terça-feira, 22 de junho de 2010

Num jardim de perfumes doídos...


(Ler o post anterior por favor)
...
...
Desta vez o "Musgo Real" não me conseguiu tranquilizar...
...
...
Num banco de pedra, na sombra de uma Olaia... Sinto as palpebras inferiores caírem em linha recta até não sei onde... Do rosto canela da Zilda só vejo os olhos... Uma rede densa de vasos de encarnado expulsivo que rodeia as íris negras constritoradas... Observei-lhe, imóvel e atónito, minuciosamente durante uma vida...os olhos vidrados e paralisados...
Frente a frente, num silêncio absoluto e eterno de brados estridentes de dores sofridas e imaginadas... Tentei lhe calcular o sentir e a dor... Senti-me envergonhado pela tentativa... Não consegui mover uma revolta interior de ódio do homem...

Porque serei eu assim?

O homem também foi uma outra vítima... Ele arrastou a sua morte durante trinta e sete anos...
Vitima... Vitima de quê? Ou de quem?
Vitima, com certeza também foi minha!
Sou só o que faz isto e aquilo? Que gosta de carne quase crua e olha para uma articulação do joelho como se fosse tudo mecânica? Que dá as injecções a si próprio sem a menor hesitação? E que olha para o sangue que lhe sai das veias e imagina-o apressado em correrias levando essências de vida para animar outro corpo algures no mundo?
Também sou o puto que rouba nas lojas porque tem fome ou porque precisa de ser aceite no gang, que lhe também é vital como a comida! Também sou o polícia que lhe dá um tiro à queima-roupa porque na semana passada um dos seus melhores colegas lhe morreu nos braços num tiroteio de rua! Também sou o traficante que matou o polícia que estava a por em risco a sua riqueza e ambição que não é menos passível de protecção que a minha ou a do policia ou a do Sr. Machado, do Presidente, do Ministro ou do Papa!...
Compreendo que nada na vida é um acto isolado! Tudo, mas rigorosamente tudo está interligado...tragicamente interligado...

Jamais teremos capacidades para lidar com os poderes que conhecemos e desconhecemos mas que temos...

Ainda estamos à sombra da Olaia...imóveis e de olhos esbugalhados...

...Curiosamente vem-me à lembrança que as Olaias...também são conhecidas por..."Árvore de Judas"...

"...Se eu quisesse, enlouquecia..."
...sinto dificuldade em manter a postura de opção...


© Mário Rodrigues - 2010

2 comentários:

  1. Já dei umas voltas a isto. Vejo-te também a lutar com o corvo. Mas segura as penas, não se vá dar o caso de serem tuas, ainda que finjas que não são. Eu estou em crer que sim, ainda que no lado mais escuro da rua tudo se confunda e se torne difícil dizer, principalmente se fosses tu o morto, que não fosse o corvo a ter razão e as penas fossem afinal exclusivamente dele.

    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Claro que luto com esse "cabrão"!
    Mas sempre que lhe dou de feição...dói-me! Afinal de contas até estimo estas peninhas negras de reflexos azuis... E arrumo-as...com o bico...

    Abraço

    ResponderEliminar

…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

Mensagens populares