eu, na qualidade de...
Enfim, vou já decidir uma serie de coisas, mas só para facilitar. Penso que já tomastes consciência, de que se assim não fosse, o resultado poderia ser demasiadamente apurado, sendo que isso tinha como consequência um refinamento na caracterização que só deixaria espaço para uma situação em particular, o que não servia o intuito de abordar a generalidade da situação.

Assim, trata-se de uma figueira de S. João, daquelas que dá uns figos enormes castanhos. O outro indivíduo era alto, mais alto que eu, mas não o suficiente para apanhar os figos com os pés no chão, assim sem mais nada. Parece-me imperioso que a época do ano em que se desenrola a situação seja a época em que a figueira tem figos. Aliás, isso não basta. De toda a época em que a figueira tem figos, só menos de um quinto do tempo é que corresponde ao período em que os mesmos estão maduros, sendo que no restante espaço de tempo, seria pouco...era um bocado parvo, apanhar figos verdes só por causa de uma experiência que ainda por cima, nem sequer se está a desenrolar efectivamente, porque está a ser imaginada!
Ora se se está a imaginar uma coisa, convêm que se imagine uma coisa com algum préstimo!...
Também não sei para quê esse espartilho da lógica?!...
Podíamos partir do pressuposto de que aquela figueira ainda não tinha figos! Podia ter havido uma grande queda de granizo na altura da floração e isso teria destruído todas a possibilidade de nascerem figos!...
Mas penso que nunca vi flores nas figueiras!...
A menos que aquela figueira, não desse figos mas sim...nozes por exemplo que não se estragariam com o granizo!... E nascem de flores... Mas e se o granizo estragasse as flores nas nozes?
Bem, mas isso resolve-se já porque as flores das nozes tinham nascido na primavera e o granizo tinha caído antes. Garantindo assim que as flores intactas persistiriam. Também mando alguma coisa!...
Não! Não pode ser! Porque então não era uma figueira! Ou então seria uma árvore com folhas de figueira e frutos de nogueira, e isso não era muito vulgar!... Só faltava o tronco ser de freixo, para que a casca rugosa permitisse que os esquilos subissem lá acima para comer as nozes... Mas nunca ouvi dizer que, "...és tão alto que te levo às nozes!...". Para além disso se os esquilos as comessem, não faria qualquer sentido ir apanha-las. Muito menos com um amigo alto, porque teríamos de dividir as nozes que seriam muito poucas...e de certeza que ele não ia querer dividir ao meio a colheita visto que tinha sido ele a apanha-las...logo não seria meu amigo!
Mas se ele nem sequer sabia de nada, como é que ia querer das minhas nozes!
Claro que sabia porque eu lhe tinha dito! Ele ia tão calado na vida dele!...
Foi um pouco precipitado da minha parte, ter-lhe dito par ir comigo aos figos, se eu ainda nada sabia acerca da figueira em causa! E da qualidade e quantidade dos seus frutos! E da disposição do terreno, etc, etc...


© Mário Rodrigues - 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

Paro cristalizado de pavor!


Uma epopeia!
Oh! Que epopeia!

A manhã tinha acordado enevoada...

"Março marçagão, manhãs de inverno e tardes de verão..."

Pois bem, a manhã estava enevoada. Gigantescas meias esferas abobadadas de água abundavam por aqueles lados. Campânulas hirtas expostas às forças colossais da brisa matinal, como cápsulas marcianas, espalhavam-se por montes e vales...

Orvalho!...

A área era vastíssima! A vista alcançava...a mais de quinze centímetros de distância apesar do ofuscado da nébula. Tinha acordado de mais uma interminável campanha das trevas. Renhidas lutas onde houve lugar a uma enorme quantidade de baixas nas nossas guerreiras...
Aquelas térmitas eram odiáveis!
Mas um dia...venceremos definitivamente! Esta guerra fará com que nós, dada a nossa supremacia de "Argentus", um dia as derrotemos em todo o seu gigantismo...

Apesar disso, a manhã estava calma. Por entre a nébula, um raio de sol destaca o amarelo intenso de uma flor. Junto ao seu pé, tomo consciência da sua colossal altura!...
Qual será a sabedoria acumulada de tal ser? Que envergadura!...
Extraordinário!...Todo o universo estaria à mercê de meus olhos se o cume das sua pétalas eu alcançasse!...

Mas...porque não subo? É certo que o enorme tronco não oferecia muita aderência, no entanto, com esforço consigo ir subindo. Alcanço um pouco mais. E mais. E mais...

Paro cristalizado de pavor! O barulho ensurdecedor e as vibrações tremem a terra e ficam cada vez mais próximas. Sinto toda a fúria do vento tentando arrancar-me do escorregadio tronco. Uma enorme abelha vem cobrar o seu tributo, nos estames polinizados. Agacho-me e esforço-me para não ser arrancado.

O sol começa a despontar e os seus raios a trespassarem-me o corpo. A escalada é penosa. Os meus olhos já alcançam aquele amarelo quase ofuscante. Mergulho num derradeiro esforço que me leva ao cume das amarelas pétalas...

Ah!...

Tenho muita dificuldade em...apreender o que os meus olhos vêem...

O Universo... é muito maior do que eu algum dia poderia pensar...


© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os Suricates em viajem



Cliquem em "Vamos ver..."

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Então! Não sejais gananciosos...


Recordo-me dele! Recordo-me como se nunca, mais tivesse visto.
Tinha um aspecto de algum bom trato não obstante do seu gigantismo. Há muito acomodado a uma mesa muito pouco farta, ocupava um espaço muito grande...digamos que apoderara-se de espaço de outrem.
Servia-se de tudo o que estava na mesa e não só...
Tinha muitos braços tentaculados. Cada um desses braços tinha apêndices e prolongamentos. Alguns prolongamentos não viviam permanentemente junto dele, mas vinham com frequência juntar-se-lhe para que assim se tornasse mais injustamente eficaz na sua orgia de destruição de recursos.
Havia braços que tinham terminações e apêndices bizarros; chicotes finíssimos que cortavam dorsos vergados, lâminas de fio diamantado com que infligia cortes profundos e eternamente hemorrágicos, pontas de dedos indicadores que desnudavam a alma a quem apontavam, falos que penetravam incessantemente os violados que bradavam de dor bem como clitóricas e nojentas vaginas de um bando de vermes que o bajulavam.
Era temido e nunca respeitado.
A tristeza de esta não ser uma recordação como as outras...só uma recordação, deixa-me convicto de que o pretérito o não arrancou das nossas historias mas antes, qual intemporalidade, permanece ali...ali...ali!
O seu urro de soprano melado, qual castrati pseudo-angelical do século XIX, com intuito de se disfarçar, deixa ver numa transparência de tule negro a sua completa acefalia que contrasta com a também completa ambição de poder.
Os cantares, como se de sereias dos mares do Sul se tratasse, embriagam apêndices que até então o repudiam e negam. Pouco tempo depois, ávidos e de gosmas a escorrer pelos cantos das bocas dão vivas à degradante causa. Ele então, com um focinho ternurento de Hades arrependido diz no seu tom de Dom Corleone:

"Então! Não sejais gananciosos... Somos todos irmãos!..."

© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quebrando correntes...


A discussão era enorme, quase ninguém se entendia, ou ninguém mesmo...as circunstâncias da morte daquele triângulo...teriam de ser muito bem explicadas!
"Já disse inúmeras vezes que nada tive a ver com a morte desse triângulo!"
"Então porque te disfarçaste?"
"Usar gel é um disfarce?"
"Claro que é! Assim todos te julgam um ponto final! Ocultando a tua verdadeira identidade de asterisco...!

Tratava-se de um triângulo já idoso, chutado de folha em folha. Os geómetras ignoravam-no compulsivamente, olhavam-no com asco e desprezo. Em tempos idos, vítima de um compasso comparador de corte, sofreu um rasgo que o privou definitivamente da sua beleza de isósceles. Transformou-o numa aberração que nada tinha de escaleno, dando-lhe como lado uma cicatriz em forma de arco que lhe alterou o ângulo. Ali, moribundo naquele estirador, esvaia-se em tinta-da-china. As feições desapareciam-lhe numa alvura que o esgotava e levava à transparência.

"Quadrado sou eu e afirmo aqui, arriscando-me a levar com um traço azul por cima, que é assim, é assim que os que lutam a vida inteira, trabalhando honradamente para esses senhores octógonos e dodecágonos, que se julgam donos do mundo e que nos exploram até ao último ponto das nossas linhas! É assim que depois terminamos..."

"Já cá faltava essa conversa! Claro!
Eu sou filho de uma base de uma pirâmide quadrangular e de um honrado triângulo recto. Tenho origens muito humildes e se hoje sou octógono lutei muito!
Já fui um quadrado que cresci a apanhar as borras das borrachas que espartanamente aniquilam os defeituosos pelas mãos do criador, essa omnipresença que nos castra, com a ajuda de ferramentas de martírio e tortura, essas senhoras réguas e esquadros que nos querem fazer todos iguais arrancando-nos o nosso direito de sermos diferentes, até conseguir com muito esforço e trabalho, unir pontos perdidos e endireitar restos de arcos mal apagados, para assim conseguir ir juntando uma e outra recta para ser pentágono e hexágino até ao que sou hoje!
E eu? Não trabalhei honradamente?"

"Quem pensas tu que és? Tenho tudo o que tu tens! Temos os mesmos direitos! Ou será que só porque não tenho ângulos nem rectas sou inferior? O meu pai era base de um cone! Pois era! E depois? Sou uma circunferência e tenho muito orgulho nisso!"

"Pois tens muito orgulho, mas já mais chegarás a esfera! Teremos que almejar algo mais além..."

"Quem me dera...Quem me dera, não sendo nada, ser uma representação gráfica de um pensamento de uma criança, cuja mão leve desloca um lápis pela folha branca, dando-me formas curvas e elípticas...como o esvoaçar de uma borboleta..."

"Cautelas! Cautelas que se aproximam os volumes. Agora é que se vão partir os bicos..."


Uma mão arrebanha a folha. Da discussão não nasceu muito. Apesar do covil do inferno estar logo ali, com as suas lâminas triturantes, o criador atira-a para o cesto dos papéis...
Uma criança que por ali andava, dela logo fez um aviãozinho que atirou pela janela, qual porta celestial...
Uma gota atinge o aviãozinho. Cai em cima do último ponto de tinta do nosso triângulo isósceles...

Oh! Que trinados de trompetes celestiais! Assim, sob a forma de borrão, ele renasce com um novo esplendor e completamente livre nas suas formas... Quebrando correntes...


© Mário Rodrigues - 2010

sábado, 3 de abril de 2010

Era uma cidade. Penso que o era...


Era uma cidade. Penso que o era. Não vi pessoas nas ruas, apenas um gato castanho e uma bola de couro que corriam à frente de duas crianças. Dois garotos vestidos com uma casaca castanha, uns calções e um boné...e calçavam umas botas até ao tornozelo. A cidade era esférica. Os prédios periféricos eram curvos, as ruas muito estreitas, tão estreitas que um dedo mindinho cortaria a passagem a um incauto transeunte. Era curiosa a maneira como escorriam as águas nas fontes; caiam das torneiras para o céu! Alias, agora que recordo, na porta de uma loja pendia na direcção dos astros uma placa que dizia "Joseph Smith & Nephew".
Os movimentos, naquela cidade, eram furtivos. As casas eram muito estreitas, quase do tamanho de caixas de fósforos. Erguiam-se muito alto e tinham telhados pontiagudos. No vértice de um cone terminava uma torre, que tinha uma altura impressionante, parecia um lápis, existia um cata-vento, um galo que girava sem parar...parecia...claro se a cidade é esférica, os ventos são circulares! No entanto, ele tinha a seus pés os quatro pontos cardeais! Onde estaria o Norte? Nor-Noroeste? Se ele girava sem cessar...
Escuta-se um trinado de máquinas de escrever a martelarem com os seus pequenos punções as folhas alvas de papel.
As coisas estão todas penduradas para cima! Reparo mais uma vez ao ver umas calças estendidas numa corda minúscula... O que terá acontecido à gravidade neste local? Terá um criador sido vitima de conspiração e na sequência dela mesma ter condenado injustamente esta cidade a uma gravidade inversa? Terá o cosmos invertido o sentido das forças físicas em mais um dos seus caprichos? O cosmos tem caprichos?

Esperem, reparo que toda a cidade está na realidade numa posição invertida! Claro, isso explica tudo! Assim as coisas fazem sentido.

Sinto-me emocionado com a grandeza e complexidade desta cidade. Não consigo, apesar do esforço, conter as lágrimas...elas brotam dos meus olhos sem respeito pelo meu constrangimento...elas brotam e escorem-me pela testa até pingarem dos fios do meu cabelo...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Eram outros tempos... III


Escrevia Joaquim Teófilo Fernandes Braga, algures no ano 1865 na sua obra "As Teocracias Literárias - Relance sobre o Estado Actual da Literatura Portuguesa".

"Estamos numa terra em que a verdade para ser ouvida precisa trazer a forma de escândalo. A não vir deste modo é uma coisa ininteligível, obscura.
Tanto melhor para quem aspira a ser entendido somente por aqueles que se pagam de sua obscuridade pela firmeza da consciência, e integridade de carácter."

Ainda bem que isto foi em 1865...

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

Tudo está contido...


Pode não parecer, mas um dia este pequenino terá sessenta metros de altura e conter-me-á na forma de carbono... Mas antes, tenho de o cuidar!

Envergonhado, despertou antes de ontem, aqui no meu bosque e chama-se Abies Alba.

© Mário Rodrigues - 2010

Eram outros tempos... II


A eficácia foi-lhe morte.
Fruto do ventre de uma mortal, que a sua vida abandonou numa cesariana derradeira, teve como pai Apolo, filho de Zeus o senhor do Olimpo.
Senhor de mil sabedorias, medicinas e ciências, a Deus foi chamado.
A agilidade e dedicação levaram a que, contrariando os poderes de Hades, das suas garras lhe arrancasse os mortos com uma só mão.
Apolo, apesar de senhor da luz e da verdade, de seu filho, não manteve a divindade. Punido pela devolução da vida a quem dela tinha sido privado, Zeus sem piedade mata Esculápio com um raio!

© Mário Rodrigues - 2010

terça-feira, 23 de março de 2010

Se eu fosse "soláquio"


Se por cada milhão de segundos na face da terra, no sol são menos 2,12 segundos, se em vez de terráqueo eu fosse "soláquio", seria muito mais novo...
Teria menos 44,56 minutos de idade!...

© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

You Are Welcome To Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirardo mais fundo de nós o mais útil segredo entre nós e as palavras há perfis ardentes espaços cheios de gente de costas altas flores venenosas portas por abrir e escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos há palavras de vida há palavras de morte há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente, as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos palavras que nos sobem ilegíveis à boca palavras diamantes palavras nunca escritas palavras impossíveis de escrever por não termos conosco cordas de violinos nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar e os braços dos amantes escrevem muito alto muito além do azul onde oxidados morrem palavras maternais só sombra só soluço só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Autor: Mário Cesariny de Vasconcelos

quarta-feira, 17 de março de 2010

Cardhu...bagaço...álcool etílico...perfumes...


"Trinta e seis. Em Lourenço Marques!"
"Sim. Foi uma infância maravilhosa...tinha muitos amigos...e animais...a casa era enorme e tínhamos vários empregados...tínhamos uma divisão muito grande onde nos juntávamos todos à noite, onde havia cabeças de animais que o meu pai caçara...e um aquário...um aquário enorme onde tínhamos Tilápias e Muçambas...lindo..."
"1976. O meu pai veio mais tarde...mas veio...houve quem nunca chegasse..."
"Cedo, muito cedo. Pouco tempo depois de chegar. Os trabalhos piores eram para os "retornados". Um dia, um GNR foi lá a casa levar o recado; tinha-se soltado uma viga e que...talvez no dia seguinte pudéssemos levantar o corpo...no Chile, sim na praça do Chile"
"Não, não parei. Depois fiz mestrado e duas pós-graduações, mas..."
"Bastante bem. Escolhia-os. Nunca ia com homens...menos correctos e desalinhados. Tinham de ter, principalmente, capacidade financeira...percorri uma boa parte da Europa e estive nos melhores hotéis..."
"Um dia bateu-me à porta...outra vez! Iria ser diferente...ia deixar a mulher...mas...antes disso...o teste de gravidez deu positivo e ele...filho da puta...tinha a família dele! Disse-me! Somos sempre muito boas mas já mais se casariam connosco...Vermes!"
"Lindo, claro. Como todas as mães acham os seus bebés..."
"Não! Não nos faltava nada. Aturei clientes que...tinham dinheiro e viajavam muito em negócios e reuniões. Precisavam de uma companhia vistosa e culta para exibir aos outros palhaços nos jantares...indivíduos sexualmente desequilibrados...completamente..."
"Era um SLK. Era muito bonito e não foi completamente oferecido..."
"Não, não eram clientes. Era um grupo de amigos impecáveis...íamos vomitando os nossos fantasmas mutuamente..."
"Sim. Fui para a cama com um deles. Mero sexo animal...era uma pessoa especial...não tinha nada a ver com clientes..."
"Sim, já tínhamos bebido bastante...e uns riscos de branca..."
"Parciais! A esquerda tenho dos terços do fémur e a direita o primeiro terço da tíbia..."
"A principio, do bom e do melhor...depois Martin's, Dimple, Cardhu...bagaço...álcool etílico...perfumes..."
"Só duas vezes por semana! E com a vigilância de uma tipa sempre de olho...lutei muito para lhe dar o melhor...deitei tudo a perder..."
"A assistente social disse-me que se as coisas continuassem a melhorar, falava com o advogado para pedirem uma reapreciação...talvez me deixem voltar a ficar com ele..."
"E...posso contar com a vossa ajuda! Não posso?...pelo menos a tua?!..."

© Mário Rodrigues - 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

O vinho não é bom conselheiro

Chovia copiosamente, no entanto, a pequena quantidade de sangue que ainda existia no álcool, não tinha a força suficiente para o deixar ter frio e aperceber-se de que estava completamente encharcado. Em ziguezagues, elipses e trambolhões, lá ia indo pela rua gritando:

"EU QUERO COMPRAR O SALAZAR"...
"EU QUERO COMPRAR O SALAZAR"...

Se de início o guarda-nocturno ia fazendo de conta que não estava ouvir, sendo que a quantidade de água que caia era demasiada para "preciosismos", o aproximar de outros transeuntes obrigou-o a agir.

"SEU BÊBADO ORDINÁRIO, ANDA CÁ QUE JÁ TE DOU AS COMPRAS"...
"VAIS PASSAR A NOITE À ESQUADRA PARA MELHORARES"...

No dia seguinte pela manhã, confrontado com um acordar atrás das grades, questiona-se o que estará a fazer por ali!
Não encontrando resposta, resolve perguntar ao seu carcereiro:

"Oh! seu guarda, que mal fiz eu, um pobre homem, para estar aqui nos calabouços desta espelunca?..."

"Bem vejo que estás melhor que ontem meu bêbado miserável...Não sabes porque estás aqui? Pois fica sabendo que ontem, já perdido com o vinho, gritavas nas ruas que querias comprar sua excelência o Sr. Presidente do Concelho, o Sr. Doutor Professor Oliveira Salazar!..."

"Não posso querer!...", responde estarrecido. "Eu andava a dizer uma coisa dessas?"
"Claro! Já viu o tamanho da asneira?" Responde o guarda.
...
"Devia dar ouvidos à mulher e deixar de beber..."
"Um homem quando está bêbado compra com cada porcaria..."

Autoria: Autor popular

O presente

O presente...é um acaso da liberdade. Portanto...não existe!

© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Eram outros tempos...

Talvez pudesse ser muito diferente...Talvez pudesse! Acredito que talvez melhor!
Não foi só a morte na fogueira de Jan Huss, não foi só o Concilio de Constança, não foi só a conquista de Constantinopla por parte dos Otomanos nem mesmo o fim do império Bizantino.
Foi também a Peste Negra, foi também a fortuna profana do papado, mas acima de tudo uma filosofia de castigo divino aplicado pela mão da inquisição que fez a grande diferença nas mentes e no desenvolvimento de uma humanidade...Foi sem dúvida uma idade negra, uma época de retrocesso eventualmente definitivo, em que a manipulação de massas vivia alguns dos seus melhores dias...

© Mário Rodrigues - 2010

sábado, 13 de março de 2010

Tenho de ter cuidados com o meu comportamento...

A manutenção da espécie humana depende de mais uma revolução!

Uma revolução tão importante como a comunicacional e mais que a industrial e que a tecnológica!

De uma revolução de princípios éticos. De reconsideração dos princípios básicos para a existência em grupo...

© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

Arriscamentos...

Hoje dei inicio a um ciclo de almoços...extraordinários!

Requisitos:

-Três intervenientes no mínimo.
-"Open mind" suficiente para, sem rodeios, apontar e confrontar os outros com os defeitos que lhes achamos, justificando.
-Humildade suficiente para identificar as virtudes dos outros, os dos defeitos...
-Capacidade total de completo e repito, completo, alheamento de pré conceitos. O que é difícil mas possível...
-Discernimento para fundamentar as nossas convicções e o que os outros acham de defeito em nós.

Resultados a curto prazo:
-As amizades não ficam iguais. Ou não o eram e morrem naquele momento, ou saem com uma força cúmplice...de dimensão admirável...

Experimentem...
Recomendo...
Mas...Preparem-se...

© Mário Rodrigues - 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Mas o Tiago disse logo que assumia...

"Para mim estás morta! Ouviste? Morta! Sabes o que é? Sai-me da frente...porca, puta..."

Foram estas as últimas palavras que ouvi da boca dela. Eu fazia-lhe tudo o que podia...tomava conta dos meus irmãos...limpava a casa bué vezes...mas já estava farta! Bêbado! Chamava ela ao meu pai...talvez fosse! Não tanto como ela. Ela para além de bêbeda é má!
Tinha doze anos, quando me apareceu o período a primeira vez. Ela, quando eu corri a dizer-lhe, assustada por não saber o que se estava a passar, disse-me:
"Não sabes o que é? Deixa que não vais morrer! E se morresses, também não se perdia nada...não te ponhas a pau, não...aparece-me prenha...que ponho-te no olho da rua"
Quando olho para eles tenho medo! Tenho medo de os não conseguir tratar como deve ser...são tão pequenos e...frágeis...se pelo menos eu tivesse já os vinte! Se calhar conseguia arranjar trabalho e seria diferente...arrendar uma casa...mas, ainda faltam quatro anos! O Tiago, o meu namorado, ele é tão fixe comigo! Apesar de ainda só ter quinze, é um homem! Foi espectacular...quando ele chegar, tudo vai ser diferente. Lá na Suíça, quando ele me escreveu disse-me, que anda a guardar uma manada de vacas muito grande, e que já juntou seiscentos euros para os nossos meninos. Diz que depois vai fazer uma casa e que vamos viver à grande! O primo dele já lá está há muitos anos. Também guarda vacas. Diz que a manada dele é de vacas melhores...
Os "stores"!...aquilo era uma seca...
Esta cena de gémeos, é que me faz muita confusão!...não sei! São iguaizinhos! Menos a orelhas!
Aqui, há umas que são porreiras, mas outras falam à bruta...O Dr. Luís é fixe!
A senhora Amélia ensinou-me montes de cenas! Ela é muito fixe!
Não, eu não sou essa cena da mãe solteira...está bem que não me casei. Mas o Tiago disse logo que assumia...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um amor entre arames...

Verde era a cor predominante. Ali numa pequena várzea no leito do rio, alimentava-se enquanto passeava. Havia uma pequena cerca que dividia o campo em dois. Do outro lado, num faustoso e imponente andar, andava ele. Dorso castanho claro, barriga castanha mais escuro e as patas pretas. Pescoço curto, ar emproado e uma bela e longa barbicha. Ela deste lado mirava-o insuspeita, o que aliás ele também fazia. O branco e o beije mesclavam-se de um modo único, transformando-a numa verdadeira visão Afroditesca...
A tentação estava a tornar-se insuportável. Ela deslocando-se como se de uma pétala de flor de amendoeira se tratasse, vai até junto do rio para bebericar um pouco de água. Ele, a quem nada passava despercebido, muito menos os movimentos da "Bita", em três saltos e um pinote, se pôs junto dela, ainda que do outro lado do arame... Entre olhares e "mmeees..." suspirados, ele começa a fazer contas de aritmética para calcular o ângulo da corrida para saltar a coisa... Dá uma corrida atrás e...
"HHEEE..., ANDA CÁ SEU CHIBO D'UM CABRÃO..."
"Raios partam a velha que anda sempre a meter o nariz onde não deve...", sussurra ele com os seus botões... "Deixa lá que eu já te digo..." dá mais uma corrida atrás e num ápice, salta o arame para junto da sua amada "Bita"...
Pois claro! Está visto o que ia dar!
Duas pedradas e um cajado a voar ditaram a desdita... Se ao menos não fosse aquela maldita mania de marrar em tudo o que era muro... nesta altura teria uns belos cornos, que com sorte, se enrodilhavam no cajado, adiando desta feita tal desventura.
Ali jaz o "MOCHO" aos pés da "Bita".

-"HHAAA... MOCHO D'UM CABRÃO, QUE ME DÁS CABO DA VIDA..."

Tudo era da mais alta qualidade. Nem admitia que fosse de outro modo. As tigelas são de um barro cinzento-escuro, feitas lá para o lado do Lameiro. Os pimentos, tiveram de esperar umas tardes de verão até que um vermelho vivo se apoderasse deles. Só depois foram colhidos e preparado o pimentão. O louro. Bem, as folhas de louro vieram d'O Loureiro. Árvore de enorme imponência. De tal modo que o vale, as terras e a "poça" eram apelidados de "Loureiro". Os alhos tinham sido vizinhos dos pimentos e tinham secado à sombra, só para manterem o aroma.
"Tenho pena. Realmente tenho muita pena, mas as manhãs a lambuzar-se com as bolotas e as tardes de "sorna" à sombra dos sobreiros... enfim, a banha era de uma textura, de um aroma, de uma fineza suprema... ". Morangueiro. Não, não é americano! É morangueiro...o perfume não deixa enganar... Baco emocionava-se quando sorvia tal néctar. Na semana passada, com todos estes meus amigos, em doses rigorosamente delicadas, fui colocado nas tigelas. O sal e o tomilho estiveram mesmo para não entrar. Sempre cheios de humidades... mas depois de os inspeccionar, acedi. Tudo tinha de ser da mais alta qualidade. Depois e só depois fomos completamente cobertos com o vinho, o morangueiro.
Ontem, foi dia de cozer o pão de centeio. Que cheirinho se espalhava pela aldeia...hhuumm! Depois de cozer o pão, o Sr. José, que era uma jóia de pessoa; aliás não sei como consegue aturar aquela "penca" daquela velha pastora, deu mais um ligeiro calor ao forno com umas vides e uns galhos de oliveira secos e... mas que maravilha... espectáculo... extraordinário... aquele calorzinho... hhuuummm! Ficámos a repousar a beleza...Hoje, estamos de saída do forno. Nem vos conto...
Já ouvi falar num tal de "Dão", que também por cá está...

O Sr. José já chamou o pessoal. "Meninos... a chanfana está na mesa..."

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Então e o mestre?

"Quando o estudante está realmente preparado, o mestre aparece."

Provérbio Budista

A noite é para se trabalhar

Pela madrugada recebi um telefonema que me trouxe de volta ao mundo dos vivos. Tenho mais que fazer... Só vim cá para dizer isto! Podia perfeitamente não ter vindo... Mas vim!

© Mário Rodrigues - 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sinto-me inútil

Hoje não me sinto lá muito bem. Já é noite e estou com a sensação de que não fui útil a ninguém... Sinceramente estou incomodado e algo ansioso!

© Mário Rodrigues - 2010

Bichos...

Se não conheces as carraças...Tem cautelas com o cão!

© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Entre vampiros

Oh pá! Chupa-me a jugular...

© Mário Rodrigues - 2010

A propósito

A propósito do Post "Então a ver se depois combinamos alguma coisa. ", in blog "O Bom, O mau e o Vilão".

Agora que te leio, reparo que já tinha reparado nisso mas que, por uma piedade estúpida mais de mim do que dos outros e por não ter outra coisa para dizer naquelas horas...ou espera aí!
Não tinha?
Realmente tinha outra coisa para dizer, do género:
"Lamento mas não contes em voltar a ver-me e a divertirmo-nos juntos", partindo do pressuposto que assim foi, porque se não foi a conversa teria de ser outra, "porque eu tenho sempre montes de tempo ocupado a arrastar-me por este mundo que vejo por um buraco de fechadura, e se combinasse imediatamente alguma coisa contigo, ias ficar a pensar que eu era um gajo que tenho sempre montes de tempo ocupado a arrastar-me por este mundo que vejo por um buraco de fechadura, logo era um inútil e deixarias de gostar de estar comigo, assim como supomos que gostamos. Poderias mesmo pensar que eu tinha gostado tanto de estar contigo, que estava desejoso de voltar a estar. Possivelmente porque agora que estive contigo, antes de combinar a próxima vez, na realidade não estive lá muito porque tinha de te contar todas as enormidades que tenho feito ou nem por isso e gabar-me e babar-me e não sei que mais, sendo que teremos de voltar para mais..." Mas isso, isso seria uma falta de educação!

© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Parida para morrer...

A pedra estava gelada. Sentia uma perfusão gélida que me anestesiava as nádegas. O dorso vergava-se-me. Tinha a sensação de o coração ter diminuído, lenta, mas claramente os seus batimentos... Mal o sentia! Os olhos vidrados fixavam-se no horizonte...
Bastante ao fundo, havia um monte redondo com uns arbustos mesmo na ponta. Parecia uma mama.
Não me lembro de ter mamado!
Não me lembro de ter sido uma criança feliz!
Um dia... Um dia o mundo acabou! Pareceu-me que assim tinha sido!
O cheiro era nauseabundo. A gritaria, que incluía várias línguas e idiomas por mim desconhecidos, era-me alheia bem como o chiado das rodas nos carris... Em silêncio, pelo único rasgo de mundo que me era visível, via-a a ficar longe...mais longe...bastante longe...muito longe... Desapareceu! Da vista, do meu alcance e...Era uma mulher castigada pelo trabalho brutal, pela fome e pelos espancamentos do monstro... (cuspi três vezes para o chão e limpei a boca com a manga da camisola). O ódio saltou-me de dentro como um vulcão que me aperta a garganta e quase me asfixia... Miserável... Nojo... Por muito que me lave, ainda não estou limpa, nem vinte e oito anos depois... Não sei se me virei a sentir limpa algum dia... Apesar dos lábios serrados, gritava em brados estridentes "Mãe, Mãe, Mãe..." em sussurros de um silêncio insuportável... O mundo acabara de acabar!
A minha mão direita deslizou lentamente e encontrou a mãozita dele. Também ele, silencioso e imóvel. Que pensará ele da vida? Que achará ele, no seu mais profundo intimo, de mim? Não tenho coragem de lhe perguntar! E eu? Que penso eu de mim? Sei demais para pensar o quer que seja. O meu corpo, sim porque só o meu corpo interessou, foi um "local". Sitio onde, entre outros, eu própria estupidamente me mutilei. A beleza bastava-me num "lambuzante" banho de narcisismo. O meu corpo voltou a ser o meu nó Górdio...
Mas ele, o polvo através do qual eu toco em todo o universo, saiu-me do seio como a lava irrompe das entranhas da terra. Com ele tenho a possibilidade de me rasgar em pedaços atirando-me para a fogueira, recomeçar a minha vida... Nunca é tarde... Nunca será tarde... Recuso-me a deixar que entardeça!
Poderei eu nascer trinta e quatro anos depois de ser parida? Não sei. Nem sei se isso me preocupa realmente.
Ele puxa-me a camisola e procura as minhas mamas. Eu acordo de um sonho mau. Poderás perfeitamente ser diferente de todos eles. A minha lágrima escorre-te no rosto, mas tu, serás diferente de todos eles...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O navio de espelhos

O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


Autor : Mário Cesariny

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vivas! Hoje é dia de festa!

Hoje é um dia grande no meu bosque. Chegaram uns distintos habitantes que há muito eram aguardados. Envergonhadamente espreitavam por entre todos os aparatos que lhes garantiram que uma viagem de alguns milhares de quilómetros, lhes não deixava marcas. Chegadas e dadas as boas vindas, foram colocadas em terra rica e húmida, num local resguardado de quarentena. São ainda pequeninas, mas são muito bonitas.

Sequoiadendron giganteum - Sequóia Gigante
Taxodium distichum - Cipreste de Folha Caduca
Picea pungens - Abeto Azul

© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Tempo transversal à existência

Neste fim-de-semana, tive a oportunidade de estar junto de uns seres extraordinários! Digo extraordinários, não porque esta palavra se encaixasse mais ou menos bem aqui no meio destas outras, mas antes porque aqueles seres o são mesmo!
Calculo-lhes a idade, mas com esse cálculo surgem-me na cabeça coisas como as histórias a que assistiram. As nossas existências médias de setenta, oitante, noventa ou até mesmo de cem anos, aprisionam-nos numa existência temporal finita, que com ela traz uma estúpida forma de vida, também ela finita, de horizontes estreitos, espartilhados...de sabor salobro, dada a sua exígua mensurabilidade.
Com dificuldade, e nunca sem esforço, apreendemos a existência de tempos infinitos anteriores e posteriores às nossas existências. Parecem-nos algo de menor importância face aos tempos que estamos a viver. "Estes sim...", parecemos nós dizer, dos altos das nossas tribunas de palha de milho, como se jamais tivesse havido e voltasse a haver momentos na história como aqueles em que estamos a viver.
Com muita frequência, vou lendo inúmeros exemplos de pensamentos, raciocínios e conclusões, que me parecem e são, absolutamente contemporâneos apesar de a sua origem ter muitos séculos e o seu desenvolvimento muitos milénios. Nós somos apenas os detentores dos restos, que sendo bons ou maus; já sei que esta classificação em si já é putrefacta, dos anteriores habitantes de uma presunção de imortalidade mesquinha e microscópica como a nossa. Uma árvore que independentemente das suas características físicas, assiste à minha passagem pela face da terra, como se de um instante se tratasse, tem um acumulado de legitimidades, difícil de entender e compreender. Assistiram a coisas como o vomitório romano e o masturbatório grego, que são coisas que nos deixam confusos, principalmente porque julgamos que isso deveria estar para a frente temporal e não com o passado de milénios. Aproximar-me de um tronco que tem oito metros de diâmetro e que eleva uma copa a cinquenta metros de altura, é intimidatório e arrepiante, mas, se lhe encostarmos o ouvido, podemos ser embalados em histórias intemporais de duendes e princesas, de animais e de namorados...numa existência serena. Como poderia eu, um dia, decidir acerca da sua existência...

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O prazer de me sentir bem-vindo...

Se existem coisas que me deixam cheio de satisfação, é o facto de me sentir bem-vindo!

Hoje, fui a dois clientes, ao hospital (trabalho), ao banco, ao restaurante onde almocei com um amigo, a um café, beber o cafezinho e depois a uma taberna de um amigo "filosofo", e reparo agora, que em todos os locais fui recebido entusiasticamente e com agrado! Possivelmente é acidental... Gostaria de julgar que não!

© Mário Rodrigues - 2010

Foi por ela. Ao meu amigo Eduardo...

Foi por ela que amanhã me vou embora
ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa
diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança
em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela
foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
que eu passei das minhas contas foi por ela
Foi por ela que eu me enfeito de agasalhos
em vez daquela manga curta colorida
se vais sair minha nação dos cabeçalhos
ainda a tiritar de frio acometida
mas o calor que era dantes também farta
e esvai-se o tropical sentido na lapela
foi por ela que eu vesti fato e gravata
que o sol até nem me faz falta foi por ela
Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
e venho assim como um tritão subindo os rios
que dão forma como um Deus ao rosto dela
foi por ela que eu deixei de ser quem era
sem saber o que me espera foi por ela...

Autor: Fausto

Mensagem a um amigo...

Sabes! Tomei banho, fiz a barba e estou a ouvir Dee Dee Bridgewater e a ouvir as desventuras amorosas do meu "pirilampo"... A vida é extraordinariamente bela...
Um abraço palhaço amigo...

© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Malvado cão que me mata outra galinha!

As obras ainda duraram muito tempo até a nossa casinha estar terminada. Todos os sábados, logo de manhã cedo, costumávamos ir da nossa casa alugada na vila, para a "obra", era assim que lhe chamámos durante muito tempo até estar terminada. A distância seria e é de aproximadamente 2 quilómetros. Normalmente arranjava-se maneira de lá passar a noite. Primeiro numa barraquita feita com taipais de madeira e chapas, onde também ficavam guardadas as ferramentas e depois, já dentro da "obra".
Aquele sábado não foi excepção e lá fomos com o farnel para o fim-de-semana. A casa já tinha o rés-do-chão construído bem como uma boa parte de primeiro andar. As escadas exteriores eram divididas em duas partes e quase a meio tinham um patamar, a partir do qual o sentido das escadas se invertia. Elas, as escadas, tinham umas pontas de "verguinhas" de ferro saídas nos degraus visto que ainda não estavam terminadas e aqueles ferros iriam fazer falta para as terminar.
Preto, pêlo curto e ponta da cauda branca como as "pantufas", Dic, era um jovem cão que já não era cachorro e que, vá se lá saber por que razão, tinha uma questão não resolvida com esses seres de inteligência e intelectualidade superior que são as galinhas. Enquanto na nossa casa da vila, fazia questão de comer todo o milho que pudesse às ditas galinhas, sendo que posteriormente, seco como palhas, bebia desalmadamente litros de água...logo de seguida, variadíssimos e reais chichis que faziam do terraço uma piscina. Quando estávamos na "obra", o beligerante animal encetava correrias em perseguições e ainda, encenava emboscadas de cima do patamar das escadas, atirando-se, qual tigre da Malásia, aos pescoços dos galináceos que, pelo menos uma vez, terminara ali mesmo a sua existência terrena.
A meio da manhã, subia as escadas com um tijolo para levar ao meu pai, eis que, num rompante, o Dic vem do primeiro andar a correr, visto que tinha detectado o "inimigo", para descer as escadas para pôr em curso mais uma das suas emboscadas. Eu, sabendo o que ele ia fazer, aflito e tentando ser mais rápido que ele, atiro o tijolo e viro-me para descer as escadas... A minha sandália prendeu-se num dos ferritos e eu lá vou escadas abaixo com o rabo e as costas a descerem pelos ferros... Enquanto as minhas costas reclamavam com uns belos rasgos feitos pelos ferros, bradava a minha avozinha:
- "Malvado cão que me mata outra galinha!"

© Mário Rodrigues - 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

Conífera

Agora vos pergunto! E se um dia eu morresse?

Um segredo vos vou contar.
Se um dia eu morresse, e o resgate da massa sem o sopro da alquimia tal permitisse, ia querer que numa covinha pequenina junto ao pé de uma conífera, o carbono desagregado pela energia que outrora me constituía, fosse depositado.
Assim embrenhando-me no ventre na nossa terra mãe, pelas raízes da conífera junto com a água iria também.
Esse que já fora Adão, Platão e Napoleão, que já fora Abel, Gabriel e papel, esse carbono agora no pé de uma conífera outra vida iria tomar.
Do alto das suas folhas a todos vós iria observar.
Na harmonia das vossas insensatas vidas caminhar.
Mas quem não muito me ama, por tal não vá esperar.
Porque já mais morrerei, enquanto nos corações de quem me queira puder estar.
Porque já mais morrerei enquanto um ser de mim se lembrar.
Porque já mais morrerei enquanto um coração me queira amar...

Mas isso! Isso seria se um dia eu morresse...


© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dias difíceis.

De vez em quando ela aparecia. Tinha um aspecto enganador. Azul quase bebé, tricotada com dedicação pelas mãos maternais, aspecto...ternurento e um bocado "betinho"... Costumava fazer "pandam" com umas calças beije que tinham uns quadrados mais escuros.
Como se já não bastasse o raio das calças de lã, tipo "jardineiras" com os seus suspensórios da treta e sem braguilha, o que me fazia a vida num inferno, principalmente na hora de fazer o meu chichi, tendo em conta que estava no limite da possibilidade de contenção da minha bexiga, porque estava muito ocupado em mais uma das minhas invenções, ainda tinha aquela maravilha do massacre cutâneo que era aquela camisola.
Tinha mangas compridas e gola semi-alta mas o pior de tudo, é que picava como se fosse um ouriço! O diabo da camisola, ainda que vestida por cima de qualquer coisa, tinha picos que tudo atravessavam e se iam ferrar em todo o meu tronco e braços, combinando assim também com as calças que me punham as pernas em brasa e quase com urticária.
"Oh, Mário João, mas ficas tão bem!...", dizia-me a minha mãe, "Oh, mãe mas isto pica muito!...", dizia-lhe eu...
Enfim, claro está, quem é que levava a sua avante, e eu passava um dia inteiro com a impressão de andar vestido com um enxame de abelhas. Ainda hoje quando me lembro disso sinto comichão...

© Mário Rodrigues - 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tango...

Urgente!...

Corram todos venham ver!
Vejam como eles rodopiam, como eles formam um turbilhão de movimento...
Vejam os seus pés...
Vejam os seus corpos...
Vejam as suas cores...
Movem-se em impulsos. Vibram. Parecem raios de luz negra...
Rodopiam e regressam ao mesmo ritmo.
É fascinante...
Num arrojo de suavidade, deslizam graciosamente e chicoteiam as veredas com os tacões e com a alma.
Voltam e bamboleiam-se, desengonçados em movimentos compassados e frenéticos... As árvores arqueiam-se numa vénia de espanto.
As crianças não resistem, rasgam amarras, libertam-se de mãos opressoras e irrompem dos seus pátios de mãos dadas, rodopiam em correrias numa roda em volta...
Urgente! Urgente! Corram todos, venham ver gente feliz...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Desta janela vejo o mundo...

Janela...

Desta, observo uma dama com um vestido até aos pés. Tem uma daquelas armações por debaixo do vestido, que lhe faz parecer ter um rabo de vespa! Emproada, fixa o olhar no horizonte vazio. Não consegue disfarçar o olhar que segue o galã do "Capitan" descapotável...

Não, afinal não! Vejo antes uma criança que corre com uma redinha na mão, atrás de uma bela borboleta. Não sei bem se a quer mesmo apanhar. Talvez queira mesmo só vê-la de mais perto. A Alice disse-lhe que as suas asas eram veludo autêntico...

Bem me parecia! O que ali vai mesmo é um casal de namorados que caminham de mãos dadas e trocando olhares e sorrisos. À frente deles, segue um retratista, com a sua caixa negra, que há quem diga que rouba o espírito das pessoas. Ele segue, andando para trás, numa tentativa de fotografar o casal. Sim, aqui em Paris os artistas fazem de tudo pela sua arte...

Ali, um homem alto, com um casaco até aos pés com uma gola muito peluda, saiu da pastelaria. Tem um ar sinistro. Olha para os que por ali passam, como se fosse detentor de uma altura de pelo menos cinco metros. "Homem do Ministério", é esse o nome que os ardinas lhe atribuem...

Ping, ping, ping... Goteja lentamente da ponta daquela folha, gotas de pranto de aflição... Uma rabanada de vento, abana profundamente toda a cena. Os olhares descuidados dos transeuntes inferem golpes rudes naquelas gotas de ânsia. Ninguém lhes dá valor nem esperança. Não lhes conhecem o sentir e a dor. Ping, ping, ping... Um pequeno pássaro aproxima-se e observa. Não estranha. Acaricia com o bico a folha e, num rompante, abriu asas e voou...

Desta janela, vejo tudo! Reparem como segue sorrateiro, o rosto vai tapado. Quem será a próxima vitima? Nobre senhor, de elegante trato e aspecto, fica por chão. Tinha-lhe sido ofertado por quem muito o admirava, ou simplesmente bajulava. "Longines", inscrito no mostrador de madrepérola, por detrás de um vidro safira com pequenos traços de ouro encrostados... "Assim conseguirei pagar ao Dr. Gaspar as injecções para arrancar o gaiato das unhas da pneumónica". Com duas moedas escondidas na mão, cumprimenta o polícia que vigia a distribuição do açúcar e da farinha racionada, "...já está a contar com isso! Ele e a minha mulher, com o reforço para o conduto dos gaiatos..."

Desta janela vejo o mundo...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Hipócritas...

Abrem os jornais da manhã:
"Chacina em base norte-americana no Texas... Não se sabe o que terá acontecido..."

Hipócritas...

Um homem, militarmente, major; vocacionalmente, psiquiatra; familiarmente, marido e pai; biologicamente, "antropóide sapiens mais"; socialmente, local de despejo de dramas e local de colheita de esperanças e felicidades...

Trinta e nove anos, mata doze colegas e fere trinta e um, só porque os não conseguiu matar. Foi abatido. Não mortalmente. Ponto comum a ele e a todos os colegas que ele atingiu: de partida, novamente, para o Iraque...

Este não é dos que se mataria no final da chacina!

Uma base militar, onde permanecem em constante exercício e alerta 50.000 homens, armados até aos dentes deles e dos avós deles, envoltos em drama, honra, vida, droga, manipulação, loucura; é uma verdadeira bomba atómica.

A exposição à guerra e aos seus efeitos, é derradeira na vida de um homem.

Há muitos modos de morrer, e alguns daqueles homens, que já era a enésima vez que iam para o campo de guerra, e cujos olhos e cérebros lampejam horrores impensáveis, que ficaram gratos ao major médico, que num acto de perfeita eutanásia, os brindou com o fim do sofrimento, tal qual cadáveres sem vida própria digna.

Matar-se no fim? Não! Um homem assim, não se mata no fim... Um homem assim, tem muito claro na sua mente que tem de libertar os seus companheiros. Um homem assim, já escutou, lidou e teve de compreender, as maiores barbaridades que chegam a ser difíceis de imaginar, e quer cá ficar para gritar porque razão o fez.

Quanto? Não! Muito mais! Muitos anos, e centenas de centenas de histórias e de sofrimentos e de esventramentos da alma e arrancamentos de corações, sendo obrigado a permanecer vivo e a corresponder com o que se espera dele.

O contacto permanente com o sofrimento alheio, é corrosivamente destruidor. A guerra tem consequências incalculáveis.

Este homem, socialmente pode ser um criminoso, mas este homem é um fruto da guerra com o discernimento esmagado pelo sofrimento atroz...

© Mário Rodrigues - 2009

Toco de oliveira velha...

Era cedo, bastante cedo. Geralmente acordo muito cedo, o que, quando por lá estou, me possibilita um prazer que tenho dificuldade em descrever.
Sente-se uma frescura de fim de madrugada, o sol, ainda se passeia pelo leste, e dele vislumbro uma nuvem difusa de claridade que traz com ela a promessa dos primeiros raios...
O silêncio do vale é guarnecido com o cantar do ribeiro. Os insectos, parecem ainda não existir. Os pássaros, esses, poucos dão o ar da sua graça!
Os primeiros raios, ao surgirem no cume, trazem despertares aos animais. Sentem-se acordar.
Havia já meia hora, que estava sentado num "toco" de uma oliveira velha, que cortei há algum tempo. É um local privilegiado. Naquele local, sentado com as pernas penduradas, abandono-me. Quando me lá sento, é para lá ficar... Aquele local não pode ser profanado. O vale, escancara-se numa escarpa quase abrupta de uns cem metros a meus pés. De oriente, chega o sol, preguiçoso!
Os primeiros raios, ao surgirem no cume, trazem consigo o início do espectáculo. Os actores já lá estavam; à espera!
Num perfeito acto de natalidade, a montanha deixa que nasça das suas entranhas um vapor matinal que com a chegada dos primeiros raios de sol, e com as correntes térmicas ascendentes por eles provocadas, caminham pela encosta acima como se fossem enormes lençóis alvos... Chegados ao cume, encontram os outros, os de sul e os de oeste, e juntos ascendem nos céus, na qualidade de enormes e lindas nuvens brancas.
Por estas horas, já os melros se divertem nos seus saltos e assobios extraordinários. O pica-pau, lindo no seu negro e escarlate, esconde-se. Esconde-se sempre. Levei algum tempo até ser contemplado com a sua imagem. Soberba! Os esquilos, dormem.

Eu, sinto-me como de fosse uma pedra daquela montanha. Assim como estou, encaixo na perfeição naquele quadro.

A vida do ser humano, pode ser muito simplesmente bela e justificada...

© Mário Rodrigues - 2009

Hoje é sexta-feira.

Sexta. Hoje é sexta-feira. Sinto segredos das pernas, dos braços, dos pés e ouço reclamações do dorso. Esta semana foi algo trabalhosa. Sinto um leve sabor a cansaço.
Esta semana, foi daquelas em que o trabalho rendeu alguma coisa de material, mas este sabor que tenho na "boca", não é a dinheiro!
Esta semana tive a oportunidade, por várias vezes, de ser útil! Tive o prazer de ver pessoas menos apreensivas, na sequência da minha aparição. Tive a felicidade de constatar que, depois do meu trabalho, e quando as já deixava, olhei para trás e vi-as mais felizes e aliviadas.
Envolvidas nos seus universos, acabados de ser alterados, mas onde já havia um amanhã diferente.
Não! Não deram pela minha saída! Não gosto que dêem por ela. Para além de poder provocar num impulso, um acto de agradecimento, o que me deixa sempre encabulado, leva a que mais uma vez me olhem na cara, e que com isso, a possibilidade de me virem a reconhecer mais tarde aumente. A minha missão é trazer e não levar...
Hoje, sinto que nesta semana, o mundo avançou um pouquinho no sentido da nossa natureza, da nossa razão para viver. Apetece-me descansar um pouco...

© Mário Rodrigues - 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Queria que hoje fosse um dia importante

Queria que hoje fosse um dia importante na minha vida... Queria que hoje, numa soma decisões plenas da inexistente liberdade, mas temo que esta intenção, só por si, sirva para boicotar tudo o resto, decidisse decidir, deixar de dar guarida a uma enorme; enorme demais, montanha de porcarias que me tornam o arrasto abrasivamente aderente ao meio...

© Mário Rodrigues - 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Duas lembranças!

Na casa das minhas tias-avós, em plena Serra do Açor, existia um cubículo, que como porta tinha um pano, e que tinha um buraco redondo no chão. Esse buraco, dava directamente para a corte dos porcos. Se bem que enquanto as nossas necessidades fazíamos, víamos o pobres animais a olharem para nós, ou pelo menos para a parte que eles podiam ver, pelo menos, era raro por aqueles lados o uso dos penicos, com os quais, nunca simpatizei; mesmo nos tempos em que se tinha de ir para o meio do mato, fosse à hora que fosse.

A segunda, quanto a mim, sempre me foi muito estranha. Na Lisboa antiga, em pleno Bairro Alto, numa casa onde o meu avô materno vivia, existia uma, apelidada de "pia de despejos", onde realmente se despejava tudo, mesmo tudo; inclusive servia de sanita. O mais estranho, é que a tal pia estava numa parede onde de um lado tinha o lava loiças e do outro um fogão...Pois certo. A pia estava ao meio...Imagine-se uma diarreia em qualquer dos elementos do agregado, durante a confecção dos repastos...

Realmente, ainda há muito pouco tempo, os conceitos de higiene eram...


© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Não era cedo; mas também já não era tarde!

Não era cedo; mas também já não era tarde! A luz era esbatida nas estepes, e frio regelava os pensamentos.

Onde estariam naquele momento? Que estariam a fazer? E ela? Aquela boca, o corpo, as ancas, os seios, as pernas...Seriam ainda, paisagens da sua exclusiva contemplação? E porque haveriam de o ser?

A saudade misturada com a solidão, formavam uma pasta cinza podre, pegajosa que se ladeava no corpo e nos membros, provocando sucessivas quedas pelo torpor no andar dos pensamentos.

A sua existência doía. Doía-lhe mesmo muito existir!

Os dias foram se transformando em coisas miseráveis, que nada tinham de desejado. O urso que sacudia toda a casa, casa...; o urso, com as patas, partia pedaços a cada impacto; desejoso, selvagem, brutal...quando ainda havia cheiros...Era a sua única visita... Mas desde que o ultimo pedaço de gordura de foca se extinguiu... Deixou, sim, deixou de aparecer.

O couro das botas cozido em neve na chama de querosene, foi o último manjar...

Lá fora...branco, muito branco!

Que quente que está o seu ventre... Acabara de lhe beijar os seios, muito suavemente, eles, dormiam já...hoje teria vergonha de fazer amor com ela...está impuro; mas por dentro. Nada fez de condenável, mas sente-se degradado.

Não era cedo; mas também já não era tarde! Talvez, de manso, ela se aproxime. Talvez, sem dor, o acolha. Talvez sedutora o envolva...

Lembro-me de a ver chegar, lenta, discreta, poderosa. Lembro-me de a desejar. Lembro-me de lhe não resistir. Lembro-me de o último suspiro expirar...

Não era cedo; mas também já não era tarde!

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Levi’s e D&G a 500mg...

“...contrafacção de comprimidos?”, “Sim. Não sabias?”, “Então mas isso é como as calças e os perfumes, queres ver!?”, “Pior!”, “Pior porquê?”, “Porque mata pessoal e as calças e os perfumes não!”, “Estás parvo! Explica lá essa!”, “Queres mesmo?”, “ Deixa-te de cenas...”, “Ok! Está bem.”

“Então imagina o seguinte: “, “O quê?”, “Eu tenho um grande laboratório de medicamentos, pago uma fortuna a uns tantos cientistas que trabalham num laboratório que eu paguei, e que me custou outra fortuna. No entanto não estou muito chateado, porque logo que os meus cientistas desenvolvam uma determinada droga, eu vou regista-la e ao abrigo da legislação internacional, vou explora-la em exclusividade durante oito anos. Eu como tenho de recuperar o meu investimento, marco esse produto e vendo-o no mercado com uma margem de 1800%, durante o período em que só eu o tenho. Certo?”, “Épa... Certo...”, “Ok. Continuando. Durante esses oito anos como tenho de demonstrar que a minha droga, é excelente, procedo à sua produção, exclusivamente na minha fábrica, com os meus melhores técnicos e com matéria-prima de qualidade e síntese de primeiríssima qualidade, vigiada e controlada constantemente.”, “Porreiro, ainda bem! Assim é que deve ser, não é?”, “Sim, claro. Deveria ser sempre assim!”, “Deveria?”, “Sim. Deveria. Mas não é! Durante esses anos, as matérias-primas mal sintetizadas, deterioradas, estragadas nos transportes, rejeitadas nos controlos de qualidade, etc, etc...”, “Foram destruídas, claro!”, “Não, Nem por isso! Foram armazenadas na Índia e arredores, nuns armazéns de umas indústrias que foram desmanteladas e que parecem estar abandonadas...”, “Para quê?”, “ Espera, uma coisa de cada vez! No final dos oito anos de exploração exclusiva, as coisas mudam de figura! A fórmula descoberta pelos meus cientistas, passa por força da legislação internacional, para o domínio público, devido ao seu interesse para a sociedade. Aí, desço o preço do meu original para um terço, lanço através dos média em que sou accionista, algum descrédito controlado sobre a passagem da droga para o mercado de outros laboratórios e descredibilizo completamente o mercado dos genéricos, apelidando-os de contrafeitos ou de proveniência duvidosa”, “Pois, mas se eles não fazem as coisas bem?”, “Eles quem?”, “Esses gajos dos genéricos!”, “Espera, deixa-me explicar-te. Em primeiro lugar existem laboratórios de genéricos que laboram em perfeitas condições, tão ou melhores que os de marca. Depois esses outros gajos, são micro “laboratórios” artesanais de vão de escada que existem milhares na Índia, China, Koreia, Países Médio Oriente, Bangladexe e outros, mantidos graças a fundos meus e de amigos meus, tais como outros accionistas de outros laboratórios, rapazes porreiros do tráfico, e industria encoberta do mercado “extasi”. Quando um produto passa para o mercado livre, todos o querem ter mais barato. Assim são feitos concursos/leilão, em círculo altamente secreto para encontrar/adjudicar a produção de uma droga X, a um desses “laboratórios”, sem controlo, de qualquer tipo, com mão-de-obra escrava, por vezes a troco de uma “dose” para o dia, e em que política ambiental e outras, são megalomanias ocidentais. Depois agarra-se a matéria-prima que esteve armazenada e anteriormente rejeitada, mistura-se com substâncias compatíveis e de baixíssimo valor comercial, cujo melhor é o amido de trigo e arroz, mas que também passa por sal-gema, cal, gesso, talco e outras...Faço os comprimidos, dos formatos e cores que me forem encomendados, depois são vendidos a granel às toneladas em leilões cujos licitadores são a industria de blisterização e embalagem e mais tarde introduzem em lotes mistos esse produto no mercado.”, “Mas isso é de loucos!...”, “Achas?”, “Agora imagina que durante uma investigação, os meus cientistas descobriram, por “acaso”, um antigénio que poderia vir a dar uma droga de imunização profiláctica (vacina), porreira para uma pandemia...”, “Sim...E o que é que isso ia dar?”, “Uma extraordinária possibilidade de ganhar dinheiro! Tendo o antigénio, é muito fácil sintetizar um agente infeccioso, depois... Está visto meu amigo, produz-se e distribuí-se no target desejado. Mistura-se nos comprimidos maravilha que estávamos a produzir, ou nas pastilhas, ou na coca que segue para a distribuição, ou no leite em pó dos putos, ou então; também podemos por na ração de uns porquitos num país cujo controlo sanitário seja, digamos... Ligeiro ou ainda nos coktails de hormonas com espermatozóides de inseminação artificial dos frangos, vacas e porcas, etc...e esperar algum tempo...é a gestação...Quando aparecerem os primeiros infectados, voila, eu sou um gajo que não só tenho a cura como a vacina e que ainda ofereço a determinados países os medicamentos para salvar milhões de pessoas que infectei, o país dá-me contrapartidas várias, como axilos e identidades renovadas, proporcionando-me a possibilidade de com a cura, estar a espalhar o meu próximo grande negócio...”.

 

“Épa, mas isso é uma loucura! Tu estás doido?”

“Sim, estou! Ainda ontem teimei durante meia hora que era o Marquês de Pombal... “

 

© Mário Rodrigues - 2009

terça-feira, 29 de setembro de 2009

...DESTRUÇAR!

A sensação era estranha, deveria estar com medo, mas não me lembro de o ter naquele momento.

Apesar de ainda ser Fevereiro, dia 16, o calor era brutal, ou então simplesmente me parecia, a última semana tinha sido passada em intensos exercícios, tudo o que era fatos, máscaras e porcarias para engolir, me tinham garantido, que viriam a ser a barreira entre a morte e a vida lá por aqueles lados.

Dormi em toda a semana menos de uma noite, ou porque em exercícios, ou porque embora em casa e na cama, os olhos não se fechavam de terror e medo. No entanto, ali estava, e aparentemente sem medo... Ainda o sol não nascera quando ali chegámos. A noite tinha sido longa com todos os preparativos e recomendações dos comandantes. Ajustes e mais ajustes de última hora. Estava tudo previsto.

Apesar de casado, não tinha querido a natureza, que eu já fosse pai, apesar da tentativa... Naquele momento, lembro-me de achar que tinha sido um bom e mau sinal!
Bom sinal porque se morresse, não deixaria ninguém órfão de pai; mau sinal porque por instantes tive a sensação que a própria natureza que sempre fora minha amiga, parecia ter conspirado contra mim.

Nas placas, em formatura, há já algumas horas, a imponência do C-130, repousava indiferente a tudo em frente aos nossos olhos. Abastecido e pronto, ali estava ele.

Que raio se passava?

Está bem! Não tinha fome assim como não tinha medo, mas a ansiedade já começava a enlouquecer-nos a todos!

Era a primeira vez que ia andar em um avião grande! Os alouette’s, faziam-me quase parte dos pequenos-almoços mas o hércules não! Era a primeira vez! Diziam que era pouco confortável e que fazia muito barulho lá dentro! Que merda de viagem que eu ia ter! Porra!

Ilha de Chipre, Al Jaharad e depois Al Ahmadi, era o percurso anunciado! Como seria depois?

Da esquina do hangar, aparece o comandante! O seu ar austero e caminhar hirto, deixavam transparecer a ordem de “SENTIDO” e do “EM FRENTE, ...ARCHE”, que nos iria dar. A vida passa-me em flashes ultra-rápidos, pelos olhos! Escola, brincadeiras, mulher, pais...saberão eles o quanto os amo? Que loucura! Sinto-me agoniado! O capacete está a fritar-me os miolos ali ao sol!

“...atenção meus senhores! A força militarizada formada pelos nossos camaradas franceses, irá partir hoje, dentro de momentos, de Nice, para a Ilha de Chipre, na missão de apoio á operação tempestade no deserto, pelo que, ficaremos a aguardar novas ordens! Por isso, ...DESTRUÇAR!”

O estado era tal, que por instantes cheguei a sentir-me estupidamente desiludido...



© Mário Rodrigues - 2009

E neste momento em que as lágrimas me visitam...

E neste momento em que as lágrimas me visitam...

...Pois eu vos digo, a vós que tão bem me compreendeis e que testemunhais a minha alegria e felicidade; como a recuperaria eu?
Como, se um dia dos meus filhos fosse privado, se do cheiro e dos braços da mãe deles não tivesse notícias, se dos afagos dos meus pais fosse arrancado? Dizei-me, dizei-me como recuperaria eu a vida?

© Mário Rodrigues - 2009

sábado, 26 de setembro de 2009

Perdi tudo o que tinha...

Na minha vida, já algumas vezes, perdi "tudo" o que "tinha". No entanto, mais tarde recuperei-as! Hoje, luto principalmente para não perder nada que jamais recuperaria...

© Mário Rodrigues - 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Acasalamento...

Um casamento é uma panela onde se misturam, verdade, humildade, amor, dor, respeito, loucura, responsabilidade, diálogo, serenidade, sexo, concessão, tudo em doses meticulosas. Promessas, é um dos ingredientes que oxida e estraga a sopa.

© Mário Rodrigues - 2009

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Porque teremos nós de sofrer?

Será pânico? Fobia? Será mesmo só medo? E de quê?

As mortes dos nossos queridos, os seus sofrimentos, as possibilidades de eles partirem... deixam-nos com o corpo prensado... com uma cavidade escancarada no tórax... com o cérebro fervilhante e um nó na garganta.

Observo numa ilha do Pacifico, umas fragatas, a pairarem sobre as andorinhas do mar, que de dorso negro, protegem as suas criar; as fragatas, em voos loucos atiram-se sobre as pobres, roubando-lhes os filhotes. Ali mesmo, muitos são engolidos à vista dos pais, outros são levados para o alto, onde acabam por ser objecto de disputa de outras fragatas...

Saberemos nós os sentimentos das andorinhas progenitoras, naquele momento de chacina? Sentiram elas alguma coisa? Se não sentem, porque protegem e guerreiam? E os filhos das fragatas, são eles os vilões? Seres que vivem da morte e com o sofrimento alheio?

Compreenderemos nós os verdadeiros sentidos das nossas vidas? As nossas missões? Saberemos nós a nossa dimensão e como se movimenta a cadeia interminável? Porque sofremos nós? Será o sofrimento, um elemento base e fundamental da existência da vida? Será que vivemos o sofrimento da maneira correcta? Existirá maneira correcta de o viver? Será o sofrimento simplesmente o mais eficaz dos professores? Tal como julgamos, o nosso apoio aos que sofrem, alivia os seus e os nossos sofrimentos?

Para já, apenas me ocorre enviar uma lágrima aos que neste momento têm de sofrer, tão-somente porque lhes é impossível fazer outra coisa.

...muitas outras questões se levantam em redor do sofrimento, que tal como a alegria e a felicidade, são fruto de transmissões eléctricas neurais e... e talvez mais alguma coisa...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Definitivamente, Deus depois do sétimo dia, fez o “Tobom”...

Seria com certeza uma boa viagem. Foi preparada como tantas outras, à pressa.

Chegado, beijos e mais beijos, “então como estão todos? Estão enormes os rapazes! Eles é que nos fazem velhos!”, nunca percebi o significado desta frase, mas também é verdade que a acho parva, e logo, nunca lhe dispensei muita atenção. Havia figos secos em tabuleiros espalhados sob as árvores do quintal, as vespas e as abelhas iam petiscando no melaço dos ditos. Os meus calções eram de um tecido meio acastanhado, aos quadrados, enormes, tinham dois suspensórios, mas como um não tinha botão, andava pendurado. As quedas provocadas por pisar o dito nas correrias foram bastantes, e rapidamente me levantava e continuava a correr ainda a chorar com as pedras cravadas nos joelhos.

Naqueles tempos havia uma coisa que, só por ela já valia a pena viver e adormecer rapidamente para que outro dia trouxesse uma nova possibilidade. Deleitava-me verdadeiramente, era maravilhoso, extraordinário, espectacular... e então se fosse acompanhado com umas batatitas fritas e um ovinho estrelado... Ai...! Nem é bom pensar! Aquele cheiro, aquele sabor... Definitivamente, Deus depois do sétimo dia, fez o “Tobom”!

A família era humilde, de dedicação e esforço reconhecido. Das férias grandes, alguns dias eram passados por lá. Sempre me senti muito bem por aqueles sítios. Naquele ano, fui abençoado com uma verdadeira chuva de maná no deserto. Sem entender porquê, principalmente porque nem me interrogava, o meu suculento” Tobom”, fazia-me visitas diárias, e chegava a trazer umas colegas, as salsichas, extraordinário! Na terça-feira à noite, já na cama, constatava que já tinha comido quatro vezes, e se a sorte me continuasse a bafejar, teria mais seis maravilhosos repastos de “Tobom”...

Não sei se a minha mãe, não terá estado por detrás daquele milagre da gastronomia dos pobres... Certo é, que desde então, até aos dias de hoje, o pensamento traz-me directamente dos neurónios para a língua e para o nariz, aquele abominável cheiro e sabor que, desde então, me consegue indispor... digamos, gástricamente...


© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A morte do homem de quem eu era o único amigo...

Dia 0 - 8.00h – “Atenção fazer a higiene da cama 2 do quarto 4, que vai entrar um doente que vem da oncologia; é o Sr. ... Oliveira, sim é isso Oliveira! 68 anos, etc, etc...”, “então mas na cama 2 não estava a D. Albertina?”, “yap, disseste esteve...”, “ok...”

Dia 1 – 8.30h – “Então Sr. Oliveira, dormiu bem? – Vamos fazer a higiene?... Vá lá, só mais esta bolacha... Não... Os cigarros acabaram! Já sabe!”, “...não se preocupe, Mário, aqui quem precisa de cuidados sou eu! Bem o sei! Vocês é que me ajudam...”, “sim Sr. Oliveira, assim é-nos mais fácil de o ajudar a ficar melhor depressa, para ir jogar á bola com o Ricardito! Não é?”, “Sabes Mário, já vivi umas coisas... a guerra nunca me saio da cabeça...”, “...bem sei, bem sei...Sr. Oliveira, a guerra mata-nos por dentro...”, “Olha, o Ricardito diz que já tem uma namorada!”, “Aí sim! Ele esteve cá ontem?”, “...Não... Não o vejo á seis meses e meio... o pai...”

Dia 4 – 8.00h – “O Sr. Oliveira tem de ir lá abaixo, à imagiologia antes do pequeno-almoço...”, “...Ok. Que acham dele? Doente muito colaborante! Sim senhor!”, “pois é, realmente é... pena a família...”, “vem aí a mulher de quando em vez...”, “ainda não percebi porquê!”, “...tem bem a noção do seu estado, e apesar disso, colabora e chega a esboçar uns sorrisos...”, “...Sim é bastante simpático...”

Dia 6 – 16.00h – “...há visitas no quarto 4?”, “sim hoje há, está lá pessoal do estado maior...”, “... Está lá alguém de lá?”, “Está! Lembraste do Carvalho do aprovisionamento?”, “...há sim, já sei...”, “ pois é ele... dermóide...”, “...então pessoal, como anda aquilo por lá?”, “vai-se andando...”, “...oh, Rodrigues, tens ali uma bela peça...”, “quem?”, “ o Oliveira...”, “então?”, “então!?... tá a paga-las, filho da puta...”, “...eh Zé... dass... o homem mordeu-te?”, “Porra! Se calhar não sabias?”, “Não sabia nem sei!”, “Esse gajo é o maior filho da puta que eu já vi... Ninguém o gramava lá... Nem com molho de tomate...”, “ sabes o que o gajo fez ao...”, “realmente se assim é... Não é lá muito boa rês...”

Dia 7 – 01.00h – “... Porra! Parece que o gajo era mesmo um “granda” cabrão...” – No dia seguinte não o consegui olhar com os olhos cheios de empatia do costume. Tive dificuldade encaixar o que tinha ouvido naquele homem... no entanto, entre muitas outras conversas, apercebi-me que o dito era... mauzinho... as explicações para a ausência da filha e do filho, pareciam esboçar-se sem muitas interrogações! No entanto, a mim, nada de mal me fez, e ainda que tivesse feito... tenho de vencer a coisa! È sempre tempo...

Dia 8 – 16.00h – “olá Mário, não te tenho visto...”, “pois foi Sr. Oliveira, correrias! correrias!”, esforcei-me para não olhar como se tivesse a olhar para um carrasco! Não estava a conseguir ver a imagem do velhinho débil, doente terminal, mas agradável e colaborador!

Dia 9...

Dia 11... “pois, Sr. Oliveira...”

Dia 13... “um abraço, para si também...”

Dia 16...

Dia 18 – 8.00h – “... doente da cama dois do quatro, mudar a sonda e a algália... atenção que a medicação foi alterada!”, “aquilo está melhor?”, “nop, muito instável! Atenção aos registos dos valores...”, “Então amigo Oliveira?”, “...rshrshrs ohá ário, rshsrshsrsh...”, “ não se esforce, já lhe mudo a sonda...”, “...hhhuuuuumm... sabes Mário... tu és o meu único amigo...”, “então, passou-se? A sonda vai para o estômago! Não é para os miolos, homem!”, “...és um parvalhão tu... tu és o meu único amigo...”, “vá, respire fundo...”, “rshrshrs ário!...”, “sim?...”, “...rshrshrs...”

Dia 18 – 11.00h – “...está! Dr. Rocha, pode chegar cá a cima?”, “hora do óbito 10.50, chamem a família...”

Nos meus ouvidos aquela frase ecoa até hoje...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Como lençóis brancos...

Os nossos fantasmas habitam-nos, acompanham-nos, intimidam-nos... Encolhemo-nos sentados sobre os travesseiros velhos nos cantos de luz difusa, com os joelhos junto do queixo... Gotas deslizam pelo rosto... Não trazem etiqueta se de bem, se mal; e porque seriam uma delas? São simplesmente lágrimas... Alguns desejamos exorciza-los... Outros, talvez, nem por isso... Já me habituei á presença de alguns que tolero, outros, faço-lhes mesmo confissões...

© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Uma casinha branca...

“Eu tenho andado tão sozinho ultimamente
Que nem vejo em minha frente
Nada que me dê prazer
Sinto cada vez mais longe a felicidade
Vendo em minha mocidade
Tanto sonho perecer
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde prá plantar e prá colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela para ver o sol nascer
Às vezes saio a caminhar pela cidade
Procura de amizades
Vou seguindo a multidão
Mas eu me retraio olhando em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão”

Cantada por Maria Bethânia

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tocando em frente...

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei
E nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor para poder pulsar
É preciso paz para poder sorrir
É preciso chuva para florir
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu sou
Estrada eu vou
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor para poder pulsar
É preciso paz para poder sorrir
É preciso chuva para florir
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir
Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história e
Cada ser em si carrega um dom de ser capaz
E ser feliz

Autor: Almir Sater/ Renato Teixeira

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

As regras da sensatez

Nunca voltes ao lugar
Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz
Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão
Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez
Por grande a tentação
Que te crie a saudade
Não mates a recordação
Que lembra a felicidade
Nunca voltes ao lugar
Onde o arco-íris se pôs
Só encontrarás a cinza
Que dá na garganta nós
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez

Autores: Carlos Tê / Rui Veloso

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Insólitos… CINCO HISTÓRIAS NOCTURNAS

HISTÓRIA DO DITO CUJO
Se eu quisesse, podia contar muitas histórias sobre o dito cujo.
Mas basta esta, a primeira que me vem à cabeça. Um belo dia, após uma
bela noite de sono, o dito cujo abriu os olhos, levantou-se da cama, dirigiuse
ainda meio ensonado ao quarto de banho, olhou para o espelho e, oh!,
fez uma careta terrível! Caramba, a terrível careta que ele fez! E depois
disse: “Xanto Deux, o gue agontexeu à minha gara? Parexo o Gregor Xamxa.”
O que significa: “Santo Deus, o que aconteceu à minha cara? Pareço
o Gregor Samsa”, mas ele pronunciava mal as palavras, por causa daquilo
que acontecera à sua cara durante a noite. E é tudo.

QUANDO O SILÊNCIO CAIU EM VOLTA
A noite era de um esplendor invulgar. A lua, embora não estivesse
cheia, brilhava e envolvia toda a paisagem com uma beleza que desafiava
qualquer tentativa de descrição. Os campos estavam cheios de sombras
amenas. Não havia vento, nem o mais leve sopro. Os demais corpos celestes
derramavam sobre o lago uma luz pura, estável, branca. As árvores
estavam como que hipnotizadas numa espécie de encantamento misterioso.
A senhora Ava Novak estava sentada na varanda, desfrutando
das ternas e encantadoras sensações daquela noite maravilhosa, e sonhava,
sonhava, sonhava, contemplando a lua resplandecente. Depois, por um
momento, todas as cigarras se calaram, o silêncio caiu em volta e a senhora
Novak deu um pum.

CONSEQUÊNCIAS DE UMA NOITE DE FOLIA
Depois de uma longa e bem preenchida noite de bebedeira, Zavala
Zabehlice acordou dentro de uma garrafa. Uma situação, como é fácil
compreender, pouco ou nada brilhante.
- Efectivamente a minha situação está longe de ser brilhante. Na
verdade, é muito aborrecido uma pessoa acordar e concluir que está presa
no interior de uma garrafa. Talvez para sempre. É sobretudo muito incómodo
– diz o infeliz pândego, secundando a minha opinião.
Pois muito bem. Aqui têm o que proporciona uma noite de folia
como aquela que Zavala Zabehlice teve o ensejo de gozar.

O TRASEIRO COMICHOSO
Um fulano entra à noite furtivamente no gabinete de trabalho
de um escritor famoso, esfrega as mãos e bebe um frasco inteiro de tinta.
Depois pousa o frasco no lugar, coça o traseiro comichoso e volta furtivamente
para casa.
No dia seguinte, o fulano começa a cagar histórias e transformase
num autor famoso. O outro, sem a tinta, pobrezinho, mergulha numa
crise de criatividade e acaba por morrer de desgosto.

SEZAY GORODECKY NÃO CONSEGUIA DORMIR
Noite após noite, agitado, transtornado, ofegante, barrigudo e
com uma borbulha na ponta do nariz, Sezay Gorodecky não conseguia
pregar olho. Ora, passar tantas noites sem dormir não é muito bom para a
saúde. Ao fim de algum tempo uma pessoa começa a morrer de sono. E
nem de propósito! Ao fim de algum tempo, Sezay começou a morrer de
sono. E depois morreu*.

* Esta nota de rodapé é pura garotice minha. Existe apenas para enganar o leitor.
Sezay Gorodecky morreu efectivamente de sono. Fim da história.

Autor: RUI MANUEL AMARAL in “365”

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