Hoje não me basta esperar para que o dia passe
Hoje não me basta a escuridão para deixar de ver
Hoje não me basta encolher-me para me refugiar
Hoje não me basta chorar para as lágrimas verter
Hoje não me basta o silêncio para sossegar
Hoje também terei que me afundar; e do fundo de um escuro poço, trazer coisas viscosas emaranhadas nas mãos
Hoje também terei de com dor, escarafunchar na carne, e de um rompante, arrancar o espinho que, cravado há já muito, infectou e está rodeado de matéria pútrida
Mas...
Mas hoje, também deveria, desinfectar a carne escarafunchada e cuidar que sã cicatrize.
Mas hoje, também deveria, transformar coisas viscosas que habitam os fundos dos poços escuros em fortificante que em terra cuidada melhorassem os seus frutos
Mas hoje, também deveria, em sossego, cuidar dos silêncios e conhecer-lhes as origens
Mas hoje, também deveria, verter lágrimas sobre o tempo perdido
Mas hoje, também deveria, nos raios do Sol me refugiar ofuscando os incautos distraídos
Mas hoje, também deveria, sair da escuridão e com olhos limpos começar a ver
Mas hoje, também deveria, ansiar que este, que foi mais uma oportunidade de ser melhor, que este dia não passasse...
No entanto, uma inquietude insatisfeita, faz com que se procure o que virá a ser indesejado e que com desprezo se ignore o que se quis...
© Mário Rodrigues - 2010