quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Pré fácius...

Se procuram um best-seller literário, um autor de renome, um escritor Nobel… desistam. Não irão encontrá-lo aqui neste pequeno e singelo volume de qualidade. Aqui irão encontrar recordações, reflexões, emoções. Sobretudo isso: emoções.
Não, não conheço o Mário, dizia eu há uns tempos atrás. Não lhe conheço a cor dos olhos nem a do cabelo, não sei se é alto, baixo ou barrigudo. Conheço-lhe apenas parte do interior. Não, não me refiro aos intestinos, pulmões ou estrutura óssea, não sou médica, nem lhe estudei qualquer radiografia. Conheço-lhe parte do coração, não, não a massa muscular que se comprime e distende, impulsora do sangue que lhe viaja pelas veias. O coração, o outro, aquele que de mãos dadas com a mente faz de nós quem somos. E esse, eu fui (vou) conhecendo através das palavras impressas que, por mero acaso ou não, me vão cativando e vou assimilando cada vez que no meu monitor surge o suricate que tal como o outro, o mamífero, me vai ensinando a aprender, na sua linguagem própria enquanto me instalo confortavelmente naquele recanto acolhedor.
Recanto dos Suricates, é uma compilação de pequenos textos ora reflexivos ora de registos de memória, escritos numa linguagem simples, extremamente acessível e cuidada. A forma literária ligeira com que escreve, muitas vezes com toques humorísticos como em se eu fosse soláquio ou quando nos relata passagens da sua vida, que tornam a sua escrita cativante e permitem-nos ir conhecendo um pouco do autor e do seu percurso.
Os textos mais reflexivos também não sei para quê esse espartilho da lógica?!... ou então mas o que tem acontecido é o que me interessa?, como se de ensaios se tratasse, obrigam-nos inevitavelmente a olhar o nosso próprio interior e o mundo que nos rodeia numa busca de respostas que amiúde se confundem no nosso cérebro ou que, simplesmente, são meras hipóteses para perguntas sem resposta porque no mundo e na mente nem tudo pode ser reduzido a uma regra de três simples. Mas, sobretudo, colocam-nos perante a visão que um determinado homem, neste caso o Mário, tem dele mesmo e de tudo o que o envolve e, não raras vezes, apercebemo-nos que afinal nem tudo é a preto e branco ou, mais propriamente, preto no branco, que o mundo é multicolor e nada tem uma só forma de ser visto mas uma imensidão de visões a serem apreendidas. Notável o espírito de observação do Mário e sobretudo a sua capacidade de questionar.
Por falar em capacidades… não me atrevo a tecer comentários sobre os textos poéticos. Perdoem-me a incorrecção, poéticos são também muitos dos que estão em prosa. Reformulando a frase: não me atrevo a tecer comentários sobre os poemas apresentados pois poesia não é de todo o meu género de leitura preferido e mais uma vez sou obrigada a reconhecer a minha frequente incapacidade de compreensão, portanto, deixo essa tarefa a alguém devidamente habilitado.
De notar em alguns textos uma forte componente de crítica social construtiva, resultado, sem dúvida, do já mencionado espírito de observação peculiar e apurado que incita a tornarmo-nos também nós observadores, analistas, críticos, selectivos, para que possamos dar bom uso às oportunidades da vida e às aprendizagens que cada experiência, cada vivência nos proporciona. Diria que o Mário se apresenta frequentemente como um estudioso sociólogo nato.
Gosto especialmente dos pequenos textos do início da sua obra. Textos de uma simplicidade encantadora que nos dão conta por exemplo, de como o autor define, explora, aceita e/ou domina os seus próprios medos (como lençóis brancos…).
Mais do que do estilo literário, atrai-me a paixão com que escreve e descreve. Descrições tão ricas em pormenor que quase conseguimos visualizar o cenário ou o personagem. O carinho que fica adjacente a cada letra impressa, a cada frase registada, a cada ideia transmitida, em cada memória recordada, quando foca a família e/ou os amigos. Em especial quando os filhos são o tema, expõe-nos amiúde as inseguranças comuns a qualquer progenitor responsável do seu papel, mas também a imensa ternura que sempre caracteriza a nostálgica felicidade de os ver crescer e que é absolutamente notória em cada linha de letras gravadas com o tal coração, que não é apenas órgão feito de massa muscular. Amor será, com toda a certeza, a designação correcta.
E, já agora, num último apontamento, com a devida permissão do Mário, uma referência ao António que nos presenteia aqui com um delicioso texto que, à época (e ainda), me tocou especialmente porque o primeiro voo do (nosso) albatroz é sempre um momento inesquecível que tem tanto de dor como de alegria, tanto de receio como de vitória, tanto de inevitável como de mágico.
Obrigada, Mário, por todos os momentos de boa leitura que me (nos) tem proporcionado.

Ana Correia

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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