segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quebrando correntes...


A discussão era enorme, quase ninguém se entendia, ou ninguém mesmo...as circunstâncias da morte daquele triângulo...teriam de ser muito bem explicadas!
"Já disse inúmeras vezes que nada tive a ver com a morte desse triângulo!"
"Então porque te disfarçaste?"
"Usar gel é um disfarce?"
"Claro que é! Assim todos te julgam um ponto final! Ocultando a tua verdadeira identidade de asterisco...!

Tratava-se de um triângulo já idoso, chutado de folha em folha. Os geómetras ignoravam-no compulsivamente, olhavam-no com asco e desprezo. Em tempos idos, vítima de um compasso comparador de corte, sofreu um rasgo que o privou definitivamente da sua beleza de isósceles. Transformou-o numa aberração que nada tinha de escaleno, dando-lhe como lado uma cicatriz em forma de arco que lhe alterou o ângulo. Ali, moribundo naquele estirador, esvaia-se em tinta-da-china. As feições desapareciam-lhe numa alvura que o esgotava e levava à transparência.

"Quadrado sou eu e afirmo aqui, arriscando-me a levar com um traço azul por cima, que é assim, é assim que os que lutam a vida inteira, trabalhando honradamente para esses senhores octógonos e dodecágonos, que se julgam donos do mundo e que nos exploram até ao último ponto das nossas linhas! É assim que depois terminamos..."

"Já cá faltava essa conversa! Claro!
Eu sou filho de uma base de uma pirâmide quadrangular e de um honrado triângulo recto. Tenho origens muito humildes e se hoje sou octógono lutei muito!
Já fui um quadrado que cresci a apanhar as borras das borrachas que espartanamente aniquilam os defeituosos pelas mãos do criador, essa omnipresença que nos castra, com a ajuda de ferramentas de martírio e tortura, essas senhoras réguas e esquadros que nos querem fazer todos iguais arrancando-nos o nosso direito de sermos diferentes, até conseguir com muito esforço e trabalho, unir pontos perdidos e endireitar restos de arcos mal apagados, para assim conseguir ir juntando uma e outra recta para ser pentágono e hexágino até ao que sou hoje!
E eu? Não trabalhei honradamente?"

"Quem pensas tu que és? Tenho tudo o que tu tens! Temos os mesmos direitos! Ou será que só porque não tenho ângulos nem rectas sou inferior? O meu pai era base de um cone! Pois era! E depois? Sou uma circunferência e tenho muito orgulho nisso!"

"Pois tens muito orgulho, mas já mais chegarás a esfera! Teremos que almejar algo mais além..."

"Quem me dera...Quem me dera, não sendo nada, ser uma representação gráfica de um pensamento de uma criança, cuja mão leve desloca um lápis pela folha branca, dando-me formas curvas e elípticas...como o esvoaçar de uma borboleta..."

"Cautelas! Cautelas que se aproximam os volumes. Agora é que se vão partir os bicos..."


Uma mão arrebanha a folha. Da discussão não nasceu muito. Apesar do covil do inferno estar logo ali, com as suas lâminas triturantes, o criador atira-a para o cesto dos papéis...
Uma criança que por ali andava, dela logo fez um aviãozinho que atirou pela janela, qual porta celestial...
Uma gota atinge o aviãozinho. Cai em cima do último ponto de tinta do nosso triângulo isósceles...

Oh! Que trinados de trompetes celestiais! Assim, sob a forma de borrão, ele renasce com um novo esplendor e completamente livre nas suas formas... Quebrando correntes...


© Mário Rodrigues - 2010

2 comentários:

  1. Sem dúvida uma das melhores lições de geometria que já tive. E que ninguém se esqueça do que é a geometria. Afinal não passamos disso mesmo. Já o Picasso o afirmava, certo?

    Abraço!

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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