sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Preambulo às instruções para dar corda ao relógio

Pensa nisto: quando te oferecem um relógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma prisão de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente um relógio, muitos parabéns, que te dure muitos e bons, é uma óptima marca, suíço com não sei quantos rubis, não te oferecem somente esse pequeno pedreiro que prenderás ao pulso e passearás contigo. Oferecem-te – ignoram-no, é terrível ignorá-lo – um novo bocado frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é o teu corpo com uma correia, como um bracito desesperado pendente do pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de ver as horas certas nas montras das joalharias, o sinal horário na radio, o serviço telefónico. Oferecem-te o medo de o perder, de seres roubado, de que caia para o chão e se parta. Oferecem-te uma marca, a convicção de que é uma marca superior ás outras, oferecem-te a tentação de comparares o teu com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, és tu o oferecido, a ti oferecem para o nascimento do relógio...

Autor: Júlio Cortázar in "Histórias de Cronópios e de Famas"

3 comentários:

CybeRider disse...

Os tesouros fantásticos que tu conheces!!!

:)

Gemini disse...

Quer dizer, não querendo "tu" dares de ti a algo (ou alguém), oferecem-te esse "algo" para que, obrigado, acabes te dar!... Pois, estou a ver...

Um abraço.

Gemini disse...

*Faltou-me o "por", logo a seguir ao "acabes" e imediatamente antes do "te"!

;)

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