quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A morte do homem de quem eu era o único amigo...

Dia 0 - 8.00h – “Atenção fazer a higiene da cama 2 do quarto 4, que vai entrar um doente que vem da oncologia; é o Sr. ... Oliveira, sim é isso Oliveira! 68 anos, etc, etc...”, “então mas na cama 2 não estava a D. Albertina?”, “yap, disseste esteve...”, “ok...”

Dia 1 – 8.30h – “Então Sr. Oliveira, dormiu bem? – Vamos fazer a higiene?... Vá lá, só mais esta bolacha... Não... Os cigarros acabaram! Já sabe!”, “...não se preocupe, Mário, aqui quem precisa de cuidados sou eu! Bem o sei! Vocês é que me ajudam...”, “sim Sr. Oliveira, assim é-nos mais fácil de o ajudar a ficar melhor depressa, para ir jogar á bola com o Ricardito! Não é?”, “Sabes Mário, já vivi umas coisas... a guerra nunca me saio da cabeça...”, “...bem sei, bem sei...Sr. Oliveira, a guerra mata-nos por dentro...”, “Olha, o Ricardito diz que já tem uma namorada!”, “Aí sim! Ele esteve cá ontem?”, “...Não... Não o vejo á seis meses e meio... o pai...”

Dia 4 – 8.00h – “O Sr. Oliveira tem de ir lá abaixo, à imagiologia antes do pequeno-almoço...”, “...Ok. Que acham dele? Doente muito colaborante! Sim senhor!”, “pois é, realmente é... pena a família...”, “vem aí a mulher de quando em vez...”, “ainda não percebi porquê!”, “...tem bem a noção do seu estado, e apesar disso, colabora e chega a esboçar uns sorrisos...”, “...Sim é bastante simpático...”

Dia 6 – 16.00h – “...há visitas no quarto 4?”, “sim hoje há, está lá pessoal do estado maior...”, “... Está lá alguém de lá?”, “Está! Lembraste do Carvalho do aprovisionamento?”, “...há sim, já sei...”, “ pois é ele... dermóide...”, “...então pessoal, como anda aquilo por lá?”, “vai-se andando...”, “...oh, Rodrigues, tens ali uma bela peça...”, “quem?”, “ o Oliveira...”, “então?”, “então!?... tá a paga-las, filho da puta...”, “...eh Zé... dass... o homem mordeu-te?”, “Porra! Se calhar não sabias?”, “Não sabia nem sei!”, “Esse gajo é o maior filho da puta que eu já vi... Ninguém o gramava lá... Nem com molho de tomate...”, “ sabes o que o gajo fez ao...”, “realmente se assim é... Não é lá muito boa rês...”

Dia 7 – 01.00h – “... Porra! Parece que o gajo era mesmo um “granda” cabrão...” – No dia seguinte não o consegui olhar com os olhos cheios de empatia do costume. Tive dificuldade encaixar o que tinha ouvido naquele homem... no entanto, entre muitas outras conversas, apercebi-me que o dito era... mauzinho... as explicações para a ausência da filha e do filho, pareciam esboçar-se sem muitas interrogações! No entanto, a mim, nada de mal me fez, e ainda que tivesse feito... tenho de vencer a coisa! È sempre tempo...

Dia 8 – 16.00h – “olá Mário, não te tenho visto...”, “pois foi Sr. Oliveira, correrias! correrias!”, esforcei-me para não olhar como se tivesse a olhar para um carrasco! Não estava a conseguir ver a imagem do velhinho débil, doente terminal, mas agradável e colaborador!

Dia 9...

Dia 11... “pois, Sr. Oliveira...”

Dia 13... “um abraço, para si também...”

Dia 16...

Dia 18 – 8.00h – “... doente da cama dois do quatro, mudar a sonda e a algália... atenção que a medicação foi alterada!”, “aquilo está melhor?”, “nop, muito instável! Atenção aos registos dos valores...”, “Então amigo Oliveira?”, “...rshrshrs ohá ário, rshsrshsrsh...”, “ não se esforce, já lhe mudo a sonda...”, “...hhhuuuuumm... sabes Mário... tu és o meu único amigo...”, “então, passou-se? A sonda vai para o estômago! Não é para os miolos, homem!”, “...és um parvalhão tu... tu és o meu único amigo...”, “vá, respire fundo...”, “rshrshrs ário!...”, “sim?...”, “...rshrshrs...”

Dia 18 – 11.00h – “...está! Dr. Rocha, pode chegar cá a cima?”, “hora do óbito 10.50, chamem a família...”

Nos meus ouvidos aquela frase ecoa até hoje...

© Mário Rodrigues - 2009

9 comentários:

  1. Ai, Mário... Mário...
    Que situação a que descreves... E há duas formas, pelo menos, de olhar para isto. A primeira, da primeira vez que cá vim, e a segunda. Prefiro a segunda, pela positiva.

    Fazes-me pensar que tenho que avisar os amigos da "blogovida" acerca da sua longevidade, talvez com ameaças físicas e morais. Porque já me fartei de os avisar de que não vou perder peso a pensar nas suas artroses a sofrerem com a minha carga no tal dia, que há-de chegar (dizem eles... ou antes direi eu que eles o dizem, porque eles têm medo de o pensar). Tenho de garantir que não serei o último. Tenho de garantir que lhes direi que "ainda bem".

    Não haverá pior situação que a de ficarmos sozinhos, sem nenhum amigo que nos recorde, mas com a recordação de todos os que vimos partir.

    Isso sim, bem pior que nos termos tornardo no último amigo de alguém que partiu.

    A vida é como um blogue. Algumas têm muitas leituras, outras acabam por perder todos os leitores. Tu foste o último leitor desse blogue, mas manténs a possibilidade de reunir quem te leia, e quem principalmente te compreenda. Ele, deixou de escrever...

    Qual a razão de não ter, neste momento, mais leitores? Seria uma questão de qualidade ou apenas a incompreensão? Qual a razão de poder eventualmente nunca ter tido outro amigo que não fosses tu?

    Qual a validade de uma vida que nunca cativou uma amizade?... Ou, mais simples e naturalmente, um tremedo azar ou os desencontros da vida lhe tenham levado todos os outros, e nesse caso talvez a morte fosse a panaceia que lhe aliviou a tristeza do coração.

    Uma coisa é certa Mário, não somos nós quem define o nosso valor extrínseco. E mal estaremos se ficarmos tão sós ao ponto de ninguém nos dizer "gosto de ti" ou tão acompanhados que só oiçamos "odeio-te de morte".

    Nessa situação em que o Sr. Oliveira partiu, tu foste a certeza que ele precisou de que alguém se havia de lembrar dele de uma forma positiva. Ele acreditou nisso, validou-lhe a vida no momento em que to disse, e já não morreu só.

    Mas não será por acaso que a vida te escolhe para esses desempenhos. Eu não acredito no acaso Mário.

    Grande abraço,

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  2. Cybe, ocorre-me que a primeira fosse menos talhada pelo saber... Bem tens, de te apressar nessa tua tarefa, que tréguas não dá. A longevidade, é uma variável de tal modo variável, que pensar no nosso futuro corpóreo e material, é quase desperdício de tempo. No entanto, trata-se de uma consciência que teima em não entrar nas cabeças. A existência de um homem, eu esforço-me para a compreender assim, é um prémio a cada dia que acordamos, é certo que podemos nos esforçar para que não adormecendo, tenhamos a certeza de estarmos acordados, e assim espantarmos a fobia de deixar de existir... Será que quem assim julga ainda existe? Bem...e como prémio que é, deveríamos de cuidar para que não ficasse manchado e cheio de pó e lixo... Quanto às garantias, são traiçoeiras, e temos de garantir que elas garantem... e isso nem sempre é possível!
    Na realidade a solidão é extraordinariamente destruidora! E, a possibilidade de se ser definitivamente esquecido após a morte, não me parece muito reconfortante. Tal como dizes, e gostei da analogia, os blogues das nossas vidas, têm inúmeras leituras... e há blogues com leituras densas, que chegam a perder os leitores; ocorre-me que seja tantas vezes, por elas nos remeterem a recantos pouco iluminados das nossas vidas e das nossas existências...
    As razões que levaram aquela a não ter leitores, não são claras. Fui vendo mais depois, do que durante... Um carácter moldado pela intransigência, pela guerra, pela violação, pelo poder, pela perca do poder, pela raiva, pela fome e, principalmente, pela inexistência de esforço para dar aos outros e a si próprio, segundas oportunidades... tenho a noção de que esboçou uma nos derradeiros dias... no mais puro acto de egoísmo, ou então de misericórdia... não fiquei certo do que terá sido!
    Sim, realmente o Sr. Oliveira, nos seus derradeiros dias, como um oleiro, moldou um vaso novo com terra nova e virgem, desconhecedora das realidades e dos passados, pelo menos ele assim julgou, até se aperceber de que eu sabia algo e me pôs à prova, expectante, sendo que depois buscou uma recalcada semente, que semeou e regou com lágrimas... Apercebo-me também hoje, que essa semente realmente não morreu. Terá dado frutos em terras alheias? As terras que lhe eram próximas, estariam aptas? Ele teria trabalhado para que elas fossem fecundas? Não sei!

    Mas Cybe, a tua última frase, deixa-me preocupado e apreensivo! Poucas coisas escolhi na minha vida e as que escolhi não foi por livre vontade porque isso não existe. Não sei se o acaso existe, mas vivo o mesmo que tantos milhares de pessoas, e vejo o mesmo que os outros podem ver se quiserem... ou não?...
    ...é certo que a loucura proporciona ângulos de visão... diferentes...

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  3. Concordo em absoluto que a livre vontade não existe Mário, mas as escolhas que fazemos determinam tudo o que nos acontece. A resposta à tua inquietação está para breve. Compreendo-lhe a urgência. A acontecer não será "por acaso"...

    ;)

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  4. Um abraço, bom amigo.

    P.S. - Sabes, no outro dia vi-te...

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  5. Meu bom Cybe,

    A urgência fez-te mergulhar um pouco. Serias livre de o não fazer?
    Entendo bem o que me dizes e melhor o que disseste!
    No entanto diz-me se estou errado! Somos e vivemos as consequências das nossas decisões que, por sua vez, estiveram sujeitas às acções de modificação, das decisões que outros tomaram! Parece-me inevitável...

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  6. (Sei Mário... Sei que me viste... E ainda bem que foste tu que me viste. Porque és um amigo. Mas não sei se todo o mundo gostaria de me ver. Nunca te agradeci a ajuda que me deste pelo facto de me ters visto.)

    E quem sabe não voltamos a ver-nos um dia destes!

    Um abraço amigo Mário!

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  7. Meu bom Cybe,

    Não terá sido, com certeza, por acaso que te vi!
    Os gostos, esses não se discutem. A ajuda não ma agradeças, tão só porque esse é um dos alimentos da minha vida, e eu, para me manter vivo e crescer tenho de me alimentar. Os amigos não os escolho, eles brotam na minha vida como rebentos num tronco. Tento cuidá-los, porque são poucos e, sou tão egoísta, que os quero ver vivazes e a florir para a minha contemplação...

    E quem sabe não voltamos a ver-nos um dia destes!

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  8. Esta situação faz-me lembrar tantas histórias!
    Não haverá nada mais triste do que enfrentar a velhice com a solidão. Costuma-se dizer que preparamos a cama em que nos deitamos. Será bem verdade esta frase. Se por um lado é egoísmo pensar que podemos fazer o que nos apetece, ser maus, não estendermos a mão ao próximo durante a vida, por outro, não se arrependerão essas pessoas, quando confrontadas com a doença e a proximidade da velhice? Não merecerão um gesto do carinho que nunca deram? Ou não mudarão nunca? Não sei.

    Esta lembra-me uma história completamente oposta: o sr. Abel, que conheci numa cama de hospital. Não me lembro que idade tinha, mas eram 80 e alguns. Estava internado por uma pneumonia e era cego. Cataratas, dizia ele. Era um senhor feliz. Via-se isso na maneira como falava. Eu achei que ele devia fazer por ver, podia ser operado, voltar a ver, sei lá! Tentei convencê-lo. A resposta dele foi (não textualmente, já se passaram uns anos, mas estas palavras ficaram registadas): não preciso, Tenho tudo o que preciso. Vivo sozinho mas os meus vizinhos estão sempre a aparecer. Raro é o serão que passo sozinho. Não quero passar por isso. Eu sou feliz assim. Na altura, não "aceitei" muito bem esta postura dele e continuei a chateá-lo para ser operado. Hoje percebo. Percebo perfeitamente. Nunca esquecerei o sr. Abel, nem o ramo de flores que me deu quando foi embora - duas rosas unidas com papel prateado.
    Espero, quando (e se) chegar à idade do sr. Abel, conseguir sentir a paz que ele sentia. Foi essa a mensagem que ele mais me transmitiu.

    Um abraço

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  9. Raramente temos consciência que as pessoas deixam-nos marcas profundas e imperceptíveis... Reparamos nelas (nas marcas) mais tarde... Enquanto as nossas vidas vão sendo lixiviadas pelo tempo! Penso que estas tomadas de consciência, nestes parâmetros em que o fazemos, são muito benignas; para nós, para os que nos rodeiam e até, penso, para essas mesmas pessoas...

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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