sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Parida para morrer...

A pedra estava gelada. Sentia uma perfusão gélida que me anestesiava as nádegas. O dorso vergava-se-me. Tinha a sensação de o coração ter diminuído, lenta, mas claramente os seus batimentos... Mal o sentia! Os olhos vidrados fixavam-se no horizonte...
Bastante ao fundo, havia um monte redondo com uns arbustos mesmo na ponta. Parecia uma mama.
Não me lembro de ter mamado!
Não me lembro de ter sido uma criança feliz!
Um dia... Um dia o mundo acabou! Pareceu-me que assim tinha sido!
O cheiro era nauseabundo. A gritaria, que incluía várias línguas e idiomas por mim desconhecidos, era-me alheia bem como o chiado das rodas nos carris... Em silêncio, pelo único rasgo de mundo que me era visível, via-a a ficar longe...mais longe...bastante longe...muito longe... Desapareceu! Da vista, do meu alcance e...Era uma mulher castigada pelo trabalho brutal, pela fome e pelos espancamentos do monstro... (cuspi três vezes para o chão e limpei a boca com a manga da camisola). O ódio saltou-me de dentro como um vulcão que me aperta a garganta e quase me asfixia... Miserável... Nojo... Por muito que me lave, ainda não estou limpa, nem vinte e oito anos depois... Não sei se me virei a sentir limpa algum dia... Apesar dos lábios serrados, gritava em brados estridentes "Mãe, Mãe, Mãe..." em sussurros de um silêncio insuportável... O mundo acabara de acabar!
A minha mão direita deslizou lentamente e encontrou a mãozita dele. Também ele, silencioso e imóvel. Que pensará ele da vida? Que achará ele, no seu mais profundo intimo, de mim? Não tenho coragem de lhe perguntar! E eu? Que penso eu de mim? Sei demais para pensar o quer que seja. O meu corpo, sim porque só o meu corpo interessou, foi um "local". Sitio onde, entre outros, eu própria estupidamente me mutilei. A beleza bastava-me num "lambuzante" banho de narcisismo. O meu corpo voltou a ser o meu nó Górdio...
Mas ele, o polvo através do qual eu toco em todo o universo, saiu-me do seio como a lava irrompe das entranhas da terra. Com ele tenho a possibilidade de me rasgar em pedaços atirando-me para a fogueira, recomeçar a minha vida... Nunca é tarde... Nunca será tarde... Recuso-me a deixar que entardeça!
Poderei eu nascer trinta e quatro anos depois de ser parida? Não sei. Nem sei se isso me preocupa realmente.
Ele puxa-me a camisola e procura as minhas mamas. Eu acordo de um sonho mau. Poderás perfeitamente ser diferente de todos eles. A minha lágrima escorre-te no rosto, mas tu, serás diferente de todos eles...

© Mário Rodrigues - 2010

1 comentário:

  1. Este é uma verdadeira obra-prima. Não consigo deixar de o ler de fio a pavio. Nunca é tarde para recomeçar, mas o verdadeiro sentido da vida nunca saberemos onde o deixámos, talvez ainda esteja por acontecer. A mim isso mantém-me a esperança, terá valido a pena ainda que não o conheça.

    Abraço

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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