Uma leitura crítica do medo que não protege, mas limita e das formas possíveis de o reconhecer, desactivar e superar, no plano individual e colectivo.
Nota Preliminar
Este ensaio nasce de uma inquietação íntima e de um desejo profundo de compreender melhor a forma como o medo — sobretudo aquele que não protege, mas condiciona — molda os comportamentos, as decisões e a própria estrutura emocional e social das pessoas no mundo contemporâneo.
Não sou académico, investigador nem especialista nas áreas abordadas. Escrevo apenas como um mero e humilde observador pensante, alguém que olha para dentro e para fora com curiosidade, espírito crítico e vontade de questionar o que é dado como adquirido. As reflexões que aqui partilho resultam da leitura atenta de autores com obra reconhecida, da observação quotidiana, da escuta de outros e da experiência de viver num tempo em que muitos vivem mais para corresponder do que para ser.
Este texto não pretende ensinar, convencer ou provar. Apenas convidar à reflexão. Se, porventura, tocar em algo essencial, será já recompensa suficiente. E se, em algum ponto, falhar ou parecer insuficiente, peço desde já a indulgência de quem lê — pois escrevo, não com autoridade, mas com verdade.
I. INTRODUÇÃO
Vivemos numa época em que o medo deixou de ser apenas uma emoção ocasional para se tornar uma atmosfera. Medo da instabilidade económica, do fracasso, do envelhecimento, da exclusão, da irrelevância, do erro, do julgamento alheio. Medos que se disfarçam de prudência, mas que silenciosamente limitam, controlam e moldam a vida de milhões de indivíduos.
Importa, desde logo, distinguir entre o medo protector — aquele que tem raízes biológicas, que nos alerta para o perigo real e contribui para a nossa sobrevivência — e o medo castrador, que é induzido, cultivado e perpetuado por estruturas sociais, educativas, políticas e culturais. Este último não protege: condiciona. Não desperta a consciência: adormece o desejo. Não ensina a viver: ensina a obedecer.
Neste ensaio, propõe-se uma reflexão aprofundada sobre o medo como instrumento de controlo e submissão, e sobre as suas consequências na formação do sujeito moderno. Recorrendo a contributos da psicanálise, da sociologia, da psicologia existencial, da antropologia e da teoria política, procurar-se-á demonstrar como as sociedades contemporâneas — especialmente no Ocidente — produzem sujeitos moldados por medos simbólicos, internalizados e crónicos, que substituem a liberdade interior por conformismo funcional.
Ao longo deste percurso, analisar-se-ão as principais frentes onde o medo actua como força castradora:
• A educação, que privilegia a obediência sobre a criatividade;
• A psicologia individual, onde o desejo é reprimido em nome da aprovação;
• A política e a economia, que alimentam a ansiedade como forma de governo e de consumo;
• E a cultura, que reforça padrões de pertença baseados na comparação e na exclusão.
Este não é, portanto, um ensaio sobre o medo natural ou racional. É um ensaio sobre o medo como ideologia invisível, que actua sob a aparência de normalidade e que, por isso mesmo, é tão eficaz a produzir cidadãos dóceis, consumidores compulsivos e identidades amputadas do seu próprio eixo interior.
No final, procuraremos ainda apontar caminhos possíveis para a superação deste medo que aprisiona — não através da negação do risco, mas pela reconquista da coragem, da autenticidade e do desejo. Pois, como afirmava Erich Fromm, talvez o maior desafio do ser humano não seja livrar-se do mal externo, mas reconhecer o medo interior que o impede de ser quem verdadeiramente é.
II. O MEDO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL
Desde as suas origens, o medo acompanhou o ser humano como uma resposta biológica fundamental à ameaça. Evolutivamente, foi o medo que garantiu a sobrevivência da espécie: a fuga diante do predador, a prudência perante o perigo, o alerta em situações de instabilidade. Este medo instintivo, enraizado no sistema límbico — nomeadamente na amígdala cerebral — tem uma função protectora, essencial à vida. É o que podemos designar por medo primário ou natural.
Contudo, à medida que as sociedades humanas se tornaram mais complexas, o medo deixou de estar apenas associado ao perigo físico imediato e passou a operar num plano simbólico e social. As ameaças passaram a ser construídas culturalmente: o medo de desagradar aos deuses, de ser excluído do grupo, de transgredir normas, de fracassar, de não corresponder. Este medo secundário ou condicionado tornou-se uma ferramenta poderosa de coesão, mas também de domínio.
Segundo a antropóloga Mary Douglas, na sua obra Pureza e Perigo (1966), o medo está intrinsecamente ligado à noção de ordem e pureza social. Os tabus e rituais existentes em diversas culturas operam como estruturas simbólicas de protecção contra o caos. O “perigoso” é, muitas vezes, apenas aquilo que escapa à classificação dominante. Assim, o medo não é apenas uma reacção emocional: é um instrumento organizador da realidade social, com funções morais e políticas.
Esta ideia é reforçada por René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), ao mostrar que muitas comunidades primordiais canalizaram o medo e a violência interna através de mecanismos de sacrifício. A criação de bodes expiatórios — culpados simbólicos sobre os quais se descarrega a angústia colectiva — revela como o medo pode funcionar como ferramenta de estabilização social à custa do indivíduo.
Na modernidade, este medo simbólico transforma-se: já não é o medo da tempestade ou da maldição tribal, mas o medo da falência pessoal, da irrelevância social, da desaprovação colectiva. Trata-se de uma nova pedagogia do medo, mais invisível, mas igualmente eficaz — porque internalizada.
É neste ponto que Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), introduz o conceito de panoptismo, como metáfora da sociedade moderna. O panóptico — modelo ideal de prisão desenhado por Jeremy Bentham — permite que todos sejam potencialmente observados sem saberem quando. A consequência? A autocensura, a normalização do comportamento, a submissão sem necessidade de violência física. O medo torna-se disciplina, e a disciplina torna-se identidade.
O medo, ao longo da história, deixa de ser apenas uma reacção e passa a ser um projecto. Um projecto de domesticação dos corpos, de contenção dos impulsos, de modelação dos desejos e de reprodução da ordem social. Se antes se temia a morte física, hoje teme-se a morte simbólica: o esquecimento, o ridículo, o fracasso, a rejeição. E é este medo, subtil e omnipresente, que sustenta boa parte das dinâmicas de poder nas sociedades contemporâneas.
O medo tornou-se, assim, uma linguagem social — uma gramática invisível que regula o que se pode e não se pode ser. E o mais inquietante é que essa gramática, por estar profundamente interiorizada, já nem sempre é sentida como imposição externa. O sujeito obedece, não porque é coagido, mas porque já não sabe desejar fora dos limites impostos.
Esta passagem do medo natural para o medo simbólico e estruturado marca uma viragem decisiva na história da subjectividade humana. É sobre esta base que se constroem as restantes dimensões deste ensaio: a educacional, a psíquica, a política e a cultural — todas elas alimentadas por uma arquitectura do medo que, em vez de proteger, aprisiona.
III. A DIMENSÃO EDUCACIONAL: A ESCOLA COMO SEMINÁRIO DO MEDO
A escola é, à primeira vista, um espaço de aprendizagem, socialização e emancipação. Contudo, sob uma análise mais crítica e multidisciplinar, torna-se evidente que as instituições educativas modernas são também dispositivos estruturantes de obediência, padronização e controlo comportamental — muitas vezes através da produção sistemática de medo.
Este medo manifesta-se de forma aparentemente inofensiva: medo de errar, de falar em público, de tirar má nota, de não corresponder às expectativas. Mas os seus efeitos são profundos e duradouros: aniquilação progressiva da criatividade, da espontaneidade, da coragem e da autonomia.
1. A escola como aparelho disciplinar
O filósofo Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), mostrou como, desde o século XVIII, a escola foi desenhada nos moldes de outras instituições disciplinares (prisões, quartéis, hospitais). A divisão do espaço, o tempo rigidamente segmentado, a vigilância permanente e a hierarquia professor-aluno criaram um sistema em que aprender se pode confundir com obedecer.
A disciplina escolar não visa apenas transmitir conteúdos, mas sobretudo produzir corpos dóceis e previsíveis — treinados para responder a estímulos externos e habituados à avaliação constante.
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir
Nota de reflexão crítica sobre a citação de Michel Foucault
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir (1975)
Esta frase de Foucault, frequentemente citada, sintetiza de forma potente a crítica à função disciplinadora da escola moderna. É, no entanto, importante contextualizá-la. Foucault não estava a atacar o ato de ensinar em si, mas sim a denunciar como as instituições modernas — entre elas a escola — foram desenhadas à imagem de estruturas de controlo: prisões, quartéis, fábricas.
A sua crítica dirige-se ao modelo institucional que normaliza comportamentos, mais do que ao ato educativo em si. Ainda assim, importa perguntar: será que, hoje, a escola ainda ensina a calar e a sentar direito?
A resposta, infelizmente, ainda é em parte afirmativa. Muitos sistemas educativos continuam a privilegiar:
• A conformidade sobre a criatividade;
• A resposta certa sobre a dúvida honesta;
• A submissão à autoridade sobre o pensamento crítico.
Mas também é verdade que existem espaços de transformação real. Muitas escolas e educadores comprometidos procuram hoje abrir lugar à expressão, à escuta e à participação significativa dos alunos. Projectos educativos alternativos, pedagogias participativas, metodologias de aprendizagem activa e o acesso a plataformas digitais criaram novas possibilidades de voz e autonomia.
Portanto, a frase de Foucault mantém validade como diagnóstico — mas não deve ser absolutizada. Serve de alerta, não de sentença. O que está em causa não é a disciplina, mas a domesticação. A escola pode, sim, ser um lugar onde se aprende a falar, a pensar e a viver — desde que não se esqueça de que também pode, inadvertidamente, ensinar a calar.
2. O medo de errar e o fracasso como identidade
O erro, na maioria dos sistemas educativos, não é visto como parte natural da aprendizagem, mas como falha pessoal. O aluno teme o julgamento, a nota, a humilhação pública. Esta lógica da penalização gera ansiedade crónica e conduz à inibição progressiva da experimentação.
Donald Winnicott, na sua obra O Brincar e a Realidade (1971), sublinha a importância do espaço lúdico e da permissividade emocional para o desenvolvimento de um (self) “eu” autêntico. Quando a criança é impedida de errar ou brincar livremente, constrói defesas psicológicas que perduram na vida adulta — entre elas, o falso “eu”, que aprende a representar o “bom aluno” mesmo que isso implique desconexão do desejo interior.
3. A performance como valor e o medo de não corresponder
O sistema educativo, centrado na avaliação quantitativa (testes, exames, rankings), transforma o processo de aprendizagem num espectáculo de performance contínua. Os alunos não estudam para compreender, mas para “acertar”; não participam para expressar, mas para obter aprovação.
Este ambiente cria personalidades ansiosas, dependentes da validação externa e avessas ao risco. O medo da reprovação social — mais do que escolar — instala-se como motor emocional do comportamento. Desde cedo, os alunos aprendem que o seu valor está condicionado à sua capacidade de corresponder. Não se busca o saber — busca-se o prémio.
Este fenómeno é particularmente visível em sistemas de ensino muito competitivos (como os da Coreia do Sul, Japão ou mesmo Portugal), onde as taxas de ansiedade, depressão e suicídio entre adolescentes têm sido objecto de estudos preocupantes nos últimos anos (OCDE, 2018).
4. A reprodução das desigualdades e a exclusão simbólica
A obra de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, A Reprodução (1970), revela como o sistema educativo não corrige desigualdades sociais — reprodu-las. O “mérito” é, muitas vezes, apenas a adaptação a códigos culturais e linguísticos já presentes nos meios sociais privilegiados.
O medo de “não estar à altura” não é apenas académico — é identitário. Muitos alunos oriundos de contextos menos favorecidos internalizam a ideia de que não pertencem, não servem, não podem. Esta violência simbólica gera desmotivação, abandono escolar e perpetuação de ciclos de exclusão.
“O sistema de ensino consagra a desigualdade sob a forma de legitimidade.”
— Pierre Bourdieu, A Reprodução
5. A negação da criatividade e da autonomia
O medo escolar não forma pensadores — forma executantes. A criatividade, o pensamento divergente, o questionamento da norma são, frequentemente, vistos como ameaça à ordem estabelecida. Em vez de encorajar o pensamento crítico, a escola tende a premiar a repetição, o silêncio, a adequação.
Ivan Illich, em Sociedade sem Escolas (1971), propôs uma crítica radical: o sistema escolar, tal como concebido, serve para domesticar o pensamento e adaptar o indivíduo à lógica do mercado e da obediência. A escola cria a ilusão da liberdade através da competição, mas no fundo, educa para o conformismo.
A dimensão educacional do medo castrador é talvez a mais insidiosa, porque actua na fase mais moldável da vida humana. A escola, idealmente um espaço de emancipação, torna-se — salvo raras excepções — um laboratório de produção de sujeitos dóceis, performativos e ansiosos, cuja principal lição é aprender a temer: o erro, o julgamento, o fracasso, a diferença.
O sujeito que sai deste percurso escolar já aprendeu a desconfiar do próprio impulso criativo, a esconder o que sente e a medir o próprio valor pela aprovação alheia. E é com esse material humano que o mundo adulto, político e económico irá trabalhar.
No capítulo seguinte, veremos como esse sujeito — educado no medo — carrega esse padrão para dentro de si, dando origem àquilo que a psicologia existencial e a psicanálise descrevem como o falso eu (self) e a melancolia de não saber quem se é.
IV. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA EXISTENCIAL: DO SUPEREGO AO VAZIO
O medo, uma vez inculcado pelas estruturas familiares, escolares e sociais, não permanece na periferia da vida psíquica. Internaliza-se, converte-se em voz interior, em exigência constante, em autocensura. Esta interiorização do medo é, na linguagem psicanalítica, a instalação do superego — aquela instância mental que julga, corrige, pune e exige, com base em normas que raramente são conscientes.
Nas palavras de Freud, o superego é herdeiro da autoridade parental e cultural. Mas, quando o sujeito cresce num ambiente em que o amor é condicionado ao desempenho, a aceitação depende da obediência, e o erro é punido com desaprovação, o superego adquire uma tonalidade patológica: torna-se tirânico.
“O superego pode ser mais cruel do que qualquer pai.”
— Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização (1930)
Este juiz interior, formado no medo da rejeição e da punição, transforma-se na principal fonte de angústia existencial. O sujeito já não precisa de ser controlado por forças externas: traz o controlo dentro de si.
1. O medo da liberdade e o desejo inconsciente de submissão
Erich Fromm, em O Medo à Liberdade (1941), analisa o paradoxo moderno: quanto mais liberdade se conquista externamente, mais o sujeito se sente perdido internamente. A liberdade, com as suas exigências de escolha e responsabilidade, assusta. E o medo da liberdade leva muitos a buscar refúgio em sistemas rígidos de autoridade ou conformismo.
“A liberdade pode ser um fardo insuportável para quem não desenvolveu a estrutura interior para a sustentar.”
— Erich Fromm
A fuga à liberdade manifesta-se na aceitação cega de ideologias, na idolatria de figuras fortes, na identificação com grupos que prometem segurança. Mas, sobretudo, manifesta-se na vida quotidiana: a pessoa que segue carreiras que não escolheu, padrões de vida que não deseja, valores que não compreende — tudo para não enfrentar o abismo da escolha livre.
2. O falso eu (self): sobrevivência em troca de verdade
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, descreve na sua obra O Brincar e a Realidade (1971) o conceito de falso eu (self) — uma construção defensiva da personalidade que se adapta às exigências do meio, sacrificando a espontaneidade, a autenticidade e o desejo.
O falso eu (self) não é uma mentira consciente, mas uma máscara emocional que se forma em resposta à falta de acolhimento verdadeiro durante a infância. O sujeito aprende que só será amado, valorizado ou aceite se esconder partes de si, se adaptar, se representar.
Na vida adulta, este mecanismo transforma-se em modos de vida inteiros:
• Pessoas bem-sucedidas que vivem em angústia profunda;
• Relações baseadas em papéis e expectativas, e não em intimidade real;
• Identidades performativas, moldadas por likes, estatuto, imagem.
“O falso eu (self) realiza todas as exigências do meio, mas o eu verdadeiro permanece escondido, às vezes para sempre.”
— D. W. Winnicott
3. A melancolia existencial: a vida como tarefa, não como experiência
Quando o sujeito vive segundo o falso eu, durante tempo suficiente, começa a emergir um fenómeno descrito por Rollo May como melancolia existencial: uma sensação difusa de vazio, perda de sentido, e alienação da própria vida.
• “Não sei o que quero”
• “Sinto que a minha vida não me pertence”
• “Tenho tudo o que devia querer, mas sinto-me vazio”
Estas são expressões recorrentes de pessoas que cumpriram todos os critérios de sucesso e pertença, mas perderam o contacto com o seu desejo autêntico.
“A ansiedade profunda é a resposta do ser humano à ameaça de não ser.”
— Rollo May, The Meaning of Anxiety (1950)
A melancolia aqui não é tristeza ocasional, mas uma desconexão ontológica, onde o viver é substituído por uma sequência de tarefas, deveres, papéis. A pessoa continua a existir — mas não sente que vive.
4. Ansiedade, depressão e sintomatologia psíquica da obediência
A modernidade tardia, com a sua ênfase em performance, produtividade e visibilidade, agrava este quadro psíquico. O medo de não ser suficiente, de falhar, de ser irrelevante, gera ansiedade crónica e estados depressivos difusos.
• A Organização Mundial da Saúde reconhece a depressão como uma das principais causas de incapacidade funcional no mundo.
• O burnout, anteriormente limitado a profissões de risco, alastra-se agora à generalidade da vida laboral.
• O consumo excessivo de psicofármacos e estimulantes revela uma sociedade que adormece o sintoma sem escutar a sua origem.
Estes sintomas não são desvios patológicos individuais — são expressões psíquicas de uma cultura que condiciona o sujeito a adaptar-se constantemente, sem nunca se encontrar.
5. A desconexão do desejo e a colonização do eu
A consequência última da instalação do medo castrador é a ruptura entre o sujeito e o seu desejo. A pessoa já não sabe o que quer, apenas o que “deve querer”. Deseja o que a cultura valoriza, o que é socialmente premiado, o que parece seguro.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), argumenta que a sociedade contemporânea fabrica sujeitos narcisicamente frágeis, cuja identidade depende da aprovação externa. O medo de não ser desejável, de não estar à altura, de não ser “visto”, é o que move as decisões — pessoais, profissionais, sociais.
“A sociedade moderna não cria indivíduos — cria consumidores de identidade.”
— Christopher Lasch
O medo, quando internalizado, deixa de ser protecção e torna-se prisão. Em vez de orientar o sujeito para a vida, orienta-o para o desempenho. O superego transforma-se em carrasco emocional, o desejo é substituído por imitação, e o eu autêntico é abandonado em nome da pertença.
Nesta prisão invisível, o sujeito continua a funcionar — mas ao preço de se exilar de si mesmo.
No capítulo seguinte, veremos como esta desconexão individual se torna terreno fértil para a manipulação social e política em larga escala — onde o medo não só adoece o sujeito, mas torna-se ferramenta de governação e de manutenção da ordem.
V. A DIMENSÃO SOCIOPOLÍTICA: O MEDO COMO MECANISMO DE GOVERNAÇÃO
O medo, enquanto emoção primária, sempre foi reconhecido como força mobilizadora. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, as sociedades modernas não se libertaram do medo com a ascensão da razão — apenas o sofisticaram. Nas democracias contemporâneas, o medo não desapareceu: tornou-se método de governação, engenharia de consentimento e motor de políticas públicas.
1. A política do medo: segurança em troca de liberdade
Ao longo da história, regimes autoritários sempre se sustentaram sobre o medo: do inimigo interno, do estrangeiro, da desordem, do caos. Contudo, mesmo em sociedades ditas democráticas e liberais, o medo continua a ser cultivado como estratégia para justificar medidas de controlo.
Giorgio Agamben, em Estado de Excepção (2003), argumenta que o mundo contemporâneo vive numa condição política em que o estado de excepção se tornou norma. A invocação contínua de ameaças — terrorismo, crises sanitárias, catástrofes económicas — permite aos governos suspender direitos, reforçar a vigilância, e limitar liberdades civis sem resistência significativa.
“A segurança transforma-se numa técnica de governação que exige vigilância total em nome do bem-estar colectivo.”
— Agamben, Estado de Excepção
Temos como exemplos:
• O Patriot Act, aprovado nos EUA após os atentados de 11 de Setembro de 2001, ampliou drasticamente os poderes de vigilância estatal.
• Durante a pandemia de COVID-19, diversos governos impuseram medidas de controlo excepcionais, discutíveis e com reduzido escrutínio democrático — frequentemente aceites sem contestação pela população, movida pelo medo.
2. A cultura securitária e o cidadão passivo
A sociedade do medo produz uma cultura em que a segurança se torna valor supremo, substituindo a liberdade, a criatividade ou a justiça. Este paradigma gera cidadãos que preferem ser protegidos do que responsáveis, que preferem a estabilidade à crítica, que aceitam ser vigiados em nome do conforto.
Zygmunt Bauman, em Medo Líquido (2006), descreve uma sociedade onde o medo é fragmentado, vago, mas omnipresente. O sujeito moderno não teme uma ameaça específica — teme a instabilidade, a perda, o colapso de um sentido de ordem.
“A ansiedade moderna não tem rosto — e por isso não tem fim.”
— Bauman, Medo Líquido
Consequência política: quanto mais medo, menos mobilização cívica. O medo esvazia as praças, silencia o debate, enfraquece o raciocínio crítico. Uma população ansiosa não protesta — adapta-se.
3. O inimigo simbólico: fabricar o outro
A instrumentalização do medo exige a construção de inimigos. Desde a Antiguidade que a coesão interna se faz em torno da ameaça externa. Na contemporaneidade, os alvos variam consoante o momento histórico e o interesse político: imigrantes, minorias, desempregados, opositores ideológicos.
Noam Chomsky, em Media Control (1997), demonstra como os meios de comunicação, aliados a interesses políticos, criam um clima de ameaça constante que justifica políticas autoritárias e desvia a atenção das verdadeiras causas dos problemas sociais.
“A manipulação mediática serve para fabricar consentimento — e o medo é o seu ingrediente central.”
— Noam Chomsky
Exemplos contemporâneos:
• A retórica anti-imigração na Europa, usada para justificar o fecho de fronteiras, a criação de zonas de exclusão e o endurecimento policial;
• O uso do medo do “comunismo”, da “ideologia de género” ou do “globalismo” para mobilizar bases conservadoras;
• O medo da “extrema-direita” ou do “regresso ao fascismo” utilizado em campanhas e discursos de esquerda para justificar medidas de censura simbólica ou limitação do debate;
• A intensificação do medo climático em contextos onde o discurso apocalíptico substitui o debate informado, podendo favorecer soluções tecnocráticas pouco escrutinadas.
• O medo da “perda de direitos sociais” ou “do regresso ao passado” utilizado em campanhas eleitorais para mobilizar voto emocional e defensivo.
O que está em causa não é a causa política em si, mas o recurso sistemático ao medo como ferramenta de mobilização emocional e controlo simbólico — independentemente da ideologia que o usa.
4. Aversão ao risco e reforço do conservadorismo
O medo, sobretudo o socialmente induzido, tem consequências políticas mensuráveis. Estudos empíricos demonstram que a percepção de ameaça está correlacionada com o aumento do conservadorismo político.
Estudo: Nature Human Behaviour, 2018 — investigadores analisaram dados de diversos países e concluíram que quando os indivíduos se sentem ameaçados (financeira, fisica ou culturalmente), tendem a adoptar posições mais autoritárias, nacionalistas e conformistas.
Esta aversão ao risco mina a possibilidade de transformação social e política, reforçando o status quo mesmo quando este é gerador de desigualdade.
5. Redes sociais e a microgestão emocional do medo
Na era digital, o medo tornou-se algoritmo. As redes sociais, ao operarem com base em sistemas de engajamento, privilegiam conteúdos polarizadores, indignação moral, indignação emocional e notícias sensacionalistas — todas elas fontes de ansiedade e medo.
Byung-Chul Han, em Psicopolítica (2014), descreve a transição do biopoder disciplinar (Foucault) para uma forma mais insidiosa: o psicopoder, onde os próprios sujeitos colaboram com a sua vigilância e exposição.
“Hoje não somos vigiados — vigiamo-nos a nós próprios com orgulho.”
— Byung-Chul Han
As redes sociais ampliam a comparação, a ansiedade de desempenho, o medo da irrelevância. Mas também reforçam a fragmentação política, a radicalização do discurso, e o ódio identitário — reconfigurando o medo como vínculo afectivo.
A gestão política do medo é, hoje, uma tecnologia de governação emocional. Alimentada por crises reais e artificiais, sustentada por “conteúdos” vigilantes e redes digitais omnipresentes, esta gestão visa manter os cidadãos ocupados com ameaças simbólicas, enquanto o poder se exerce de forma cada vez mais centralizada, opaca e inquestionável.
O medo, aqui, não é acidente — é programa. E o sujeito formado sob esse medo torna-se obediente, previsível, desmobilizado.
No próximo capítulo, veremos como esse mesmo medo, agora combinado com o desejo manipulado e o vazio emocional, é utilizado pelo mercado para transformar indivíduos em consumidores compulsivos — colonizando o desejo e a identidade.
VI. A COLONIZAÇÃO DO DESEJO: O MERCADO, A PUBLICIDADE E O CONSUMO
As sociedades de mercado desenvolveram um modelo altamente eficaz de controlo social: não apenas pela repressão ou vigilância, mas pela gestão do desejo. O medo de não pertencer, de não ser suficiente, de falhar ou de desaparecer é convertido — subtil e eficazmente — em consumo. Não se trata apenas de vender produtos, mas de fabricar necessidades emocionais e identidades desejáveis.
1. O medo como motor do consumo simbólico
O mercado contemporâneo não vende coisas — vende soluções para medos.
• Cosméticos para o medo de envelhecer;
• Tecnologias para o medo de ficar para trás;
• Marcas de roupa para o medo de parecer inadequado;
• Planos de carreira para o medo da irrelevância.
Este fenómeno é descrito por Zygmunt Bauman em Vida de Consumo (2007), onde mostra como a lógica de consumo se infiltra na construção do eu, transformando cada sujeito num “produto” que deve ser constantemente actualizado, aperfeiçoado, reformulado.
“Hoje já não se consome para ter — consome-se para ser.”
— Zygmunt Bauman, Vida de Consumo
A publicidade moderna não apresenta produtos — apresenta vidas ideais, modelos de felicidade, estéticas de pertença. E fá-lo alimentando uma insegurança latente: “tu ainda não és o suficiente.”
2. A publicidade como engenharia emocional
A indústria publicitária desenvolveu técnicas sofisticadas de persuasão emocional e inconsciente, baseadas em estudos de psicologia comportamental e neurociência. O objectivo é claro: associar produtos a estados emocionais desejáveis.
Exemplo paradigmático:
• A Apple vende mais do que tecnologia: vende estética, distinção, prestígio silencioso.
• A Nike não vende sapatilhas: vende superação, resiliência, espírito vencedor.
• A indústria cosmética não vende beleza: vende aprovação, sedução, auto-estima.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), descreve como o capitalismo moderno cria sujeitos narcisicamente vulneráveis, permanentemente dependentes da aprovação externa, facilmente manipuláveis por promessas de valorização simbólica.
“A auto-estima tornou-se um produto que se compra.”
— Christopher Lasch
3. O consumo como resposta ao vazio existencial
Depois de ter sido moldado pela escola, controlado pela política e formatado pelas redes, o sujeito contemporâneo encontra no consumo uma espécie de resposta existencial rápida. Um calmante para a ansiedade difusa, um substituto simbólico para o desejo autêntico.
O problema, como refere Erich Fromm em Ter ou Ser? (1976), é que o desejo genuíno nunca é plenamente satisfeito por objectos. E o que não é satisfeito, é perpetuado. Assim, o ciclo repete-se: insegurança → desejo artificial → compra → prazer momentâneo → frustração → novo desejo.
“O consumidor moderno compra ilusões de felicidade.”
— Erich Fromm
Fenómenos associados:
• Compras compulsivas como forma de regulação emocional (estudos em psicologia clínica);
• “Fast fashion” e “fast identity” — identidades efémeras e descartáveis;
• Substituição da experiência vivida pela experiência partilhável (instagramável).
4. O branding e a mercantilização do self
Num mundo onde tudo é marca, até o eu se torna mercadoria. A cultura da auto-imagem e da influência transforma cada pessoa num projecto de marketing pessoal.
• A identidade é construída em função da visibilidade;
• O corpo torna-se montra;
• As escolhas tornam-se performances.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2010), descreve esta transição: o sujeito já não é explorado por outro — é explorador de si mesmo. Assume voluntariamente o papel de produto e gestor, publicitário e consumidor da própria identidade.
“Hoje, somos simultaneamente campo de batalha e soldado, patrão e escravo.”
— Byung-Chul Han
5. A colonização do desejo: deixar de saber o que se quer
A forma mais profunda de dominação é aquela que transforma o desejo do outro em desejo próprio. O sujeito colonizado não percebe que os seus sonhos, gostos e ambições foram plantados.
Este fenómeno é conhecido como “heteronomia simbólica” — viver sob um desejo que não é nosso, mas que se tornou indistinguível do que se crê ser identidade.
Na prática:
• Jovens que escolhem carreiras por status, e não por vocação;
• Adultos que compram casas, carros e estilos de vida para validar a própria existência;
• Relações baseadas na aparência, e não na verdade íntima.
António Damásio, neurocientista português, em O Erro de Descartes (1994), mostra que as emoções são essenciais à construção da razão e da identidade. Quando as emoções são manipuladas externamente, a autonomia subjectiva colapsa.
O medo transformado em desejo molda uma cultura de carência permanente, onde o sujeito não sabe o que quer — apenas sente que lhe falta algo. O mercado não responde a necessidades reais, mas cria vazios simbólicos que só ele pode prometer preencher.
O sujeito colonizado pelo consumo não vive para ser, mas para parecer; não deseja a vida — deseja a imagem dela.
No capítulo seguinte, exploraremos como este cenário se enraíza em fundamentos antropológicos profundos, e como o medo tem sido historicamente utilizado como mecanismo de coesão social, mesmo que à custa da individualidade.
VII. SÍNTESE ANTROPOLÓGICA: O MEDO COMO ESTRATÉGIA DE COESÃO SOCIAL
O medo não é apenas um fenómeno psicológico ou político — é também, e desde os primórdios da humanidade, uma matriz de organização colectiva. Em todas as culturas conhecidas, o medo desempenhou um papel fundamental na regulação da convivência, na criação de tabus, e na definição do aceitável e do proibido.
Neste sentido, o medo não foi apenas opressivo: foi estruturante. Mas essa função estruturante teve (e tem) um custo — a anulação parcial da individualidade em nome da estabilidade do grupo.
1. O medo como fundamento do sagrado e da moral
Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), defende que a classificação simbólica do mundo — o que é puro ou impuro, permitido ou proibido — é sustentada por emoções como o medo. O que está “fora de lugar” é percebido como ameaça, não necessariamente física, mas à ordem moral.
“O perigo é o que escapa à ordem simbólica.”
— Mary Douglas
Daí emergem os tabus: interdições culturais carregadas de medo colectivo. Comer certos alimentos, tocar certos corpos, pronunciar certas palavras — o que é interdito não é apenas desencorajado, é sacrílego. E a violação do tabu é punida com exclusão, vergonha ou castigo simbólico.
Essa estrutura foi essencial para:
• Criar laços de pertença e identidade comum;
• Regular comportamentos numa época sem leis formais;
• Interiorizar a moralidade como instinto.
Contudo, esse mesmo mecanismo permanece activo, ainda que camuflado, na sociedade contemporânea.
2. O bode expiatório e a manutenção do grupo
René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), propõe uma leitura da origem da cultura baseada na gestão colectiva do medo e da violência. Para Girard, o ser humano é essencialmente mimético: deseja o que o outro deseja, gerando rivalidade. Esse conflito permanente ameaça o grupo.
Qual é a solução arcaica? Transferir a violência para um bode expiatório. Um indivíduo ou grupo é escolhido como responsável pelo caos — e eliminado, punido ou marginalizado. Assim, o grupo liberta-se temporariamente da angústia.
“O sacrifício é uma forma de restaurar a ordem através da exclusão de um inocente.”
— René Girard
Esta lógica mantém-se:
• Nas redes sociais: linchamentos digitais, cancelamentos;
• Na política: minorias demonizadas;
• Na cultura: figuras públicas como catalisadores de frustração colectiva.
O medo do caos é resolvido através da exclusão do diferente. A coesão do grupo é comprada com a renúncia à justiça individual.
3. Medo e pertença: o lugar do indivíduo na tribo
Do ponto de vista antropológico, a necessidade de pertença é tão vital quanto a de alimento ou abrigo. O ser humano, biologicamente vulnerável, só sobreviveu graças à vida em grupo. Daí que o medo da exclusão social seja um dos medos mais profundos e persistentes da espécie.
Este medo traduz-se em comportamentos altamente adaptativos:
• Conformismo moral e estético;
• Censura da diferença;
• Imitação dos hábitos do grupo dominante.
Claude Lévi-Strauss, em O Pensamento Selvagem (1962), argumenta que a cultura é o modo humano de regular a incerteza. E o medo é a emoção que garante que as fronteiras culturais sejam respeitadas. O “estrangeiro”, o “estranho”, o “fora da norma” são marcados como perigosos — não por uma ameaça real, mas porque desafiam a coesão simbólica.
4. A erosão da autonomia em nome da integração
O medo antropológico da exclusão cria uma tensão permanente entre o eu e o grupo. A autenticidade pessoal pode ser percebida como ameaça colectiva. Daí que, muitas vezes, o sujeito escolha a adaptação em vez da expressão.
Este padrão não é exclusivo de sociedades tribais ou tradicionais. Nas culturas contemporâneas, o medo de não corresponder ao grupo social de referência permanece altíssimo:
• Jovens que escondem opiniões ou orientações por medo de exclusão;
• Profissionais que se calam para manter prestígio;
• Pessoas que reprimem desejos para manter aceitação familiar ou religiosa.
“A maior parte das pessoas não vive a própria vida — vive a vida que foi socialmente autorizada.”
— (Reflexo da crítica de Erich Fromm)
5. Entre o vínculo e o exílio: o preço da singularidade
Do ponto de vista antropológico, o medo foi — e é — o cimento das comunidades. Mas esse cimento endurece com o tempo. E o que antes protegia, passa a aprisionar.
A singularidade, a autonomia, a criatividade, só podem florescer se o medo da exclusão deixar de ser dominante. Caso contrário, cada um permanece refém do grupo que o acolheu à condição de se calar.
A cultura do medo não desaparece — renova-se nos códigos do presente.
• Nos padrões corporais exigidos;
• Nas etiquetas linguísticas impostas;
• Nos sistemas de validação social digital.
Tudo o que foge à norma ainda é punido com rejeição. E, por isso, muitos preferem pertencer do que ser.
Do ritual ancestral ao algoritmo contemporâneo, o medo manteve sempre uma função organizadora. Serviu para proteger o grupo — mas ao custo da liberdade individual.
Se a cultura nasce da contenção do medo, a maturidade cultural só será possível quando o medo deixar de ser a base da coesão. Só então o grupo deixará de exigir o silêncio da diferença como preço da aceitação.
No próximo capítulo, exploraremos caminhos possíveis para resgatar a coragem, a autenticidade e o desejo, como formas de superação ética e existencial do medo que castra.
VIII. CAMINHOS POSSÍVEIS: DA CONSCIENTIZAÇÃO À RECONEXÃO
Após atravessarmos múltiplas dimensões em que o medo actua como força modeladora — educativa, psíquica, política, económica, antropológica — importa pensar como se pode viver sem que o medo determine o percurso da existência. Não se trata de negar o medo, mas de restaurar a sua justa medida. De deixar que nos alerte, sem que nos governe. De reconhecer quando ele protege — e quando nos exila de nós próprios.
1. Reconhecer o medo que não protege
O primeiro passo é a consciência crítica.
O medo castrador tem poder porque actua disfarçado: de prudência, de norma, de bom senso, de responsabilidade. Identificá-lo é o início da libertação.
Exercício possível:
• Quando surge o medo: é protecção ou é submissão?
• Estou a evitar um risco real ou apenas a fugir da desaprovação?
• A decisão que estou prestes a tomar é movida pelo meu desejo ou pela necessidade de corresponder?
Esta auto-indagação, feita com honestidade, permite distinguir o medo que salva do medo que silencia.
2. Reeducar o desejo e o pensamento crítico
Grande parte dos medos que nos condicionam resulta de desejos que não são verdadeiramente nossos. Foram introjectados — pela família, pela escola, pela publicidade, pela cultura. Recuperar o desejo genuíno é um processo delicado, mas vital.
Estratégias possíveis:
• Questionar narrativas dominantes sobre sucesso, felicidade, normalidade;
• Desconstruir discursos automáticos como “é assim que tem de ser” ou “sempre foi assim”;
• Resgatar práticas reflexivas: leitura, escrita, diálogo, silêncio.
Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (1996), lembra-nos que educar é um ato de liberdade — e que o pensamento crítico é o antídoto contra a domesticação do espírito.
“Ensinar exige coragem para dizer o que se pensa — mesmo quando se teme o julgamento.”
— Paulo Freire
3. Restaurar o vínculo com o eu autêntico
A reconexão interior exige espaço, tempo e escuta. O eu verdadeiro não emerge sob pressão — precisa de ambiente favorável. Há que reduzir o ruído exterior para escutar o que já existe dentro de nós.
Caminhos possíveis:
• Terapia ou acompanhamento psicanalítico;
• Escrita íntima como prática de revelação;
• Criação artística sem finalidade produtiva;
• Caminhadas solitárias, contacto com a natureza, meditação.
Donald Winnicott defendeu que a autenticidade começa onde o sujeito pode brincar, criar, viver sem medo do olhar do outro.
“A saúde é a capacidade de estar só — sem se sentir ameaçado.”
— Winnicott
4. Reencantar a vida pela coragem
Viver com autenticidade é um ato de coragem diária. Não há coragem sem medo — mas há coragem que age mesmo com ele. E essa coragem não é grandiosa ou heróica: é, muitas vezes, silenciosa, íntima, quase imperceptível.
• Dizer “não” quando se esperava um “sim”;
• Mudar de rumo profissional aos cinquenta anos;
• Expor uma fragilidade sem medo de parecer fraco;
• Amar sem garantias.
Rollo May, em The Courage to Create (1975), afirma que a criação é o contrário da adaptação passiva. Criar é afirmar-se contra o medo — mesmo que o mundo não compreenda.
“A coragem não é ausência de medo — é afirmação da existência apesar dele.”
— Rollo May
5. Criar comunidades de confiança e partilha
Ninguém se liberta do medo sozinho. Se o medo é socialmente cultivado, a confiança também precisa de ser socialmente reconstruída.
Propostas concretas:
• Criar espaços de escuta sem julgamento (círculos de partilha, grupos de apoio, conversas profundas);
• Promover uma educação que valorize o erro como caminho, a pergunta como saber e a diversidade como riqueza;
• Estimular culturas de trabalho e convivência baseadas no respeito emocional, e não na pressão ou na vigilância.
Bell Hooks, pensadora e pedagoga afro-americana, recorda-nos que o amor — entendido como ética relacional — é o maior gesto político contra o medo.
“O medo constrói muros — o amor constrói pontes.”
— Bell Hooks
6. Praticar a recusa ética
Por fim, há momentos em que a libertação do medo exige recusa. Dizer não ao que castra, mesmo que ainda não se saiba o que virá a seguir. Recusar narrativas, papéis, sistemas, vínculos — não por rebeldia gratuita, mas por fidelidade ao que em nós ainda pulsa.
Essa recusa é, muitas vezes, solitária. Mas é também o início de uma nova pertença — não ao grupo que exige a máscara, mas à própria vida, tal como ela é.
Não há método definitivo para vencer o medo. Mas há gestos de lucidez e coragem que o desarmam todos os dias.
• Reconhecê-lo.
• Escutá-lo.
• Desobedecer-lhe.
• Criar apesar dele.
• Amar dentro dele.
Cada gesto de reconexão com o desejo, com a verdade interior, com o outro sem máscaras, é uma pequena revolução contra a cultura do medo.
E talvez seja apenas assim — passo a passo, vínculo a vínculo, gesto a gesto — que se constrói a verdadeira liberdade.
Eco Intercultural – Bushidō: O medo sob o olhar da honra
Num ensaio que procura analisar criticamente o papel do medo nas sociedades ocidentais modernas — sobretudo enquanto instrumento de conformismo, submissão e manipulação — é fundamental evitar a armadilha da universalização. O que é problemático num certo modelo cultural pode assumir outro significado noutro contexto. Por isso, propõe-se aqui um breve eco intercultural: como é que o medo é compreendido noutra tradição civilizacional profundamente distinta — a dos antigos samurais japoneses, através do código Bushidō?
O medo como prova de espírito
O Bushidō — literalmente “caminho do guerreiro” — foi o código ético e filosófico que guiou, durante séculos, a vida dos samurais no Japão feudal. Enraizado no confucionismo (ética e dever), no zen-budismo (impermanência) e no xintoísmo (lealdade ancestral), esse código não nega o medo — mas não o tolera como mestre.
O medo existe, mas não deve comandar. O verdadeiro guerreiro age com o medo — e não contra ele.
Ao contrário da cultura contemporânea, que muitas vezes mede o valor pela performance e a segurança, o Bushidō valoriza sobretudo a honra, a coragem interior e a aceitação consciente da morte como parte do caminho.
A impermanência como libertação
Influenciado pelo pensamento zen, o samurai é educado a compreender a impermanência (mujo) da vida. Isso significa que tudo o que é material ou emocional está sujeito à dissolução: o corpo, o estatuto, a glória.
Nesse contexto, o medo da perda — inclusive da morte — deixa de ser central. A vida plena não se mede pelo seu prolongamento, mas pela inteireza do gesto.
“O caminho do samurai está na morte.”
— Hagakure, Yamamoto Tsunetomo
Esta frase não celebra o suicídio, mas a prontidão: viver como quem já aceitou morrer — e por isso está livre. É uma ética da acção, não da paralisia.
O medo virtuoso: a vergonha como régua moral
Se há um medo que se admite no Bushidō, é o medo da vergonha — entendido não como humilhação social, mas como quebra da integridade pessoal. Trair a palavra dada, recuar diante do dever, comprometer a honra: esses são os verdadeiros horrores para o guerreiro.
Este medo, ao contrário do medo contemporâneo (que muitas vezes é cultivado para favorecer o consumo ou a passividade), tem uma função formativa, não manipuladora. Ele educa o carácter, modera os impulsos e afirma a responsabilidade individual.
Um referencial que relativiza os nossos próprios pressupostos
Comparando com a cultura ocidental moderna, é inevitável uma inversão de valores:
• No Bushidō, teme-se a indignidade, não a instabilidade.
• O silêncio é sinal de contenção interior, não de repressão.
• A obediência é a um ideal ético interno, não a uma norma imposta externamente.
Este eco serve, portanto, como espelho e contraponto. Mostra que o modo como vivemos o medo não é universal nem inevitável. É culturalmente condicionado. É historicamente construído. E, por isso mesmo, pode ser reavaliado.
“Quando compreendemos como outros povos viveram e enfrentaram o medo, percebemos que o que tomávamos por natural é, afinal, apenas habitual.”
IX. O Medo Virtuoso? Ambivalência Ética entre Contenção e Controlo
Ao longo deste ensaio, foi evidenciado o modo como o medo, quando socialmente cultivado e politicamente instrumentalizado, pode castrar o sujeito, limitar o pensamento crítico e desviar o desejo do seu eixo autêntico. No entanto, a honestidade intelectual exige que se reconheça a ambivalência fundamental do medo. Nem todo o medo é opressivo. Nem todo o seu efeito é castrador. Há formas de medo que, longe de inibir a liberdade, a protegem.
Esta ambiguidade é central para qualquer análise ética séria. Reduzir o medo a um mecanismo puramente negativo seria cair numa simplificação que, em última instância, repetiria a rigidez que aqui se critica.
1. O medo como instrumento ético de contenção
Desde as mais antigas concepções do Direito, o medo foi compreendido como uma forma de dissuasão racional contra o mal social. A pena, a sanção, a reprovação pública — todos estes mecanismos pressupõem a existência de um medo justo, proporcional, contido.
“O temor da pena é o que mantém o vínculo social quando o apelo à virtude falha.”
— (inspirado em Cícero e Kant)
A filosofia política clássica — de Hobbes a Montesquieu — reconhece que o medo, desde que regulado por princípios de justiça, é necessário para a convivência civilizada. É o que impede que a liberdade se torne violência, que o desejo se torne tirania. O medo da consequência educa a prudência, e a prudência, como diria Aristóteles, é a virtude que regula todas as outras.
2. Medo e moral: contenção ou consciência?
Há também um medo de tipo moral, que não nasce da lei exterior, mas da consciência interior. O medo de ferir, de trair, de corromper-se. Esse medo não é sinal de fraqueza — é sinal de maturidade ética.
Paul Ricoeur fala da “consciência ética como memória do mal possível”. O sujeito que se conhece, que reconhece o poder destrutivo das suas acções ou omissões, experimenta o medo não como prisão, mas como aviso. É um medo lúcido. Responsável. Humanizante.
3. O medo como sinal existencial
Na tradição da psicologia existencial — de Rollo May a Viktor Frankl — o medo não é inimigo da liberdade, mas o seu horizonte. Só quem se sabe mortal, falível, exposto ao abismo do sentido, compreende o valor das escolhas que faz.
A liberdade autêntica não é euforia sem limite — é um caminho trilhado entre o medo de falhar e o impulso de viver com verdade. Neste sentido, o medo é um espelho da profundidade da condição humana.
4. O perigo da inversão: quando o medo se torna sistema
Mas aqui reside o ponto crítico: o que é legítimo em doses contidas, torna-se destrutivo quando elevado a sistema. O medo que, em princípio, seria pedagógico ou ético, pode transformar-se num meio de domesticação de massas quando passa a operar de forma estrutural, constante, invisível.
O medo de errar, quando ocasional, educa; Mas o medo de errar, quando permanente, paralisa.
O medo da consequência, quando justo, orienta; Mas o medo da punição, quando desproporcional, oprime.
O medo da solidão, quando real, convida ao vínculo; Mas o medo da rejeição, quando socialmente inculcado, fabrica cópias.
A transição entre o medo virtuoso e o medo castrador é subtil — e culturalmente muito manipulável.
5. Critério ético: a intencionalidade do medo e o seu impacto
Para discernir se um medo é admissível ou opressivo, deve perguntar-se:
• De onde vem? É natural, experiencial, ou socialmente inculcado?
• A quem serve? Protege o sujeito ou protege a estrutura?
• Que liberdade preserva — ou compromete?
• Cria responsabilidade — ou dependência?
• Desperta consciência — ou apenas conformismo?
Um medo é eticamente admissível quando conduz à autonomia, ao respeito mútuo, à justiça. Torna-se castrador quando gera apenas obediência, passividade e medo de viver com verdade.
O medo é, ao mesmo tempo, profundamente humano e perigosamente manipulável. Pode ser factor de civilização ou instrumento de repressão. Pode humanizar a acção ou neutralizar o pensamento.
A chave está na sua origem, na sua função e na sua medida.
Por isso, mais do que rejeitar o medo em bloco, o verdadeiro gesto ético é discerni-lo. Nomeá-lo. Perguntar-lhe o que pretende. E, sobretudo, escolher com consciência quando escutá-lo — e quando o ultrapassar.
X. CONCLUSÃO
Chegados ao final deste ensaio, torna-se evidente que o medo, longe de ser apenas uma emoção instintiva ou uma reacção episódica, é um elemento estruturante da vida moderna. Não apenas nos protege do perigo, mas — quando cultivado pelas instituições, pela cultura e pela política — molda subjectividades, condiciona escolhas e silencia o desejo.
Identificámos, ao longo do percurso, várias dimensões complementares desse medo castrador:
• A educação, que em vez de promover a autonomia, produz sujeitos ansiosos por aprovação, treinados para evitar o erro e conformar-se à norma;
• A psique, onde o superego punitivo, o falso self e a melancolia existencial mostram os efeitos interiores de uma vida vivida para corresponder, e não para ser;
• A política, que manipula o medo como ferramenta de governação e desmobilização, fomentando estados de excepção e apatia;
• O mercado, que transforma o medo da insuficiência em desejo manipulado, promovendo o consumo como substituto da autenticidade;
• A antropologia, que revela como o medo sempre serviu como cimento social — mas frequentemente à custa da liberdade e da singularidade.
O sujeito contemporâneo, assim modelado, vive sob vigilância exterior e interior, adaptado, produtivo, “normal” — mas profundamente alienado de si. Age mais para não ser excluído do que para ser inteiro. Deseja mais por reflexo do que por convicção. E muitas vezes, sem compreender porquê, carrega um mal-estar difuso, uma tristeza sem nome, uma vida sem pulso.
Mas reconhecer esta condição não deve gerar fatalismo. Pelo contrário: abre espaço para a acção ética e a responsabilidade pessoal. A consciência do medo que não protege é o primeiro passo para retomar a autonomia, restaurar o desejo e viver com verdade.
A proposta aqui não é utópica, nem absoluta. Não se trata de eliminar o medo — mas de reconfigurar a relação com ele. Escutá-lo sem lhe obedecer cegamente. Aceitá-lo como parte da vida, sem permitir que defina o seu sentido.
Recusar o medo como fundamento da existência é um gesto político, emocional, espiritual. E cada pessoa que ousa esse gesto cria uma pequena ruptura no tecido da normose — essa normalidade doentia que aceita a vida sem brilho como inevitável.
Talvez nunca venhamos a libertar-nos totalmente do medo. Mas podemos, pelo menos, evitar que ele seja o autor da nossa história.
“A liberdade não é a ausência de medo. É a decisão de não viver segundo ele.”
— (Reflexão final inspirada em Fromm, Winnicott e May)
Nota sobre a Bibliografia
A bibliografia apresentada reflecte o universo de referências que sustentaram a construção deste ensaio. Nem todas as obras foram lidas por mim de forma exaustiva ou integral. Algumas delas foram consultadas parcialmente, outras analisadas com o apoio do modelo de linguagem da OpenAI, cuja assistência permitiu contextualizar e interpretar trechos e conceitos de autores fundamentais no campo da psicanálise, filosofia, sociologia, antropologia e teoria crítica.
Este trabalho é, portanto, fruto de um esforço pessoal de compreensão e síntese, mas também de uma mediação inteligente que me ajudou a aceder com mais profundidade a fontes que, de outro modo, talvez me fossem menos acessíveis e muito mais morosas.
Ainda assim, a responsabilidade pela selecção, estrutura e orientação argumentativa é inteiramente minha. Se houver mérito de quaisquer acertos é tão partilhado quanto o erro é, naturalmente, pessoal.
Bibliografia
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• Fromm, E. (2002). O medo à liberdade (5.ª ed.). Presença. (Obra original publicada em 1941)
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• May, R. (1977). The meaning of anxiety (Rev. ed.). Norton. (Obra original publicada em 1950)
• Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Martins Fontes. (Obra original publicada em 1971)
Psicologia Social, Narcisismo e Identidade Moderna
• Lasch, C. (2008). A cultura do narcisismo: A vida americana numa era de esperanças em declínio. Edições 70. (Obra original publicada em 1979)
Educação, Autonomia e Crítica Pedagógica
• Bourdieu, P., & Passeron, J.-C. (2008). A reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Edições 70. (Obra original publicada em 1970)
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Nota Preliminar
Este ensaio nasce de uma inquietação íntima e de um desejo profundo de compreender melhor a forma como o medo — sobretudo aquele que não protege, mas condiciona — molda os comportamentos, as decisões e a própria estrutura emocional e social das pessoas no mundo contemporâneo.
Não sou académico, investigador nem especialista nas áreas abordadas. Escrevo apenas como um mero e humilde observador pensante, alguém que olha para dentro e para fora com curiosidade, espírito crítico e vontade de questionar o que é dado como adquirido. As reflexões que aqui partilho resultam da leitura atenta de autores com obra reconhecida, da observação quotidiana, da escuta de outros e da experiência de viver num tempo em que muitos vivem mais para corresponder do que para ser.
Este texto não pretende ensinar, convencer ou provar. Apenas convidar à reflexão. Se, porventura, tocar em algo essencial, será já recompensa suficiente. E se, em algum ponto, falhar ou parecer insuficiente, peço desde já a indulgência de quem lê — pois escrevo, não com autoridade, mas com verdade.
INTRODUÇÃO
Vivemos numa época em que o medo deixou de ser apenas uma emoção ocasional para se tornar uma atmosfera. Medo da instabilidade económica, do fracasso, do envelhecimento, da exclusão, da irrelevância, do erro, do julgamento alheio. Medos que se disfarçam de prudência, mas que silenciosamente limitam, controlam e moldam a vida de milhões de indivíduos.
Importa, desde logo, distinguir entre o medo protector — aquele que tem raízes biológicas, que nos alerta para o perigo real e contribui para a nossa sobrevivência — e o medo castrador, que é induzido, cultivado e perpetuado por estruturas sociais, educativas, políticas e culturais. Este último não protege: condiciona. Não desperta a consciência: adormece o desejo. Não ensina a viver: ensina a obedecer.
Neste ensaio, propõe-se uma reflexão aprofundada sobre o medo como instrumento de controlo e submissão, e sobre as suas consequências na formação do sujeito moderno. Recorrendo a contributos da psicanálise, da sociologia, da psicologia existencial, da antropologia e da teoria política, procurar-se-á demonstrar como as sociedades contemporâneas — especialmente no Ocidente — produzem sujeitos moldados por medos simbólicos, internalizados e crónicos, que substituem a liberdade interior por conformismo funcional.
Ao longo deste percurso, analisar-se-ão as principais frentes onde o medo actua como força castradora:
• A educação, que privilegia a obediência sobre a criatividade;
• A psicologia individual, onde o desejo é reprimido em nome da aprovação;
• A política e a economia, que alimentam a ansiedade como forma de governo e de consumo;
• E a cultura, que reforça padrões de pertença baseados na comparação e na exclusão.
Este não é, portanto, um ensaio sobre o medo natural ou racional. É um ensaio sobre o medo como ideologia invisível, que actua sob a aparência de normalidade e que, por isso mesmo, é tão eficaz a produzir cidadãos dóceis, consumidores compulsivos e identidades amputadas do seu próprio eixo interior.
No final, procuraremos ainda apontar caminhos possíveis para a superação deste medo que aprisiona — não através da negação do risco, mas pela reconquista da coragem, da autenticidade e do desejo. Pois, como afirmava Erich Fromm, talvez o maior desafio do ser humano não seja livrar-se do mal externo, mas reconhecer o medo interior que o impede de ser quem verdadeiramente é.
II. O MEDO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL
Desde as suas origens, o medo acompanhou o ser humano como uma resposta biológica fundamental à ameaça. Evolutivamente, foi o medo que garantiu a sobrevivência da espécie: a fuga diante do predador, a prudência perante o perigo, o alerta em situações de instabilidade. Este medo instintivo, enraizado no sistema límbico — nomeadamente na amígdala cerebral — tem uma função protectora, essencial à vida. É o que podemos designar por medo primário ou natural.
Contudo, à medida que as sociedades humanas se tornaram mais complexas, o medo deixou de estar apenas associado ao perigo físico imediato e passou a operar num plano simbólico e social. As ameaças passaram a ser construídas culturalmente: o medo de desagradar aos deuses, de ser excluído do grupo, de transgredir normas, de fracassar, de não corresponder. Este medo secundário ou condicionado tornou-se uma ferramenta poderosa de coesão, mas também de domínio.
Segundo a antropóloga Mary Douglas, na sua obra Pureza e Perigo (1966), o medo está intrinsecamente ligado à noção de ordem e pureza social. Os tabus e rituais existentes em diversas culturas operam como estruturas simbólicas de protecção contra o caos. O “perigoso” é, muitas vezes, apenas aquilo que escapa à classificação dominante. Assim, o medo não é apenas uma reacção emocional: é um instrumento organizador da realidade social, com funções morais e políticas.
Esta ideia é reforçada por René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), ao mostrar que muitas comunidades primordiais canalizaram o medo e a violência interna através de mecanismos de sacrifício. A criação de bodes expiatórios — culpados simbólicos sobre os quais se descarrega a angústia colectiva — revela como o medo pode funcionar como ferramenta de estabilização social à custa do indivíduo.
Na modernidade, este medo simbólico transforma-se: já não é o medo da tempestade ou da maldição tribal, mas o medo da falência pessoal, da irrelevância social, da desaprovação colectiva. Trata-se de uma nova pedagogia do medo, mais invisível, mas igualmente eficaz — porque internalizada.
É neste ponto que Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), introduz o conceito de panoptismo, como metáfora da sociedade moderna. O panóptico — modelo ideal de prisão desenhado por Jeremy Bentham — permite que todos sejam potencialmente observados sem saberem quando. A consequência? A autocensura, a normalização do comportamento, a submissão sem necessidade de violência física. O medo torna-se disciplina, e a disciplina torna-se identidade.
O medo, ao longo da história, deixa de ser apenas uma reacção e passa a ser um projecto. Um projecto de domesticação dos corpos, de contenção dos impulsos, de modelação dos desejos e de reprodução da ordem social. Se antes se temia a morte física, hoje teme-se a morte simbólica: o esquecimento, o ridículo, o fracasso, a rejeição. E é este medo, subtil e omnipresente, que sustenta boa parte das dinâmicas de poder nas sociedades contemporâneas.
O medo tornou-se, assim, uma linguagem social — uma gramática invisível que regula o que se pode e não se pode ser. E o mais inquietante é que essa gramática, por estar profundamente interiorizada, já nem sempre é sentida como imposição externa. O sujeito obedece, não porque é coagido, mas porque já não sabe desejar fora dos limites impostos.
Esta passagem do medo natural para o medo simbólico e estruturado marca uma viragem decisiva na história da subjectividade humana. É sobre esta base que se constroem as restantes dimensões deste ensaio: a educacional, a psíquica, a política e a cultural — todas elas alimentadas por uma arquitectura do medo que, em vez de proteger, aprisiona.
III. A DIMENSÃO EDUCACIONAL: A ESCOLA COMO SEMINÁRIO DO MEDO
A escola é, à primeira vista, um espaço de aprendizagem, socialização e emancipação. Contudo, sob uma análise mais crítica e multidisciplinar, torna-se evidente que as instituições educativas modernas são também dispositivos estruturantes de obediência, padronização e controlo comportamental — muitas vezes através da produção sistemática de medo.
Este medo manifesta-se de forma aparentemente inofensiva: medo de errar, de falar em público, de tirar má nota, de não corresponder às expectativas. Mas os seus efeitos são profundos e duradouros: aniquilação progressiva da criatividade, da espontaneidade, da coragem e da autonomia.
1. A escola como aparelho disciplinar
O filósofo Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), mostrou como, desde o século XVIII, a escola foi desenhada nos moldes de outras instituições disciplinares (prisões, quartéis, hospitais). A divisão do espaço, o tempo rigidamente segmentado, a vigilância permanente e a hierarquia professor-aluno criaram um sistema em que aprender se pode confundir com obedecer.
A disciplina escolar não visa apenas transmitir conteúdos, mas sobretudo produzir corpos dóceis e previsíveis — treinados para responder a estímulos externos e habituados à avaliação constante.
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir
Nota de reflexão crítica sobre a citação de Michel Foucault
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir (1975)
Esta frase de Foucault, frequentemente citada, sintetiza de forma potente a crítica à função disciplinadora da escola moderna. É, no entanto, importante contextualizá-la. Foucault não estava a atacar o ato de ensinar em si, mas sim a denunciar como as instituições modernas — entre elas a escola — foram desenhadas à imagem de estruturas de controlo: prisões, quartéis, fábricas.
A sua crítica dirige-se ao modelo institucional que normaliza comportamentos, mais do que ao ato educativo em si. Ainda assim, importa perguntar: será que, hoje, a escola ainda ensina a calar e a sentar direito?
A resposta, infelizmente, ainda é em parte afirmativa. Muitos sistemas educativos continuam a privilegiar:
• A conformidade sobre a criatividade;
• A resposta certa sobre a dúvida honesta;
• A submissão à autoridade sobre o pensamento crítico.
Mas também é verdade que existem espaços de transformação real. Muitas escolas e educadores comprometidos procuram hoje abrir lugar à expressão, à escuta e à participação significativa dos alunos. Projectos educativos alternativos, pedagogias participativas, metodologias de aprendizagem activa e o acesso a plataformas digitais criaram novas possibilidades de voz e autonomia.
Portanto, a frase de Foucault mantém validade como diagnóstico — mas não deve ser absolutizada. Serve de alerta, não de sentença. O que está em causa não é a disciplina, mas a domesticação. A escola pode, sim, ser um lugar onde se aprende a falar, a pensar e a viver — desde que não se esqueça de que também pode, inadvertidamente, ensinar a calar.
2. O medo de errar e o fracasso como identidade
O erro, na maioria dos sistemas educativos, não é visto como parte natural da aprendizagem, mas como falha pessoal. O aluno teme o julgamento, a nota, a humilhação pública. Esta lógica da penalização gera ansiedade crónica e conduz à inibição progressiva da experimentação.
Donald Winnicott, na sua obra O Brincar e a Realidade (1971), sublinha a importância do espaço lúdico e da permissividade emocional para o desenvolvimento de um (self) “eu” autêntico. Quando a criança é impedida de errar ou brincar livremente, constrói defesas psicológicas que perduram na vida adulta — entre elas, o falso “eu”, que aprende a representar o “bom aluno” mesmo que isso implique desconexão do desejo interior.
3. A performance como valor e o medo de não corresponder
O sistema educativo, centrado na avaliação quantitativa (testes, exames, rankings), transforma o processo de aprendizagem num espectáculo de performance contínua. Os alunos não estudam para compreender, mas para “acertar”; não participam para expressar, mas para obter aprovação.
Este ambiente cria personalidades ansiosas, dependentes da validação externa e avessas ao risco. O medo da reprovação social — mais do que escolar — instala-se como motor emocional do comportamento. Desde cedo, os alunos aprendem que o seu valor está condicionado à sua capacidade de corresponder. Não se busca o saber — busca-se o prémio.
Este fenómeno é particularmente visível em sistemas de ensino muito competitivos (como os da Coreia do Sul, Japão ou mesmo Portugal), onde as taxas de ansiedade, depressão e suicídio entre adolescentes têm sido objecto de estudos preocupantes nos últimos anos (OCDE, 2018).
4. A reprodução das desigualdades e a exclusão simbólica
A obra de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, A Reprodução (1970), revela como o sistema educativo não corrige desigualdades sociais — reprodu-las. O “mérito” é, muitas vezes, apenas a adaptação a códigos culturais e linguísticos já presentes nos meios sociais privilegiados.
O medo de “não estar à altura” não é apenas académico — é identitário. Muitos alunos oriundos de contextos menos favorecidos internalizam a ideia de que não pertencem, não servem, não podem. Esta violência simbólica gera desmotivação, abandono escolar e perpetuação de ciclos de exclusão.
“O sistema de ensino consagra a desigualdade sob a forma de legitimidade.”
— Pierre Bourdieu, A Reprodução
5. A negação da criatividade e da autonomia
O medo escolar não forma pensadores — forma executantes. A criatividade, o pensamento divergente, o questionamento da norma são, frequentemente, vistos como ameaça à ordem estabelecida. Em vez de encorajar o pensamento crítico, a escola tende a premiar a repetição, o silêncio, a adequação.
Ivan Illich, em Sociedade sem Escolas (1971), propôs uma crítica radical: o sistema escolar, tal como concebido, serve para domesticar o pensamento e adaptar o indivíduo à lógica do mercado e da obediência. A escola cria a ilusão da liberdade através da competição, mas no fundo, educa para o conformismo.
A dimensão educacional do medo castrador é talvez a mais insidiosa, porque actua na fase mais moldável da vida humana. A escola, idealmente um espaço de emancipação, torna-se — salvo raras excepções — um laboratório de produção de sujeitos dóceis, performativos e ansiosos, cuja principal lição é aprender a temer: o erro, o julgamento, o fracasso, a diferença.
O sujeito que sai deste percurso escolar já aprendeu a desconfiar do próprio impulso criativo, a esconder o que sente e a medir o próprio valor pela aprovação alheia. E é com esse material humano que o mundo adulto, político e económico irá trabalhar.
No capítulo seguinte, veremos como esse sujeito — educado no medo — carrega esse padrão para dentro de si, dando origem àquilo que a psicologia existencial e a psicanálise descrevem como o falso eu (self) e a melancolia de não saber quem se é.
IV. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA EXISTENCIAL: DO SUPEREGO AO VAZIO
O medo, uma vez inculcado pelas estruturas familiares, escolares e sociais, não permanece na periferia da vida psíquica. Internaliza-se, converte-se em voz interior, em exigência constante, em autocensura. Esta interiorização do medo é, na linguagem psicanalítica, a instalação do superego — aquela instância mental que julga, corrige, pune e exige, com base em normas que raramente são conscientes.
Nas palavras de Freud, o superego é herdeiro da autoridade parental e cultural. Mas, quando o sujeito cresce num ambiente em que o amor é condicionado ao desempenho, a aceitação depende da obediência, e o erro é punido com desaprovação, o superego adquire uma tonalidade patológica: torna-se tirânico.
“O superego pode ser mais cruel do que qualquer pai.”
— Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização (1930)
Este juiz interior, formado no medo da rejeição e da punição, transforma-se na principal fonte de angústia existencial. O sujeito já não precisa de ser controlado por forças externas: traz o controlo dentro de si.
1. O medo da liberdade e o desejo inconsciente de submissão
Erich Fromm, em O Medo à Liberdade (1941), analisa o paradoxo moderno: quanto mais liberdade se conquista externamente, mais o sujeito se sente perdido internamente. A liberdade, com as suas exigências de escolha e responsabilidade, assusta. E o medo da liberdade leva muitos a buscar refúgio em sistemas rígidos de autoridade ou conformismo.
“A liberdade pode ser um fardo insuportável para quem não desenvolveu a estrutura interior para a sustentar.”
— Erich Fromm
A fuga à liberdade manifesta-se na aceitação cega de ideologias, na idolatria de figuras fortes, na identificação com grupos que prometem segurança. Mas, sobretudo, manifesta-se na vida quotidiana: a pessoa que segue carreiras que não escolheu, padrões de vida que não deseja, valores que não compreende — tudo para não enfrentar o abismo da escolha livre.
2. O falso eu (self): sobrevivência em troca de verdade
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, descreve na sua obra O Brincar e a Realidade (1971) o conceito de falso eu (self) — uma construção defensiva da personalidade que se adapta às exigências do meio, sacrificando a espontaneidade, a autenticidade e o desejo.
O falso eu (self) não é uma mentira consciente, mas uma máscara emocional que se forma em resposta à falta de acolhimento verdadeiro durante a infância. O sujeito aprende que só será amado, valorizado ou aceite se esconder partes de si, se adaptar, se representar.
Na vida adulta, este mecanismo transforma-se em modos de vida inteiros:
• Pessoas bem-sucedidas que vivem em angústia profunda;
• Relações baseadas em papéis e expectativas, e não em intimidade real;
• Identidades performativas, moldadas por likes, estatuto, imagem.
“O falso eu (self) realiza todas as exigências do meio, mas o eu verdadeiro permanece escondido, às vezes para sempre.”
— D. W. Winnicott
3. A melancolia existencial: a vida como tarefa, não como experiência
Quando o sujeito vive segundo o falso eu, durante tempo suficiente, começa a emergir um fenómeno descrito por Rollo May como melancolia existencial: uma sensação difusa de vazio, perda de sentido, e alienação da própria vida.
• “Não sei o que quero”
• “Sinto que a minha vida não me pertence”
• “Tenho tudo o que devia querer, mas sinto-me vazio”
Estas são expressões recorrentes de pessoas que cumpriram todos os critérios de sucesso e pertença, mas perderam o contacto com o seu desejo autêntico.
“A ansiedade profunda é a resposta do ser humano à ameaça de não ser.”
— Rollo May, The Meaning of Anxiety (1950)
A melancolia aqui não é tristeza ocasional, mas uma desconexão ontológica, onde o viver é substituído por uma sequência de tarefas, deveres, papéis. A pessoa continua a existir — mas não sente que vive.
4. Ansiedade, depressão e sintomatologia psíquica da obediência
A modernidade tardia, com a sua ênfase em performance, produtividade e visibilidade, agrava este quadro psíquico. O medo de não ser suficiente, de falhar, de ser irrelevante, gera ansiedade crónica e estados depressivos difusos.
• A Organização Mundial da Saúde reconhece a depressão como uma das principais causas de incapacidade funcional no mundo.
• O burnout, anteriormente limitado a profissões de risco, alastra-se agora à generalidade da vida laboral.
• O consumo excessivo de psicofármacos e estimulantes revela uma sociedade que adormece o sintoma sem escutar a sua origem.
Estes sintomas não são desvios patológicos individuais — são expressões psíquicas de uma cultura que condiciona o sujeito a adaptar-se constantemente, sem nunca se encontrar.
5. A desconexão do desejo e a colonização do eu
A consequência última da instalação do medo castrador é a ruptura entre o sujeito e o seu desejo. A pessoa já não sabe o que quer, apenas o que “deve querer”. Deseja o que a cultura valoriza, o que é socialmente premiado, o que parece seguro.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), argumenta que a sociedade contemporânea fabrica sujeitos narcisicamente frágeis, cuja identidade depende da aprovação externa. O medo de não ser desejável, de não estar à altura, de não ser “visto”, é o que move as decisões — pessoais, profissionais, sociais.
“A sociedade moderna não cria indivíduos — cria consumidores de identidade.”
— Christopher Lasch
O medo, quando internalizado, deixa de ser protecção e torna-se prisão. Em vez de orientar o sujeito para a vida, orienta-o para o desempenho. O superego transforma-se em carrasco emocional, o desejo é substituído por imitação, e o eu autêntico é abandonado em nome da pertença.
Nesta prisão invisível, o sujeito continua a funcionar — mas ao preço de se exilar de si mesmo.
No capítulo seguinte, veremos como esta desconexão individual se torna terreno fértil para a manipulação social e política em larga escala — onde o medo não só adoece o sujeito, mas torna-se ferramenta de governação e de manutenção da ordem.
V. A DIMENSÃO SOCIOPOLÍTICA: O MEDO COMO MECANISMO DE GOVERNAÇÃO
O medo, enquanto emoção primária, sempre foi reconhecido como força mobilizadora. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, as sociedades modernas não se libertaram do medo com a ascensão da razão — apenas o sofisticaram. Nas democracias contemporâneas, o medo não desapareceu: tornou-se método de governação, engenharia de consentimento e motor de políticas públicas.
1. A política do medo: segurança em troca de liberdade
Ao longo da história, regimes autoritários sempre se sustentaram sobre o medo: do inimigo interno, do estrangeiro, da desordem, do caos. Contudo, mesmo em sociedades ditas democráticas e liberais, o medo continua a ser cultivado como estratégia para justificar medidas de controlo.
Giorgio Agamben, em Estado de Excepção (2003), argumenta que o mundo contemporâneo vive numa condição política em que o estado de excepção se tornou norma. A invocação contínua de ameaças — terrorismo, crises sanitárias, catástrofes económicas — permite aos governos suspender direitos, reforçar a vigilância, e limitar liberdades civis sem resistência significativa.
“A segurança transforma-se numa técnica de governação que exige vigilância total em nome do bem-estar colectivo.”
— Agamben, Estado de Excepção
Temos como exemplos:
• O Patriot Act, aprovado nos EUA após os atentados de 11 de Setembro de 2001, ampliou drasticamente os poderes de vigilância estatal.
• Durante a pandemia de COVID-19, diversos governos impuseram medidas de controlo excepcionais, discutíveis e com reduzido escrutínio democrático — frequentemente aceites sem contestação pela população, movida pelo medo.
2. A cultura securitária e o cidadão passivo
A sociedade do medo produz uma cultura em que a segurança se torna valor supremo, substituindo a liberdade, a criatividade ou a justiça. Este paradigma gera cidadãos que preferem ser protegidos do que responsáveis, que preferem a estabilidade à crítica, que aceitam ser vigiados em nome do conforto.
Zygmunt Bauman, em Medo Líquido (2006), descreve uma sociedade onde o medo é fragmentado, vago, mas omnipresente. O sujeito moderno não teme uma ameaça específica — teme a instabilidade, a perda, o colapso de um sentido de ordem.
“A ansiedade moderna não tem rosto — e por isso não tem fim.”
— Bauman, Medo Líquido
Consequência política: quanto mais medo, menos mobilização cívica. O medo esvazia as praças, silencia o debate, enfraquece o raciocínio crítico. Uma população ansiosa não protesta — adapta-se.
3. O inimigo simbólico: fabricar o outro
A instrumentalização do medo exige a construção de inimigos. Desde a Antiguidade que a coesão interna se faz em torno da ameaça externa. Na contemporaneidade, os alvos variam consoante o momento histórico e o interesse político: imigrantes, minorias, desempregados, opositores ideológicos.
Noam Chomsky, em Media Control (1997), demonstra como os meios de comunicação, aliados a interesses políticos, criam um clima de ameaça constante que justifica políticas autoritárias e desvia a atenção das verdadeiras causas dos problemas sociais.
“A manipulação mediática serve para fabricar consentimento — e o medo é o seu ingrediente central.”
— Noam Chomsky
Exemplos contemporâneos:
• A retórica anti-imigração na Europa, usada para justificar o fecho de fronteiras, a criação de zonas de exclusão e o endurecimento policial;
• O uso do medo do “comunismo”, da “ideologia de género” ou do “globalismo” para mobilizar bases conservadoras;
• O medo da “extrema-direita” ou do “regresso ao fascismo” utilizado em campanhas e discursos de esquerda para justificar medidas de censura simbólica ou limitação do debate;
• A intensificação do medo climático em contextos onde o discurso apocalíptico substitui o debate informado, podendo favorecer soluções tecnocráticas pouco escrutinadas.
• O medo da “perda de direitos sociais” ou “do regresso ao passado” utilizado em campanhas eleitorais para mobilizar voto emocional e defensivo.
O que está em causa não é a causa política em si, mas o recurso sistemático ao medo como ferramenta de mobilização emocional e controlo simbólico — independentemente da ideologia que o usa.
4. Aversão ao risco e reforço do conservadorismo
O medo, sobretudo o socialmente induzido, tem consequências políticas mensuráveis. Estudos empíricos demonstram que a percepção de ameaça está correlacionada com o aumento do conservadorismo político.
Estudo: Nature Human Behaviour, 2018 — investigadores analisaram dados de diversos países e concluíram que quando os indivíduos se sentem ameaçados (financeira, fisica ou culturalmente), tendem a adoptar posições mais autoritárias, nacionalistas e conformistas.
Esta aversão ao risco mina a possibilidade de transformação social e política, reforçando o status quo mesmo quando este é gerador de desigualdade.
5. Redes sociais e a microgestão emocional do medo
Na era digital, o medo tornou-se algoritmo. As redes sociais, ao operarem com base em sistemas de engajamento, privilegiam conteúdos polarizadores, indignação moral, indignação emocional e notícias sensacionalistas — todas elas fontes de ansiedade e medo.
Byung-Chul Han, em Psicopolítica (2014), descreve a transição do biopoder disciplinar (Foucault) para uma forma mais insidiosa: o psicopoder, onde os próprios sujeitos colaboram com a sua vigilância e exposição.
“Hoje não somos vigiados — vigiamo-nos a nós próprios com orgulho.”
— Byung-Chul Han
As redes sociais ampliam a comparação, a ansiedade de desempenho, o medo da irrelevância. Mas também reforçam a fragmentação política, a radicalização do discurso, e o ódio identitário — reconfigurando o medo como vínculo afectivo.
A gestão política do medo é, hoje, uma tecnologia de governação emocional. Alimentada por crises reais e artificiais, sustentada por “conteúdos” vigilantes e redes digitais omnipresentes, esta gestão visa manter os cidadãos ocupados com ameaças simbólicas, enquanto o poder se exerce de forma cada vez mais centralizada, opaca e inquestionável.
O medo, aqui, não é acidente — é programa. E o sujeito formado sob esse medo torna-se obediente, previsível, desmobilizado.
No próximo capítulo, veremos como esse mesmo medo, agora combinado com o desejo manipulado e o vazio emocional, é utilizado pelo mercado para transformar indivíduos em consumidores compulsivos — colonizando o desejo e a identidade.
VI. A COLONIZAÇÃO DO DESEJO: O MERCADO, A PUBLICIDADE E O CONSUMO
As sociedades de mercado desenvolveram um modelo altamente eficaz de controlo social: não apenas pela repressão ou vigilância, mas pela gestão do desejo. O medo de não pertencer, de não ser suficiente, de falhar ou de desaparecer é convertido — subtil e eficazmente — em consumo. Não se trata apenas de vender produtos, mas de fabricar necessidades emocionais e identidades desejáveis.
1. O medo como motor do consumo simbólico
O mercado contemporâneo não vende coisas — vende soluções para medos.
• Cosméticos para o medo de envelhecer;
• Tecnologias para o medo de ficar para trás;
• Marcas de roupa para o medo de parecer inadequado;
• Planos de carreira para o medo da irrelevância.
Este fenómeno é descrito por Zygmunt Bauman em Vida de Consumo (2007), onde mostra como a lógica de consumo se infiltra na construção do eu, transformando cada sujeito num “produto” que deve ser constantemente actualizado, aperfeiçoado, reformulado.
“Hoje já não se consome para ter — consome-se para ser.”
— Zygmunt Bauman, Vida de Consumo
A publicidade moderna não apresenta produtos — apresenta vidas ideais, modelos de felicidade, estéticas de pertença. E fá-lo alimentando uma insegurança latente: “tu ainda não és o suficiente.”
2. A publicidade como engenharia emocional
A indústria publicitária desenvolveu técnicas sofisticadas de persuasão emocional e inconsciente, baseadas em estudos de psicologia comportamental e neurociência. O objectivo é claro: associar produtos a estados emocionais desejáveis.
Exemplo paradigmático:
• A Apple vende mais do que tecnologia: vende estética, distinção, prestígio silencioso.
• A Nike não vende sapatilhas: vende superação, resiliência, espírito vencedor.
• A indústria cosmética não vende beleza: vende aprovação, sedução, auto-estima.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), descreve como o capitalismo moderno cria sujeitos narcisicamente vulneráveis, permanentemente dependentes da aprovação externa, facilmente manipuláveis por promessas de valorização simbólica.
“A auto-estima tornou-se um produto que se compra.”
— Christopher Lasch
3. O consumo como resposta ao vazio existencial
Depois de ter sido moldado pela escola, controlado pela política e formatado pelas redes, o sujeito contemporâneo encontra no consumo uma espécie de resposta existencial rápida. Um calmante para a ansiedade difusa, um substituto simbólico para o desejo autêntico.
O problema, como refere Erich Fromm em Ter ou Ser? (1976), é que o desejo genuíno nunca é plenamente satisfeito por objectos. E o que não é satisfeito, é perpetuado. Assim, o ciclo repete-se: insegurança → desejo artificial → compra → prazer momentâneo → frustração → novo desejo.
“O consumidor moderno compra ilusões de felicidade.”
— Erich Fromm
Fenómenos associados:
• Compras compulsivas como forma de regulação emocional (estudos em psicologia clínica);
• “Fast fashion” e “fast identity” — identidades efémeras e descartáveis;
• Substituição da experiência vivida pela experiência partilhável (instagramável).
4. O branding e a mercantilização do self
Num mundo onde tudo é marca, até o eu se torna mercadoria. A cultura da auto-imagem e da influência transforma cada pessoa num projecto de marketing pessoal.
• A identidade é construída em função da visibilidade;
• O corpo torna-se montra;
• As escolhas tornam-se performances.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2010), descreve esta transição: o sujeito já não é explorado por outro — é explorador de si mesmo. Assume voluntariamente o papel de produto e gestor, publicitário e consumidor da própria identidade.
“Hoje, somos simultaneamente campo de batalha e soldado, patrão e escravo.”
— Byung-Chul Han
5. A colonização do desejo: deixar de saber o que se quer
A forma mais profunda de dominação é aquela que transforma o desejo do outro em desejo próprio. O sujeito colonizado não percebe que os seus sonhos, gostos e ambições foram plantados.
Este fenómeno é conhecido como “heteronomia simbólica” — viver sob um desejo que não é nosso, mas que se tornou indistinguível do que se crê ser identidade.
Na prática:
• Jovens que escolhem carreiras por status, e não por vocação;
• Adultos que compram casas, carros e estilos de vida para validar a própria existência;
• Relações baseadas na aparência, e não na verdade íntima.
António Damásio, neurocientista português, em O Erro de Descartes (1994), mostra que as emoções são essenciais à construção da razão e da identidade. Quando as emoções são manipuladas externamente, a autonomia subjectiva colapsa.
O medo transformado em desejo molda uma cultura de carência permanente, onde o sujeito não sabe o que quer — apenas sente que lhe falta algo. O mercado não responde a necessidades reais, mas cria vazios simbólicos que só ele pode prometer preencher.
O sujeito colonizado pelo consumo não vive para ser, mas para parecer; não deseja a vida — deseja a imagem dela.
No capítulo seguinte, exploraremos como este cenário se enraíza em fundamentos antropológicos profundos, e como o medo tem sido historicamente utilizado como mecanismo de coesão social, mesmo que à custa da individualidade.
VII. SÍNTESE ANTROPOLÓGICA: O MEDO COMO ESTRATÉGIA DE COESÃO SOCIAL
O medo não é apenas um fenómeno psicológico ou político — é também, e desde os primórdios da humanidade, uma matriz de organização colectiva. Em todas as culturas conhecidas, o medo desempenhou um papel fundamental na regulação da convivência, na criação de tabus, e na definição do aceitável e do proibido.
Neste sentido, o medo não foi apenas opressivo: foi estruturante. Mas essa função estruturante teve (e tem) um custo — a anulação parcial da individualidade em nome da estabilidade do grupo.
1. O medo como fundamento do sagrado e da moral
Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), defende que a classificação simbólica do mundo — o que é puro ou impuro, permitido ou proibido — é sustentada por emoções como o medo. O que está “fora de lugar” é percebido como ameaça, não necessariamente física, mas à ordem moral.
“O perigo é o que escapa à ordem simbólica.”
— Mary Douglas
Daí emergem os tabus: interdições culturais carregadas de medo colectivo. Comer certos alimentos, tocar certos corpos, pronunciar certas palavras — o que é interdito não é apenas desencorajado, é sacrílego. E a violação do tabu é punida com exclusão, vergonha ou castigo simbólico.
Essa estrutura foi essencial para:
• Criar laços de pertença e identidade comum;
• Regular comportamentos numa época sem leis formais;
• Interiorizar a moralidade como instinto.
Contudo, esse mesmo mecanismo permanece activo, ainda que camuflado, na sociedade contemporânea.
2. O bode expiatório e a manutenção do grupo
René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), propõe uma leitura da origem da cultura baseada na gestão colectiva do medo e da violência. Para Girard, o ser humano é essencialmente mimético: deseja o que o outro deseja, gerando rivalidade. Esse conflito permanente ameaça o grupo.
Qual é a solução arcaica? Transferir a violência para um bode expiatório. Um indivíduo ou grupo é escolhido como responsável pelo caos — e eliminado, punido ou marginalizado. Assim, o grupo liberta-se temporariamente da angústia.
“O sacrifício é uma forma de restaurar a ordem através da exclusão de um inocente.”
— René Girard
Esta lógica mantém-se:
• Nas redes sociais: linchamentos digitais, cancelamentos;
• Na política: minorias demonizadas;
• Na cultura: figuras públicas como catalisadores de frustração colectiva.
O medo do caos é resolvido através da exclusão do diferente. A coesão do grupo é comprada com a renúncia à justiça individual.
3. Medo e pertença: o lugar do indivíduo na tribo
Do ponto de vista antropológico, a necessidade de pertença é tão vital quanto a de alimento ou abrigo. O ser humano, biologicamente vulnerável, só sobreviveu graças à vida em grupo. Daí que o medo da exclusão social seja um dos medos mais profundos e persistentes da espécie.
Este medo traduz-se em comportamentos altamente adaptativos:
• Conformismo moral e estético;
• Censura da diferença;
• Imitação dos hábitos do grupo dominante.
Claude Lévi-Strauss, em O Pensamento Selvagem (1962), argumenta que a cultura é o modo humano de regular a incerteza. E o medo é a emoção que garante que as fronteiras culturais sejam respeitadas. O “estrangeiro”, o “estranho”, o “fora da norma” são marcados como perigosos — não por uma ameaça real, mas porque desafiam a coesão simbólica.
4. A erosão da autonomia em nome da integração
O medo antropológico da exclusão cria uma tensão permanente entre o eu e o grupo. A autenticidade pessoal pode ser percebida como ameaça colectiva. Daí que, muitas vezes, o sujeito escolha a adaptação em vez da expressão.
Este padrão não é exclusivo de sociedades tribais ou tradicionais. Nas culturas contemporâneas, o medo de não corresponder ao grupo social de referência permanece altíssimo:
• Jovens que escondem opiniões ou orientações por medo de exclusão;
• Profissionais que se calam para manter prestígio;
• Pessoas que reprimem desejos para manter aceitação familiar ou religiosa.
“A maior parte das pessoas não vive a própria vida — vive a vida que foi socialmente autorizada.”
— (Reflexo da crítica de Erich Fromm)
5. Entre o vínculo e o exílio: o preço da singularidade
Do ponto de vista antropológico, o medo foi — e é — o cimento das comunidades. Mas esse cimento endurece com o tempo. E o que antes protegia, passa a aprisionar.
A singularidade, a autonomia, a criatividade, só podem florescer se o medo da exclusão deixar de ser dominante. Caso contrário, cada um permanece refém do grupo que o acolheu à condição de se calar.
A cultura do medo não desaparece — renova-se nos códigos do presente.
• Nos padrões corporais exigidos;
• Nas etiquetas linguísticas impostas;
• Nos sistemas de validação social digital.
Tudo o que foge à norma ainda é punido com rejeição. E, por isso, muitos preferem pertencer do que ser.
Do ritual ancestral ao algoritmo contemporâneo, o medo manteve sempre uma função organizadora. Serviu para proteger o grupo — mas ao custo da liberdade individual.
Se a cultura nasce da contenção do medo, a maturidade cultural só será possível quando o medo deixar de ser a base da coesão. Só então o grupo deixará de exigir o silêncio da diferença como preço da aceitação.
No próximo capítulo, exploraremos caminhos possíveis para resgatar a coragem, a autenticidade e o desejo, como formas de superação ética e existencial do medo que castra.
VIII. CAMINHOS POSSÍVEIS: DA CONSCIENTIZAÇÃO À RECONEXÃO
Após atravessarmos múltiplas dimensões em que o medo actua como força modeladora — educativa, psíquica, política, económica, antropológica — importa pensar como se pode viver sem que o medo determine o percurso da existência. Não se trata de negar o medo, mas de restaurar a sua justa medida. De deixar que nos alerte, sem que nos governe. De reconhecer quando ele protege — e quando nos exila de nós próprios.
1. Reconhecer o medo que não protege
O primeiro passo é a consciência crítica.
O medo castrador tem poder porque actua disfarçado: de prudência, de norma, de bom senso, de responsabilidade. Identificá-lo é o início da libertação.
Exercício possível:
• Quando surge o medo: é protecção ou é submissão?
• Estou a evitar um risco real ou apenas a fugir da desaprovação?
• A decisão que estou prestes a tomar é movida pelo meu desejo ou pela necessidade de corresponder?
Esta auto-indagação, feita com honestidade, permite distinguir o medo que salva do medo que silencia.
2. Reeducar o desejo e o pensamento crítico
Grande parte dos medos que nos condicionam resulta de desejos que não são verdadeiramente nossos. Foram introjectados — pela família, pela escola, pela publicidade, pela cultura. Recuperar o desejo genuíno é um processo delicado, mas vital.
Estratégias possíveis:
• Questionar narrativas dominantes sobre sucesso, felicidade, normalidade;
• Desconstruir discursos automáticos como “é assim que tem de ser” ou “sempre foi assim”;
• Resgatar práticas reflexivas: leitura, escrita, diálogo, silêncio.
Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (1996), lembra-nos que educar é um ato de liberdade — e que o pensamento crítico é o antídoto contra a domesticação do espírito.
“Ensinar exige coragem para dizer o que se pensa — mesmo quando se teme o julgamento.”
— Paulo Freire
3. Restaurar o vínculo com o eu autêntico
A reconexão interior exige espaço, tempo e escuta. O eu verdadeiro não emerge sob pressão — precisa de ambiente favorável. Há que reduzir o ruído exterior para escutar o que já existe dentro de nós.
Caminhos possíveis:
• Terapia ou acompanhamento psicanalítico;
• Escrita íntima como prática de revelação;
• Criação artística sem finalidade produtiva;
• Caminhadas solitárias, contacto com a natureza, meditação.
Donald Winnicott defendeu que a autenticidade começa onde o sujeito pode brincar, criar, viver sem medo do olhar do outro.
“A saúde é a capacidade de estar só — sem se sentir ameaçado.”
— Winnicott
4. Reencantar a vida pela coragem
Viver com autenticidade é um ato de coragem diária. Não há coragem sem medo — mas há coragem que age mesmo com ele. E essa coragem não é grandiosa ou heróica: é, muitas vezes, silenciosa, íntima, quase imperceptível.
• Dizer “não” quando se esperava um “sim”;
• Mudar de rumo profissional aos cinquenta anos;
• Expor uma fragilidade sem medo de parecer fraco;
• Amar sem garantias.
Rollo May, em The Courage to Create (1975), afirma que a criação é o contrário da adaptação passiva. Criar é afirmar-se contra o medo — mesmo que o mundo não compreenda.
“A coragem não é ausência de medo — é afirmação da existência apesar dele.”
— Rollo May
5. Criar comunidades de confiança e partilha
Ninguém se liberta do medo sozinho. Se o medo é socialmente cultivado, a confiança também precisa de ser socialmente reconstruída.
Propostas concretas:
• Criar espaços de escuta sem julgamento (círculos de partilha, grupos de apoio, conversas profundas);
• Promover uma educação que valorize o erro como caminho, a pergunta como saber e a diversidade como riqueza;
• Estimular culturas de trabalho e convivência baseadas no respeito emocional, e não na pressão ou na vigilância.
Bell Hooks, pensadora e pedagoga afro-americana, recorda-nos que o amor — entendido como ética relacional — é o maior gesto político contra o medo.
“O medo constrói muros — o amor constrói pontes.”
— Bell Hooks
6. Praticar a recusa ética
Por fim, há momentos em que a libertação do medo exige recusa. Dizer não ao que castra, mesmo que ainda não se saiba o que virá a seguir. Recusar narrativas, papéis, sistemas, vínculos — não por rebeldia gratuita, mas por fidelidade ao que em nós ainda pulsa.
Essa recusa é, muitas vezes, solitária. Mas é também o início de uma nova pertença — não ao grupo que exige a máscara, mas à própria vida, tal como ela é.
Não há método definitivo para vencer o medo. Mas há gestos de lucidez e coragem que o desarmam todos os dias.
• Reconhecê-lo.
• Escutá-lo.
• Desobedecer-lhe.
• Criar apesar dele.
• Amar dentro dele.
Cada gesto de reconexão com o desejo, com a verdade interior, com o outro sem máscaras, é uma pequena revolução contra a cultura do medo.
E talvez seja apenas assim — passo a passo, vínculo a vínculo, gesto a gesto — que se constrói a verdadeira liberdade.
Eco Intercultural – Bushidō: O medo sob o olhar da honra
Num ensaio que procura analisar criticamente o papel do medo nas sociedades ocidentais modernas — sobretudo enquanto instrumento de conformismo, submissão e manipulação — é fundamental evitar a armadilha da universalização. O que é problemático num certo modelo cultural pode assumir outro significado noutro contexto. Por isso, propõe-se aqui um breve eco intercultural: como é que o medo é compreendido noutra tradição civilizacional profundamente distinta — a dos antigos samurais japoneses, através do código Bushidō?
O medo como prova de espírito
O Bushidō — literalmente “caminho do guerreiro” — foi o código ético e filosófico que guiou, durante séculos, a vida dos samurais no Japão feudal. Enraizado no confucionismo (ética e dever), no zen-budismo (impermanência) e no xintoísmo (lealdade ancestral), esse código não nega o medo — mas não o tolera como mestre.
O medo existe, mas não deve comandar. O verdadeiro guerreiro age com o medo — e não contra ele.
Ao contrário da cultura contemporânea, que muitas vezes mede o valor pela performance e a segurança, o Bushidō valoriza sobretudo a honra, a coragem interior e a aceitação consciente da morte como parte do caminho.
A impermanência como libertação
Influenciado pelo pensamento zen, o samurai é educado a compreender a impermanência (mujo) da vida. Isso significa que tudo o que é material ou emocional está sujeito à dissolução: o corpo, o estatuto, a glória.
Nesse contexto, o medo da perda — inclusive da morte — deixa de ser central. A vida plena não se mede pelo seu prolongamento, mas pela inteireza do gesto.
“O caminho do samurai está na morte.”
— Hagakure, Yamamoto Tsunetomo
Esta frase não celebra o suicídio, mas a prontidão: viver como quem já aceitou morrer — e por isso está livre. É uma ética da acção, não da paralisia.
O medo virtuoso: a vergonha como régua moral
Se há um medo que se admite no Bushidō, é o medo da vergonha — entendido não como humilhação social, mas como quebra da integridade pessoal. Trair a palavra dada, recuar diante do dever, comprometer a honra: esses são os verdadeiros horrores para o guerreiro.
Este medo, ao contrário do medo contemporâneo (que muitas vezes é cultivado para favorecer o consumo ou a passividade), tem uma função formativa, não manipuladora. Ele educa o carácter, modera os impulsos e afirma a responsabilidade individual.
Um referencial que relativiza os nossos próprios pressupostos
Comparando com a cultura ocidental moderna, é inevitável uma inversão de valores:
• No Bushidō, teme-se a indignidade, não a instabilidade.
• O silêncio é sinal de contenção interior, não de repressão.
• A obediência é a um ideal ético interno, não a uma norma imposta externamente.
Este eco serve, portanto, como espelho e contraponto. Mostra que o modo como vivemos o medo não é universal nem inevitável. É culturalmente condicionado. É historicamente construído. E, por isso mesmo, pode ser reavaliado.
“Quando compreendemos como outros povos viveram e enfrentaram o medo, percebemos que o que tomávamos por natural é, afinal, apenas habitual.”
IX. O Medo Virtuoso? Ambivalência Ética entre Contenção e Controlo
Ao longo deste ensaio, foi evidenciado o modo como o medo, quando socialmente cultivado e politicamente instrumentalizado, pode castrar o sujeito, limitar o pensamento crítico e desviar o desejo do seu eixo autêntico. No entanto, a honestidade intelectual exige que se reconheça a ambivalência fundamental do medo. Nem todo o medo é opressivo. Nem todo o seu efeito é castrador. Há formas de medo que, longe de inibir a liberdade, a protegem.
Esta ambiguidade é central para qualquer análise ética séria. Reduzir o medo a um mecanismo puramente negativo seria cair numa simplificação que, em última instância, repetiria a rigidez que aqui se critica.
1. O medo como instrumento ético de contenção
Desde as mais antigas concepções do Direito, o medo foi compreendido como uma forma de dissuasão racional contra o mal social. A pena, a sanção, a reprovação pública — todos estes mecanismos pressupõem a existência de um medo justo, proporcional, contido.
“O temor da pena é o que mantém o vínculo social quando o apelo à virtude falha.”
— (inspirado em Cícero e Kant)
A filosofia política clássica — de Hobbes a Montesquieu — reconhece que o medo, desde que regulado por princípios de justiça, é necessário para a convivência civilizada. É o que impede que a liberdade se torne violência, que o desejo se torne tirania. O medo da consequência educa a prudência, e a prudência, como diria Aristóteles, é a virtude que regula todas as outras.
2. Medo e moral: contenção ou consciência?
Há também um medo de tipo moral, que não nasce da lei exterior, mas da consciência interior. O medo de ferir, de trair, de corromper-se. Esse medo não é sinal de fraqueza — é sinal de maturidade ética.
Paul Ricoeur fala da “consciência ética como memória do mal possível”. O sujeito que se conhece, que reconhece o poder destrutivo das suas acções ou omissões, experimenta o medo não como prisão, mas como aviso. É um medo lúcido. Responsável. Humanizante.
3. O medo como sinal existencial
Na tradição da psicologia existencial — de Rollo May a Viktor Frankl — o medo não é inimigo da liberdade, mas o seu horizonte. Só quem se sabe mortal, falível, exposto ao abismo do sentido, compreende o valor das escolhas que faz.
A liberdade autêntica não é euforia sem limite — é um caminho trilhado entre o medo de falhar e o impulso de viver com verdade. Neste sentido, o medo é um espelho da profundidade da condição humana.
4. O perigo da inversão: quando o medo se torna sistema
Mas aqui reside o ponto crítico: o que é legítimo em doses contidas, torna-se destrutivo quando elevado a sistema. O medo que, em princípio, seria pedagógico ou ético, pode transformar-se num meio de domesticação de massas quando passa a operar de forma estrutural, constante, invisível.
O medo de errar, quando ocasional, educa; Mas o medo de errar, quando permanente, paralisa.
O medo da consequência, quando justo, orienta; Mas o medo da punição, quando desproporcional, oprime.
O medo da solidão, quando real, convida ao vínculo; Mas o medo da rejeição, quando socialmente inculcado, fabrica cópias.
A transição entre o medo virtuoso e o medo castrador é subtil — e culturalmente muito manipulável.
5. Critério ético: a intencionalidade do medo e o seu impacto
Para discernir se um medo é admissível ou opressivo, deve perguntar-se:
• De onde vem? É natural, experiencial, ou socialmente inculcado?
• A quem serve? Protege o sujeito ou protege a estrutura?
• Que liberdade preserva — ou compromete?
• Cria responsabilidade — ou dependência?
• Desperta consciência — ou apenas conformismo?
Um medo é eticamente admissível quando conduz à autonomia, ao respeito mútuo, à justiça. Torna-se castrador quando gera apenas obediência, passividade e medo de viver com verdade.
O medo é, ao mesmo tempo, profundamente humano e perigosamente manipulável. Pode ser factor de civilização ou instrumento de repressão. Pode humanizar a acção ou neutralizar o pensamento.
A chave está na sua origem, na sua função e na sua medida.
Por isso, mais do que rejeitar o medo em bloco, o verdadeiro gesto ético é discerni-lo. Nomeá-lo. Perguntar-lhe o que pretende. E, sobretudo, escolher com consciência quando escutá-lo — e quando o ultrapassar.
X. CONCLUSÃO
Chegados ao final deste ensaio, torna-se evidente que o medo, longe de ser apenas uma emoção instintiva ou uma reacção episódica, é um elemento estruturante da vida moderna. Não apenas nos protege do perigo, mas — quando cultivado pelas instituições, pela cultura e pela política — molda subjectividades, condiciona escolhas e silencia o desejo.
Identificámos, ao longo do percurso, várias dimensões complementares desse medo castrador:
• A educação, que em vez de promover a autonomia, produz sujeitos ansiosos por aprovação, treinados para evitar o erro e conformar-se à norma;
• A psique, onde o superego punitivo, o falso self e a melancolia existencial mostram os efeitos interiores de uma vida vivida para corresponder, e não para ser;
• A política, que manipula o medo como ferramenta de governação e desmobilização, fomentando estados de excepção e apatia;
• O mercado, que transforma o medo da insuficiência em desejo manipulado, promovendo o consumo como substituto da autenticidade;
• A antropologia, que revela como o medo sempre serviu como cimento social — mas frequentemente à custa da liberdade e da singularidade.
O sujeito contemporâneo, assim modelado, vive sob vigilância exterior e interior, adaptado, produtivo, “normal” — mas profundamente alienado de si. Age mais para não ser excluído do que para ser inteiro. Deseja mais por reflexo do que por convicção. E muitas vezes, sem compreender porquê, carrega um mal-estar difuso, uma tristeza sem nome, uma vida sem pulso.
Mas reconhecer esta condição não deve gerar fatalismo. Pelo contrário: abre espaço para a acção ética e a responsabilidade pessoal. A consciência do medo que não protege é o primeiro passo para retomar a autonomia, restaurar o desejo e viver com verdade.
A proposta aqui não é utópica, nem absoluta. Não se trata de eliminar o medo — mas de reconfigurar a relação com ele. Escutá-lo sem lhe obedecer cegamente. Aceitá-lo como parte da vida, sem permitir que defina o seu sentido.
Recusar o medo como fundamento da existência é um gesto político, emocional, espiritual. E cada pessoa que ousa esse gesto cria uma pequena ruptura no tecido da normose — essa normalidade doentia que aceita a vida sem brilho como inevitável.
Talvez nunca venhamos a libertar-nos totalmente do medo. Mas podemos, pelo menos, evitar que ele seja o autor da nossa história.
“A liberdade não é a ausência de medo. É a decisão de não viver segundo ele.”
— (Reflexão final inspirada em Fromm, Winnicott e May)
Nota sobre a Bibliografia
A bibliografia apresentada reflecte o universo de referências que sustentaram a construção deste ensaio. Nem todas as obras foram lidas por mim de forma exaustiva ou integral. Algumas delas foram consultadas parcialmente, outras analisadas com o apoio do modelo de linguagem da OpenAI, cuja assistência permitiu contextualizar e interpretar trechos e conceitos de autores fundamentais no campo da psicanálise, filosofia, sociologia, antropologia e teoria crítica.
Este trabalho é, portanto, fruto de um esforço pessoal de compreensão e síntese, mas também de uma mediação inteligente que me ajudou a aceder com mais profundidade a fontes que, de outro modo, talvez me fossem menos acessíveis e muito mais morosas.
Ainda assim, a responsabilidade pela selecção, estrutura e orientação argumentativa é inteiramente minha. Se houver mérito de quaisquer acertos é tão partilhado quanto o erro é, naturalmente, pessoal.
Bibliografia
Psicologia, Psicanálise e Filosofia Existencial
• Damásio, A. (1996). O erro de Descartes: Emoção, razão e o cérebro humano. Europa-América. (Obra original publicada em 1994)
• Frankl, V. E. (2002). O homem em busca de um sentido. Presença. (Obra original publicada em 1946)
• Fromm, E. (1991). Ter ou ser?. Dinalivro. (Obra original publicada em 1976)
• Fromm, E. (2002). O medo à liberdade (5.ª ed.). Presença. (Obra original publicada em 1941)
• May, R. (1975). The courage to create. Norton.
• May, R. (1977). The meaning of anxiety (Rev. ed.). Norton. (Obra original publicada em 1950)
• Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Martins Fontes. (Obra original publicada em 1971)
Psicologia Social, Narcisismo e Identidade Moderna
• Lasch, C. (2008). A cultura do narcisismo: A vida americana numa era de esperanças em declínio. Edições 70. (Obra original publicada em 1979)
Educação, Autonomia e Crítica Pedagógica
• Bourdieu, P., & Passeron, J.-C. (2008). A reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Edições 70. (Obra original publicada em 1970)
• Freire, P. (2000). Pedagogia do oprimido (17.ª ed.). Edições Afrontamento. (Obra original publicada em 1968)
• Freire, P. (2004). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra. (Obra original publicada em 1996)
• Illich, I. (2004). Sociedade sem escolas. Instituto Piaget. (Obra original publicada em 1971)
Filosofia Política, Medo e Poder
• Agamben, G. (2004). Estado de exceção. Edições 70. (Obra original publicada em 2003)
• Bauman, Z. (2008). Medo líquido. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2006)
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• Chomsky, N. (2003). Media control: A espetacular conquista da propaganda. Record. (Obra original publicada em 1997)
• Foucault, M. (2009). Vigiar e punir: Nascimento da prisão (17.ª ed.). Edições 70. (Obra original publicada em 1975)
• Han, B.-C. (2014). A sociedade do cansaço. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2010)
• Han, B.-C. (2016). Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2014)
Antropologia, Tabu e Cultura
• Douglas, M. (2006). Pureza e perigo: Uma análise dos conceitos de poluição e tabu. Edições 70. (Obra original publicada em 1966)
• Girard, R. (1998). A violência e o sagrado. Estampa. (Obra original publicada em 1972)
• Lévi-Strauss, C. (1993). O pensamento selvagem. Edições 70. (Obra original publicada em 1962)
Ética Relacional e Educação Afectiva
• Hooks, b. (2021). Tudo sobre o amor: Novas perspetivas (L. Pinheiro, Trad.). Editora Elefante. (Obra original publicada em 2000)
Eco Intercultural – Cultura Japonesa e Bushidō
• Ikegami, E. (1995). The taming of the samurai: Honorific individualism and the making of modern Japan. Harvard University Press.
• Nitobe, I. (2001). Bushido: The soul of Japan. Dover Publications. (Obra original publicada em 1900)
• Suzuki, D. T. (2001). Zen and Japanese culture. Princeton University Press. (Obra original publicada em 1938)
• Tsunetomo, Y. (2002). Hagakure: O livro do samurai (W. S. Wilson, Trad.). Kodansha International. (Obra original escrita no século XVIII)
Estudos empíricos e fontes institucionais
• Organisation for Economic Co-operation and Development. (2018). Education at a glance 2018: OECD indicators. https://doi.org/10.1787/eag-2018-en
• World Health Organization. (2017). Depression and other common mental disorders: Global health estimates. https://www.who.int/publications/i/item/depression-global-health-estimates
• Zhou, Y., Sadeh, N., & Miller, G. E. (2018). Perceived threat predicts conservatism. Nature Human Behaviour, 2(6), 552–558. https://doi.org/10.1038/s41562-018-0371-6
Nota Preliminar
Este ensaio nasce de uma inquietação íntima e de um desejo profundo de compreender melhor a forma como o medo — sobretudo aquele que não protege, mas condiciona — molda os comportamentos, as decisões e a própria estrutura emocional e social das pessoas no mundo contemporâneo.
Não sou académico, investigador nem especialista nas áreas abordadas. Escrevo apenas como um mero e humilde observador pensante, alguém que olha para dentro e para fora com curiosidade, espírito crítico e vontade de questionar o que é dado como adquirido. As reflexões que aqui partilho resultam da leitura atenta de autores com obra reconhecida, da observação quotidiana, da escuta de outros e da experiência de viver num tempo em que muitos vivem mais para corresponder do que para ser.
Este texto não pretende ensinar, convencer ou provar. Apenas convidar à reflexão. Se, porventura, tocar em algo essencial, será já recompensa suficiente. E se, em algum ponto, falhar ou parecer insuficiente, peço desde já a indulgência de quem lê — pois escrevo, não com autoridade, mas com verdade.
INTRODUÇÃO
Vivemos numa época em que o medo deixou de ser apenas uma emoção ocasional para se tornar uma atmosfera. Medo da instabilidade económica, do fracasso, do envelhecimento, da exclusão, da irrelevância, do erro, do julgamento alheio. Medos que se disfarçam de prudência, mas que silenciosamente limitam, controlam e moldam a vida de milhões de indivíduos.
Importa, desde logo, distinguir entre o medo protector — aquele que tem raízes biológicas, que nos alerta para o perigo real e contribui para a nossa sobrevivência — e o medo castrador, que é induzido, cultivado e perpetuado por estruturas sociais, educativas, políticas e culturais. Este último não protege: condiciona. Não desperta a consciência: adormece o desejo. Não ensina a viver: ensina a obedecer.
Neste ensaio, propõe-se uma reflexão aprofundada sobre o medo como instrumento de controlo e submissão, e sobre as suas consequências na formação do sujeito moderno. Recorrendo a contributos da psicanálise, da sociologia, da psicologia existencial, da antropologia e da teoria política, procurar-se-á demonstrar como as sociedades contemporâneas — especialmente no Ocidente — produzem sujeitos moldados por medos simbólicos, internalizados e crónicos, que substituem a liberdade interior por conformismo funcional.
Ao longo deste percurso, analisar-se-ão as principais frentes onde o medo actua como força castradora:
• A educação, que privilegia a obediência sobre a criatividade;
• A psicologia individual, onde o desejo é reprimido em nome da aprovação;
• A política e a economia, que alimentam a ansiedade como forma de governo e de consumo;
• E a cultura, que reforça padrões de pertença baseados na comparação e na exclusão.
Este não é, portanto, um ensaio sobre o medo natural ou racional. É um ensaio sobre o medo como ideologia invisível, que actua sob a aparência de normalidade e que, por isso mesmo, é tão eficaz a produzir cidadãos dóceis, consumidores compulsivos e identidades amputadas do seu próprio eixo interior.
No final, procuraremos ainda apontar caminhos possíveis para a superação deste medo que aprisiona — não através da negação do risco, mas pela reconquista da coragem, da autenticidade e do desejo. Pois, como afirmava Erich Fromm, talvez o maior desafio do ser humano não seja livrar-se do mal externo, mas reconhecer o medo interior que o impede de ser quem verdadeiramente é.
II. O MEDO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL
Desde as suas origens, o medo acompanhou o ser humano como uma resposta biológica fundamental à ameaça. Evolutivamente, foi o medo que garantiu a sobrevivência da espécie: a fuga diante do predador, a prudência perante o perigo, o alerta em situações de instabilidade. Este medo instintivo, enraizado no sistema límbico — nomeadamente na amígdala cerebral — tem uma função protectora, essencial à vida. É o que podemos designar por medo primário ou natural.
Contudo, à medida que as sociedades humanas se tornaram mais complexas, o medo deixou de estar apenas associado ao perigo físico imediato e passou a operar num plano simbólico e social. As ameaças passaram a ser construídas culturalmente: o medo de desagradar aos deuses, de ser excluído do grupo, de transgredir normas, de fracassar, de não corresponder. Este medo secundário ou condicionado tornou-se uma ferramenta poderosa de coesão, mas também de domínio.
Segundo a antropóloga Mary Douglas, na sua obra Pureza e Perigo (1966), o medo está intrinsecamente ligado à noção de ordem e pureza social. Os tabus e rituais existentes em diversas culturas operam como estruturas simbólicas de protecção contra o caos. O “perigoso” é, muitas vezes, apenas aquilo que escapa à classificação dominante. Assim, o medo não é apenas uma reacção emocional: é um instrumento organizador da realidade social, com funções morais e políticas.
Esta ideia é reforçada por René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), ao mostrar que muitas comunidades primordiais canalizaram o medo e a violência interna através de mecanismos de sacrifício. A criação de bodes expiatórios — culpados simbólicos sobre os quais se descarrega a angústia colectiva — revela como o medo pode funcionar como ferramenta de estabilização social à custa do indivíduo.
Na modernidade, este medo simbólico transforma-se: já não é o medo da tempestade ou da maldição tribal, mas o medo da falência pessoal, da irrelevância social, da desaprovação colectiva. Trata-se de uma nova pedagogia do medo, mais invisível, mas igualmente eficaz — porque internalizada.
É neste ponto que Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), introduz o conceito de panoptismo, como metáfora da sociedade moderna. O panóptico — modelo ideal de prisão desenhado por Jeremy Bentham — permite que todos sejam potencialmente observados sem saberem quando. A consequência? A autocensura, a normalização do comportamento, a submissão sem necessidade de violência física. O medo torna-se disciplina, e a disciplina torna-se identidade.
O medo, ao longo da história, deixa de ser apenas uma reacção e passa a ser um projecto. Um projecto de domesticação dos corpos, de contenção dos impulsos, de modelação dos desejos e de reprodução da ordem social. Se antes se temia a morte física, hoje teme-se a morte simbólica: o esquecimento, o ridículo, o fracasso, a rejeição. E é este medo, subtil e omnipresente, que sustenta boa parte das dinâmicas de poder nas sociedades contemporâneas.
O medo tornou-se, assim, uma linguagem social — uma gramática invisível que regula o que se pode e não se pode ser. E o mais inquietante é que essa gramática, por estar profundamente interiorizada, já nem sempre é sentida como imposição externa. O sujeito obedece, não porque é coagido, mas porque já não sabe desejar fora dos limites impostos.
Esta passagem do medo natural para o medo simbólico e estruturado marca uma viragem decisiva na história da subjectividade humana. É sobre esta base que se constroem as restantes dimensões deste ensaio: a educacional, a psíquica, a política e a cultural — todas elas alimentadas por uma arquitectura do medo que, em vez de proteger, aprisiona.
III. A DIMENSÃO EDUCACIONAL: A ESCOLA COMO SEMINÁRIO DO MEDO
A escola é, à primeira vista, um espaço de aprendizagem, socialização e emancipação. Contudo, sob uma análise mais crítica e multidisciplinar, torna-se evidente que as instituições educativas modernas são também dispositivos estruturantes de obediência, padronização e controlo comportamental — muitas vezes através da produção sistemática de medo.
Este medo manifesta-se de forma aparentemente inofensiva: medo de errar, de falar em público, de tirar má nota, de não corresponder às expectativas. Mas os seus efeitos são profundos e duradouros: aniquilação progressiva da criatividade, da espontaneidade, da coragem e da autonomia.
1. A escola como aparelho disciplinar
O filósofo Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), mostrou como, desde o século XVIII, a escola foi desenhada nos moldes de outras instituições disciplinares (prisões, quartéis, hospitais). A divisão do espaço, o tempo rigidamente segmentado, a vigilância permanente e a hierarquia professor-aluno criaram um sistema em que aprender se pode confundir com obedecer.
A disciplina escolar não visa apenas transmitir conteúdos, mas sobretudo produzir corpos dóceis e previsíveis — treinados para responder a estímulos externos e habituados à avaliação constante.
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir
Nota de reflexão crítica sobre a citação de Michel Foucault
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir (1975)
Esta frase de Foucault, frequentemente citada, sintetiza de forma potente a crítica à função disciplinadora da escola moderna. É, no entanto, importante contextualizá-la. Foucault não estava a atacar o ato de ensinar em si, mas sim a denunciar como as instituições modernas — entre elas a escola — foram desenhadas à imagem de estruturas de controlo: prisões, quartéis, fábricas.
A sua crítica dirige-se ao modelo institucional que normaliza comportamentos, mais do que ao ato educativo em si. Ainda assim, importa perguntar: será que, hoje, a escola ainda ensina a calar e a sentar direito?
A resposta, infelizmente, ainda é em parte afirmativa. Muitos sistemas educativos continuam a privilegiar:
• A conformidade sobre a criatividade;
• A resposta certa sobre a dúvida honesta;
• A submissão à autoridade sobre o pensamento crítico.
Mas também é verdade que existem espaços de transformação real. Muitas escolas e educadores comprometidos procuram hoje abrir lugar à expressão, à escuta e à participação significativa dos alunos. Projectos educativos alternativos, pedagogias participativas, metodologias de aprendizagem activa e o acesso a plataformas digitais criaram novas possibilidades de voz e autonomia.
Portanto, a frase de Foucault mantém validade como diagnóstico — mas não deve ser absolutizada. Serve de alerta, não de sentença. O que está em causa não é a disciplina, mas a domesticação. A escola pode, sim, ser um lugar onde se aprende a falar, a pensar e a viver — desde que não se esqueça de que também pode, inadvertidamente, ensinar a calar.
2. O medo de errar e o fracasso como identidade
O erro, na maioria dos sistemas educativos, não é visto como parte natural da aprendizagem, mas como falha pessoal. O aluno teme o julgamento, a nota, a humilhação pública. Esta lógica da penalização gera ansiedade crónica e conduz à inibição progressiva da experimentação.
Donald Winnicott, na sua obra O Brincar e a Realidade (1971), sublinha a importância do espaço lúdico e da permissividade emocional para o desenvolvimento de um (self) “eu” autêntico. Quando a criança é impedida de errar ou brincar livremente, constrói defesas psicológicas que perduram na vida adulta — entre elas, o falso “eu”, que aprende a representar o “bom aluno” mesmo que isso implique desconexão do desejo interior.
3. A performance como valor e o medo de não corresponder
O sistema educativo, centrado na avaliação quantitativa (testes, exames, rankings), transforma o processo de aprendizagem num espectáculo de performance contínua. Os alunos não estudam para compreender, mas para “acertar”; não participam para expressar, mas para obter aprovação.
Este ambiente cria personalidades ansiosas, dependentes da validação externa e avessas ao risco. O medo da reprovação social — mais do que escolar — instala-se como motor emocional do comportamento. Desde cedo, os alunos aprendem que o seu valor está condicionado à sua capacidade de corresponder. Não se busca o saber — busca-se o prémio.
Este fenómeno é particularmente visível em sistemas de ensino muito competitivos (como os da Coreia do Sul, Japão ou mesmo Portugal), onde as taxas de ansiedade, depressão e suicídio entre adolescentes têm sido objecto de estudos preocupantes nos últimos anos (OCDE, 2018).
4. A reprodução das desigualdades e a exclusão simbólica
A obra de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, A Reprodução (1970), revela como o sistema educativo não corrige desigualdades sociais — reprodu-las. O “mérito” é, muitas vezes, apenas a adaptação a códigos culturais e linguísticos já presentes nos meios sociais privilegiados.
O medo de “não estar à altura” não é apenas académico — é identitário. Muitos alunos oriundos de contextos menos favorecidos internalizam a ideia de que não pertencem, não servem, não podem. Esta violência simbólica gera desmotivação, abandono escolar e perpetuação de ciclos de exclusão.
“O sistema de ensino consagra a desigualdade sob a forma de legitimidade.”
— Pierre Bourdieu, A Reprodução
5. A negação da criatividade e da autonomia
O medo escolar não forma pensadores — forma executantes. A criatividade, o pensamento divergente, o questionamento da norma são, frequentemente, vistos como ameaça à ordem estabelecida. Em vez de encorajar o pensamento crítico, a escola tende a premiar a repetição, o silêncio, a adequação.
Ivan Illich, em Sociedade sem Escolas (1971), propôs uma crítica radical: o sistema escolar, tal como concebido, serve para domesticar o pensamento e adaptar o indivíduo à lógica do mercado e da obediência. A escola cria a ilusão da liberdade através da competição, mas no fundo, educa para o conformismo.
A dimensão educacional do medo castrador é talvez a mais insidiosa, porque actua na fase mais moldável da vida humana. A escola, idealmente um espaço de emancipação, torna-se — salvo raras excepções — um laboratório de produção de sujeitos dóceis, performativos e ansiosos, cuja principal lição é aprender a temer: o erro, o julgamento, o fracasso, a diferença.
O sujeito que sai deste percurso escolar já aprendeu a desconfiar do próprio impulso criativo, a esconder o que sente e a medir o próprio valor pela aprovação alheia. E é com esse material humano que o mundo adulto, político e económico irá trabalhar.
No capítulo seguinte, veremos como esse sujeito — educado no medo — carrega esse padrão para dentro de si, dando origem àquilo que a psicologia existencial e a psicanálise descrevem como o falso eu (self) e a melancolia de não saber quem se é.
IV. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA EXISTENCIAL: DO SUPEREGO AO VAZIO
O medo, uma vez inculcado pelas estruturas familiares, escolares e sociais, não permanece na periferia da vida psíquica. Internaliza-se, converte-se em voz interior, em exigência constante, em autocensura. Esta interiorização do medo é, na linguagem psicanalítica, a instalação do superego — aquela instância mental que julga, corrige, pune e exige, com base em normas que raramente são conscientes.
Nas palavras de Freud, o superego é herdeiro da autoridade parental e cultural. Mas, quando o sujeito cresce num ambiente em que o amor é condicionado ao desempenho, a aceitação depende da obediência, e o erro é punido com desaprovação, o superego adquire uma tonalidade patológica: torna-se tirânico.
“O superego pode ser mais cruel do que qualquer pai.”
— Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização (1930)
Este juiz interior, formado no medo da rejeição e da punição, transforma-se na principal fonte de angústia existencial. O sujeito já não precisa de ser controlado por forças externas: traz o controlo dentro de si.
1. O medo da liberdade e o desejo inconsciente de submissão
Erich Fromm, em O Medo à Liberdade (1941), analisa o paradoxo moderno: quanto mais liberdade se conquista externamente, mais o sujeito se sente perdido internamente. A liberdade, com as suas exigências de escolha e responsabilidade, assusta. E o medo da liberdade leva muitos a buscar refúgio em sistemas rígidos de autoridade ou conformismo.
“A liberdade pode ser um fardo insuportável para quem não desenvolveu a estrutura interior para a sustentar.”
— Erich Fromm
A fuga à liberdade manifesta-se na aceitação cega de ideologias, na idolatria de figuras fortes, na identificação com grupos que prometem segurança. Mas, sobretudo, manifesta-se na vida quotidiana: a pessoa que segue carreiras que não escolheu, padrões de vida que não deseja, valores que não compreende — tudo para não enfrentar o abismo da escolha livre.
2. O falso eu (self): sobrevivência em troca de verdade
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, descreve na sua obra O Brincar e a Realidade (1971) o conceito de falso eu (self) — uma construção defensiva da personalidade que se adapta às exigências do meio, sacrificando a espontaneidade, a autenticidade e o desejo.
O falso eu (self) não é uma mentira consciente, mas uma máscara emocional que se forma em resposta à falta de acolhimento verdadeiro durante a infância. O sujeito aprende que só será amado, valorizado ou aceite se esconder partes de si, se adaptar, se representar.
Na vida adulta, este mecanismo transforma-se em modos de vida inteiros:
• Pessoas bem-sucedidas que vivem em angústia profunda;
• Relações baseadas em papéis e expectativas, e não em intimidade real;
• Identidades performativas, moldadas por likes, estatuto, imagem.
“O falso eu (self) realiza todas as exigências do meio, mas o eu verdadeiro permanece escondido, às vezes para sempre.”
— D. W. Winnicott
3. A melancolia existencial: a vida como tarefa, não como experiência
Quando o sujeito vive segundo o falso eu, durante tempo suficiente, começa a emergir um fenómeno descrito por Rollo May como melancolia existencial: uma sensação difusa de vazio, perda de sentido, e alienação da própria vida.
• “Não sei o que quero”
• “Sinto que a minha vida não me pertence”
• “Tenho tudo o que devia querer, mas sinto-me vazio”
Estas são expressões recorrentes de pessoas que cumpriram todos os critérios de sucesso e pertença, mas perderam o contacto com o seu desejo autêntico.
“A ansiedade profunda é a resposta do ser humano à ameaça de não ser.”
— Rollo May, The Meaning of Anxiety (1950)
A melancolia aqui não é tristeza ocasional, mas uma desconexão ontológica, onde o viver é substituído por uma sequência de tarefas, deveres, papéis. A pessoa continua a existir — mas não sente que vive.
4. Ansiedade, depressão e sintomatologia psíquica da obediência
A modernidade tardia, com a sua ênfase em performance, produtividade e visibilidade, agrava este quadro psíquico. O medo de não ser suficiente, de falhar, de ser irrelevante, gera ansiedade crónica e estados depressivos difusos.
• A Organização Mundial da Saúde reconhece a depressão como uma das principais causas de incapacidade funcional no mundo.
• O burnout, anteriormente limitado a profissões de risco, alastra-se agora à generalidade da vida laboral.
• O consumo excessivo de psicofármacos e estimulantes revela uma sociedade que adormece o sintoma sem escutar a sua origem.
Estes sintomas não são desvios patológicos individuais — são expressões psíquicas de uma cultura que condiciona o sujeito a adaptar-se constantemente, sem nunca se encontrar.
5. A desconexão do desejo e a colonização do eu
A consequência última da instalação do medo castrador é a ruptura entre o sujeito e o seu desejo. A pessoa já não sabe o que quer, apenas o que “deve querer”. Deseja o que a cultura valoriza, o que é socialmente premiado, o que parece seguro.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), argumenta que a sociedade contemporânea fabrica sujeitos narcisicamente frágeis, cuja identidade depende da aprovação externa. O medo de não ser desejável, de não estar à altura, de não ser “visto”, é o que move as decisões — pessoais, profissionais, sociais.
“A sociedade moderna não cria indivíduos — cria consumidores de identidade.”
— Christopher Lasch
O medo, quando internalizado, deixa de ser protecção e torna-se prisão. Em vez de orientar o sujeito para a vida, orienta-o para o desempenho. O superego transforma-se em carrasco emocional, o desejo é substituído por imitação, e o eu autêntico é abandonado em nome da pertença.
Nesta prisão invisível, o sujeito continua a funcionar — mas ao preço de se exilar de si mesmo.
No capítulo seguinte, veremos como esta desconexão individual se torna terreno fértil para a manipulação social e política em larga escala — onde o medo não só adoece o sujeito, mas torna-se ferramenta de governação e de manutenção da ordem.
V. A DIMENSÃO SOCIOPOLÍTICA: O MEDO COMO MECANISMO DE GOVERNAÇÃO
O medo, enquanto emoção primária, sempre foi reconhecido como força mobilizadora. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, as sociedades modernas não se libertaram do medo com a ascensão da razão — apenas o sofisticaram. Nas democracias contemporâneas, o medo não desapareceu: tornou-se método de governação, engenharia de consentimento e motor de políticas públicas.
1. A política do medo: segurança em troca de liberdade
Ao longo da história, regimes autoritários sempre se sustentaram sobre o medo: do inimigo interno, do estrangeiro, da desordem, do caos. Contudo, mesmo em sociedades ditas democráticas e liberais, o medo continua a ser cultivado como estratégia para justificar medidas de controlo.
Giorgio Agamben, em Estado de Excepção (2003), argumenta que o mundo contemporâneo vive numa condição política em que o estado de excepção se tornou norma. A invocação contínua de ameaças — terrorismo, crises sanitárias, catástrofes económicas — permite aos governos suspender direitos, reforçar a vigilância, e limitar liberdades civis sem resistência significativa.
“A segurança transforma-se numa técnica de governação que exige vigilância total em nome do bem-estar colectivo.”
— Agamben, Estado de Excepção
Temos como exemplos:
• O Patriot Act, aprovado nos EUA após os atentados de 11 de Setembro de 2001, ampliou drasticamente os poderes de vigilância estatal.
• Durante a pandemia de COVID-19, diversos governos impuseram medidas de controlo excepcionais, discutíveis e com reduzido escrutínio democrático — frequentemente aceites sem contestação pela população, movida pelo medo.
2. A cultura securitária e o cidadão passivo
A sociedade do medo produz uma cultura em que a segurança se torna valor supremo, substituindo a liberdade, a criatividade ou a justiça. Este paradigma gera cidadãos que preferem ser protegidos do que responsáveis, que preferem a estabilidade à crítica, que aceitam ser vigiados em nome do conforto.
Zygmunt Bauman, em Medo Líquido (2006), descreve uma sociedade onde o medo é fragmentado, vago, mas omnipresente. O sujeito moderno não teme uma ameaça específica — teme a instabilidade, a perda, o colapso de um sentido de ordem.
“A ansiedade moderna não tem rosto — e por isso não tem fim.”
— Bauman, Medo Líquido
Consequência política: quanto mais medo, menos mobilização cívica. O medo esvazia as praças, silencia o debate, enfraquece o raciocínio crítico. Uma população ansiosa não protesta — adapta-se.
3. O inimigo simbólico: fabricar o outro
A instrumentalização do medo exige a construção de inimigos. Desde a Antiguidade que a coesão interna se faz em torno da ameaça externa. Na contemporaneidade, os alvos variam consoante o momento histórico e o interesse político: imigrantes, minorias, desempregados, opositores ideológicos.
Noam Chomsky, em Media Control (1997), demonstra como os meios de comunicação, aliados a interesses políticos, criam um clima de ameaça constante que justifica políticas autoritárias e desvia a atenção das verdadeiras causas dos problemas sociais.
“A manipulação mediática serve para fabricar consentimento — e o medo é o seu ingrediente central.”
— Noam Chomsky
Exemplos contemporâneos:
• A retórica anti-imigração na Europa, usada para justificar o fecho de fronteiras, a criação de zonas de exclusão e o endurecimento policial;
• O uso do medo do “comunismo”, da “ideologia de género” ou do “globalismo” para mobilizar bases conservadoras;
• O medo da “extrema-direita” ou do “regresso ao fascismo” utilizado em campanhas e discursos de esquerda para justificar medidas de censura simbólica ou limitação do debate;
• A intensificação do medo climático em contextos onde o discurso apocalíptico substitui o debate informado, podendo favorecer soluções tecnocráticas pouco escrutinadas.
• O medo da “perda de direitos sociais” ou “do regresso ao passado” utilizado em campanhas eleitorais para mobilizar voto emocional e defensivo.
O que está em causa não é a causa política em si, mas o recurso sistemático ao medo como ferramenta de mobilização emocional e controlo simbólico — independentemente da ideologia que o usa.
4. Aversão ao risco e reforço do conservadorismo
O medo, sobretudo o socialmente induzido, tem consequências políticas mensuráveis. Estudos empíricos demonstram que a percepção de ameaça está correlacionada com o aumento do conservadorismo político.
Estudo: Nature Human Behaviour, 2018 — investigadores analisaram dados de diversos países e concluíram que quando os indivíduos se sentem ameaçados (financeira, fisica ou culturalmente), tendem a adoptar posições mais autoritárias, nacionalistas e conformistas.
Esta aversão ao risco mina a possibilidade de transformação social e política, reforçando o status quo mesmo quando este é gerador de desigualdade.
5. Redes sociais e a microgestão emocional do medo
Na era digital, o medo tornou-se algoritmo. As redes sociais, ao operarem com base em sistemas de engajamento, privilegiam conteúdos polarizadores, indignação moral, indignação emocional e notícias sensacionalistas — todas elas fontes de ansiedade e medo.
Byung-Chul Han, em Psicopolítica (2014), descreve a transição do biopoder disciplinar (Foucault) para uma forma mais insidiosa: o psicopoder, onde os próprios sujeitos colaboram com a sua vigilância e exposição.
“Hoje não somos vigiados — vigiamo-nos a nós próprios com orgulho.”
— Byung-Chul Han
As redes sociais ampliam a comparação, a ansiedade de desempenho, o medo da irrelevância. Mas também reforçam a fragmentação política, a radicalização do discurso, e o ódio identitário — reconfigurando o medo como vínculo afectivo.
A gestão política do medo é, hoje, uma tecnologia de governação emocional. Alimentada por crises reais e artificiais, sustentada por “conteúdos” vigilantes e redes digitais omnipresentes, esta gestão visa manter os cidadãos ocupados com ameaças simbólicas, enquanto o poder se exerce de forma cada vez mais centralizada, opaca e inquestionável.
O medo, aqui, não é acidente — é programa. E o sujeito formado sob esse medo torna-se obediente, previsível, desmobilizado.
No próximo capítulo, veremos como esse mesmo medo, agora combinado com o desejo manipulado e o vazio emocional, é utilizado pelo mercado para transformar indivíduos em consumidores compulsivos — colonizando o desejo e a identidade.
VI. A COLONIZAÇÃO DO DESEJO: O MERCADO, A PUBLICIDADE E O CONSUMO
As sociedades de mercado desenvolveram um modelo altamente eficaz de controlo social: não apenas pela repressão ou vigilância, mas pela gestão do desejo. O medo de não pertencer, de não ser suficiente, de falhar ou de desaparecer é convertido — subtil e eficazmente — em consumo. Não se trata apenas de vender produtos, mas de fabricar necessidades emocionais e identidades desejáveis.
1. O medo como motor do consumo simbólico
O mercado contemporâneo não vende coisas — vende soluções para medos.
• Cosméticos para o medo de envelhecer;
• Tecnologias para o medo de ficar para trás;
• Marcas de roupa para o medo de parecer inadequado;
• Planos de carreira para o medo da irrelevância.
Este fenómeno é descrito por Zygmunt Bauman em Vida de Consumo (2007), onde mostra como a lógica de consumo se infiltra na construção do eu, transformando cada sujeito num “produto” que deve ser constantemente actualizado, aperfeiçoado, reformulado.
“Hoje já não se consome para ter — consome-se para ser.”
— Zygmunt Bauman, Vida de Consumo
A publicidade moderna não apresenta produtos — apresenta vidas ideais, modelos de felicidade, estéticas de pertença. E fá-lo alimentando uma insegurança latente: “tu ainda não és o suficiente.”
2. A publicidade como engenharia emocional
A indústria publicitária desenvolveu técnicas sofisticadas de persuasão emocional e inconsciente, baseadas em estudos de psicologia comportamental e neurociência. O objectivo é claro: associar produtos a estados emocionais desejáveis.
Exemplo paradigmático:
• A Apple vende mais do que tecnologia: vende estética, distinção, prestígio silencioso.
• A Nike não vende sapatilhas: vende superação, resiliência, espírito vencedor.
• A indústria cosmética não vende beleza: vende aprovação, sedução, auto-estima.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), descreve como o capitalismo moderno cria sujeitos narcisicamente vulneráveis, permanentemente dependentes da aprovação externa, facilmente manipuláveis por promessas de valorização simbólica.
“A auto-estima tornou-se um produto que se compra.”
— Christopher Lasch
3. O consumo como resposta ao vazio existencial
Depois de ter sido moldado pela escola, controlado pela política e formatado pelas redes, o sujeito contemporâneo encontra no consumo uma espécie de resposta existencial rápida. Um calmante para a ansiedade difusa, um substituto simbólico para o desejo autêntico.
O problema, como refere Erich Fromm em Ter ou Ser? (1976), é que o desejo genuíno nunca é plenamente satisfeito por objectos. E o que não é satisfeito, é perpetuado. Assim, o ciclo repete-se: insegurança → desejo artificial → compra → prazer momentâneo → frustração → novo desejo.
“O consumidor moderno compra ilusões de felicidade.”
— Erich Fromm
Fenómenos associados:
• Compras compulsivas como forma de regulação emocional (estudos em psicologia clínica);
• “Fast fashion” e “fast identity” — identidades efémeras e descartáveis;
• Substituição da experiência vivida pela experiência partilhável (instagramável).
4. O branding e a mercantilização do self
Num mundo onde tudo é marca, até o eu se torna mercadoria. A cultura da auto-imagem e da influência transforma cada pessoa num projecto de marketing pessoal.
• A identidade é construída em função da visibilidade;
• O corpo torna-se montra;
• As escolhas tornam-se performances.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2010), descreve esta transição: o sujeito já não é explorado por outro — é explorador de si mesmo. Assume voluntariamente o papel de produto e gestor, publicitário e consumidor da própria identidade.
“Hoje, somos simultaneamente campo de batalha e soldado, patrão e escravo.”
— Byung-Chul Han
5. A colonização do desejo: deixar de saber o que se quer
A forma mais profunda de dominação é aquela que transforma o desejo do outro em desejo próprio. O sujeito colonizado não percebe que os seus sonhos, gostos e ambições foram plantados.
Este fenómeno é conhecido como “heteronomia simbólica” — viver sob um desejo que não é nosso, mas que se tornou indistinguível do que se crê ser identidade.
Na prática:
• Jovens que escolhem carreiras por status, e não por vocação;
• Adultos que compram casas, carros e estilos de vida para validar a própria existência;
• Relações baseadas na aparência, e não na verdade íntima.
António Damásio, neurocientista português, em O Erro de Descartes (1994), mostra que as emoções são essenciais à construção da razão e da identidade. Quando as emoções são manipuladas externamente, a autonomia subjectiva colapsa.
O medo transformado em desejo molda uma cultura de carência permanente, onde o sujeito não sabe o que quer — apenas sente que lhe falta algo. O mercado não responde a necessidades reais, mas cria vazios simbólicos que só ele pode prometer preencher.
O sujeito colonizado pelo consumo não vive para ser, mas para parecer; não deseja a vida — deseja a imagem dela.
No capítulo seguinte, exploraremos como este cenário se enraíza em fundamentos antropológicos profundos, e como o medo tem sido historicamente utilizado como mecanismo de coesão social, mesmo que à custa da individualidade.
VII. SÍNTESE ANTROPOLÓGICA: O MEDO COMO ESTRATÉGIA DE COESÃO SOCIAL
O medo não é apenas um fenómeno psicológico ou político — é também, e desde os primórdios da humanidade, uma matriz de organização colectiva. Em todas as culturas conhecidas, o medo desempenhou um papel fundamental na regulação da convivência, na criação de tabus, e na definição do aceitável e do proibido.
Neste sentido, o medo não foi apenas opressivo: foi estruturante. Mas essa função estruturante teve (e tem) um custo — a anulação parcial da individualidade em nome da estabilidade do grupo.
1. O medo como fundamento do sagrado e da moral
Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), defende que a classificação simbólica do mundo — o que é puro ou impuro, permitido ou proibido — é sustentada por emoções como o medo. O que está “fora de lugar” é percebido como ameaça, não necessariamente física, mas à ordem moral.
“O perigo é o que escapa à ordem simbólica.”
— Mary Douglas
Daí emergem os tabus: interdições culturais carregadas de medo colectivo. Comer certos alimentos, tocar certos corpos, pronunciar certas palavras — o que é interdito não é apenas desencorajado, é sacrílego. E a violação do tabu é punida com exclusão, vergonha ou castigo simbólico.
Essa estrutura foi essencial para:
• Criar laços de pertença e identidade comum;
• Regular comportamentos numa época sem leis formais;
• Interiorizar a moralidade como instinto.
Contudo, esse mesmo mecanismo permanece activo, ainda que camuflado, na sociedade contemporânea.
2. O bode expiatório e a manutenção do grupo
René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), propõe uma leitura da origem da cultura baseada na gestão colectiva do medo e da violência. Para Girard, o ser humano é essencialmente mimético: deseja o que o outro deseja, gerando rivalidade. Esse conflito permanente ameaça o grupo.
Qual é a solução arcaica? Transferir a violência para um bode expiatório. Um indivíduo ou grupo é escolhido como responsável pelo caos — e eliminado, punido ou marginalizado. Assim, o grupo liberta-se temporariamente da angústia.
“O sacrifício é uma forma de restaurar a ordem através da exclusão de um inocente.”
— René Girard
Esta lógica mantém-se:
• Nas redes sociais: linchamentos digitais, cancelamentos;
• Na política: minorias demonizadas;
• Na cultura: figuras públicas como catalisadores de frustração colectiva.
O medo do caos é resolvido através da exclusão do diferente. A coesão do grupo é comprada com a renúncia à justiça individual.
3. Medo e pertença: o lugar do indivíduo na tribo
Do ponto de vista antropológico, a necessidade de pertença é tão vital quanto a de alimento ou abrigo. O ser humano, biologicamente vulnerável, só sobreviveu graças à vida em grupo. Daí que o medo da exclusão social seja um dos medos mais profundos e persistentes da espécie.
Este medo traduz-se em comportamentos altamente adaptativos:
• Conformismo moral e estético;
• Censura da diferença;
• Imitação dos hábitos do grupo dominante.
Claude Lévi-Strauss, em O Pensamento Selvagem (1962), argumenta que a cultura é o modo humano de regular a incerteza. E o medo é a emoção que garante que as fronteiras culturais sejam respeitadas. O “estrangeiro”, o “estranho”, o “fora da norma” são marcados como perigosos — não por uma ameaça real, mas porque desafiam a coesão simbólica.
4. A erosão da autonomia em nome da integração
O medo antropológico da exclusão cria uma tensão permanente entre o eu e o grupo. A autenticidade pessoal pode ser percebida como ameaça colectiva. Daí que, muitas vezes, o sujeito escolha a adaptação em vez da expressão.
Este padrão não é exclusivo de sociedades tribais ou tradicionais. Nas culturas contemporâneas, o medo de não corresponder ao grupo social de referência permanece altíssimo:
• Jovens que escondem opiniões ou orientações por medo de exclusão;
• Profissionais que se calam para manter prestígio;
• Pessoas que reprimem desejos para manter aceitação familiar ou religiosa.
“A maior parte das pessoas não vive a própria vida — vive a vida que foi socialmente autorizada.”
— (Reflexo da crítica de Erich Fromm)
5. Entre o vínculo e o exílio: o preço da singularidade
Do ponto de vista antropológico, o medo foi — e é — o cimento das comunidades. Mas esse cimento endurece com o tempo. E o que antes protegia, passa a aprisionar.
A singularidade, a autonomia, a criatividade, só podem florescer se o medo da exclusão deixar de ser dominante. Caso contrário, cada um permanece refém do grupo que o acolheu à condição de se calar.
A cultura do medo não desaparece — renova-se nos códigos do presente.
• Nos padrões corporais exigidos;
• Nas etiquetas linguísticas impostas;
• Nos sistemas de validação social digital.
Tudo o que foge à norma ainda é punido com rejeição. E, por isso, muitos preferem pertencer do que ser.
Do ritual ancestral ao algoritmo contemporâneo, o medo manteve sempre uma função organizadora. Serviu para proteger o grupo — mas ao custo da liberdade individual.
Se a cultura nasce da contenção do medo, a maturidade cultural só será possível quando o medo deixar de ser a base da coesão. Só então o grupo deixará de exigir o silêncio da diferença como preço da aceitação.
No próximo capítulo, exploraremos caminhos possíveis para resgatar a coragem, a autenticidade e o desejo, como formas de superação ética e existencial do medo que castra.
VIII. CAMINHOS POSSÍVEIS: DA CONSCIENTIZAÇÃO À RECONEXÃO
Após atravessarmos múltiplas dimensões em que o medo actua como força modeladora — educativa, psíquica, política, económica, antropológica — importa pensar como se pode viver sem que o medo determine o percurso da existência. Não se trata de negar o medo, mas de restaurar a sua justa medida. De deixar que nos alerte, sem que nos governe. De reconhecer quando ele protege — e quando nos exila de nós próprios.
1. Reconhecer o medo que não protege
O primeiro passo é a consciência crítica.
O medo castrador tem poder porque actua disfarçado: de prudência, de norma, de bom senso, de responsabilidade. Identificá-lo é o início da libertação.
Exercício possível:
• Quando surge o medo: é protecção ou é submissão?
• Estou a evitar um risco real ou apenas a fugir da desaprovação?
• A decisão que estou prestes a tomar é movida pelo meu desejo ou pela necessidade de corresponder?
Esta auto-indagação, feita com honestidade, permite distinguir o medo que salva do medo que silencia.
2. Reeducar o desejo e o pensamento crítico
Grande parte dos medos que nos condicionam resulta de desejos que não são verdadeiramente nossos. Foram introjectados — pela família, pela escola, pela publicidade, pela cultura. Recuperar o desejo genuíno é um processo delicado, mas vital.
Estratégias possíveis:
• Questionar narrativas dominantes sobre sucesso, felicidade, normalidade;
• Desconstruir discursos automáticos como “é assim que tem de ser” ou “sempre foi assim”;
• Resgatar práticas reflexivas: leitura, escrita, diálogo, silêncio.
Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (1996), lembra-nos que educar é um ato de liberdade — e que o pensamento crítico é o antídoto contra a domesticação do espírito.
“Ensinar exige coragem para dizer o que se pensa — mesmo quando se teme o julgamento.”
— Paulo Freire
3. Restaurar o vínculo com o eu autêntico
A reconexão interior exige espaço, tempo e escuta. O eu verdadeiro não emerge sob pressão — precisa de ambiente favorável. Há que reduzir o ruído exterior para escutar o que já existe dentro de nós.
Caminhos possíveis:
• Terapia ou acompanhamento psicanalítico;
• Escrita íntima como prática de revelação;
• Criação artística sem finalidade produtiva;
• Caminhadas solitárias, contacto com a natureza, meditação.
Donald Winnicott defendeu que a autenticidade começa onde o sujeito pode brincar, criar, viver sem medo do olhar do outro.
“A saúde é a capacidade de estar só — sem se sentir ameaçado.”
— Winnicott
4. Reencantar a vida pela coragem
Viver com autenticidade é um ato de coragem diária. Não há coragem sem medo — mas há coragem que age mesmo com ele. E essa coragem não é grandiosa ou heróica: é, muitas vezes, silenciosa, íntima, quase imperceptível.
• Dizer “não” quando se esperava um “sim”;
• Mudar de rumo profissional aos cinquenta anos;
• Expor uma fragilidade sem medo de parecer fraco;
• Amar sem garantias.
Rollo May, em The Courage to Create (1975), afirma que a criação é o contrário da adaptação passiva. Criar é afirmar-se contra o medo — mesmo que o mundo não compreenda.
“A coragem não é ausência de medo — é afirmação da existência apesar dele.”
— Rollo May
5. Criar comunidades de confiança e partilha
Ninguém se liberta do medo sozinho. Se o medo é socialmente cultivado, a confiança também precisa de ser socialmente reconstruída.
Propostas concretas:
• Criar espaços de escuta sem julgamento (círculos de partilha, grupos de apoio, conversas profundas);
• Promover uma educação que valorize o erro como caminho, a pergunta como saber e a diversidade como riqueza;
• Estimular culturas de trabalho e convivência baseadas no respeito emocional, e não na pressão ou na vigilância.
Bell Hooks, pensadora e pedagoga afro-americana, recorda-nos que o amor — entendido como ética relacional — é o maior gesto político contra o medo.
“O medo constrói muros — o amor constrói pontes.”
— Bell Hooks
6. Praticar a recusa ética
Por fim, há momentos em que a libertação do medo exige recusa. Dizer não ao que castra, mesmo que ainda não se saiba o que virá a seguir. Recusar narrativas, papéis, sistemas, vínculos — não por rebeldia gratuita, mas por fidelidade ao que em nós ainda pulsa.
Essa recusa é, muitas vezes, solitária. Mas é também o início de uma nova pertença — não ao grupo que exige a máscara, mas à própria vida, tal como ela é.
Não há método definitivo para vencer o medo. Mas há gestos de lucidez e coragem que o desarmam todos os dias.
• Reconhecê-lo.
• Escutá-lo.
• Desobedecer-lhe.
• Criar apesar dele.
• Amar dentro dele.
Cada gesto de reconexão com o desejo, com a verdade interior, com o outro sem máscaras, é uma pequena revolução contra a cultura do medo.
E talvez seja apenas assim — passo a passo, vínculo a vínculo, gesto a gesto — que se constrói a verdadeira liberdade.
Eco Intercultural – Bushidō: O medo sob o olhar da honra
Num ensaio que procura analisar criticamente o papel do medo nas sociedades ocidentais modernas — sobretudo enquanto instrumento de conformismo, submissão e manipulação — é fundamental evitar a armadilha da universalização. O que é problemático num certo modelo cultural pode assumir outro significado noutro contexto. Por isso, propõe-se aqui um breve eco intercultural: como é que o medo é compreendido noutra tradição civilizacional profundamente distinta — a dos antigos samurais japoneses, através do código Bushidō?
O medo como prova de espírito
O Bushidō — literalmente “caminho do guerreiro” — foi o código ético e filosófico que guiou, durante séculos, a vida dos samurais no Japão feudal. Enraizado no confucionismo (ética e dever), no zen-budismo (impermanência) e no xintoísmo (lealdade ancestral), esse código não nega o medo — mas não o tolera como mestre.
O medo existe, mas não deve comandar. O verdadeiro guerreiro age com o medo — e não contra ele.
Ao contrário da cultura contemporânea, que muitas vezes mede o valor pela performance e a segurança, o Bushidō valoriza sobretudo a honra, a coragem interior e a aceitação consciente da morte como parte do caminho.
A impermanência como libertação
Influenciado pelo pensamento zen, o samurai é educado a compreender a impermanência (mujo) da vida. Isso significa que tudo o que é material ou emocional está sujeito à dissolução: o corpo, o estatuto, a glória.
Nesse contexto, o medo da perda — inclusive da morte — deixa de ser central. A vida plena não se mede pelo seu prolongamento, mas pela inteireza do gesto.
“O caminho do samurai está na morte.”
— Hagakure, Yamamoto Tsunetomo
Esta frase não celebra o suicídio, mas a prontidão: viver como quem já aceitou morrer — e por isso está livre. É uma ética da acção, não da paralisia.
O medo virtuoso: a vergonha como régua moral
Se há um medo que se admite no Bushidō, é o medo da vergonha — entendido não como humilhação social, mas como quebra da integridade pessoal. Trair a palavra dada, recuar diante do dever, comprometer a honra: esses são os verdadeiros horrores para o guerreiro.
Este medo, ao contrário do medo contemporâneo (que muitas vezes é cultivado para favorecer o consumo ou a passividade), tem uma função formativa, não manipuladora. Ele educa o carácter, modera os impulsos e afirma a responsabilidade individual.
Um referencial que relativiza os nossos próprios pressupostos
Comparando com a cultura ocidental moderna, é inevitável uma inversão de valores:
• No Bushidō, teme-se a indignidade, não a instabilidade.
• O silêncio é sinal de contenção interior, não de repressão.
• A obediência é a um ideal ético interno, não a uma norma imposta externamente.
Este eco serve, portanto, como espelho e contraponto. Mostra que o modo como vivemos o medo não é universal nem inevitável. É culturalmente condicionado. É historicamente construído. E, por isso mesmo, pode ser reavaliado.
“Quando compreendemos como outros povos viveram e enfrentaram o medo, percebemos que o que tomávamos por natural é, afinal, apenas habitual.”
IX. O Medo Virtuoso? Ambivalência Ética entre Contenção e Controlo
Ao longo deste ensaio, foi evidenciado o modo como o medo, quando socialmente cultivado e politicamente instrumentalizado, pode castrar o sujeito, limitar o pensamento crítico e desviar o desejo do seu eixo autêntico. No entanto, a honestidade intelectual exige que se reconheça a ambivalência fundamental do medo. Nem todo o medo é opressivo. Nem todo o seu efeito é castrador. Há formas de medo que, longe de inibir a liberdade, a protegem.
Esta ambiguidade é central para qualquer análise ética séria. Reduzir o medo a um mecanismo puramente negativo seria cair numa simplificação que, em última instância, repetiria a rigidez que aqui se critica.
1. O medo como instrumento ético de contenção
Desde as mais antigas concepções do Direito, o medo foi compreendido como uma forma de dissuasão racional contra o mal social. A pena, a sanção, a reprovação pública — todos estes mecanismos pressupõem a existência de um medo justo, proporcional, contido.
“O temor da pena é o que mantém o vínculo social quando o apelo à virtude falha.”
— (inspirado em Cícero e Kant)
A filosofia política clássica — de Hobbes a Montesquieu — reconhece que o medo, desde que regulado por princípios de justiça, é necessário para a convivência civilizada. É o que impede que a liberdade se torne violência, que o desejo se torne tirania. O medo da consequência educa a prudência, e a prudência, como diria Aristóteles, é a virtude que regula todas as outras.
2. Medo e moral: contenção ou consciência?
Há também um medo de tipo moral, que não nasce da lei exterior, mas da consciência interior. O medo de ferir, de trair, de corromper-se. Esse medo não é sinal de fraqueza — é sinal de maturidade ética.
Paul Ricoeur fala da “consciência ética como memória do mal possível”. O sujeito que se conhece, que reconhece o poder destrutivo das suas acções ou omissões, experimenta o medo não como prisão, mas como aviso. É um medo lúcido. Responsável. Humanizante.
3. O medo como sinal existencial
Na tradição da psicologia existencial — de Rollo May a Viktor Frankl — o medo não é inimigo da liberdade, mas o seu horizonte. Só quem se sabe mortal, falível, exposto ao abismo do sentido, compreende o valor das escolhas que faz.
A liberdade autêntica não é euforia sem limite — é um caminho trilhado entre o medo de falhar e o impulso de viver com verdade. Neste sentido, o medo é um espelho da profundidade da condição humana.
4. O perigo da inversão: quando o medo se torna sistema
Mas aqui reside o ponto crítico: o que é legítimo em doses contidas, torna-se destrutivo quando elevado a sistema. O medo que, em princípio, seria pedagógico ou ético, pode transformar-se num meio de domesticação de massas quando passa a operar de forma estrutural, constante, invisível.
O medo de errar, quando ocasional, educa; Mas o medo de errar, quando permanente, paralisa.
O medo da consequência, quando justo, orienta; Mas o medo da punição, quando desproporcional, oprime.
O medo da solidão, quando real, convida ao vínculo; Mas o medo da rejeição, quando socialmente inculcado, fabrica cópias.
A transição entre o medo virtuoso e o medo castrador é subtil — e culturalmente muito manipulável.
5. Critério ético: a intencionalidade do medo e o seu impacto
Para discernir se um medo é admissível ou opressivo, deve perguntar-se:
• De onde vem? É natural, experiencial, ou socialmente inculcado?
• A quem serve? Protege o sujeito ou protege a estrutura?
• Que liberdade preserva — ou compromete?
• Cria responsabilidade — ou dependência?
• Desperta consciência — ou apenas conformismo?
Um medo é eticamente admissível quando conduz à autonomia, ao respeito mútuo, à justiça. Torna-se castrador quando gera apenas obediência, passividade e medo de viver com verdade.
O medo é, ao mesmo tempo, profundamente humano e perigosamente manipulável. Pode ser factor de civilização ou instrumento de repressão. Pode humanizar a acção ou neutralizar o pensamento.
A chave está na sua origem, na sua função e na sua medida.
Por isso, mais do que rejeitar o medo em bloco, o verdadeiro gesto ético é discerni-lo. Nomeá-lo. Perguntar-lhe o que pretende. E, sobretudo, escolher com consciência quando escutá-lo — e quando o ultrapassar.
X. CONCLUSÃO
Chegados ao final deste ensaio, torna-se evidente que o medo, longe de ser apenas uma emoção instintiva ou uma reacção episódica, é um elemento estruturante da vida moderna. Não apenas nos protege do perigo, mas — quando cultivado pelas instituições, pela cultura e pela política — molda subjectividades, condiciona escolhas e silencia o desejo.
Identificámos, ao longo do percurso, várias dimensões complementares desse medo castrador:
• A educação, que em vez de promover a autonomia, produz sujeitos ansiosos por aprovação, treinados para evitar o erro e conformar-se à norma;
• A psique, onde o superego punitivo, o falso self e a melancolia existencial mostram os efeitos interiores de uma vida vivida para corresponder, e não para ser;
• A política, que manipula o medo como ferramenta de governação e desmobilização, fomentando estados de excepção e apatia;
• O mercado, que transforma o medo da insuficiência em desejo manipulado, promovendo o consumo como substituto da autenticidade;
• A antropologia, que revela como o medo sempre serviu como cimento social — mas frequentemente à custa da liberdade e da singularidade.
O sujeito contemporâneo, assim modelado, vive sob vigilância exterior e interior, adaptado, produtivo, “normal” — mas profundamente alienado de si. Age mais para não ser excluído do que para ser inteiro. Deseja mais por reflexo do que por convicção. E muitas vezes, sem compreender porquê, carrega um mal-estar difuso, uma tristeza sem nome, uma vida sem pulso.
Mas reconhecer esta condição não deve gerar fatalismo. Pelo contrário: abre espaço para a acção ética e a responsabilidade pessoal. A consciência do medo que não protege é o primeiro passo para retomar a autonomia, restaurar o desejo e viver com verdade.
A proposta aqui não é utópica, nem absoluta. Não se trata de eliminar o medo — mas de reconfigurar a relação com ele. Escutá-lo sem lhe obedecer cegamente. Aceitá-lo como parte da vida, sem permitir que defina o seu sentido.
Recusar o medo como fundamento da existência é um gesto político, emocional, espiritual. E cada pessoa que ousa esse gesto cria uma pequena ruptura no tecido da normose — essa normalidade doentia que aceita a vida sem brilho como inevitável.
Talvez nunca venhamos a libertar-nos totalmente do medo. Mas podemos, pelo menos, evitar que ele seja o autor da nossa história.
“A liberdade não é a ausência de medo. É a decisão de não viver segundo ele.”
— (Reflexão final inspirada em Fromm, Winnicott e May)
Nota sobre a Bibliografia
A bibliografia apresentada reflecte o universo de referências que sustentaram a construção deste ensaio. Nem todas as obras foram lidas por mim de forma exaustiva ou integral. Algumas delas foram consultadas parcialmente, outras analisadas com o apoio do modelo de linguagem da OpenAI, cuja assistência permitiu contextualizar e interpretar trechos e conceitos de autores fundamentais no campo da psicanálise, filosofia, sociologia, antropologia e teoria crítica.
Este trabalho é, portanto, fruto de um esforço pessoal de compreensão e síntese, mas também de uma mediação inteligente que me ajudou a aceder com mais profundidade a fontes que, de outro modo, talvez me fossem menos acessíveis e muito mais morosas.
Ainda assim, a responsabilidade pela selecção, estrutura e orientação argumentativa é inteiramente minha. Se houver mérito de quaisquer acertos é tão partilhado quanto o erro é, naturalmente, pessoal.
Bibliografia
Psicologia, Psicanálise e Filosofia Existencial
• Damásio, A. (1996). O erro de Descartes: Emoção, razão e o cérebro humano. Europa-América. (Obra original publicada em 1994)
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• Fromm, E. (1991). Ter ou ser?. Dinalivro. (Obra original publicada em 1976)
• Fromm, E. (2002). O medo à liberdade (5.ª ed.). Presença. (Obra original publicada em 1941)
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• May, R. (1977). The meaning of anxiety (Rev. ed.). Norton. (Obra original publicada em 1950)
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Psicologia Social, Narcisismo e Identidade Moderna
• Lasch, C. (2008). A cultura do narcisismo: A vida americana numa era de esperanças em declínio. Edições 70. (Obra original publicada em 1979)
Educação, Autonomia e Crítica Pedagógica
• Bourdieu, P., & Passeron, J.-C. (2008). A reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Edições 70. (Obra original publicada em 1970)
• Freire, P. (2000). Pedagogia do oprimido (17.ª ed.). Edições Afrontamento. (Obra original publicada em 1968)
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Filosofia Política, Medo e Poder
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• Douglas, M. (2006). Pureza e perigo: Uma análise dos conceitos de poluição e tabu. Edições 70. (Obra original publicada em 1966)
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Ética Relacional e Educação Afectiva
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Eco Intercultural – Cultura Japonesa e Bushidō
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Estudos empíricos e fontes institucionais
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Nota Preliminar
Este ensaio nasce de uma inquietação íntima e de um desejo profundo de compreender melhor a forma como o medo — sobretudo aquele que não protege, mas condiciona — molda os comportamentos, as decisões e a própria estrutura emocional e social das pessoas no mundo contemporâneo.
Não sou académico, investigador nem especialista nas áreas abordadas. Escrevo apenas como um mero e humilde observador pensante, alguém que olha para dentro e para fora com curiosidade, espírito crítico e vontade de questionar o que é dado como adquirido. As reflexões que aqui partilho resultam da leitura atenta de autores com obra reconhecida, da observação quotidiana, da escuta de outros e da experiência de viver num tempo em que muitos vivem mais para corresponder do que para ser.
Este texto não pretende ensinar, convencer ou provar. Apenas convidar à reflexão. Se, porventura, tocar em algo essencial, será já recompensa suficiente. E se, em algum ponto, falhar ou parecer insuficiente, peço desde já a indulgência de quem lê — pois escrevo, não com autoridade, mas com verdade.
INTRODUÇÃO
Vivemos numa época em que o medo deixou de ser apenas uma emoção ocasional para se tornar uma atmosfera. Medo da instabilidade económica, do fracasso, do envelhecimento, da exclusão, da irrelevância, do erro, do julgamento alheio. Medos que se disfarçam de prudência, mas que silenciosamente limitam, controlam e moldam a vida de milhões de indivíduos.
Importa, desde logo, distinguir entre o medo protector — aquele que tem raízes biológicas, que nos alerta para o perigo real e contribui para a nossa sobrevivência — e o medo castrador, que é induzido, cultivado e perpetuado por estruturas sociais, educativas, políticas e culturais. Este último não protege: condiciona. Não desperta a consciência: adormece o desejo. Não ensina a viver: ensina a obedecer.
Neste ensaio, propõe-se uma reflexão aprofundada sobre o medo como instrumento de controlo e submissão, e sobre as suas consequências na formação do sujeito moderno. Recorrendo a contributos da psicanálise, da sociologia, da psicologia existencial, da antropologia e da teoria política, procurar-se-á demonstrar como as sociedades contemporâneas — especialmente no Ocidente — produzem sujeitos moldados por medos simbólicos, internalizados e crónicos, que substituem a liberdade interior por conformismo funcional.
Ao longo deste percurso, analisar-se-ão as principais frentes onde o medo actua como força castradora:
• A educação, que privilegia a obediência sobre a criatividade;
• A psicologia individual, onde o desejo é reprimido em nome da aprovação;
• A política e a economia, que alimentam a ansiedade como forma de governo e de consumo;
• E a cultura, que reforça padrões de pertença baseados na comparação e na exclusão.
Este não é, portanto, um ensaio sobre o medo natural ou racional. É um ensaio sobre o medo como ideologia invisível, que actua sob a aparência de normalidade e que, por isso mesmo, é tão eficaz a produzir cidadãos dóceis, consumidores compulsivos e identidades amputadas do seu próprio eixo interior.
No final, procuraremos ainda apontar caminhos possíveis para a superação deste medo que aprisiona — não através da negação do risco, mas pela reconquista da coragem, da autenticidade e do desejo. Pois, como afirmava Erich Fromm, talvez o maior desafio do ser humano não seja livrar-se do mal externo, mas reconhecer o medo interior que o impede de ser quem verdadeiramente é.
II. O MEDO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL
Desde as suas origens, o medo acompanhou o ser humano como uma resposta biológica fundamental à ameaça. Evolutivamente, foi o medo que garantiu a sobrevivência da espécie: a fuga diante do predador, a prudência perante o perigo, o alerta em situações de instabilidade. Este medo instintivo, enraizado no sistema límbico — nomeadamente na amígdala cerebral — tem uma função protectora, essencial à vida. É o que podemos designar por medo primário ou natural.
Contudo, à medida que as sociedades humanas se tornaram mais complexas, o medo deixou de estar apenas associado ao perigo físico imediato e passou a operar num plano simbólico e social. As ameaças passaram a ser construídas culturalmente: o medo de desagradar aos deuses, de ser excluído do grupo, de transgredir normas, de fracassar, de não corresponder. Este medo secundário ou condicionado tornou-se uma ferramenta poderosa de coesão, mas também de domínio.
Segundo a antropóloga Mary Douglas, na sua obra Pureza e Perigo (1966), o medo está intrinsecamente ligado à noção de ordem e pureza social. Os tabus e rituais existentes em diversas culturas operam como estruturas simbólicas de protecção contra o caos. O “perigoso” é, muitas vezes, apenas aquilo que escapa à classificação dominante. Assim, o medo não é apenas uma reacção emocional: é um instrumento organizador da realidade social, com funções morais e políticas.
Esta ideia é reforçada por René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), ao mostrar que muitas comunidades primordiais canalizaram o medo e a violência interna através de mecanismos de sacrifício. A criação de bodes expiatórios — culpados simbólicos sobre os quais se descarrega a angústia colectiva — revela como o medo pode funcionar como ferramenta de estabilização social à custa do indivíduo.
Na modernidade, este medo simbólico transforma-se: já não é o medo da tempestade ou da maldição tribal, mas o medo da falência pessoal, da irrelevância social, da desaprovação colectiva. Trata-se de uma nova pedagogia do medo, mais invisível, mas igualmente eficaz — porque internalizada.
É neste ponto que Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), introduz o conceito de panoptismo, como metáfora da sociedade moderna. O panóptico — modelo ideal de prisão desenhado por Jeremy Bentham — permite que todos sejam potencialmente observados sem saberem quando. A consequência? A autocensura, a normalização do comportamento, a submissão sem necessidade de violência física. O medo torna-se disciplina, e a disciplina torna-se identidade.
O medo, ao longo da história, deixa de ser apenas uma reacção e passa a ser um projecto. Um projecto de domesticação dos corpos, de contenção dos impulsos, de modelação dos desejos e de reprodução da ordem social. Se antes se temia a morte física, hoje teme-se a morte simbólica: o esquecimento, o ridículo, o fracasso, a rejeição. E é este medo, subtil e omnipresente, que sustenta boa parte das dinâmicas de poder nas sociedades contemporâneas.
O medo tornou-se, assim, uma linguagem social — uma gramática invisível que regula o que se pode e não se pode ser. E o mais inquietante é que essa gramática, por estar profundamente interiorizada, já nem sempre é sentida como imposição externa. O sujeito obedece, não porque é coagido, mas porque já não sabe desejar fora dos limites impostos.
Esta passagem do medo natural para o medo simbólico e estruturado marca uma viragem decisiva na história da subjectividade humana. É sobre esta base que se constroem as restantes dimensões deste ensaio: a educacional, a psíquica, a política e a cultural — todas elas alimentadas por uma arquitectura do medo que, em vez de proteger, aprisiona.
III. A DIMENSÃO EDUCACIONAL: A ESCOLA COMO SEMINÁRIO DO MEDO
A escola é, à primeira vista, um espaço de aprendizagem, socialização e emancipação. Contudo, sob uma análise mais crítica e multidisciplinar, torna-se evidente que as instituições educativas modernas são também dispositivos estruturantes de obediência, padronização e controlo comportamental — muitas vezes através da produção sistemática de medo.
Este medo manifesta-se de forma aparentemente inofensiva: medo de errar, de falar em público, de tirar má nota, de não corresponder às expectativas. Mas os seus efeitos são profundos e duradouros: aniquilação progressiva da criatividade, da espontaneidade, da coragem e da autonomia.
1. A escola como aparelho disciplinar
O filósofo Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), mostrou como, desde o século XVIII, a escola foi desenhada nos moldes de outras instituições disciplinares (prisões, quartéis, hospitais). A divisão do espaço, o tempo rigidamente segmentado, a vigilância permanente e a hierarquia professor-aluno criaram um sistema em que aprender se pode confundir com obedecer.
A disciplina escolar não visa apenas transmitir conteúdos, mas sobretudo produzir corpos dóceis e previsíveis — treinados para responder a estímulos externos e habituados à avaliação constante.
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir
Nota de reflexão crítica sobre a citação de Michel Foucault
“A escola torna-se o lugar onde se aprende não só a ler, mas a calar; não só a contar, mas a sentar direito.”
— Michel Foucault, Vigiar e Punir (1975)
Esta frase de Foucault, frequentemente citada, sintetiza de forma potente a crítica à função disciplinadora da escola moderna. É, no entanto, importante contextualizá-la. Foucault não estava a atacar o ato de ensinar em si, mas sim a denunciar como as instituições modernas — entre elas a escola — foram desenhadas à imagem de estruturas de controlo: prisões, quartéis, fábricas.
A sua crítica dirige-se ao modelo institucional que normaliza comportamentos, mais do que ao ato educativo em si. Ainda assim, importa perguntar: será que, hoje, a escola ainda ensina a calar e a sentar direito?
A resposta, infelizmente, ainda é em parte afirmativa. Muitos sistemas educativos continuam a privilegiar:
• A conformidade sobre a criatividade;
• A resposta certa sobre a dúvida honesta;
• A submissão à autoridade sobre o pensamento crítico.
Mas também é verdade que existem espaços de transformação real. Muitas escolas e educadores comprometidos procuram hoje abrir lugar à expressão, à escuta e à participação significativa dos alunos. Projectos educativos alternativos, pedagogias participativas, metodologias de aprendizagem activa e o acesso a plataformas digitais criaram novas possibilidades de voz e autonomia.
Portanto, a frase de Foucault mantém validade como diagnóstico — mas não deve ser absolutizada. Serve de alerta, não de sentença. O que está em causa não é a disciplina, mas a domesticação. A escola pode, sim, ser um lugar onde se aprende a falar, a pensar e a viver — desde que não se esqueça de que também pode, inadvertidamente, ensinar a calar.
2. O medo de errar e o fracasso como identidade
O erro, na maioria dos sistemas educativos, não é visto como parte natural da aprendizagem, mas como falha pessoal. O aluno teme o julgamento, a nota, a humilhação pública. Esta lógica da penalização gera ansiedade crónica e conduz à inibição progressiva da experimentação.
Donald Winnicott, na sua obra O Brincar e a Realidade (1971), sublinha a importância do espaço lúdico e da permissividade emocional para o desenvolvimento de um (self) “eu” autêntico. Quando a criança é impedida de errar ou brincar livremente, constrói defesas psicológicas que perduram na vida adulta — entre elas, o falso “eu”, que aprende a representar o “bom aluno” mesmo que isso implique desconexão do desejo interior.
3. A performance como valor e o medo de não corresponder
O sistema educativo, centrado na avaliação quantitativa (testes, exames, rankings), transforma o processo de aprendizagem num espectáculo de performance contínua. Os alunos não estudam para compreender, mas para “acertar”; não participam para expressar, mas para obter aprovação.
Este ambiente cria personalidades ansiosas, dependentes da validação externa e avessas ao risco. O medo da reprovação social — mais do que escolar — instala-se como motor emocional do comportamento. Desde cedo, os alunos aprendem que o seu valor está condicionado à sua capacidade de corresponder. Não se busca o saber — busca-se o prémio.
Este fenómeno é particularmente visível em sistemas de ensino muito competitivos (como os da Coreia do Sul, Japão ou mesmo Portugal), onde as taxas de ansiedade, depressão e suicídio entre adolescentes têm sido objecto de estudos preocupantes nos últimos anos (OCDE, 2018).
4. A reprodução das desigualdades e a exclusão simbólica
A obra de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, A Reprodução (1970), revela como o sistema educativo não corrige desigualdades sociais — reprodu-las. O “mérito” é, muitas vezes, apenas a adaptação a códigos culturais e linguísticos já presentes nos meios sociais privilegiados.
O medo de “não estar à altura” não é apenas académico — é identitário. Muitos alunos oriundos de contextos menos favorecidos internalizam a ideia de que não pertencem, não servem, não podem. Esta violência simbólica gera desmotivação, abandono escolar e perpetuação de ciclos de exclusão.
“O sistema de ensino consagra a desigualdade sob a forma de legitimidade.”
— Pierre Bourdieu, A Reprodução
5. A negação da criatividade e da autonomia
O medo escolar não forma pensadores — forma executantes. A criatividade, o pensamento divergente, o questionamento da norma são, frequentemente, vistos como ameaça à ordem estabelecida. Em vez de encorajar o pensamento crítico, a escola tende a premiar a repetição, o silêncio, a adequação.
Ivan Illich, em Sociedade sem Escolas (1971), propôs uma crítica radical: o sistema escolar, tal como concebido, serve para domesticar o pensamento e adaptar o indivíduo à lógica do mercado e da obediência. A escola cria a ilusão da liberdade através da competição, mas no fundo, educa para o conformismo.
A dimensão educacional do medo castrador é talvez a mais insidiosa, porque actua na fase mais moldável da vida humana. A escola, idealmente um espaço de emancipação, torna-se — salvo raras excepções — um laboratório de produção de sujeitos dóceis, performativos e ansiosos, cuja principal lição é aprender a temer: o erro, o julgamento, o fracasso, a diferença.
O sujeito que sai deste percurso escolar já aprendeu a desconfiar do próprio impulso criativo, a esconder o que sente e a medir o próprio valor pela aprovação alheia. E é com esse material humano que o mundo adulto, político e económico irá trabalhar.
No capítulo seguinte, veremos como esse sujeito — educado no medo — carrega esse padrão para dentro de si, dando origem àquilo que a psicologia existencial e a psicanálise descrevem como o falso eu (self) e a melancolia de não saber quem se é.
IV. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA EXISTENCIAL: DO SUPEREGO AO VAZIO
O medo, uma vez inculcado pelas estruturas familiares, escolares e sociais, não permanece na periferia da vida psíquica. Internaliza-se, converte-se em voz interior, em exigência constante, em autocensura. Esta interiorização do medo é, na linguagem psicanalítica, a instalação do superego — aquela instância mental que julga, corrige, pune e exige, com base em normas que raramente são conscientes.
Nas palavras de Freud, o superego é herdeiro da autoridade parental e cultural. Mas, quando o sujeito cresce num ambiente em que o amor é condicionado ao desempenho, a aceitação depende da obediência, e o erro é punido com desaprovação, o superego adquire uma tonalidade patológica: torna-se tirânico.
“O superego pode ser mais cruel do que qualquer pai.”
— Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização (1930)
Este juiz interior, formado no medo da rejeição e da punição, transforma-se na principal fonte de angústia existencial. O sujeito já não precisa de ser controlado por forças externas: traz o controlo dentro de si.
1. O medo da liberdade e o desejo inconsciente de submissão
Erich Fromm, em O Medo à Liberdade (1941), analisa o paradoxo moderno: quanto mais liberdade se conquista externamente, mais o sujeito se sente perdido internamente. A liberdade, com as suas exigências de escolha e responsabilidade, assusta. E o medo da liberdade leva muitos a buscar refúgio em sistemas rígidos de autoridade ou conformismo.
“A liberdade pode ser um fardo insuportável para quem não desenvolveu a estrutura interior para a sustentar.”
— Erich Fromm
A fuga à liberdade manifesta-se na aceitação cega de ideologias, na idolatria de figuras fortes, na identificação com grupos que prometem segurança. Mas, sobretudo, manifesta-se na vida quotidiana: a pessoa que segue carreiras que não escolheu, padrões de vida que não deseja, valores que não compreende — tudo para não enfrentar o abismo da escolha livre.
2. O falso eu (self): sobrevivência em troca de verdade
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, descreve na sua obra O Brincar e a Realidade (1971) o conceito de falso eu (self) — uma construção defensiva da personalidade que se adapta às exigências do meio, sacrificando a espontaneidade, a autenticidade e o desejo.
O falso eu (self) não é uma mentira consciente, mas uma máscara emocional que se forma em resposta à falta de acolhimento verdadeiro durante a infância. O sujeito aprende que só será amado, valorizado ou aceite se esconder partes de si, se adaptar, se representar.
Na vida adulta, este mecanismo transforma-se em modos de vida inteiros:
• Pessoas bem-sucedidas que vivem em angústia profunda;
• Relações baseadas em papéis e expectativas, e não em intimidade real;
• Identidades performativas, moldadas por likes, estatuto, imagem.
“O falso eu (self) realiza todas as exigências do meio, mas o eu verdadeiro permanece escondido, às vezes para sempre.”
— D. W. Winnicott
3. A melancolia existencial: a vida como tarefa, não como experiência
Quando o sujeito vive segundo o falso eu, durante tempo suficiente, começa a emergir um fenómeno descrito por Rollo May como melancolia existencial: uma sensação difusa de vazio, perda de sentido, e alienação da própria vida.
• “Não sei o que quero”
• “Sinto que a minha vida não me pertence”
• “Tenho tudo o que devia querer, mas sinto-me vazio”
Estas são expressões recorrentes de pessoas que cumpriram todos os critérios de sucesso e pertença, mas perderam o contacto com o seu desejo autêntico.
“A ansiedade profunda é a resposta do ser humano à ameaça de não ser.”
— Rollo May, The Meaning of Anxiety (1950)
A melancolia aqui não é tristeza ocasional, mas uma desconexão ontológica, onde o viver é substituído por uma sequência de tarefas, deveres, papéis. A pessoa continua a existir — mas não sente que vive.
4. Ansiedade, depressão e sintomatologia psíquica da obediência
A modernidade tardia, com a sua ênfase em performance, produtividade e visibilidade, agrava este quadro psíquico. O medo de não ser suficiente, de falhar, de ser irrelevante, gera ansiedade crónica e estados depressivos difusos.
• A Organização Mundial da Saúde reconhece a depressão como uma das principais causas de incapacidade funcional no mundo.
• O burnout, anteriormente limitado a profissões de risco, alastra-se agora à generalidade da vida laboral.
• O consumo excessivo de psicofármacos e estimulantes revela uma sociedade que adormece o sintoma sem escutar a sua origem.
Estes sintomas não são desvios patológicos individuais — são expressões psíquicas de uma cultura que condiciona o sujeito a adaptar-se constantemente, sem nunca se encontrar.
5. A desconexão do desejo e a colonização do eu
A consequência última da instalação do medo castrador é a ruptura entre o sujeito e o seu desejo. A pessoa já não sabe o que quer, apenas o que “deve querer”. Deseja o que a cultura valoriza, o que é socialmente premiado, o que parece seguro.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), argumenta que a sociedade contemporânea fabrica sujeitos narcisicamente frágeis, cuja identidade depende da aprovação externa. O medo de não ser desejável, de não estar à altura, de não ser “visto”, é o que move as decisões — pessoais, profissionais, sociais.
“A sociedade moderna não cria indivíduos — cria consumidores de identidade.”
— Christopher Lasch
O medo, quando internalizado, deixa de ser protecção e torna-se prisão. Em vez de orientar o sujeito para a vida, orienta-o para o desempenho. O superego transforma-se em carrasco emocional, o desejo é substituído por imitação, e o eu autêntico é abandonado em nome da pertença.
Nesta prisão invisível, o sujeito continua a funcionar — mas ao preço de se exilar de si mesmo.
No capítulo seguinte, veremos como esta desconexão individual se torna terreno fértil para a manipulação social e política em larga escala — onde o medo não só adoece o sujeito, mas torna-se ferramenta de governação e de manutenção da ordem.
V. A DIMENSÃO SOCIOPOLÍTICA: O MEDO COMO MECANISMO DE GOVERNAÇÃO
O medo, enquanto emoção primária, sempre foi reconhecido como força mobilizadora. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, as sociedades modernas não se libertaram do medo com a ascensão da razão — apenas o sofisticaram. Nas democracias contemporâneas, o medo não desapareceu: tornou-se método de governação, engenharia de consentimento e motor de políticas públicas.
1. A política do medo: segurança em troca de liberdade
Ao longo da história, regimes autoritários sempre se sustentaram sobre o medo: do inimigo interno, do estrangeiro, da desordem, do caos. Contudo, mesmo em sociedades ditas democráticas e liberais, o medo continua a ser cultivado como estratégia para justificar medidas de controlo.
Giorgio Agamben, em Estado de Excepção (2003), argumenta que o mundo contemporâneo vive numa condição política em que o estado de excepção se tornou norma. A invocação contínua de ameaças — terrorismo, crises sanitárias, catástrofes económicas — permite aos governos suspender direitos, reforçar a vigilância, e limitar liberdades civis sem resistência significativa.
“A segurança transforma-se numa técnica de governação que exige vigilância total em nome do bem-estar colectivo.”
— Agamben, Estado de Excepção
Temos como exemplos:
• O Patriot Act, aprovado nos EUA após os atentados de 11 de Setembro de 2001, ampliou drasticamente os poderes de vigilância estatal.
• Durante a pandemia de COVID-19, diversos governos impuseram medidas de controlo excepcionais, discutíveis e com reduzido escrutínio democrático — frequentemente aceites sem contestação pela população, movida pelo medo.
2. A cultura securitária e o cidadão passivo
A sociedade do medo produz uma cultura em que a segurança se torna valor supremo, substituindo a liberdade, a criatividade ou a justiça. Este paradigma gera cidadãos que preferem ser protegidos do que responsáveis, que preferem a estabilidade à crítica, que aceitam ser vigiados em nome do conforto.
Zygmunt Bauman, em Medo Líquido (2006), descreve uma sociedade onde o medo é fragmentado, vago, mas omnipresente. O sujeito moderno não teme uma ameaça específica — teme a instabilidade, a perda, o colapso de um sentido de ordem.
“A ansiedade moderna não tem rosto — e por isso não tem fim.”
— Bauman, Medo Líquido
Consequência política: quanto mais medo, menos mobilização cívica. O medo esvazia as praças, silencia o debate, enfraquece o raciocínio crítico. Uma população ansiosa não protesta — adapta-se.
3. O inimigo simbólico: fabricar o outro
A instrumentalização do medo exige a construção de inimigos. Desde a Antiguidade que a coesão interna se faz em torno da ameaça externa. Na contemporaneidade, os alvos variam consoante o momento histórico e o interesse político: imigrantes, minorias, desempregados, opositores ideológicos.
Noam Chomsky, em Media Control (1997), demonstra como os meios de comunicação, aliados a interesses políticos, criam um clima de ameaça constante que justifica políticas autoritárias e desvia a atenção das verdadeiras causas dos problemas sociais.
“A manipulação mediática serve para fabricar consentimento — e o medo é o seu ingrediente central.”
— Noam Chomsky
Exemplos contemporâneos:
• A retórica anti-imigração na Europa, usada para justificar o fecho de fronteiras, a criação de zonas de exclusão e o endurecimento policial;
• O uso do medo do “comunismo”, da “ideologia de género” ou do “globalismo” para mobilizar bases conservadoras;
• O medo da “extrema-direita” ou do “regresso ao fascismo” utilizado em campanhas e discursos de esquerda para justificar medidas de censura simbólica ou limitação do debate;
• A intensificação do medo climático em contextos onde o discurso apocalíptico substitui o debate informado, podendo favorecer soluções tecnocráticas pouco escrutinadas.
• O medo da “perda de direitos sociais” ou “do regresso ao passado” utilizado em campanhas eleitorais para mobilizar voto emocional e defensivo.
O que está em causa não é a causa política em si, mas o recurso sistemático ao medo como ferramenta de mobilização emocional e controlo simbólico — independentemente da ideologia que o usa.
4. Aversão ao risco e reforço do conservadorismo
O medo, sobretudo o socialmente induzido, tem consequências políticas mensuráveis. Estudos empíricos demonstram que a percepção de ameaça está correlacionada com o aumento do conservadorismo político.
Estudo: Nature Human Behaviour, 2018 — investigadores analisaram dados de diversos países e concluíram que quando os indivíduos se sentem ameaçados (financeira, fisica ou culturalmente), tendem a adoptar posições mais autoritárias, nacionalistas e conformistas.
Esta aversão ao risco mina a possibilidade de transformação social e política, reforçando o status quo mesmo quando este é gerador de desigualdade.
5. Redes sociais e a microgestão emocional do medo
Na era digital, o medo tornou-se algoritmo. As redes sociais, ao operarem com base em sistemas de engajamento, privilegiam conteúdos polarizadores, indignação moral, indignação emocional e notícias sensacionalistas — todas elas fontes de ansiedade e medo.
Byung-Chul Han, em Psicopolítica (2014), descreve a transição do biopoder disciplinar (Foucault) para uma forma mais insidiosa: o psicopoder, onde os próprios sujeitos colaboram com a sua vigilância e exposição.
“Hoje não somos vigiados — vigiamo-nos a nós próprios com orgulho.”
— Byung-Chul Han
As redes sociais ampliam a comparação, a ansiedade de desempenho, o medo da irrelevância. Mas também reforçam a fragmentação política, a radicalização do discurso, e o ódio identitário — reconfigurando o medo como vínculo afectivo.
A gestão política do medo é, hoje, uma tecnologia de governação emocional. Alimentada por crises reais e artificiais, sustentada por “conteúdos” vigilantes e redes digitais omnipresentes, esta gestão visa manter os cidadãos ocupados com ameaças simbólicas, enquanto o poder se exerce de forma cada vez mais centralizada, opaca e inquestionável.
O medo, aqui, não é acidente — é programa. E o sujeito formado sob esse medo torna-se obediente, previsível, desmobilizado.
No próximo capítulo, veremos como esse mesmo medo, agora combinado com o desejo manipulado e o vazio emocional, é utilizado pelo mercado para transformar indivíduos em consumidores compulsivos — colonizando o desejo e a identidade.
VI. A COLONIZAÇÃO DO DESEJO: O MERCADO, A PUBLICIDADE E O CONSUMO
As sociedades de mercado desenvolveram um modelo altamente eficaz de controlo social: não apenas pela repressão ou vigilância, mas pela gestão do desejo. O medo de não pertencer, de não ser suficiente, de falhar ou de desaparecer é convertido — subtil e eficazmente — em consumo. Não se trata apenas de vender produtos, mas de fabricar necessidades emocionais e identidades desejáveis.
1. O medo como motor do consumo simbólico
O mercado contemporâneo não vende coisas — vende soluções para medos.
• Cosméticos para o medo de envelhecer;
• Tecnologias para o medo de ficar para trás;
• Marcas de roupa para o medo de parecer inadequado;
• Planos de carreira para o medo da irrelevância.
Este fenómeno é descrito por Zygmunt Bauman em Vida de Consumo (2007), onde mostra como a lógica de consumo se infiltra na construção do eu, transformando cada sujeito num “produto” que deve ser constantemente actualizado, aperfeiçoado, reformulado.
“Hoje já não se consome para ter — consome-se para ser.”
— Zygmunt Bauman, Vida de Consumo
A publicidade moderna não apresenta produtos — apresenta vidas ideais, modelos de felicidade, estéticas de pertença. E fá-lo alimentando uma insegurança latente: “tu ainda não és o suficiente.”
2. A publicidade como engenharia emocional
A indústria publicitária desenvolveu técnicas sofisticadas de persuasão emocional e inconsciente, baseadas em estudos de psicologia comportamental e neurociência. O objectivo é claro: associar produtos a estados emocionais desejáveis.
Exemplo paradigmático:
• A Apple vende mais do que tecnologia: vende estética, distinção, prestígio silencioso.
• A Nike não vende sapatilhas: vende superação, resiliência, espírito vencedor.
• A indústria cosmética não vende beleza: vende aprovação, sedução, auto-estima.
Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo (1979), descreve como o capitalismo moderno cria sujeitos narcisicamente vulneráveis, permanentemente dependentes da aprovação externa, facilmente manipuláveis por promessas de valorização simbólica.
“A auto-estima tornou-se um produto que se compra.”
— Christopher Lasch
3. O consumo como resposta ao vazio existencial
Depois de ter sido moldado pela escola, controlado pela política e formatado pelas redes, o sujeito contemporâneo encontra no consumo uma espécie de resposta existencial rápida. Um calmante para a ansiedade difusa, um substituto simbólico para o desejo autêntico.
O problema, como refere Erich Fromm em Ter ou Ser? (1976), é que o desejo genuíno nunca é plenamente satisfeito por objectos. E o que não é satisfeito, é perpetuado. Assim, o ciclo repete-se: insegurança → desejo artificial → compra → prazer momentâneo → frustração → novo desejo.
“O consumidor moderno compra ilusões de felicidade.”
— Erich Fromm
Fenómenos associados:
• Compras compulsivas como forma de regulação emocional (estudos em psicologia clínica);
• “Fast fashion” e “fast identity” — identidades efémeras e descartáveis;
• Substituição da experiência vivida pela experiência partilhável (instagramável).
4. O branding e a mercantilização do self
Num mundo onde tudo é marca, até o eu se torna mercadoria. A cultura da auto-imagem e da influência transforma cada pessoa num projecto de marketing pessoal.
• A identidade é construída em função da visibilidade;
• O corpo torna-se montra;
• As escolhas tornam-se performances.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2010), descreve esta transição: o sujeito já não é explorado por outro — é explorador de si mesmo. Assume voluntariamente o papel de produto e gestor, publicitário e consumidor da própria identidade.
“Hoje, somos simultaneamente campo de batalha e soldado, patrão e escravo.”
— Byung-Chul Han
5. A colonização do desejo: deixar de saber o que se quer
A forma mais profunda de dominação é aquela que transforma o desejo do outro em desejo próprio. O sujeito colonizado não percebe que os seus sonhos, gostos e ambições foram plantados.
Este fenómeno é conhecido como “heteronomia simbólica” — viver sob um desejo que não é nosso, mas que se tornou indistinguível do que se crê ser identidade.
Na prática:
• Jovens que escolhem carreiras por status, e não por vocação;
• Adultos que compram casas, carros e estilos de vida para validar a própria existência;
• Relações baseadas na aparência, e não na verdade íntima.
António Damásio, neurocientista português, em O Erro de Descartes (1994), mostra que as emoções são essenciais à construção da razão e da identidade. Quando as emoções são manipuladas externamente, a autonomia subjectiva colapsa.
O medo transformado em desejo molda uma cultura de carência permanente, onde o sujeito não sabe o que quer — apenas sente que lhe falta algo. O mercado não responde a necessidades reais, mas cria vazios simbólicos que só ele pode prometer preencher.
O sujeito colonizado pelo consumo não vive para ser, mas para parecer; não deseja a vida — deseja a imagem dela.
No capítulo seguinte, exploraremos como este cenário se enraíza em fundamentos antropológicos profundos, e como o medo tem sido historicamente utilizado como mecanismo de coesão social, mesmo que à custa da individualidade.
VII. SÍNTESE ANTROPOLÓGICA: O MEDO COMO ESTRATÉGIA DE COESÃO SOCIAL
O medo não é apenas um fenómeno psicológico ou político — é também, e desde os primórdios da humanidade, uma matriz de organização colectiva. Em todas as culturas conhecidas, o medo desempenhou um papel fundamental na regulação da convivência, na criação de tabus, e na definição do aceitável e do proibido.
Neste sentido, o medo não foi apenas opressivo: foi estruturante. Mas essa função estruturante teve (e tem) um custo — a anulação parcial da individualidade em nome da estabilidade do grupo.
1. O medo como fundamento do sagrado e da moral
Mary Douglas, em Pureza e Perigo (1966), defende que a classificação simbólica do mundo — o que é puro ou impuro, permitido ou proibido — é sustentada por emoções como o medo. O que está “fora de lugar” é percebido como ameaça, não necessariamente física, mas à ordem moral.
“O perigo é o que escapa à ordem simbólica.”
— Mary Douglas
Daí emergem os tabus: interdições culturais carregadas de medo colectivo. Comer certos alimentos, tocar certos corpos, pronunciar certas palavras — o que é interdito não é apenas desencorajado, é sacrílego. E a violação do tabu é punida com exclusão, vergonha ou castigo simbólico.
Essa estrutura foi essencial para:
• Criar laços de pertença e identidade comum;
• Regular comportamentos numa época sem leis formais;
• Interiorizar a moralidade como instinto.
Contudo, esse mesmo mecanismo permanece activo, ainda que camuflado, na sociedade contemporânea.
2. O bode expiatório e a manutenção do grupo
René Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), propõe uma leitura da origem da cultura baseada na gestão colectiva do medo e da violência. Para Girard, o ser humano é essencialmente mimético: deseja o que o outro deseja, gerando rivalidade. Esse conflito permanente ameaça o grupo.
Qual é a solução arcaica? Transferir a violência para um bode expiatório. Um indivíduo ou grupo é escolhido como responsável pelo caos — e eliminado, punido ou marginalizado. Assim, o grupo liberta-se temporariamente da angústia.
“O sacrifício é uma forma de restaurar a ordem através da exclusão de um inocente.”
— René Girard
Esta lógica mantém-se:
• Nas redes sociais: linchamentos digitais, cancelamentos;
• Na política: minorias demonizadas;
• Na cultura: figuras públicas como catalisadores de frustração colectiva.
O medo do caos é resolvido através da exclusão do diferente. A coesão do grupo é comprada com a renúncia à justiça individual.
3. Medo e pertença: o lugar do indivíduo na tribo
Do ponto de vista antropológico, a necessidade de pertença é tão vital quanto a de alimento ou abrigo. O ser humano, biologicamente vulnerável, só sobreviveu graças à vida em grupo. Daí que o medo da exclusão social seja um dos medos mais profundos e persistentes da espécie.
Este medo traduz-se em comportamentos altamente adaptativos:
• Conformismo moral e estético;
• Censura da diferença;
• Imitação dos hábitos do grupo dominante.
Claude Lévi-Strauss, em O Pensamento Selvagem (1962), argumenta que a cultura é o modo humano de regular a incerteza. E o medo é a emoção que garante que as fronteiras culturais sejam respeitadas. O “estrangeiro”, o “estranho”, o “fora da norma” são marcados como perigosos — não por uma ameaça real, mas porque desafiam a coesão simbólica.
4. A erosão da autonomia em nome da integração
O medo antropológico da exclusão cria uma tensão permanente entre o eu e o grupo. A autenticidade pessoal pode ser percebida como ameaça colectiva. Daí que, muitas vezes, o sujeito escolha a adaptação em vez da expressão.
Este padrão não é exclusivo de sociedades tribais ou tradicionais. Nas culturas contemporâneas, o medo de não corresponder ao grupo social de referência permanece altíssimo:
• Jovens que escondem opiniões ou orientações por medo de exclusão;
• Profissionais que se calam para manter prestígio;
• Pessoas que reprimem desejos para manter aceitação familiar ou religiosa.
“A maior parte das pessoas não vive a própria vida — vive a vida que foi socialmente autorizada.”
— (Reflexo da crítica de Erich Fromm)
5. Entre o vínculo e o exílio: o preço da singularidade
Do ponto de vista antropológico, o medo foi — e é — o cimento das comunidades. Mas esse cimento endurece com o tempo. E o que antes protegia, passa a aprisionar.
A singularidade, a autonomia, a criatividade, só podem florescer se o medo da exclusão deixar de ser dominante. Caso contrário, cada um permanece refém do grupo que o acolheu à condição de se calar.
A cultura do medo não desaparece — renova-se nos códigos do presente.
• Nos padrões corporais exigidos;
• Nas etiquetas linguísticas impostas;
• Nos sistemas de validação social digital.
Tudo o que foge à norma ainda é punido com rejeição. E, por isso, muitos preferem pertencer do que ser.
Do ritual ancestral ao algoritmo contemporâneo, o medo manteve sempre uma função organizadora. Serviu para proteger o grupo — mas ao custo da liberdade individual.
Se a cultura nasce da contenção do medo, a maturidade cultural só será possível quando o medo deixar de ser a base da coesão. Só então o grupo deixará de exigir o silêncio da diferença como preço da aceitação.
No próximo capítulo, exploraremos caminhos possíveis para resgatar a coragem, a autenticidade e o desejo, como formas de superação ética e existencial do medo que castra.
VIII. CAMINHOS POSSÍVEIS: DA CONSCIENTIZAÇÃO À RECONEXÃO
Após atravessarmos múltiplas dimensões em que o medo actua como força modeladora — educativa, psíquica, política, económica, antropológica — importa pensar como se pode viver sem que o medo determine o percurso da existência. Não se trata de negar o medo, mas de restaurar a sua justa medida. De deixar que nos alerte, sem que nos governe. De reconhecer quando ele protege — e quando nos exila de nós próprios.
1. Reconhecer o medo que não protege
O primeiro passo é a consciência crítica.
O medo castrador tem poder porque actua disfarçado: de prudência, de norma, de bom senso, de responsabilidade. Identificá-lo é o início da libertação.
Exercício possível:
• Quando surge o medo: é protecção ou é submissão?
• Estou a evitar um risco real ou apenas a fugir da desaprovação?
• A decisão que estou prestes a tomar é movida pelo meu desejo ou pela necessidade de corresponder?
Esta auto-indagação, feita com honestidade, permite distinguir o medo que salva do medo que silencia.
2. Reeducar o desejo e o pensamento crítico
Grande parte dos medos que nos condicionam resulta de desejos que não são verdadeiramente nossos. Foram introjectados — pela família, pela escola, pela publicidade, pela cultura. Recuperar o desejo genuíno é um processo delicado, mas vital.
Estratégias possíveis:
• Questionar narrativas dominantes sobre sucesso, felicidade, normalidade;
• Desconstruir discursos automáticos como “é assim que tem de ser” ou “sempre foi assim”;
• Resgatar práticas reflexivas: leitura, escrita, diálogo, silêncio.
Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (1996), lembra-nos que educar é um ato de liberdade — e que o pensamento crítico é o antídoto contra a domesticação do espírito.
“Ensinar exige coragem para dizer o que se pensa — mesmo quando se teme o julgamento.”
— Paulo Freire
3. Restaurar o vínculo com o eu autêntico
A reconexão interior exige espaço, tempo e escuta. O eu verdadeiro não emerge sob pressão — precisa de ambiente favorável. Há que reduzir o ruído exterior para escutar o que já existe dentro de nós.
Caminhos possíveis:
• Terapia ou acompanhamento psicanalítico;
• Escrita íntima como prática de revelação;
• Criação artística sem finalidade produtiva;
• Caminhadas solitárias, contacto com a natureza, meditação.
Donald Winnicott defendeu que a autenticidade começa onde o sujeito pode brincar, criar, viver sem medo do olhar do outro.
“A saúde é a capacidade de estar só — sem se sentir ameaçado.”
— Winnicott
4. Reencantar a vida pela coragem
Viver com autenticidade é um ato de coragem diária. Não há coragem sem medo — mas há coragem que age mesmo com ele. E essa coragem não é grandiosa ou heróica: é, muitas vezes, silenciosa, íntima, quase imperceptível.
• Dizer “não” quando se esperava um “sim”;
• Mudar de rumo profissional aos cinquenta anos;
• Expor uma fragilidade sem medo de parecer fraco;
• Amar sem garantias.
Rollo May, em The Courage to Create (1975), afirma que a criação é o contrário da adaptação passiva. Criar é afirmar-se contra o medo — mesmo que o mundo não compreenda.
“A coragem não é ausência de medo — é afirmação da existência apesar dele.”
— Rollo May
5. Criar comunidades de confiança e partilha
Ninguém se liberta do medo sozinho. Se o medo é socialmente cultivado, a confiança também precisa de ser socialmente reconstruída.
Propostas concretas:
• Criar espaços de escuta sem julgamento (círculos de partilha, grupos de apoio, conversas profundas);
• Promover uma educação que valorize o erro como caminho, a pergunta como saber e a diversidade como riqueza;
• Estimular culturas de trabalho e convivência baseadas no respeito emocional, e não na pressão ou na vigilância.
Bell Hooks, pensadora e pedagoga afro-americana, recorda-nos que o amor — entendido como ética relacional — é o maior gesto político contra o medo.
“O medo constrói muros — o amor constrói pontes.”
— Bell Hooks
6. Praticar a recusa ética
Por fim, há momentos em que a libertação do medo exige recusa. Dizer não ao que castra, mesmo que ainda não se saiba o que virá a seguir. Recusar narrativas, papéis, sistemas, vínculos — não por rebeldia gratuita, mas por fidelidade ao que em nós ainda pulsa.
Essa recusa é, muitas vezes, solitária. Mas é também o início de uma nova pertença — não ao grupo que exige a máscara, mas à própria vida, tal como ela é.
Não há método definitivo para vencer o medo. Mas há gestos de lucidez e coragem que o desarmam todos os dias.
• Reconhecê-lo.
• Escutá-lo.
• Desobedecer-lhe.
• Criar apesar dele.
• Amar dentro dele.
Cada gesto de reconexão com o desejo, com a verdade interior, com o outro sem máscaras, é uma pequena revolução contra a cultura do medo.
E talvez seja apenas assim — passo a passo, vínculo a vínculo, gesto a gesto — que se constrói a verdadeira liberdade.
Eco Intercultural – Bushidō: O medo sob o olhar da honra
Num ensaio que procura analisar criticamente o papel do medo nas sociedades ocidentais modernas — sobretudo enquanto instrumento de conformismo, submissão e manipulação — é fundamental evitar a armadilha da universalização. O que é problemático num certo modelo cultural pode assumir outro significado noutro contexto. Por isso, propõe-se aqui um breve eco intercultural: como é que o medo é compreendido noutra tradição civilizacional profundamente distinta — a dos antigos samurais japoneses, através do código Bushidō?
O medo como prova de espírito
O Bushidō — literalmente “caminho do guerreiro” — foi o código ético e filosófico que guiou, durante séculos, a vida dos samurais no Japão feudal. Enraizado no confucionismo (ética e dever), no zen-budismo (impermanência) e no xintoísmo (lealdade ancestral), esse código não nega o medo — mas não o tolera como mestre.
O medo existe, mas não deve comandar. O verdadeiro guerreiro age com o medo — e não contra ele.
Ao contrário da cultura contemporânea, que muitas vezes mede o valor pela performance e a segurança, o Bushidō valoriza sobretudo a honra, a coragem interior e a aceitação consciente da morte como parte do caminho.
A impermanência como libertação
Influenciado pelo pensamento zen, o samurai é educado a compreender a impermanência (mujo) da vida. Isso significa que tudo o que é material ou emocional está sujeito à dissolução: o corpo, o estatuto, a glória.
Nesse contexto, o medo da perda — inclusive da morte — deixa de ser central. A vida plena não se mede pelo seu prolongamento, mas pela inteireza do gesto.
“O caminho do samurai está na morte.”
— Hagakure, Yamamoto Tsunetomo
Esta frase não celebra o suicídio, mas a prontidão: viver como quem já aceitou morrer — e por isso está livre. É uma ética da acção, não da paralisia.
O medo virtuoso: a vergonha como régua moral
Se há um medo que se admite no Bushidō, é o medo da vergonha — entendido não como humilhação social, mas como quebra da integridade pessoal. Trair a palavra dada, recuar diante do dever, comprometer a honra: esses são os verdadeiros horrores para o guerreiro.
Este medo, ao contrário do medo contemporâneo (que muitas vezes é cultivado para favorecer o consumo ou a passividade), tem uma função formativa, não manipuladora. Ele educa o carácter, modera os impulsos e afirma a responsabilidade individual.
Um referencial que relativiza os nossos próprios pressupostos
Comparando com a cultura ocidental moderna, é inevitável uma inversão de valores:
• No Bushidō, teme-se a indignidade, não a instabilidade.
• O silêncio é sinal de contenção interior, não de repressão.
• A obediência é a um ideal ético interno, não a uma norma imposta externamente.
Este eco serve, portanto, como espelho e contraponto. Mostra que o modo como vivemos o medo não é universal nem inevitável. É culturalmente condicionado. É historicamente construído. E, por isso mesmo, pode ser reavaliado.
“Quando compreendemos como outros povos viveram e enfrentaram o medo, percebemos que o que tomávamos por natural é, afinal, apenas habitual.”
IX. O Medo Virtuoso? Ambivalência Ética entre Contenção e Controlo
Ao longo deste ensaio, foi evidenciado o modo como o medo, quando socialmente cultivado e politicamente instrumentalizado, pode castrar o sujeito, limitar o pensamento crítico e desviar o desejo do seu eixo autêntico. No entanto, a honestidade intelectual exige que se reconheça a ambivalência fundamental do medo. Nem todo o medo é opressivo. Nem todo o seu efeito é castrador. Há formas de medo que, longe de inibir a liberdade, a protegem.
Esta ambiguidade é central para qualquer análise ética séria. Reduzir o medo a um mecanismo puramente negativo seria cair numa simplificação que, em última instância, repetiria a rigidez que aqui se critica.
1. O medo como instrumento ético de contenção
Desde as mais antigas concepções do Direito, o medo foi compreendido como uma forma de dissuasão racional contra o mal social. A pena, a sanção, a reprovação pública — todos estes mecanismos pressupõem a existência de um medo justo, proporcional, contido.
“O temor da pena é o que mantém o vínculo social quando o apelo à virtude falha.”
— (inspirado em Cícero e Kant)
A filosofia política clássica — de Hobbes a Montesquieu — reconhece que o medo, desde que regulado por princípios de justiça, é necessário para a convivência civilizada. É o que impede que a liberdade se torne violência, que o desejo se torne tirania. O medo da consequência educa a prudência, e a prudência, como diria Aristóteles, é a virtude que regula todas as outras.
2. Medo e moral: contenção ou consciência?
Há também um medo de tipo moral, que não nasce da lei exterior, mas da consciência interior. O medo de ferir, de trair, de corromper-se. Esse medo não é sinal de fraqueza — é sinal de maturidade ética.
Paul Ricoeur fala da “consciência ética como memória do mal possível”. O sujeito que se conhece, que reconhece o poder destrutivo das suas acções ou omissões, experimenta o medo não como prisão, mas como aviso. É um medo lúcido. Responsável. Humanizante.
3. O medo como sinal existencial
Na tradição da psicologia existencial — de Rollo May a Viktor Frankl — o medo não é inimigo da liberdade, mas o seu horizonte. Só quem se sabe mortal, falível, exposto ao abismo do sentido, compreende o valor das escolhas que faz.
A liberdade autêntica não é euforia sem limite — é um caminho trilhado entre o medo de falhar e o impulso de viver com verdade. Neste sentido, o medo é um espelho da profundidade da condição humana.
4. O perigo da inversão: quando o medo se torna sistema
Mas aqui reside o ponto crítico: o que é legítimo em doses contidas, torna-se destrutivo quando elevado a sistema. O medo que, em princípio, seria pedagógico ou ético, pode transformar-se num meio de domesticação de massas quando passa a operar de forma estrutural, constante, invisível.
O medo de errar, quando ocasional, educa; Mas o medo de errar, quando permanente, paralisa.
O medo da consequência, quando justo, orienta; Mas o medo da punição, quando desproporcional, oprime.
O medo da solidão, quando real, convida ao vínculo; Mas o medo da rejeição, quando socialmente inculcado, fabrica cópias.
A transição entre o medo virtuoso e o medo castrador é subtil — e culturalmente muito manipulável.
5. Critério ético: a intencionalidade do medo e o seu impacto
Para discernir se um medo é admissível ou opressivo, deve perguntar-se:
• De onde vem? É natural, experiencial, ou socialmente inculcado?
• A quem serve? Protege o sujeito ou protege a estrutura?
• Que liberdade preserva — ou compromete?
• Cria responsabilidade — ou dependência?
• Desperta consciência — ou apenas conformismo?
Um medo é eticamente admissível quando conduz à autonomia, ao respeito mútuo, à justiça. Torna-se castrador quando gera apenas obediência, passividade e medo de viver com verdade.
O medo é, ao mesmo tempo, profundamente humano e perigosamente manipulável. Pode ser factor de civilização ou instrumento de repressão. Pode humanizar a acção ou neutralizar o pensamento.
A chave está na sua origem, na sua função e na sua medida.
Por isso, mais do que rejeitar o medo em bloco, o verdadeiro gesto ético é discerni-lo. Nomeá-lo. Perguntar-lhe o que pretende. E, sobretudo, escolher com consciência quando escutá-lo — e quando o ultrapassar.
X. CONCLUSÃO
Chegados ao final deste ensaio, torna-se evidente que o medo, longe de ser apenas uma emoção instintiva ou uma reacção episódica, é um elemento estruturante da vida moderna. Não apenas nos protege do perigo, mas — quando cultivado pelas instituições, pela cultura e pela política — molda subjectividades, condiciona escolhas e silencia o desejo.
Identificámos, ao longo do percurso, várias dimensões complementares desse medo castrador:
• A educação, que em vez de promover a autonomia, produz sujeitos ansiosos por aprovação, treinados para evitar o erro e conformar-se à norma;
• A psique, onde o superego punitivo, o falso self e a melancolia existencial mostram os efeitos interiores de uma vida vivida para corresponder, e não para ser;
• A política, que manipula o medo como ferramenta de governação e desmobilização, fomentando estados de excepção e apatia;
• O mercado, que transforma o medo da insuficiência em desejo manipulado, promovendo o consumo como substituto da autenticidade;
• A antropologia, que revela como o medo sempre serviu como cimento social — mas frequentemente à custa da liberdade e da singularidade.
O sujeito contemporâneo, assim modelado, vive sob vigilância exterior e interior, adaptado, produtivo, “normal” — mas profundamente alienado de si. Age mais para não ser excluído do que para ser inteiro. Deseja mais por reflexo do que por convicção. E muitas vezes, sem compreender porquê, carrega um mal-estar difuso, uma tristeza sem nome, uma vida sem pulso.
Mas reconhecer esta condição não deve gerar fatalismo. Pelo contrário: abre espaço para a acção ética e a responsabilidade pessoal. A consciência do medo que não protege é o primeiro passo para retomar a autonomia, restaurar o desejo e viver com verdade.
A proposta aqui não é utópica, nem absoluta. Não se trata de eliminar o medo — mas de reconfigurar a relação com ele. Escutá-lo sem lhe obedecer cegamente. Aceitá-lo como parte da vida, sem permitir que defina o seu sentido.
Recusar o medo como fundamento da existência é um gesto político, emocional, espiritual. E cada pessoa que ousa esse gesto cria uma pequena ruptura no tecido da normose — essa normalidade doentia que aceita a vida sem brilho como inevitável.
Talvez nunca venhamos a libertar-nos totalmente do medo. Mas podemos, pelo menos, evitar que ele seja o autor da nossa história.
“A liberdade não é a ausência de medo. É a decisão de não viver segundo ele.”
— (Reflexão final inspirada em Fromm, Winnicott e May)
Nota sobre a Bibliografia
A bibliografia apresentada reflecte o universo de referências que sustentaram a construção deste ensaio. Nem todas as obras foram lidas por mim de forma exaustiva ou integral. Algumas delas foram consultadas parcialmente, outras analisadas com o apoio do modelo de linguagem da OpenAI, cuja assistência permitiu contextualizar e interpretar trechos e conceitos de autores fundamentais no campo da psicanálise, filosofia, sociologia, antropologia e teoria crítica.
Este trabalho é, portanto, fruto de um esforço pessoal de compreensão e síntese, mas também de uma mediação inteligente que me ajudou a aceder com mais profundidade a fontes que, de outro modo, talvez me fossem menos acessíveis e muito mais morosas.
Ainda assim, a responsabilidade pela selecção, estrutura e orientação argumentativa é inteiramente minha. Se houver mérito de quaisquer acertos é tão partilhado quanto o erro é, naturalmente, pessoal.
Bibliografia
Psicologia, Psicanálise e Filosofia Existencial
• Damásio, A. (1996). O erro de Descartes: Emoção, razão e o cérebro humano. Europa-América. (Obra original publicada em 1994)
• Frankl, V. E. (2002). O homem em busca de um sentido. Presença. (Obra original publicada em 1946)
• Fromm, E. (1991). Ter ou ser?. Dinalivro. (Obra original publicada em 1976)
• Fromm, E. (2002). O medo à liberdade (5.ª ed.). Presença. (Obra original publicada em 1941)
• May, R. (1975). The courage to create. Norton.
• May, R. (1977). The meaning of anxiety (Rev. ed.). Norton. (Obra original publicada em 1950)
• Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Martins Fontes. (Obra original publicada em 1971)
Psicologia Social, Narcisismo e Identidade Moderna
• Lasch, C. (2008). A cultura do narcisismo: A vida americana numa era de esperanças em declínio. Edições 70. (Obra original publicada em 1979)
Educação, Autonomia e Crítica Pedagógica
• Bourdieu, P., & Passeron, J.-C. (2008). A reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Edições 70. (Obra original publicada em 1970)
• Freire, P. (2000). Pedagogia do oprimido (17.ª ed.). Edições Afrontamento. (Obra original publicada em 1968)
• Freire, P. (2004). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra. (Obra original publicada em 1996)
• Illich, I. (2004). Sociedade sem escolas. Instituto Piaget. (Obra original publicada em 1971)
Filosofia Política, Medo e Poder
• Agamben, G. (2004). Estado de exceção. Edições 70. (Obra original publicada em 2003)
• Bauman, Z. (2008). Medo líquido. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2006)
• Bauman, Z. (2009). Vida de consumo. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2007)
• Chomsky, N. (2003). Media control: A espetacular conquista da propaganda. Record. (Obra original publicada em 1997)
• Foucault, M. (2009). Vigiar e punir: Nascimento da prisão (17.ª ed.). Edições 70. (Obra original publicada em 1975)
• Han, B.-C. (2014). A sociedade do cansaço. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2010)
• Han, B.-C. (2016). Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2014)
Antropologia, Tabu e Cultura
• Douglas, M. (2006). Pureza e perigo: Uma análise dos conceitos de poluição e tabu. Edições 70. (Obra original publicada em 1966)
• Girard, R. (1998). A violência e o sagrado. Estampa. (Obra original publicada em 1972)
• Lévi-Strauss, C. (1993). O pensamento selvagem. Edições 70. (Obra original publicada em 1962)
Ética Relacional e Educação Afectiva
• Hooks, b. (2021). Tudo sobre o amor: Novas perspetivas (L. Pinheiro, Trad.). Editora Elefante. (Obra original publicada em 2000)
Eco Intercultural – Cultura Japonesa e Bushidō
• Ikegami, E. (1995). The taming of the samurai: Honorific individualism and the making of modern Japan. Harvard University Press.
• Nitobe, I. (2001). Bushido: The soul of Japan. Dover Publications. (Obra original publicada em 1900)
• Suzuki, D. T. (2001). Zen and Japanese culture. Princeton University Press. (Obra original publicada em 1938)
• Tsunetomo, Y. (2002). Hagakure: O livro do samurai (W. S. Wilson, Trad.). Kodansha International. (Obra original escrita no século XVIII)
Estudos empíricos e fontes institucionais
• Organisation for Economic Co-operation and Development. (2018). Education at a glance 2018: OECD indicators. https://doi.org/10.1787/eag-2018-en
• World Health Organization. (2017). Depression and other common mental disorders: Global health estimates. https://www.who.int/publications/i/item/depression-global-health-estimates
• Zhou, Y., Sadeh, N., & Miller, G. E. (2018). Perceived threat predicts conservatism. Nature Human Behaviour, 2(6), 552–558. https://doi.org/10.1038/s41562-018-0371-6