segunda-feira, 12 de julho de 2010

Aviãozinho de papel...


Apesar de muitas vezes o procurar no meio dos outros discos para ouvir, não era o caso de hoje. A Jukebox estava em modo aleatório e a música anterior tinha sido Led Zeppelin. Estava a cantar Antony and the Johnsons e eu estava a arrumar um monte de papeis que pediam organização há já alguns tempos... No meio da papelada, apareceu-me um aviãozinho de papel. Uma folha de caderno pintada com lápis de cera às riscas e quadrados de muitas cores... Peguei nele e abri-lhe as asas, no interior tem escrito...
"FELIZ DIA DO PAI"
Suou-me como se fosse um grito...
...Sem qualquer controle saltam-me lágrimas dos olhos! Choro quase compulsivamente! Penso que...parece que sou parvo!... Tenho os meus filhos na sala do lado, autores desse mesmo avião, saudáveis e felizes e choro porquê?... Depressa descubro que choro só porque gosto deles e sei que um dia terei saudades deles, por qualquer razão normal das nossas existências. Nesse dia, decerto que lamentaria não ter guardado este aviãozinho de papel feito de uma velha folha de caderno e pintada a lápis de cera... Assalta-me a mente um pensamento! Os meus pais, saudáveis e felizes que estão, terão com eles algum aviãozinho de papel que um dia eu tenha feito? Porque saudades eu sei que eles têm, seja por horas ou dias como eu, mas...
...está a cantar a Lina Avellaneda; um belo tango...como a vida...

© Mário Rodrigues - 2010

13 comentários:

  1. Mas que história real mais comovente...Para o proximo ano faço-te um F16!!!!
    Bernardo.

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  2. Olá Mário.
    Identifiquei-me com este texto. Também eu guardo numa caixa estes tesouros desenhados e escritos pela minha filhota. A coleção é vasta visto que viajo muito em serviço.
    Gosto particularmente de um cheio de corações e aviões que diz:
    "Pai tive muitas saudades tuas, tens que dizer ao senhor do avião para guiar mais depressa". Um pouco mais abaixo estava um círculo delimitando um mancha quase imperceptível e uma frase, "Esta mancha é uma lágrima das saudades que caiu aqui".
    Quando cheguei, já tarde, chorei também compulsivamente ao ler o bilhete, deixado sobre a minha almofada, pois imaginei-a a desenhar e a escever tudo aquilo com os olhos rasos de água.Tinha na altura sete anos.
    Abraço!

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  3. ui nem imaginas as saudades que vais ter... tantas tantas (mesmo apesar da felicidade de estarem lado a lado, crescidos e "feitos à vida")

    coisinhas de recordação... tenho 1 montanha que quando a saudade (desse tempo e do autor) aperta fazem as minhas delicias numa tentativa de proximidade que quando não pode ser fisica tem de ser inventada de uma outra forma :)

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  4. *
    lembro os meus que partiram,
    para o outro lado desconhecido,
    tango só á noite, á média luz,
    estranhamente ouço o fado num
    dia de sol, em palavras sem
    brilho, de uma verdade imensa :
    /
    a mãe
    aos filhos dá beijos,
    mas o pai sem os beijar,
    dá-lhes mais beijos quq ela !
    ,
    saudações,
    ficam,
    *

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  5. escarlate,

    Ui!... Estamos lixados!... Ou não...

    Um beijo

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  6. ANTIFALSIDADES,

    Bem vejo que sabemos o que falamos...

    Sabes, conheço algumas crianças que choram quando sabem que o pai vem aí!...

    Mas isso são outras histórias reais!

    Abraço!

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  7. Assim não vale, Mário!!
    Aviões de papel e saudades?? A mesa da minha sala parece um porta-aviões dos EUA num filme qualquer. O meu Prozac anda com essa mania agora, e passamos horas a fazer aviões de papel na semana passada, alguns inventados, outros seguindo religiosamente dicas do YouTube.
    E esta semana não estou com ele há 5 dias, 5 dias inteirinhos. Foi para o estágio de karaté e eu fiquei, roidinha de saudades. Os aviões continuam na mesa.

    Arrisco dizer que essas lágrimas estavam acompanhadas de um sorriso :)

    Beijinhos

    PS - O jardim está a crescer :)

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  8. é fascinante como os pormenores são apaixonantes. e é incrível como há quem passe ao lado deles vezes sem conta... eu também tenho lá por casa uma caixa que guarda papéis e papelinhos, postais, agendas, fotos, albuns.. eu sei lá já nem sei o que lá há dentro dessa caixa... o meu primo chama-lhe a caixa da amnésia. ;) mas eu sei que guardo lá coisas que me farão sorrir quando me voltar a encontrar com elas.

    *

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  9. Excelente Mário.
    Há momentos simples, que parecem desprovidos de qualquer significancia, iguais a tantos outros, mas que nos tocam com intensidade.
    E é quase inglório tentar explica-los na sua grandeza quando nao foram os outros a vive-lo.
    Mas tu soubeste descrever esse teu. E como sempre muito bem.

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  10. Bem sei que tardei Mário, cá fica o meu comentário, e garanto-te que o sofrimento por antecipação não te alivia o embate, nunca alivia, e é algo por que terás que passar, é assim que a biologia se completa:

    http://outranaferradura.blogspot.com/2010/07/o-primeiro-voo-do-albatroz.html

    Um abraço

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  11. Do que mais tenho são saudades do meu filho quando era pequenino. Do cheirinho dele, da suavidade das bochechas nas quais pespeguei beijos sem conta, e das conversas que mantinha-mos enquanto ele não adormecia. E se ele sabia dizer coisas! Cheguei a escancarar a boca de espanto pelo raciocínio lógico que ainda tão criança demonstrou ter. Mas entretanto cresceu e tornou-se diferente, o que me deixa uma grande saudade, ás vezes ainda o trato como se ele fosse um menino, atitude que compreende, ainda assim atira-me com um olhar de soslaio, como que a querer dizer-me - olha que eu cresci!

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  12. mantínhamos - era assim que devia ter escrito!... :o

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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