Abrem os jornais da manhã:
"Chacina em base norte-americana no Texas... Não se sabe o que terá acontecido..."
Hipócritas...
Um homem, militarmente, major; vocacionalmente, psiquiatra; familiarmente, marido e pai; biologicamente, "antropóide sapiens mais"; socialmente, local de despejo de dramas e local de colheita de esperanças e felicidades...
Trinta e nove anos, mata doze colegas e fere trinta e um, só porque os não conseguiu matar. Foi abatido. Não mortalmente. Ponto comum a ele e a todos os colegas que ele atingiu: de partida, novamente, para o Iraque...
Este não é dos que se mataria no final da chacina!
Uma base militar, onde permanecem em constante exercício e alerta 50.000 homens, armados até aos dentes deles e dos avós deles, envoltos em drama, honra, vida, droga, manipulação, loucura; é uma verdadeira bomba atómica.
A exposição à guerra e aos seus efeitos, é derradeira na vida de um homem.
Há muitos modos de morrer, e alguns daqueles homens, que já era a enésima vez que iam para o campo de guerra, e cujos olhos e cérebros lampejam horrores impensáveis, que ficaram gratos ao major médico, que num acto de perfeita eutanásia, os brindou com o fim do sofrimento, tal qual cadáveres sem vida própria digna.
Matar-se no fim? Não! Um homem assim, não se mata no fim... Um homem assim, tem muito claro na sua mente que tem de libertar os seus companheiros. Um homem assim, já escutou, lidou e teve de compreender, as maiores barbaridades que chegam a ser difíceis de imaginar, e quer cá ficar para gritar porque razão o fez.
Quanto? Não! Muito mais! Muitos anos, e centenas de centenas de histórias e de sofrimentos e de esventramentos da alma e arrancamentos de corações, sendo obrigado a permanecer vivo e a corresponder com o que se espera dele.
O contacto permanente com o sofrimento alheio, é corrosivamente destruidor. A guerra tem consequências incalculáveis.
Este homem, socialmente pode ser um criminoso, mas este homem é um fruto da guerra com o discernimento esmagado pelo sofrimento atroz...
© Mário Rodrigues - 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Mensagens populares
-
Ok!... Finalmente encontrei um parceiro à altura para o meu confessor! O meu amigo Oscar ( Astronotus ocellatus ) , conhecido por “o peixe”,...
-
Antes de mais, tenho a dizer que, tal como no meu caso, não são raras as vezes em que um ansiolítico faz parte da ceia de domingo. Adoro tr...
-
Estava eu com o pupilo de pé à beira do mar a olhar as ondas, lado a lado, numa amena cavaqueira quando... ... "...pai, isto este an...
-
Mas... O que eu gosto mesmo é de Dodó !... Principalmente se poder contar com a companhia do Anthony Hopkins e assentados debaixo de uma al...
-
Isso?... Isso não é nada!... Aliás, tu nem sabes o que é! Jamais serás iluminado pela luz plena, inebriante e penetrante que enche inteirame...
-
...E então dizia um cronista da época acerca dos romanos a quando das lutas com os povos do norte... "...Os romanos, não gostavam dos ...
-
Passei pelo jardim zoológico e perguntei baixinho, por vergonha, a um babuíno se estava preocupado com a vinda do FMI a Portugal. O indivídu...
6 comentários:
Eu consigo apenas imaginar os horrores que se podem ver na guerra. Apenas imaginar os pesadelos que vêm depois. A lutar muitas vezes uma guerra que não é a deles, em que não acreditam.
Assim como não consigo imaginar o que leva uma pessoa a fazer isto. Ou melhor, consigo entender o desespero, mas não o facto de achar que será o melhor para os outros. Momentos de insanidade, de loucura, não sei...
Sabes Nirvana, existem modos horríveis de morrer em guerra! Modos tais que a morte através de um tiro, se mostra uma bênção para quem tem quase a certeza que vai morrer, mas não sem sofrer e fazer sofrer muito. Há casos, em que as pessoas ainda que vivas fisicamente, jamais se libertam do inferno que lhes aterroriza o resto da existência...
Tragédias incalculáveis.
Uma beijoca
verdade...como deve ser castrador conviver diariamente com o sofrimento patente na guerra e sentir pés e mãos atadas para o combater
um beijo
O sistema cria a máquina. A máquina pode estragar-se com o uso. Que acontece quando se deixa de acreditar no fundamento que um dia nos guiou os passos? Olhamos para os que alinharam connosco e julgamos que tal como nós eles estarão errados, apenas lhes faltará vislumbrar a realidade. Se acreditarmos que só nós temos essa clarividência, será natural odiarmos esses estranhos, ou simplesmente lamentar-lhes a existência. Compreender?... Não compreendo, porque não posso assumir como meus os erros dos poderosos. A vida fica-me sempre como fundamento derradeiro, não aceito a morte como autodefesa para a minha revolta. Já não sou uma máquina de guerra...
Abraço!
(P.S.: Desculpa a demora, já cá tinha deixado um comentário, mas devo-me ter esquecido de qualquer coisa e desvaneceu-se, mas era mais ou menos isto...)
Cybe, meu bom amigo,
Já não és uma máquina de guerra?
Tens guerras onde te debates furiosamente!
Tens que eu sei!
São outras...Mas também matam e castram...
Porta-te mal, desde que com dignidade...
Pois, de facto, tenho Mário...
E que mau é quando nos habituamos tanto à guerra que ela se começa a parecer com a paz...
Não fosse a tua sabedoria e perspicácia e ainda agora me perdia...
Hoje foi um dia menos mau, e por isso já vou respirando. Até quando? Não sei ao certo, mas hoje é que importa. Não, não vou matar ninguém, hoje não! E se for assim poderei dizer nunca, desta vez. E amanhã será um bom dia para viver.
Grande abraço, meu bom amigo.
Enviar um comentário