segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Afinal passaram vinte minutos...


Deveriam ser umas sete e meia da manhã e acho, que já estavam aí uns...montes de calor ainda tão cedo. Eu e meu filho, já estávamos dentro do carro, prontinhos para dar início à viagem para os penhascos. Como habitual, esperávamos que a mãe e a irmã se viessem juntar a nós para partirmos. Depois de enormes minutos lá chegam elas e debaixo dos protestos do "machedo" lá partimos.

Depois de uns bons quilómetros de auto-estrada, saímos, e entramos na estrada nacional que serpenteia por vales e montanhas pelas verdes serranias. Alguns quilómetros mais à frente vejo, na beira da estrada, uma moto mal estacionada, alguém sentado no chão de costas para a barreira da berma e mais duas pessoas de pé, num certo frenesim.
Parei, saí do carro e fui tentar aperceber-me do que se passava. Enquanto me dirigia para junto das pessoas, fui-me tentando convencer de que me agradava a ideia de o indivíduo apenas estar mal disposto pelo calor ou alguma hipotensão ou hipoglicémia, enfim, nada que viesse a exigir de mim "mexer" mais a sério na "coisa", mesmo porque já há alguns anos que nada faço na matéria e tenho noção da "ferrugem" nas capacidades e na velocidade de discernimento, a rapidez de acção e o olho astuto...já tiveram melhores dias.
Ao chegar junto das pessoas vejo o homem que estava sentado no chão, um indivíduo que aparenta uns quarenta anos, de estrutura larga e um pouco obeso, numa ortopneia bastante acentuada e pergunto o que se passa. À minha pergunta as duas pessoas dizem que também acabaram de chegar e que nada sabem do assunto. Eu coloco-me de joelhos e interpelo o indivíduo que me responde com muita dificuldade que ia a andar na sua mota quando lhe entrou uma abelha para a boca. Apercebi-me que o insecto terá sido inspirado ou ingerido visto que ele diz que a não cuspido.
Perguntei-me como tal teria acontecido e reparo para o capacete no chão, parecido com aqueles capacetes da primeira guerra mundial, de ferro com umas abas de volta. Lembro-me de que uma vez, numa situação parecida, eu ir com a camisa um pouco mais desabotoada e me ter entrado uma vespa que prontamente me ferrou na barriga junto do umbigo.
Volto a pergunta-me a mim mesmo como me fui meter naquela. Se por um lado a falta de treino e de material, no meio do nada, me levam a desejar nunca ter por ali passado e correr o risco da "coisa ficar feia", por outro lado imagino o homem ali, assentado no chão e duas pessoas de pé a observa-lo a asfixiar até à morte...

"Chamem uma ambulância rapidamente!..." - disse eu num tom quase imperativo. Sentia um misto de vergonha e de força...

Se tivesse aqui o meu antigo Golf, (carro com que trabalhava no INEM, no século passado), carregado de material até às pestanas...um nasofibroscópio... Precisava de lhe observar a cavidade bocal até lá abaixo à laringe, precisava de saber se, tal como suspeitava, ele estaria com um edema na glote...
O homem estava em franco sofrimento. A dispneia provoca-lhe a sensação de morte eminente...tenho de fazer alguma coisa...ponho-lhe uma pedra debaixo de uma das mãos e o capacete debaixo da outra para que com mais espaço de flexão para os braços e músculos abdominais ele consiga respirar alguma coisa. Com uma cana e uma lanterna de bolso consigo improvisar um laringoscópio. Obviamente não consigo confirmar se a glote inchada, devido à ferroada da abelha, lhe está a obstruir as vias aéreas. Penso no que posso fazer e vejo que não tenho nem um laringoscópio nem um tubo endotraqueal para lhe tentar meter...adrenalina ou epinefrina para lhe administrar...ainda menos!... Oh!...se pelo menos eu aqui tivesse o Dr. Helder!... Aquele homem era imparável! Aprendi muito com ele. Tinha uma mão e um treino extraordinário. Costumávamos partilhar o "olho" astuto. A esta altura já ele tinha administrado a epinefrina e já o homem ia a caminho do hospital...

Sou assaltado por um arrepio gelado no dorso!...

O homem vai-me morrer aqui nas mãos asfixiado!... Tenho uma última hipótese! Mas eu não sou médico, muito menos cirurgião, já não faço nada disto há já muito e mesmo quando fazia, nunca fiz uma traqueostomia de emergência! Não estou no bloco, quem me dera, não tenho anestesista, nem sequer um bisturi...
Pergunto se alguém tem alguma coisa gelada que me traga. Com latas de Coca-Cola e cerveja que um tinha e a água bastante fria que corria numa bica, ali perto da estrada, molhei e arrefeci uma toalha tanto quanto possível e coloquei-lhe na garganta para conseguir algum efeito vasoconstritor no sentido de diminuir o edema e reduzir a hemorragia no caso de eventualmente avançar para a loucura de abrir um acesso na traqueia. Com a ajuda dos outros, posiciono-lhe a cabeça, permitindo algum alongamento com o objectivo de facilitar a passagem de algum ar. Enquanto isso, vou-lhe contando os anéis cartilaginosos da traqueia e imaginando os dois que iria cortar para o acesso perto do esterno. Penso com o que é que lhe ia fazer a incisão. Penso se o alívio da abundante golfada de ar que iria inspirar após a abertura do acesso lhe compensaria a dor e o trauma de não estar anestesiado. Mas, ali, ou era um vivo com dores ou era um morto à espera de uma anestesia...
Nunca fiz nada disto, mas se o não fizer o gajo morre! Entre uma e outra...vai ter de ser esta a primeira vez!...Peço para me trazerem umas luvas de látex que tenho na mala do carro para quando tenho de mexer nos pneus, o frasco do álcool dos primeiros socorros, primeiros socorros...valha-me Deus...aquilo não socorre nada nem dá para fazer nada...mas enfim, o canivete suíço que o meu primo me deu e que, geralmente, costumo manter afiado e levamo-lo para um local mais fresco e mais confortável.

"Que vai fazer?" - Perguntaram-me os outros - "...está maluco? Sabe lá o que vai fazer? Mas afinal quem é você?"

Realmente reparei que nada tinha dito em relação a isso... Não quis entrar em pormenores... Quem sou eu? Sei lá eu bem quem sou eu! Só sei que tenho medo de matar um homem que morre se eu não fizer nada!... Ouço as sirenes ao longe, o homem também se apercebe do mesmo, eu digo-lhe que agora estamos melhor e que ele vai-se safar. A ambulância chega. Digo o que se passa e logo se procedeu com ventilação mecânica. Pedi um laringoscópio de emergência e com receio de já não saber fazer, coloquei o tubo endotraqueal. O homem inspira uma quantidade extraordinária de ar de uma só vez. Olha para mim, olhos nos olhos, e eu digo-lhe - "já te safaste!". Foram-se embora para o hospital...
Voltei ao carro. Sento-me exausto. Penso que, com a idade perdi muito treino, mas talvez tenha adquirido o medo para ser muito mais cauteloso e esperar pelos passos adequados. Noutros tempos, com mais treino e material, a coisa teria, certamente, sido diferente, mesmo porque havia o Dr. Helder que fazia e eu ajudava... Desta vez, sem treino e sem rede, caí no palco com um papel para o qual nunca tinha estado preparado nem já mais tinha ensaiado.

A viagem sofreu um atraso de vinte minutos. Reparo que me pareceu ter passado horas para a ambulância chegar, mas que afinal...afinal passaram vinte minutos...


© Mário Rodrigues - 2010

18 comentários:

  1. que viagem essa Mário. Mas deve ser uma enorme responsabilidade mexermos na vida de alguém, mesmo tendo alguma prática de enfermagem, mas ao menos, você não se sentiu impotente - fez, ajudou, deu uma certa segurança, uma esperança ao senhor . - imaginemos que corria mal? graças a deus tudo foi pelo melhor.
    sabe que eu tinha vir aqui chatea-lo para me visitar. raramente venho a internet mas tive estes dois dias e publiquei algo. fico contente que tenha lido. um abraço.

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  2. realmente... bela viagem companheiro! mas, como diz o poetaa, "tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e o teu gesto foi de uma nobreza enorme.

    a esta hora estará o homem a quem prestou auxílio a perguntar-se onde o poderia encontrar.

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  3. Olá lanterna,

    Temos de estar vivos...

    Um abraço

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  4. Olá taniah,

    O nobreza é para os "nobres"...nós a plebe, temos de nos ajudar uns aos outros...

    ...espero bem que ele nunca me encontre, pelo menos sabendo que sou eu o dito...detesto...

    beijo

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  5. *
    a essência da fraternidade,
    obrigado pela tua grandeza !
    ,
    abraço,
    ,
    *

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  6. E, se não tivesses parado, poderiam ter demorado a chamar a ambulância, e esta não chegaria a tempo!
    Com o material todo à mão, é mais fácil, ou não é tão difícil. Adrenalina em ampolas não havia, mas de certeza que havia muita a circular!! :)
    Ainda bem, para o senhor, que paraste :)

    Beijinhos, Mário

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  7. Grande Mário.
    Ainda bem que paraste naquela berma.
    E fico também contente que tenhas parado pelos meus lados.
    Um abraço de reencontro pós-férias!

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  8. Olá poetaeusou,

    Grandeza?...
    Já sei! Estás a falar do 1,90m e dos 100 kg!... :)))))))

    Abraço

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  9. Olá Nirvana,

    Não deixaste secar o jardim, pois não?... ;))

    Beijos

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  10. Olá Luís,

    ...a unha mais negra do oeste!... ;)))

    Um abraço

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  11. Pois eu sei que tu és um herói. Foi a minha musa que me disse e as musas nunca se enganam. :)

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  12. Olá Miss,

    Já é tempo dessa tipa largar o álcool e as drogas!... ;)))

    ...para mim bastava-me ser o herói dos meus filhos...

    Beijos

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  13. Bolas!
    Até para mim a ler foi um stress!
    Só o "já te safaste!" é que me aliviou.

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  14. Olá Fa,

    ufaaa... Stress... Já passou...

    Beijo

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  15. Ora bolas... Percebi logo que o que tu querias era cortar a goela ao homem para salvares a abelha!
    Quem não te conhecer... Valeram esses que lá estavam,sensatos e esclarecidos!

    Abraço

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  16. Espectacular, Mario!
    De facto, o leitor vive uma enorme ang´´ustia ler este texto!, aliviada apenas pelo "j´´a te safaste"! Dos melhores textos que tenho lido. O unico milagre que conheço e´ o da Vida.

    Um abraço com toda a amizade,

    Jorge

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  17. Olá Jorge,

    Realmente a vida premeia-nos com ternos milagres!...

    Um abraço

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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