quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As forças interiores e outras trivialidades...

Contava Roberto Rosselini...

Um agricultor num dado dia, levou consigo o seu filho e Borino o cão. Na sequência dos seus lavores, deixa a criança e o cão debaixo de um grande carvalho. Horas depois, quando regressa, encontra a criança degolada com marcas de dentes na garganta. Com o coração destroçado de dor mata o cão. Imediatamente após vê uma serpente enorme e toma consciência do tamanho da injustiça que acaba de cometer. Perturbado coloca respeitosamente o animal numa cova coberta de rocha e colocou-lhe uma inscrição que dizia - “ Aqui Jaz Borino a quem a ferocidade dos homens matou”
...
Vário séculos depois, foi construída ali uma estrada junto do túmulo do animal. Os viajantes, fatigados das suas viagens, descansavam junto carvalho e liam a lápide. Um dia alguém sob o peso da fome, da peste e do cansaço rezou e pediu a intercepção do sepultado vitima dos homens junto das divindades para que a dor lho fosse aliviada.
...
E os milagres aconteceram. Anos depois, os habitantes construíram uma igreja bela Igreja e, lá dentro, um tumulo digno. Eis que, aquando da trasladação dos restos mortais, se deram conta que se tratava de um canídeo...

As realidades e as situações despoletam fenómenos extraordinários dentro das pessoas! Não obstante, elas mesmas, as realidades e as situações, numa conspiração vital, também no contrário são exímias...


© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

As namoradas dos meus amigos...

De um modo geral, as minhas manhãs, salvo algumas excepções, são passadas ao volante a "varar" quilómetro enquanto ouço Beethoven ou Skunk Anansie.
Ontem, envolto numa enorme melancolia, necessitava de algo que me agitasse o dia e a mente!
Enviei uma mensagem escrita a dezoito indivíduos com quem tenho uma relação de amizade que dizia o seguinte:

""Manda-me o número de telefone da tua namorada. Acho-a uma mulher muito interessante e quero combinar qualquer coisa com ela. Mário Rodrigues."

As respostas foram eventualmente surpreendentes! Dar-vos-ei a minha análise, antes mesmo das resposta.
Foi-me possível constatar que, ao contrário do que o mundo proclama, a instituição de pseudo-matrimonial não está em decadência! Foi uma constante a confiança que os meus amigos demonstraram nas suas companheiras. O facto de me enviarem prontamente os contactos directos das suas caras metades, na maioria, demonstra uma confiança inabalável nas suas dedicadas e merecedoras companheiras.
Reflicto um pouco...
Será que eles me consideram um eunuco? Que risco algum represento??...
Respostas:
3 Não responderam. Não viram ou não receberam...
1 “...vai pó ca.........”
Dos 14 que me enviaram o número imediatamente na volta da mensagem, ressalto os seguintes:
4 Mandam o número sem mais questões
5 Dizem: “então mas tu já o tens! Fala com ela quando quiseres!
3 Mandaram o número com as instruções do melhor horário para as contactar.
1 Junto do número dizia: “liga agora que ela ainda está na cama...”
1 Junto do número dizia: “...força que o período acabou há três dias e ela está no cio!...”

Como podem calcular, tive um dia bastante divertido assim como os meus amigos, os 14 que entraram e as respectivas respeitosas companheiras que deram origem a conversas dos diabos...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Se hoje me bastasse!...

Hoje não me basta esperar para que o dia passe
Hoje não me basta a escuridão para deixar de ver
Hoje não me basta encolher-me para me refugiar
Hoje não me basta chorar para as lágrimas verter
Hoje não me basta o silêncio para sossegar

Hoje também terei que me afundar; e do fundo de um escuro poço, trazer coisas viscosas emaranhadas nas mãos
Hoje também terei de com dor, escarafunchar na carne, e de um rompante, arrancar o espinho que, cravado há já muito, infectou e está rodeado de matéria pútrida

Mas...

Mas hoje, também deveria, desinfectar a carne escarafunchada e cuidar que sã cicatrize.
Mas hoje, também deveria, transformar coisas viscosas que habitam os fundos dos poços escuros em fortificante que em terra cuidada melhorassem os seus frutos
Mas hoje, também deveria, em sossego, cuidar dos silêncios e conhecer-lhes as origens
Mas hoje, também deveria, verter lágrimas sobre o tempo perdido
Mas hoje, também deveria, nos raios do Sol me refugiar ofuscando os incautos distraídos
Mas hoje, também deveria, sair da escuridão e com olhos limpos começar a ver
Mas hoje, também deveria, ansiar que este, que foi mais uma oportunidade de ser melhor, que este dia não passasse...

No entanto, uma inquietude insatisfeita, faz com que se procure o que virá a ser indesejado e que com desprezo se ignore o que se quis...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Então mas o que tem acontecido é o que me interessa?

Nasci num dia de primavera, ainda que Dezembro fosse. Nas primaveras está contida a esperança de dias de sol forte. A esperança é uma arma nas mãos da conspiração; impele-nos em epopeias, macera-nos os corações e revolta-nos nos esperados. Epopeia enfrentei no dia em que nasci, hoje tenho outras epo’s, algumas com pouco de peias’s. Alguns dos caminhos, que dados nos são a percorrer, há quem diga que são à escolha! Mal sabem eles que nada se pode neste mundo pensar em escolher! Uns aparentam-se bons, mas a meio as veredas mostram-se. Outros exibem penhascos mas com o andar amaciam... No entanto... No entanto outros há, que desde o primeiro dia os soubemos tinhosos! Caminhos curvos, brisas cortantes de norte, caminhos em que esperamos fés infundadas, caminhos que no seu caminhar a dor não se desvanece, caminhos que nas claridades das subidas, nos cumes revelam a agrura das descidas. Curvos como cordéis enrolados nos bolsos são os sentires da gente daqui. Gente daqui que nada mais queria que ser feliz. Felicidade que todos dizem que procuram. Para? Para exibir em pequenos cartõezinhos que penduramos ao peito – “ Mário Rodrigues, e por baixo, FELIZ” – Sim, tem de ser escrito em letras maiúsculas! Para que o processo de afrontamento se dê com eficácia. A felicidade é como um descapotável, anda-se na rua a demonstrar que temos “posses” para ter um!... E mal se sabe como aquilo funciona!... Afrontamento, não o proveniente da andropausa, sente-se quando o único meio que temos de respirar é por um balão, garantindo que respiramos infinitas vezes o mesmo ar até à embriaguez dos nossos saberes omniscientes, e ainda assim há alguém que pega num alfinete e faz rebentar o dito. Rebentar é um exercício que, penso eu, devia ser praticado com bastante frequência por algumas pessoas. Já rebentei algumas vezes mas nunca as que devia e do modo que devia... Será que é porque não posso escolher? Mas que quero eu escolher? Basta não escolher nada que tudo acontece, na mesma! Acontece o que me não interessa? Ah! Está bem!...

Então mas o que tem acontecido é o que me interessa?
Pessivelmente é poque nada se pode neste mundo pensar em escolher!...
 
© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Como atropelar uma ratazana que saiu de uma sarjeta a correr I

O acto de atropelar é na realidade uma acção constrangedora! Tenho de, desde já, afirmar e antes de mais, que o atropelamento terá de ser acidental. De contrário trata-se de um assassinato e os assassinatos são sempre condenáveis pelo que se assim for recusar-me-ei a fazer a síntese de tal acto e isto acaba já aqui!

Não? É acidental?
Está bem! Então irei ser breve!

Terei de considerar se o local do atropelamento é numa cidade, numa vila ou se é numa estrada do campo. No campo não é porque nas estradas do campo não existem sarjetas. A existência de uma sarjeta pressupõe passeios a ladear uma rua, sendo que tal não é muito vulgar nos campos. No entanto nas estradas do campo existem aquedutos, e a ratazana poderia sair de um! Se isso é certo, também é certo de que o acto em causa é o de "Atropelar uma ratazana que saiu de uma sarjeta a correr", e não "Atropelar uma ratazana que saiu de um aqueduto a correr".

Tenho de ter em conta a existência, ainda que pouco vulgar, de uma estrada com passeios e sarjetas no campo. Isto é muito importante porque as ratazanas do campo estão integradas num meio que lhes é natural em que se desenrola a luta pela sobrevivência e como todos os outros seres tem uma missão a cumprir na biodiversidade do habitat... E as ratazanas da cidade... também...

Isto demonstra que não deve haver razões acidentais para, por acidente, atropelar uma ratazana do campo em detrimento de uma da cidade.

Tenho de considerar também se me estou a deslocar a pé, de bicicleta, de mota, de automóvel, de veículo pesado de carga, de veículo pesado de passageiros, de avião ou mesmo de barco!

De barco?

Porquê a admiração em relação ao barco, renegando para segundo plano o automóvel ou mesmo o andar a pé?

Se me estiver a deslocar a pé, terei de garantir algumas condições para que o acto se desenrole acidentalmente. Terei de providenciar, acidentalmente, que eu, tal como o animal em causa, estaremos em marcha e absoluta e inadvertidamente distraídos e absortos da realidade naquele momento. Só assim, conseguir-se-á reunir as condições acidentais para o acto. Terei de observar ainda que não se vá dar um pisamento, nem um abalroamento... Um atropelamento com um pé pode parecer difícil, mas está exclusivamente dependente do empenho e arte de o fazer por acidente.

Não! Nem pensar nisso!... Por momentos, poder-se-ia pensar num enorme pontapé!... Fácil seria se o acto não fosse acidental, mas disso já disse que não falo...

(continua...)

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O portão forjado

Estava sinceramente agradado por, já à porta de casa, ter regredido um pouco e ter ido buscar o casaco. Era um casaco já bastante usado, cinza de uma malha polar "débil", mas que se tornara largo e confortável para os períodos em que estava a "hibernar" pelas proximidades de casa. Com as mãos nos bolsos, fecho éclair bem corrido até bem perto do pescoço, ia dando uns passos... Involuntariamente, ia atirando com um pé para a frente do outro, de modo que a cinética do tronco, não ultrapassasse perigosamente o eixo do centro de gravidade, o que em duas palavras, diria - caísse estatelado.

Ia a pensar em como seria difícil, não pensar em nada! Procurava uma inexistente possibilidade de conseguir não pensar em nada...

O passeio tinha cerca de dois metros de largura, ladeado do meu lado esquerdo por um muro, relativamente alto, com grandes zonas cobertas de hera, pedaços de reboco centenário prometendo a sua iminente queda, as pedras, as do passeio, pequenos cubos irregulares de calcário branco, estavam polidas e húmidas do intenso orvalho da noite. Este conjunto, muro e passeio, tinha a sua disposição aberta, coberta nas alturas pelas altas folhagens de vários carvalhos, tílias e castanheiros, na direcção do norte. O Sol nascera-me nas costas, garantindo uma húmida sombra na quase totalidade do dia.

Não obstante, um condenado, no dia em que sabe da sua sentença de morte, e possivelmente, depois da revolta, desejaria que a mesma fosse executada de imediato. Esse, deve ter a cabeça a explodir de tantos pensamentos. Uma boa parte da pena, senão mesmo a pior, é a tentativa inglória de querer por ordem hierárquica nos pensamentos e sentimentos nesses momentos. A dor do tempo que ainda falta, que possibilita a manutenção de tal inferno.

A abundância da humidade facultava a proliferação de um verdete, perigosamente escorregadio. Aquele "L" contínuo, composto pela união do muro com o passeio, prolongava-se no horizonte. Lá, bastante ao fundo, um feixe de raios de Sol, desciam a quarenta e cinco graus, antecipando a ainda tardia chegada do meio-dia e do sul, aproveitadores eficazes da interrupção do muro que fazia adivinhar um portão e de um céu com tendências a limpo adornado por cúmulos alvos e fofos.

Parado, a olhar para os cinco ou seis degraus que o levam ao cimo da plataforma da guilhotina ou da forca ou até mesmo do cepo do carrasco... Pensará ele - Já falta pouco!... Penso que o pânico o abraça. O ser humano tem por natureza, o sentimento de morte eminente. É um sistema de alarme extremo com vista a salvar a vida. Será controlável e manipulável? Não me parece, pelo facto de que é completamente involuntário. Não sei se o saco de pano negro na cabeça produzirá efeito! Aliás, acho que produz, mas qual? A cabeça, nessa ocasião estará vazia ou a velocidade e quantidade de sentimentos e pensamentos, provoca o colapso e paragem da consciência? Todos os sentidos estão em funcionamento, ainda, isso é certo! Com a cabeça pendente da espera da lâmina da guilhotina, escuta o destravamento da lâmina de, também quarenta e cinco, mas desta feita quilos e não graus... Curiosa esta coincidência!... Ambos os quadros, este e os raios de Sol, metamorfoseiam a vida e a morte!... Vai ouvindo o consequente silvo da descida da lâmina pelas corrediças. Parecerá ensurdecedor e eterno esse silvo? Não tenho a certeza que exista, nesse momento, alguma luta interior para contrariar a cena!... Possivelmente será um silvo de libertação. Finalmente!...

Com o olhar no chão, reparo agora que estou a caminhar, à razão de uns trinta passos por minuto, e com o olhar no chão! Estando eu a andar tão devagar, ainda estou com medo de tropeçar? Quando ando na correria no trabalho, não ando a olhar para o chão!... Mesmo porque se assim fosse, andava aos encontrões em toda a gente por os não ver!... E isso seria no mínimo constrangedor! Por que razão não vou a olhar em frente? Acho que isto, de quanto mais devagar ando, mais para baixo olho, já é uma imagem de marca. Sempre assim foi! Até já me chamaram uns "nomitos" por este meu hábito de andar com "os olhos no chão".

Fisiólogos e estudiosos da neurologia e da consciência afirmam que os neurónios funcionam e alimentam pensamentos, mesmo com a cabeça decepada, durante cinco segundos!... Como sabem eles dos cinco segundos? E se forem dez? Ou até mesmo trinta como chegam a defender alguns? Estará nessa ocasião a cabeça a não pensar em nada? Isso seria o derradeiro contra-senso!

Se, empiricamente, já cheguei à conclusão de que não se consegue não pensar em nada, em ultima análise porque isso em si, já é pensar em alguma coisa, como é que estando a cabeça em funcionamento não pensaria em nada? Parece-me claro que realmente pensa. Pensa o quê? Quais poderão ser os pensamentos de uma cabeça que acabou de ser decepada do resto do corpo há instantes?
Perdi a vida?
Já está? Finalmente?
Agora é que vai ser?
...

É!... Realmente é um portão. Enorme, forjado em ferro grosso e forte. O ferreiro foi muito sensível ao fazê-lo! Nota-se o detalhe e o esmero no trabalho! Das duas, três; ou ia receber boa maquia pelo trabalho, ou o nobre do palácio que estava por detrás deste portão era um bom homem querido por todos. Também poderia ser só rico pela força do trabalho escravo e do chicote!... Não, não era de certeza! Notava-se no forjado das cornucópias e dos caracóis, uma dedicação suave e meiga...se o contrário fosse, notar-se-ia a raiva e a brutalidade do ferro... O ferreiro, esse não o encobriria!...

© Mário Rodrigues - 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Passos

Há passos nas nossas vidas, que são marcados pelos passos que damos na nossa vida de passos vividos e com passos por viver...
Com passos percorremos caminhos, quantos deles, longos e pedregosos caminhos, onde os passos são difíceis e dolorosos...
Dos que já dei, tento reter as arestas aguçadas que me rasgando o dorso ensinaram manhas para os próximos...
De muitos deles, não lhes soube o significado nem sei se algum dia saberei...
Nos que já dei, desgraçadamente, algumas vezes via alguém a meu lado com maior fardo; sim, há sempre fardos maiores. Tive, nessa altura dificuldade em ajudar os outros, mesmo porque nada tinha para além de ouvidos com que escutar lamentos e desabafos...
A cada lamurio que ouvia, sentia-me um pouco melhor, mesmo porque acabava de constatar que tinha sido miseravelmente útil, por momentos, a alguém. Hoje, com passos dados e, espero, muitos para dar, vejo essencialmente o caminho de uma maneira diferente da que via. Vejo também que o que nos pode ajudar não é o caminho que percorremos, mas as memórias e as lições dos passos dados, bem como o propósito e a vontade de outros passos vir a dar!...
E há sempre uma coisa que posso fazer! Escutar!...

(Este texto, hoje, é especialmente dedicado à Cátia)

© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

No dia em que os coelhos uivaram.

Nuvens cúmulos cinza negro, arrastadas pelas nortadas furiosas, fazem os tubos de bronze suspensos dos ramos das crespas estepes, ressoarem latidos de proclamação de domínio sobre as tementes mentes.

Iniciara uma nova era!

Os lobos, raivosamente ofendidos por felpudos rugidos nos cumes das escarpas, rasgam as veredas, numa ascensão galopante, para o términos estabelecer em tal ousadia imponderada. Mas algo inesperado aconteceu! Milhares de coelhos precipitam-se -lhes para as raivosas mandíbulas!
Dias antes um coelho moribundo descobrira que, ali no vale dos lobos salobros, a vegetação predominante era a camomila e o hipérico!
Naquele vale, nunca faltavam os coelhos. Eles vinham de todas as partes da montanha. Os lobos, há já muito que nas suas caminhadas migratórias, se rebolavam por sobre as amarelas e perfumadas flores da macela e do hipericão, transportando em seus pêlos, as microscópicas sementes, que semeavam no vale à sua chegada. No vale das águas abundantes, as dopantes plantas proliferavam.
Os lobos bem o sabiam!...
Sempre frescas e saborosas, sem vestígios de dente de leão, cuja diurese poderia desintoxicar, as duas plantas mantinham os coelhos felizes e despreocupados. Os lobos, quais manobradores de marionetas, manipulavam uma sociedade, na pele de cordeiros, demonstrando a sua dedicação em feliz manter aquela chusma de dopados indigentes.
Pois bem, não havia, nos vales das redondezas, roedores mais felizes! Nem que tão abnegadamente tolerassem os residentes e benfeitores lobos. Compreendiam e com agrado, seus irmãos ofertavam, para que a paz e as bênçãos perdurassem!
No vale dos lobos salobros, o lobo líder da matilha, certificava-se da virtude da sua doutrina, ofertando periódica e frequentemente, um abundante repasto concentrado de pétalas de ambas as flores aos coelhos agradecidos. Tal ritual, enternecia e subjugava quem via nos lobos divindades admiráveis, apontando e descriminando os que nos caninos dos lobos não confiavam. Certo era, que naquele vale sussurrava uma paz embriagada há já longos séculos!... De herege denominado, quem não comia era infeliz e assim legitimava as profecias dos canídeos.
Mas, dias antes um coelho moribundo descobrira, que ali no vale dos lobos salobros, a vegetação predominante era a camomila e o hipérico!
Então, milhares de coelhos precipitam-se para as raivosas mandíbulas dos lobos, ofendidos por felpudos rugidos, rasgam as veredas, numa ascensão galopante, para o términos estabelecer em tal ousadia imponderada...e com o temor de que os idiotas roedores, da essência da desventura se tenham apoderado...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Vertiras e mendades

Desculpai-me mas hoje não falo. Dói-me bastante a cabeça. Tenho nos últimos dias, por força de uma actividade voluntaria que tanto me alegra como entristece, por razões diferentes, escutado histórias e experiencias de vida...
Sinto-me "pesado" e contraído. Depois de escutar uns, escuto e falo com outros... outros que não falam nem escutam uns! Enquanto falo, observo uma postura de pseudo-escuta que faz com que eu me aperceba de que estou a falar um dialecto de uma língua estranha e morta dos confins da existência da humanidade.
Ritmos de vida, faltas de educação ou de princípios, lutas por sobrevivências difíceis ou simplesmente, "estou-me a cagar", criam barreiras compactas e aparentemente intransponíveis entre as pessoas. Neste momento não me sinto muito bem. Um aperto cefálico e a mandíbula serrada com demasiada força denunciam-me alguma raiva... O silêncio em que estou há já algumas horas, concentra as imagens e as frases incompreensíveis que tenho escutado ultimamente. As relações entre os supostos próximos, estão cravadas de "verdiras" e de "mendades". Não temos tempo para ser honestos, verdadeiros e humanos; para nos escutarmos e com interesse em resolver assuntos, procurarmos soluções válidas.
Não falo porque... Hoje prefiro nem escutar... Hoje está nublado lá fora... As imagens são difusas. Não vejo com nitidez. Haverá dias em que inocente, verei as pessoas nítidas... E então, falarei credulamente delas... Hoje não falo...

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Prestar atenção...

A felicidade rodeia-nos com frequência!
Descuidadamente distraídos, vamos sendo infelizes sem necessidade...

© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Hoje sou uma simples cobertura de nada!...

Hoje escutei uma história!...

"A noite é demasiado grande!
A escuridão, onde me escondo, ofuscado pelas trevas da ausência da luz, prolonga-se demasiado!
A meio do voo tripulado por um louco, abriram a porta e largaram-me a mil metros do chão!
Vejo as pessoas com dificuldades e embaraçadas. Com inércia, vou até elas. Quando me reparam olho-as profundamente em silêncio até às suas várias cavidades. Depois olho-as nos olhos...
Sim! Ainda em silêncio! A densidade dos olhares é incompatível com sons ou palavras!... Nem mesmo um urro! Imóveis, desnudamo-nos mutuamente, escancaramos os segredos, espalhamos nas mesas as vergonhas, perscrutamos sem pudor as dores...
Ali hirtos! Vejo gotas de amor entre as sobrancelhas... Vejo fios de raiva no castanho de cabelo... Palpebras semi-serradas, papudas, de pestanas afrontadoras e aptas a desferir golpes profundos...
As pessoas são estranhas! São uns seres estranhos, pouco regulares, com extremidades agudas, com labirintos nos olhos e dúvidas nas mãos...
Sim, vi!...
Não! Não perguntaste nada!
Tenho de te dizer!... Tenho de te dizer que a noite é demasiado grande, e que é tão grande que quase me obriga a dormir!
Não quero dormir!
Não posso dormir!
Se um dia!... Se um dia eu dormir... Ela volta a morrer! Mas eu não consigo falar porque a boca se me não abre e o diafragma se me não contrai, expelindo ar revérbero pelas cordas vocais!...
Mas eu tenho de dizer!...
...
Estás a ouvir! Eu sabia que ouvias! Estás inerte, hirto em silêncio...e estás a escutar-me!
...
Ouviste como ele a chamou com voz de ódio descontrolado?
Ouviste como ele lhe ordenou que se despisse e se deitasse nua sobre a pedra da mesa da cozinha?
Ouviste-o a dizer que ia salvar?
Ouviste-o dizer que a amava muito?
Viste-o a agarrar na motosserra e a pô-la a trabalhar e a acelerá-la inúmeras vezes e cada vez mais num frenesim incompreensível?
Ouviste-o a gritar palavras de ordem?
Ouviste-o a exigir-lhe que não implorasse pela vida?
Ouviste-o a dizer que a ia cortar às postas e precisava de se concentrar?
Ouviste?...
Ouviste?
...
Eu... Eu estava dentro da sexta que servia de berço, no quarto, no outro lado do corredor, tinha uma porta entreaberta que deixava que eu observasse pelas frestas das dobradiças da porta...
...
Anos mais tarde... Ainda estás a ouvir, não estás? - Anos mais tarde, ele estava a serrar um tranco de um pinheiro alto! Subira por uma escada até lá. Eu estava de pé, imóvel, em silêncio, hirto...ao fundo das escadas de casa, a cinquenta metros dele. Olhava-o à distância!... Num voo, largado a mil metros do chão, vejo-o a empalar-se num dos postes da vedação!...
...
Não me movi!...
Na minha cabeça, uma tempestade, empurrava-me para a frente!...
O meu corpo, tal como agora a minha boca, não obedece a nada! Não faz o menor movimento. Fico imóvel! Observo o corpo movimentar-se numa espécie de convulsões que se me assemelham a um desenrolar de exorcismo...
Passados alguns abundantes minutos...
Inspiro muito e expiro até ficar vazio!...
Hoje sou uma simples cobertura de nada!...
De nada...."


© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A charrete de tule.



A charrete de tule tinha mil cocheiros sentados em parapeitos nos dorsos de mil cavalos. Os mil cocheiros tinham mil casacas molhadas pelas lágrimas de mil corvos brancos que voavam sob os cascos de mil cavalos verdes com crinas de medo. Os cocheiros divergiam permanentemente em mil trilhos sob novecentas e noventa e nove insurreições dos restantes. Mil chapéus altos adornavam as mil cabeças acéfalas dos mil cocheiros que com mil rédeas de secos nervos de mil homens tangentes, incitavam em mil galopes frenéticos os mil cavalos verdes de cascos de ouro com mil diamantes e crinas de medo.
A charrete de tule voava de portas escancaradas.
A charrete de tule transportava coisa nenhuma em quantidades generosas. O vácuo, aspirava-lhe para o interior nada, sendo que nada de lá saía bem como nada lá ficava.
A charrete de tule tinha mil rodas de cristal que reflectiam imagens de mundos exteriores ao interior do seu mundo.
A charrete de tule era feita de tule. O tule era feito de ânsia e desejo em filamentos de escarpa tecidos em teias de neblina. Por sobre a charrete de tule, deslizavam mil esperanças vestidas a rigor. Mil esperanças de mais não voltar a mil homens que esperavam mil coisas terríveis. Mil homens de mil amores por mil donzelas que voavam, quais corvos brancos sob os cascos de mil cavalos verdes com crinas de medo. Mil terrores eram esperados por mil homens, acéfalos de casacas molhadas pelo suor de mil mães parindo. Mil mães parindo a esperança de mil salvadores, correndo em mil charretes de tule, chegarem ao mundo interior do seu mundo, porque lá fora, no exterior, já mil milhares de milhão de estrelas voavam sensatas e errantes.
A charrete de tule, era a última de mil charretes divinamente enviadas para mil mentiras entregarem a mil homens de mil esperanças maravilhosas, de que com tais mil mensagens divinas, mil vezes fizesse um milhar de alegrias em mil felizes corações de mil homens justos...

Mas, a charrete de tule...


© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Realmente não sei se algum dia me sentirei satisfeito...


O ritmo da vida durante todo ano, nem sempre, ou melhor raramente me deixa a serenidade e o silêncio de que não prescindo para fazer as minhas leituras. Frequentemente recorro ao isolamento da sala escura ou ao sossego da madrugada para, quase furtivamente, me deixar embalar e absorver pelas leituras que cada vez menos prescindo. Não obstante tal aventura, há livros que pela sua "densidade", acabo por deixar para as férias. Em período de férias o meu metabolismo desce a níveis perto do torpor. A esse fenómeno, de modo nenhum é estranho o facto, que há já muito cultivo e tenciono continuar, de manter bem longe dos meus olhos e ouvidos, qualquer meio de informação. Jornais, rádio e televisão estão expressamente proibidos de entrar no meu quotidiano de férias. Ao fim de três dias, sem esses autênticos mensageiros da desgraça, o meu humor e saúde mental melhoram numa relação inversamente proporcional aos níveis de adrenalina e excitabilidade em que vivo o resto do ano. Assim, aproveito o facto acordar sempre muito cedo, seis da manhã normalmente, para no silêncio e na calma que o sono profundo de toda a família, bem como com a frescura que manhã proporciona, me entregar a quatro ou cinco horas de "voos literários".
Nestas férias, levei para terminar de ler, um livro muito bom de Gabriel Garcia Marquez, "O Outono do Patriarca" e um outro para começar de Dostoievski, "O Idiota". Sem qualquer previsão acabei por ler pelo meio "As aventuras da Memória" de Voltaire que encontrei em formato "Pocket Book".
Já regressado das ditas férias, visito uma livraria, de que sou cliente assíduo, e entre umas preciosidades de Aldous Huxley, comprei um livro que não era suposto comprar. Raramente compro livros que estão em escaparate, publicitados até à exaustão, com nomes e capas "vestidos para matar" e cujas primeiras páginas tresandam de maravilhosas críticas dos "Guardian", "Observer", "Economist" e "Telegraph". Se me oferecessem aquele livro, certamente que o deixaria a...envelhecer em prateleira de carvalho...até tropeçar nele; mas não só não me foi dado como o comprei. Uma compra muito improvável, mas que num impulso, peguei e levei junto com os outros, para a caixa para pagar. Gabriel Weston. "Confissões de uma cirurgiã". Com "O Idiota" a meio, e na breve olhadela que dou por todos os livros que compro, com o intuito desnecessário de estabelecer a posição cronológica e nunca respeitada, das leituras dos mesmos, cravo os olhos nas páginas do dito e li, li...li mais um pouco e constato que é um "livrito" engraçado. Nada do que trás escrito me é estranho ou novidade. Parece-me que podia, perfeitamente escrever uma coisa daquelas sem grande esforço. Por se tratar de um livro relativamente pequeno, decido lê-lo de seguida e acabá-lo logo de uma vez, para mais rapidamente lamentar o dinheiro que tinha dado por ele.
Três dias depois estou a acabá-lo de ler. Nas últimas páginas encontro aquilo que, por ventura, me deixa a pensar e que eu considero o mais relevante para mim. O livro termina de um modo que eu não previa. Não só não previa, como tão bem me identificava. Num universo de altíssima competição como é este, o hospitalar, há posições e decisões que não esperamos. Muitas vezes nem as compreendemos, ou porque descontextualizados, ou porque nem ponderamos a contextualização.
O facto de em detrimento de uma carreira, optar por uma micro ou nula visibilidade profissional e social, com o intuito de se ser mais pai, mais esposo, mais filho, mais humano, mais partilhado, mais ouvinte, mais conversador...não é, de facto, muito esperado, lógico ou até mesmo bem visto.
Os anos em cujas noites e os dias foram passados nos hospitais, nas farmácias e nas vmer, os aniversários eram dias iguais ou piores que os outros bem como os Natais, Páscoas, funerais e bênçãos de fitas, dias importantes como os em que os filhotes mostram a dança das borboletas nas festas de fim de ano...foram-se acumulando.
Lembro-me da minha mulher passar por um dos hospitais, quando a caminho da faculdade, para me dar um beijo, porque não nos víamos há três, quatro ou cinco dias. Lembro-me de um dia, depois de dois beijos e um café rápido, a ficar a ver ir-se embora e pensar - "...aquela mulher é-me quase estranha!... - A distância tem sido tal, que...chego a ter uma sensação de viagem para o infinito sem regresso...
Se dessa vez, uma chamada na vmer me fez voltar à vida no fio da faca. Mais tarde, já em contexto de bloco operatório as coisas mudaram. Chegava a casa de madrugada, quase todos os dias, e em bicos de pés, deslizava até ao quarto dos meus filhos, pequeninos, e os cheirava, e observava... e acariciava os punhos fechados, num misto de força e fragilidade... sentia-os desprovidos...
Nas minhas inúmeras noites de serviço, quando o trabalho permitia, tinha por hábito passear pelos corredores das enfermarias, não só para "piscar o olho" aos meus colegas que também estavam de "vela", mas também para observar os doentes nas suas eventuais tranquilidades. Lembro-me de achar a neonatologia e a pediatria com uma angustiante semelhança à medicina interna. Se de um lado bebés e do outro idosos, mas ambos sós!... Lembro-me de lamúrias e lamentos que mais não eram que pedidos de - "por favor chega-te a mim um pouco...olha para mim e deixa que que olhe também..." - Lembro-me de bebés que o simples timbre da voz da progenitora os fazia calar e acalmar de choros sentidos...
Os meus; eu sabia ser o "super-herói" que eles exibiam aos colegas, mas não sabia se eles tinham feito cocó, ou se tinham comido bem, ou se tinham tido alguma rixa com os colegas da creche, lá estavam, de certo modo também sós... Também sabia que tinha mais uns trocos para, com eles e a mãe, fazer coisas que nunca fazia porque não estava a quando das oportunidades. O que eu não sabia, mas aprendi, asperamente, é que eles não precisavam de um super-herói nem de uns trocos... nem eles, nem a mãe deles, nem eu, nem os meus pais... o que nós precisávamos eram tão simplesmente de nós, eventualmente com menos trocos e heroicidades, mas verdadeiros e disponíveis.
Hoje esforço-me para ganhar algum dinheiro a fazer o que gosto. Faço algumas coisas de que gosto muito e me dão um prazer imenso, mas que no entanto, quase pago para as fazer, mas principalmente, estou envolvido numa densa vida humana que me abraça inebriantemente como se fosse um polvo. Parece-me permanentemente, que deveria dar mais atenção e de mim aos outros, sinto que devia sempre ir mais além, devia dar sempre mais um pouquinho, poderia dar, tenho de dar. Realmente não sei se algum dia me sentirei satisfeito...possivelmente não!...

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Perfume inebriante...

...E então dizia um cronista da época acerca dos romanos a quando das lutas com os povos do norte...

"...Os romanos, não gostavam dos Normandos porque eram feios e não cheiravam nada bem!... Não é que o cheiro a gordura de Yak podre fosse mau... mas já estavam habituados ao perfume do azeite mediterrâneo rançoso!..."

© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Afinal passaram vinte minutos...


Deveriam ser umas sete e meia da manhã e acho, que já estavam aí uns...montes de calor ainda tão cedo. Eu e meu filho, já estávamos dentro do carro, prontinhos para dar início à viagem para os penhascos. Como habitual, esperávamos que a mãe e a irmã se viessem juntar a nós para partirmos. Depois de enormes minutos lá chegam elas e debaixo dos protestos do "machedo" lá partimos.

Depois de uns bons quilómetros de auto-estrada, saímos, e entramos na estrada nacional que serpenteia por vales e montanhas pelas verdes serranias. Alguns quilómetros mais à frente vejo, na beira da estrada, uma moto mal estacionada, alguém sentado no chão de costas para a barreira da berma e mais duas pessoas de pé, num certo frenesim.
Parei, saí do carro e fui tentar aperceber-me do que se passava. Enquanto me dirigia para junto das pessoas, fui-me tentando convencer de que me agradava a ideia de o indivíduo apenas estar mal disposto pelo calor ou alguma hipotensão ou hipoglicémia, enfim, nada que viesse a exigir de mim "mexer" mais a sério na "coisa", mesmo porque já há alguns anos que nada faço na matéria e tenho noção da "ferrugem" nas capacidades e na velocidade de discernimento, a rapidez de acção e o olho astuto...já tiveram melhores dias.
Ao chegar junto das pessoas vejo o homem que estava sentado no chão, um indivíduo que aparenta uns quarenta anos, de estrutura larga e um pouco obeso, numa ortopneia bastante acentuada e pergunto o que se passa. À minha pergunta as duas pessoas dizem que também acabaram de chegar e que nada sabem do assunto. Eu coloco-me de joelhos e interpelo o indivíduo que me responde com muita dificuldade que ia a andar na sua mota quando lhe entrou uma abelha para a boca. Apercebi-me que o insecto terá sido inspirado ou ingerido visto que ele diz que a não cuspido.
Perguntei-me como tal teria acontecido e reparo para o capacete no chão, parecido com aqueles capacetes da primeira guerra mundial, de ferro com umas abas de volta. Lembro-me de que uma vez, numa situação parecida, eu ir com a camisa um pouco mais desabotoada e me ter entrado uma vespa que prontamente me ferrou na barriga junto do umbigo.
Volto a pergunta-me a mim mesmo como me fui meter naquela. Se por um lado a falta de treino e de material, no meio do nada, me levam a desejar nunca ter por ali passado e correr o risco da "coisa ficar feia", por outro lado imagino o homem ali, assentado no chão e duas pessoas de pé a observa-lo a asfixiar até à morte...

"Chamem uma ambulância rapidamente!..." - disse eu num tom quase imperativo. Sentia um misto de vergonha e de força...

Se tivesse aqui o meu antigo Golf, (carro com que trabalhava no INEM, no século passado), carregado de material até às pestanas...um nasofibroscópio... Precisava de lhe observar a cavidade bocal até lá abaixo à laringe, precisava de saber se, tal como suspeitava, ele estaria com um edema na glote...
O homem estava em franco sofrimento. A dispneia provoca-lhe a sensação de morte eminente...tenho de fazer alguma coisa...ponho-lhe uma pedra debaixo de uma das mãos e o capacete debaixo da outra para que com mais espaço de flexão para os braços e músculos abdominais ele consiga respirar alguma coisa. Com uma cana e uma lanterna de bolso consigo improvisar um laringoscópio. Obviamente não consigo confirmar se a glote inchada, devido à ferroada da abelha, lhe está a obstruir as vias aéreas. Penso no que posso fazer e vejo que não tenho nem um laringoscópio nem um tubo endotraqueal para lhe tentar meter...adrenalina ou epinefrina para lhe administrar...ainda menos!... Oh!...se pelo menos eu aqui tivesse o Dr. Helder!... Aquele homem era imparável! Aprendi muito com ele. Tinha uma mão e um treino extraordinário. Costumávamos partilhar o "olho" astuto. A esta altura já ele tinha administrado a epinefrina e já o homem ia a caminho do hospital...

Sou assaltado por um arrepio gelado no dorso!...

O homem vai-me morrer aqui nas mãos asfixiado!... Tenho uma última hipótese! Mas eu não sou médico, muito menos cirurgião, já não faço nada disto há já muito e mesmo quando fazia, nunca fiz uma traqueostomia de emergência! Não estou no bloco, quem me dera, não tenho anestesista, nem sequer um bisturi...
Pergunto se alguém tem alguma coisa gelada que me traga. Com latas de Coca-Cola e cerveja que um tinha e a água bastante fria que corria numa bica, ali perto da estrada, molhei e arrefeci uma toalha tanto quanto possível e coloquei-lhe na garganta para conseguir algum efeito vasoconstritor no sentido de diminuir o edema e reduzir a hemorragia no caso de eventualmente avançar para a loucura de abrir um acesso na traqueia. Com a ajuda dos outros, posiciono-lhe a cabeça, permitindo algum alongamento com o objectivo de facilitar a passagem de algum ar. Enquanto isso, vou-lhe contando os anéis cartilaginosos da traqueia e imaginando os dois que iria cortar para o acesso perto do esterno. Penso com o que é que lhe ia fazer a incisão. Penso se o alívio da abundante golfada de ar que iria inspirar após a abertura do acesso lhe compensaria a dor e o trauma de não estar anestesiado. Mas, ali, ou era um vivo com dores ou era um morto à espera de uma anestesia...
Nunca fiz nada disto, mas se o não fizer o gajo morre! Entre uma e outra...vai ter de ser esta a primeira vez!...Peço para me trazerem umas luvas de látex que tenho na mala do carro para quando tenho de mexer nos pneus, o frasco do álcool dos primeiros socorros, primeiros socorros...valha-me Deus...aquilo não socorre nada nem dá para fazer nada...mas enfim, o canivete suíço que o meu primo me deu e que, geralmente, costumo manter afiado e levamo-lo para um local mais fresco e mais confortável.

"Que vai fazer?" - Perguntaram-me os outros - "...está maluco? Sabe lá o que vai fazer? Mas afinal quem é você?"

Realmente reparei que nada tinha dito em relação a isso... Não quis entrar em pormenores... Quem sou eu? Sei lá eu bem quem sou eu! Só sei que tenho medo de matar um homem que morre se eu não fizer nada!... Ouço as sirenes ao longe, o homem também se apercebe do mesmo, eu digo-lhe que agora estamos melhor e que ele vai-se safar. A ambulância chega. Digo o que se passa e logo se procedeu com ventilação mecânica. Pedi um laringoscópio de emergência e com receio de já não saber fazer, coloquei o tubo endotraqueal. O homem inspira uma quantidade extraordinária de ar de uma só vez. Olha para mim, olhos nos olhos, e eu digo-lhe - "já te safaste!". Foram-se embora para o hospital...
Voltei ao carro. Sento-me exausto. Penso que, com a idade perdi muito treino, mas talvez tenha adquirido o medo para ser muito mais cauteloso e esperar pelos passos adequados. Noutros tempos, com mais treino e material, a coisa teria, certamente, sido diferente, mesmo porque havia o Dr. Helder que fazia e eu ajudava... Desta vez, sem treino e sem rede, caí no palco com um papel para o qual nunca tinha estado preparado nem já mais tinha ensaiado.

A viagem sofreu um atraso de vinte minutos. Reparo que me pareceu ter passado horas para a ambulância chegar, mas que afinal...afinal passaram vinte minutos...


© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

E um dia... Um dia veio a testosterona!...


Estava eu com o pupilo de pé à beira do mar a olhar as ondas, lado a lado, numa amena cavaqueira quando...
...
"...pai, isto este ano está demais!"
"Pois está! O mar está muito mais parado que os outros anos!"
...
"Não pai!... As mulheres!... Este ano isto está cravado delas e... giras... e... boas...!"
...
"...Ahah!... Epá!... Yap!...; elas já andam aí há muito tempo!... Tu é que só as estás a ver agora!..."
...
"...Ahah!... Epá!... Yap!......"
...


© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Hoje, principalmente, a "Conversa da treta" continua!...

Muito obrigado António...
Até sempre!...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Só posso cheirar muito mal!...

Ontem, enquanto carregava uma considerável quantidade de caixas nas mãos, ia a entrar para um dos edifícios em pleno "Marquês do Pombal", no centro da cidade de Lisboa, quando o sapatinho do menino escorrega na pedra polida do degrau da entrada, e eis que, o menino dá três piruetas e dois mortais, estatelando-se no meio da bela calçada lusitana, rodeado de trinta e seis pequenas caixas de cartão.
Se é certo que efectivamente de modo algum me magoei, também é certo que o máximo que obtive dos vinte ou trinta compatriotas que assistiram ao número de circo, foi umas risadas e uns chutes numas caixas que ficaram a estorvar o esvoaçante andar de uma bela menina. Ninguém, mas rigorosamente ninguém, esboçou o menor gesto de ajuda a levantar-me ou a apanhar as ditas caixas!...
Isto só pode querer dizer uma coisa... Só posso cheirar muito mal!...

© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Para mi niña Lita del Carmo



Já a feiticeira Lua espreitava quando de ventre de mãe "jorraste". Senti-te a chegada no clamor da vitória...

Qual gata independente dengosa exibes teus olhos negros de menina
Águas fartas selvagens caídas, teus negros cabelos, fios de vida e de força

Mi niña...mi niña...

Rio de esperança, irreverência pura
Firmamento de estrela das noites de Sol

Em ti trina cordas de aço às mãos de...um alegre cigano
Não deixes que de teus olhos saia a alegria

Rosto pleno, toque veludo, morena cor
Não deixes que de teu corpo saia a primavera

Não deixes que jamais me não lembre o que sentia

Mi niña...mi niña mia...
Mi niña...mi vida...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Voavam vindos...do sul...

Voavam vindos...do sul...ou talvez mesmo de norte ou do leste...
Voavam; companheiros, guerreiros e amantes...
Voavam por entre brisas que os acariciavam como mãos "voludas" de mãe mulher... Terna fúria de ventre quente...de mãe querida e desejosa!
Voavam, voavam...voavam...voavam...
Tão perto, ao longe; terra imensa doçura plena no coração uma estrela fez brilhar...
...juntos num só encarnaram num novo voar!
Rebelde e audaz de rompantes enérgicos que em picados voos aterrorizava os pedaços de terra saltados no encalço de tal fúria de vida. A vida estava-lhe nos caninos como faca exibida e rosa rubra afrontada...

...Tinham voado até ali... Agora com urgência viam as habilidades exuberantes e perigosas daquele raio de vida... Raio bento de desconhecimento da dor das veredas cravadas no dorso e na alma...

...Mas isso agora nada importa! O raio de vida, por eles encarnado num novo voar...voava, voava, voava...voava...

© Mário Rodrigues - 2010

domingo, 18 de julho de 2010

Resposta de Cybe a Aviãozinho de papel...

Este, é um texto publicado pelo meu amigo CybeRider em "O primeiro voo do albatroz", em resposta ao meu anterior. A importância e o valor humano e sentimental dele, exige que eu lhe preste honra, publicando-o aqui no Recanto. Entendo que estes dois textos, o meu e posteriormente o dele, em conjunto formam uma grande interrogação à existência do homem.


"Ao Mário Rodrigues que encontrou um aviãozinho de papel


Um dia peguei nele e deixei-o sozinho no meio do mundo.


Já não havia a minha força a embalá-lo e a subtraí-lo à chuva. Voltei para as coisas, simples, pequenas e fugazes, como penugem, a recordar-me que todo o significado da minha vida estava ali para trás, a cada metro de cada quilómetro que ia somando a noite à distância, se pudesse ter olhado para trás já não o veria, nem conseguiria prosseguir. O caminho árduo que conduzia ao meu destino embaciava-se agora com frequência. Finalmente parei, a uma distância que, por segurança, já tornava difícil o retorno. Parei, esfrangalhado.


Foi assim que ele abriu as asas e voou, pela primeira vez. Foi dos dias mais tristes da minha vida, e no entanto a felicidade teria mais lógica, a irracionalidade é por definição inexplicável. Ainda sinto que fui eu quem o empurrou do penhasco, embora todos me digam que não, que aquele acto de pura loucura foi o que havia a fazer, que isso era o bem, a norma, afinal . As asas, essas, eram só dele. A fé no seu voo terá sido minha, minha... Que nem sou um homem de fé. Onde arranjei a coragem? E se ele, a meus olhos implume, não tivesse conseguido? Que tremenda imprudência! A única, a fundamental. Todas as outras são brincadeiras a comparar com aquela cedência que cumpri sem reflectir. Se reflectisse ele não voaria, talvez nunca, e um dia já não saberia voar sozinho.


Mudou-se o centro do universo, que antes via agarrado ao meu umbigo, mas agora só posso imaginar. As primaveras deixaram de ser só uma vez por ano, mas os invernos também. No entanto recordo que também eu abri um dia as minhas asas frágeis e me atirei desse penhasco, esfrangalhando, como compreendo agora, tudo e todos.


É a sina de quem não conseguiu transformar o mundo num lugar seu, de quem se limitou a construir um pequeno quadrado inóspito e dependente. Culpei-me, naquela paragem forçada, por cada passo mais imprudente e por cada decisão mais conformista e inerte. Se, se, se... Tantos ses que me davam a possibilidade daquela partida precoce poder ter sido adiada, e todos a colocarem-me no cerne daquela consequência. Nenhum sofrimento por antecipação que me tenha ocorrido me aliviou sequer um pouco do peso que, embora não se compreenda, acaba por se carregar, porque deriva de termos falhado na conquista suficiente do reino onde a nossa lei seria a medida da protecção que queremos para o nosso clã, que entregamos assim aos verdadeiros senhores do universo, e às suas questionáveis leis, que nos submetem também a nós.


Compreendo que é essa vassalagem que me consome, como nem consumiu Abraão ao entregar o seu filho a um deus. É uma troca injusta porque nada tenho a pedir que me sirva, nem protecção divina que houvesse, porque toda a que quero é só para ele, nada justifica tamanho desequilíbrio. Naquele momento entreguei ao incerto o somatório de tudo o que fui e a continuidade que justificará, para o bem ou para o mal, o pó em que me tornarei.


Passa um ano e outro, cada um não me apazigua a saudade que sinto de cada vez que ele inicia um novo percurso, ainda no momento da partida; nem o temor do momento em que o vejo tentar cada nova aterragem por que anseio, ainda bambaleante, depois de cada longa permanência perscrutando o céu infinito, que apenas adivinho.


Voltando ao ponto de partida, é a penugem que já não consigo olhar. Tudo permanece como que a aguardar que o tempo se inverta e que ele volte para brincar com as quinquilharias desvalidas que para mim são autênticos tesouros, fechados naquela arca, que chegou a ser um quarto, agora mero poleiro, de onde desejo, com frequência, perder a chave de vez.


A esperança que resta é de que a sua liberdade, que muito me apraz, lhe dê, a ele ou aos descendentes, a possibilidade de zelar melhor pelos seus e pelo seu universo, para que não tenha de abandonar um dia no meio do mundo alguém que seja parte integrante de si. Mas sei que peço o inexequível.


Sendo essa provação absoluta e incontornável, sei que no dia da dele, esteja eu morto ou vivo, também assim me realizo.


© CybeRider - 2010"

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Uma grande festa, nas terras destes lados...


Nas terras destes lados, foi organizado um festim com o intuito de me imolarem.
No entanto, esqueceram que o candidato a carcaça teria de estar presente.
Toda esta cerimónia foi preparada há já alguns tempos, mesmo antes de eu nascer. Incauto transeunte, fui rematado por poucos cobres e nem uma vénia me fizeram.
Não me ofereceram o cachimbo da paz, ainda que cianeto houvesse na fornalha.
Com escárnio me foram entregando as charretes para que gentilmente as arrumasse.
Em todas as nomeações fiquei a ver de fora, das mesas nem as migalhas me tocaram e só sou escutado no fio da faca.
Escroques mostrem os vossos rostos, digam quem são os responsáveis por nós vivermos assim!
Déspotas, escancarem as vossas tramas expliquem as vossas manhas e os que com elas beneficiam!
Nas terras destes lados, dancei na mesa nu e na liga não obtive notas.
A mim não me subornaram, nem em troca de traição no terreiro fui aclamado.
Pelo preço do pão dos meus filhos querem que como um cão marioneta, abane a cabeça que sim.
Quem são vocês, os filhos de mães gentis criadas, que das entranhas tais merdas pariram.
Pois então podem-se preparar para no festim a carniça disputarem com olhos que nunca viram.
Não esqueçam no entanto, que muito antes do meu pranto, já os vossos companheiros com os olhos cravados nos vossos lombos, o vosso couro pedirão.
Escroques mostrem os vossos rostos, digam quem são os responsáveis por nós vivermos assim!
Déspotas, escancarem as vossas tramas expliquem as vossas manhas e os que com elas beneficiam!

© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Aviãozinho de papel...


Apesar de muitas vezes o procurar no meio dos outros discos para ouvir, não era o caso de hoje. A Jukebox estava em modo aleatório e a música anterior tinha sido Led Zeppelin. Estava a cantar Antony and the Johnsons e eu estava a arrumar um monte de papeis que pediam organização há já alguns tempos... No meio da papelada, apareceu-me um aviãozinho de papel. Uma folha de caderno pintada com lápis de cera às riscas e quadrados de muitas cores... Peguei nele e abri-lhe as asas, no interior tem escrito...
"FELIZ DIA DO PAI"
Suou-me como se fosse um grito...
...Sem qualquer controle saltam-me lágrimas dos olhos! Choro quase compulsivamente! Penso que...parece que sou parvo!... Tenho os meus filhos na sala do lado, autores desse mesmo avião, saudáveis e felizes e choro porquê?... Depressa descubro que choro só porque gosto deles e sei que um dia terei saudades deles, por qualquer razão normal das nossas existências. Nesse dia, decerto que lamentaria não ter guardado este aviãozinho de papel feito de uma velha folha de caderno e pintada a lápis de cera... Assalta-me a mente um pensamento! Os meus pais, saudáveis e felizes que estão, terão com eles algum aviãozinho de papel que um dia eu tenha feito? Porque saudades eu sei que eles têm, seja por horas ou dias como eu, mas...
...está a cantar a Lina Avellaneda; um belo tango...como a vida...

© Mário Rodrigues - 2010

sábado, 10 de julho de 2010

Nas viagens desconhecidas...


Nas viagens desconhecidas, pergunto-me como será por lá enquanto estou cá. Ansiaria eu que um abraço apertado me esperasse à chegada. Ir sem saber para onde, tem tanto de tentador como de...fio de lâmina fria em dorso hirto. A possibilidade de me ser permitido arrepender e voltar para trás poder-me-ia acalmar. Todos os dias no cais de um porto de mares conturbados, o ciclo ininterrupto da vida não pára com pessoas a chegar para ficar e outras a partir para não mais voltar. Alguns embarcam mas queriam ficar, outros queriam ir mas cá terão de estar. Alguns acabados de chegar, com medo querem se ir, são recebidos por outros a sorrir. Alguns estão só a observar, outros limitam-se a, no cais em círculos, caminhar. Há mesmo alguns que ninguém os recebe e ficam a chorar. Vejo neste cais a azáfama de chegar e partir como pontas de uma mesma viagem que muitas chegadas tende, como tantas partidas terá. A barcaça que está a chegar é a mesma que vejo já no horizonte de partida. O momento em que a prancha a liga ao cais alia as chegadas às partidas, os risos aos choros e as euforias às despedidas. Eu sou só mais um destes viajantes, sem saber o ponto em que me encontro. Quero ter acabado de chegar estando pronto para a partida...

© Mário Rodrigues - 2010

A dama de... veio ao BO...


Esta madrugada a cena repete-se... Não! Não é a segunda, nem terceira, nem...
Volto a dar um pontapé no puzzle que se vai montando muito lentamente e por em causa coisas que nestas alturas doem de um modo profundo e prolongado...
No entanto desta...algo foi diferente!...

Tudo corria na aparente normalidade rotineira, bom clima, bom texto, escrita porreira... Ouvia-se “Ana Moura”…… 45 minutos. Paragem. Rea.30 minutos. Paragem. Rea, e,e,e…….Instala-se o caos sincronizado e normal para o caso, pressinto uma presença!... Já vi este filme!... Sinto-me estranho e procuro a "dama de negro flutuando…" os movimentos tornam-se perpétuos, e estranhamente retardados. Vejo um rosto, entubado, esboçar uma impossível expressão sorridente!?...

Sem qualquer pudor arranca-nos das mãos o seu tributo…

Mas não foi a "dama de negro"!... Fosse o que fosse era branco! Muito branco! Equacionei a possibilidade de se estar a ver alguém a chegar! Alguém de quem se tinha muitas saudades e se estava muito feliz por voltar a ver!...
Hoje não sei o que lhe chamar…depois; a cruel trova do…”hora do óbito: quatro horas e dezoito minutos do dia………..” Hoje vim para casa e não fiquei a andar pela cidade vazia com as janelas abertas…outra vez.

Estes anos...

© Mário Rodrigues - 2010

A outra dama: http://recantodossuricates.blogspot.com/2009/07/dama-desceu-ao-bloco.html

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mas... O que eu gosto mesmo é...


Mas... O que eu gosto mesmo é de Dodó!...

Principalmente se poder contar com a companhia do Anthony Hopkins e assentados debaixo de uma alfarrobeira conversarmos de temas que nos são queridos como a constituição fecal dos ornitorrincos dois meses após o cio... Já sei que Santo Anselmo vai argumentar que duvida que esses bichos tenham tal coisa... Ainda se fosse um desejo inexplicável e incontrolável que os impulsionasse a perpetuar a espécie!...

Epá!... Está bem!...

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Os que da escrita se enamorarem...


Tal não poderia continuar! Tigre e Eufrates eram testemunhas de que algo teria de mudar... A primordial idade Suméria exigia que por terras da Mesopotâmia uma nova aurora aparecesse...

Enlil, senhor dos ares, ainda sem esposa, um dia vislumbra a beleza sedutora de um corpo de mulher. A deusa Sud.
Os seus longos cabelos e formas belas logo despertaram em Enlil o desejo de a desposar. Ao pedido de que o seguisse, Sud responde prontamente que não.
Enlil compreende então que Sud não prescindiria de um pedido público e formal de casamento, em que todos os Suméris fossem testemunha.
Nusko, obediente e dedicado pajem de Enlil, sai em busca da mãe da jovem deusa com o objectivo de lhe transmitir o desejo de seu amo.

- Pois sabei, senhora, que meu amo o grande deus Enlil, pretende desposar sua filha a deusa Sud. Se assim acontecer, ela viverá com ele no palácio, sendo que a ela pertencerá o poder sobre o destino dos homens e distribuirá os poderes pelos deuses. Terá o nome de Ninlil e o amor por ela será entregue.

Tendo a mãe de Sud consentido o casamento, Enlil, felicíssimo, envia centenas de presentes à sua noiva Sud.
Elefantes, ursos, e cervos, vacas, ovelhas e macacos, gazelas, carneiros e auroques, atravessam a cidade num desfile interminável até às mão de Sud, que terna via chegar frutas, mel e queijos bem como ouro, prata e pedras preciosas...
Consumado o casamento e a noite de núpcias passada, Enlil, encantado resolve mais e novos poder à sua esposa dar...

- No dia de hoje começará nova era. Tu, Ninlil, minha esposa passarás a ser a deusa do amor e dos nascimentos, observarás o trabalho de parteiras, cuidarás que nos campos os grãos germinem e de igual modo iluminarás os que da escrita se enamorarem...


© Mário Rodrigues - 2010

Centelhas cintilantes de luz gelada...


Gotas, gotas, gotas; muitas gotas de cristal...

Ontem, sem esforço e pela acção da brisa, acordarei... Acordarei de um sono que nem pesadelos nem sonhos terá. Acordarei suavemente, precedido de uma expiração demorada que culminaria com a inspiração de centelhas de luz branca...no acto de em nada actuar.
Ontem, quando eu despertar chegar-me-ei à beira da pétala única da flor do jarro e de lá, com os olhos fechados, veria o ponto infinito de onde "desconvergem" as centelhas cintilantes de luz gelada. Elas dirigir-se-iam a mim em movimentos cónicos e de trajectória indefinida. Inspiraria, daí, dessa beira, nada porque nada haveria à partida...

Amanhã, quando terminou a noite que não começou, apesar do aparecimento do segundo sol que permitiu o alinhamento aleatório, fruto das regras inaplicáveis, dos astros, eu que era muitas pessoas teria tido a oportunidade de em pequenos actos microcósmicos, prever que um dia assim será!...
As centelhas virão até nós e perguntar-nos-ão se o vácuo das nossas vidas teve alguma cor...
...perguntar-nos-iam se está na hora de acordarmos!...

© Mário Rodrigues - 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

Aviso à navegação...


Este blog é um local que metamorfoseia linhas transversais com outras paralelas das minhas vidas... Assim, sinto necessidade e dever, de dar algumas satisfações às pessoas que me vão lendo neste recanto. As já centenas de post's que aqui vão sendo publicados são geralmente fruto de reflexões minhas, quando assim não é, estão identificados com os respectivos autores. Por hábito e não só, muitos dos meus textos são escritos, estando eu a "tentar" simular uma reflexão de outrem acerca do assunto. Assim, muitas vezes, afirmo, defendo e declaro coisas em textos, que na realidade estão muito longe das minhas opiniões e convicções... Se isso em si já não constituísse um suficiente grau de ambiguidade, também por hábito e não só, o sarcasmo e a ironia proliferam com muita abundância... Chamo a atenção para as etiquetas que em geral dão alguma introdução aos textos. Se objectivo há nos meus textos, ele é sempre interpelar consciências e interrogar, nunca ofender ou desrespeitar quem quer que seja.

Muito obrigado. Mário Rodrigues

sábado, 3 de julho de 2010

O problema é que...


O problema é que tu sorris-me e eu gosto!

Realmente, barbeei-me antes do duche, perfumei-me e vesti uma roupita "janota", preparei-me e saí quando o cão me veio "cumprimentar", e sujou-me todo e deixou-me cheio de pelo e "smell"!
Realmente, encravei-me no meio do trânsito e cheguei atrasado!
Realmente, perdi o "post-it" onde escrevi o local do encontro!
Realmente, quando cheguei ao carro tinha dois pneus furados!
Realmente, está um gelo e parece que as unhas me vão cair!
Realmente, a fazer a barba cortei-me, já sujei duas camisas e ainda está a sangrar!
Realmente, não "engoli o sapo" e por um murro na mesa perdi um bom negócio!
...
O problema é que tu sorris-me e eu gosto!
Vamos ser felizes e ter um pequeno rebanho!... Eu aposto!

Realmente, está montes de gente desempregada!
Realmente, o 25 de Abril podia ter sido melhor!
Realmente, as guerras são sempre uma enorme estupidez!
Realmente, o dez de Junho e o cinco de Outubro são relativos!
Realmente, no autocarro roubaram-me a carteira, mas que hei-de eu fazer!
Realmente, desde o dia que nascemos que sabemos que vamos morrer!
Realmente, já nem ligo às calúnias, promessas e pisadelas!
...
O problema é que tu sorris-me e eu gosto!
Vamos ser felizes e ter um belo rebanho!... Eu aposto!

Realmente, armo-me em mau e faço birra, ainda que isso seja parvo!
Realmente, eu sei que hoje vens tarde, mas já estou a olhar para a porta!
Realmente, acho que aquela árvore está no lugar errado porque faz sombra à minha toalha!
Realmente, por vezes acho que tudo o que é chatice cai-me em cima!
Realmente, estas coisas podiam-me chatear, aborrecer e fazer infeliz!
Realmente, não ignoro estas coisas todas que me esbarram no nariz!
...
O problema é que tu sorris-me e eu gosto!
Vamos ser felizes e ter um enorme rebanho!... Eu aposto!


© Mário Rodrigues - 2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Enfim, este é o Deus que me convém!...


Isso?... Isso não é nada!... Aliás, tu nem sabes o que é!
Jamais serás iluminado pela luz plena, inebriante e penetrante que enche inteiramente a tua existência redundante. A do meu Deus!...

Havia vários, no entanto fiquei com este, porque este é o que mais me convêm!

...Este:

Mata os ímpios
Destrói os infames
Castiga os que me incomodam
Devolve-me as riquezas
Abunda-me com deleites
Castiga-me no rancor do remorso
Apascenta a minha ganância
Justifica os meus crimes
Fundamenta a minha crueldade
Justifica a minha estupidez
Castra-me a vida
Alegra-se na minha conspiração
Auxilia na ambição e mais, muito mais...

Se sofro é ele
Se tenho fome é ele
Se meu filho morre é ele
Se corro é ele
Se durmo é ele
Se vilmente me iludo é ele, mas não só...

Quando mato é por ele
Quando usurpo é por ele
Quando castro é por ele
Quando privo é por ele
Quando minto é por ele
Quando desrespeito é por ele
Quando intransijo é por ele
Quando a verdade altero é por ele
Quando da ingenuidade me aproveito é por ele
Quando da boa-fé abuso é por ele...é assim porque está escrito,

Nas palavras que escrevi
Nas verdades que encobri
Nas mentiras que defendi
Nas realidades que alterei
Nos monstros que pari
Nas jugulares que cortei
Nos corações que feri
Nos inocentes que queimei
Nos movimentos que bani
Nos obedientes que mal tratei
Nas virgens que violei
Nos homens que matei...

...Enfim, este é o Deus que me convém!...

© Mário Rodrigues - 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Anúncio: "Precisa de pena"


- Deixem-me passar! Quero entrar! Vá lá, cheguem-se para o lado! Vão falar para mim e eu tenho de ouvir!...

Alguém, no alto da tribuna, tosse e prepara a garganta para falar. Beberica um pouco de água e alinha o casaco. Segura algumas folhas de papel que nada tinham escrito e bate com elas de topo...

- Atenção!...
...
- Atenção! Venho hoje aqui para solicitar que tenhamos pena! Pena de nós próprios e também, não esquecer, de nós mesmos!
...
- Nós, deploráveis desprezados do cosmos, fruto dos grãos de trigo que caíram no meio dos áridos seixos, germinando em forma de fracasso, que muito lutamos para nada almejar, a menos que de mesquinhas estupidezes se trate ou de uma ou outra inveja tacanha. Nós que não mudamos nem quando morremos, não nos desperdiçámos com amores porque os felizes contra nós conspiram, e esvoaçamos como melgas e borboletas da traça, em redor de uma lâmpada à noite... De nós ninguém se lembra!... Teremos todos de, em lamuriosos brados, afirmar que somos coitados e pedir que tenham pena de nós!...

A plateia, completamente envolvida por aquelas palavras sábias, sem vacilar um instante que seja, grita em uníssono:

TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
...
- Atenção!...
...
- Vêm-nos dizer para nos deixarmos de ser ignóbeis e traiçoeiros! Pedem-nos para abandonarmos a cobardia e a mediocridade! Dizem!... Atrevem-se a dizer que deveríamos procurar ter magnificência, bravura e audácia! Que deveríamos substituir as "naftalinas" por brisas do mar!... Do mar!... Vejam só! De em vez de nos lamentar deveríamos sonhar e trabalhar!... A loucura é tal, que nos pedem para lutarmos por um mundo melhor!... Ahahahaha!!!...

TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
TENHAM PENA DE NÓS!...
...

© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sabeis o que vós quereis da orgia e do sexo?


Dizei-me!... Dizei-me meus filhos...

Pensais que não sois eternos?

Sabeis o que vós quereis da vossa existência?
Sabeis o que vós quereis de vós?
Sabeis o que vós quereis do universo?
Sabeis o que vós quereis da orgia e do sexo?
Sabeis o que vós quereis da gula?
Sabeis o que vós quereis da ambição?
Sabeis o que vós quereis dos narcóticos?
Sabeis o que vós quereis da volúpia e da traição?

Pensais que não sois eternos?

Pois então, com todo o conhecimento e sabedoria, ensinarei e mostrar-vos-ei!

Mostrar-vos-ei como usar a existência!
Mostrar-vos-ei como usar a subjugação!
Mostrar-vos-ei como usar o universo!
Mostrar-vos-ei como usar a orgia o horror e a maldição!
Mostrar-vos-ei como usar a decadência!
Mostrar-vos-ei como usar a exploração!
Mostrar-vos-ei como usar a volúpia!
Mostrar-vos-ei como usar a dependência e a tentação!

Segui-me como uma formiga.
Segui-me como um cordeiro.
Segui-me sem mostrar fadiga.
Segui-me como um escuteiro.

Não sabeis que sois eternos?
Vigiai a cultura do ócio!
Não tenteis compreender!
Apenas segui-me que...
...
...o covil do inferno está próximo!...


© Mário Rodrigues - 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

Viens ici mon petit four...



...
Anda cá!...
Anda!... Chega-te aqui!...
Põe no mesmo saco a sensatez e a loucura...
Sai para a rua e sorri aos outros porque sim...
Anda cá e expulsa as minhas trevas...
Desarruma-me a biblioteca...
E arranca-me todas as ervas...
Troca-me os caminhos...
Faz que eu já não saiba, qual a direcção da solidão...
Anda cá!...
Anda!... Chega-te aqui!...
Acomoda-te no meu caos...
Aposta com os outros que vens ser feliz...
Despenteia-me a compostura...
Põe-me envergonhado por um triz...
Entra-me na alma com os pés descalços e areia...
Convence-me que sou um sortudo...
E tu és uma sereia...

Anda cá!...
Anda!... Chega-te aqui!...
...

© Mário Rodrigues - 2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O meu amigo Tintas... O raposo...


No outro dia, ia eu no vinte cinco, o eléctrico para os Prazeres, quando encontrei o Tintas o raposo. Já havia muito que nos não encontrávamos!...

- Então Tintas? Como estás? A Micas raposa?
- Olá Mário! Vai-se andando!
- O resto da raposada? Pergunto eu.

Enquanto nos sentávamos para que a viagem fosse um pouco mais confortável, junto a uma das janelas, passávamos ali ao "Corpo Santo", e íamos seguindo a nossa conversa...

- Olha Mário...estão bem! Eu é que tenho andado um pouco apreensivo...
- Então? Meu velho amigo canídeo!
- Eu e a minha Micas andamos um pouco "perdidos"!... Sabes os meus raposos já têm as suas idades e já seguiram à vida deles. O Mais novo arranjou uma raposita muito jeitosa e também está a organizar a vida dele... Agora ando mais a minha Micas a aprender a viver um com o outro... Os dois... Sozinhos...

Íamos passando ali pela Rua de São Paulo, na Bica, e o meu amigo Tintas fica a olhar pela janela pensativo...

- Que diabo Tintas! Estás com a Micas há tantos anos e tens de aprender a viver com ela? Agora?
- Mário! Quando me casei com a Micas, também eu saí de casa de meus pais. Agora vou-me apercebendo de que os meus pais, muitas vezes andavam à espreita de um pouco de vida, acorrendo e aturando-nos a nós e aos meus pequenos. Eles bem sabiam que eu e os meus irmãos andávamos furtivos em longas caçadas, mesmo porque essa também tinha sido a sua história. Então sempre que podiam, ou arranjavam umas lebres frescas para reunir a raposada, ou na falta de tal, chamavam os meus pequenos e os dos meus irmãos lá para a toca. Aquela balbúrdia dava-lhes cabo da cabeça, dos nervos e também de algumas carcaças de coelho, mas...também lhes devolvia uma agitação própria de grandes correrias... Por vezes, eu e a minha Micas não acedíamos com facilidade, pois sabíamos que os pequenos todos juntos são o "diabo" e que lhes davam com os focinhos nas paredes até partir. Os meus com os primos comiam este mundo e o outro, para além de chantagearem os avós com as maiores diabruras... Então fui reparando que eles, os meus pais, apesar de cansados, desejavam aquela agitação, desarrumação e balbúrdia toda, por razões especiais... Agora vejo o grande e inocente erro dos meus pais!...

A manhã estava um pouco abafada e aquele sol abrasador em "Santos" estava-me a assar os braços! Isto dantes tinha umas persianas...ia eu pensando...

- Ó Tintas! Mas que erro é que os teus pais fizeram?
- Sem qualquer noção disso, nem eu nem a Micas, depois de juntos tínhamos os nossos projectos! Certo?
- Sim! Penso que sim!
- Pois claro que sim! Uma toca em condições, umas peles para os dias frios de inverno, umas pombas e uns coelhos na dispensa, eu construía uns xilofones com os ossos das costelas dos coelhos e tinha uma banda impecável. A Micas, fazia compotas para a feira anual das melhores compotas...bem te recordas que tínhamos sempre mil coisas para fazer e, claro está, namorar...brincávamos um com o outro e fomos tendo dias felizes... Apareceram os pequenos e os dias passaram ainda a ser mais felizes. Só que, com o caminhar dos anos, os projectos da Micas e os meus foram sendo largados, com desculpas de que já não tínhamos tempo, nem paciência, nem idade e que tínhamos a raposada para olhar e criar e mais não sei o quê... Enfim... Reparei nisso, há algum tempo, antes do mais novo se "arranjar"... Ele teve fora uns dias a aprender umas novas maneiras para apanhar os "torcazes". Eu e a Micas dissemos um para o outro:
"Não temos cá o pequeno, vamos gozar umas férias catitas!..."
- Saíste-me cá um raposão!...
- Pois saí!... Fomos a uma toca de rodízio de roedores com frutas, que é um espectáculo...assim que acabamos viemos para a toca!... Começamos a ver um filme de galinhas...a meio, já estávamos fartos e chateados!...e para te ser sincero, começamos a olhar um para o outro e parece que já nem namorar sabíamos... Deixámos de saber o que fazer os dois sozinhos...esquecemos completamente como é que se vive a dois...
- Pois a raposada vai à vida e depois... Esquece-se...
- Ó Mário, mas a raposada nem nunca nos pediu, nem tem a culpa de eu e a minha Micas, termos descuidadamente transformado todos os divertimentos e ideias que tínhamos de coisas que fazíamos e outras que queríamos fazer, numa única coisa, quase obsessiva, que foi cria-los!... Vazamos as nossas cabeças de tudo o que lá tínhamos e enchemo-las exclusivamente com a ninhada e a sua criação... A ninhada depois de criada foi à vida dela e as nossas cabeças... Vácuo! Ficaram vazias! Não fizemos a gestão adequada das nossas prioridades emocionais e intelectuais... Acabámos de criar ninhada e ficámos sem nada para fazer... Pelo menos enquanto desejo e gosto. Um projecto que preencha a vida, o tempo e a vontade de amanhã ter uma serie de coisas para fazer no seguimento de um algo mais que já não seja criar a ninhada...

Já bebia um refresco. Se bem que me está a entrar aqui uma brisa vinda do Jardim da Estrela... Hum! Que fresquinho!...

- Ó Tintas, mas tu queres ser o Manuel de Oliveira...
- Não me importava, mas quero ter netos, quero brincar e divertir-me com eles, sem que eles em si sejam a minha razão de viver. Tenho de ter uma vida composta por várias causas, trabalhos e prazeres, onde a raposada esteja incluída, mas que não seja a minha bolha de ar vital. Por isso te digo, meu amigo, que realmente tenho andado um pouco apreensivo, porque me sinto quase como quando era um jovem raposito e andava aflito a tentar achar uma coisa para ser quando fosse grande...

Cá estamos. Campo de Ourique!... Tenho belas recordações deste bairro desde os tempos da tropa...

- Tintas! Queres beber uma limonada bem fresquinha debaixo daquelas sombras ali do jardim?
- Vamos a ela, caríssimo!...
...
...E sabes uma coisa? A minha Micas, já não é aquela raposa formosa que me flamejava os olhos com o seu passar, tal como eu também não, diga-se em abono da verdade... Mas...aqueles olhos e o seu focinho húmido ainda me deixam... à procura de "lebre"...


© Mário Rodrigues - 2010

A revolta de um Suatrub



Um dia, sem que muita importância tivesse o onde e o como, um Suatrub revoltou-se. Acordou quase revoltado e logo em seguida ficou uniforme e totalmente revoltado!
A revolta devia-se principalmente à fúria de não saber quem era! Não conseguia definir-se e caracterizar-se de uma forma sincera e que em simultâneo também fosse correcta e sua. Que fosse exclusiva, própria!

- Quem sou realmente?

Não conseguia responder sem hesitações e nem mesmo com elas...
Sabia de quem era filho, sabia de quem era pai, sabia de quem era cônjuge, (de uma Acetum belíssima que tinha um feitio péssimo e uma mãe...desprezível), sabia a que nome respondia quando chamado, sabia onde e o que fazia e sabia mais uma série de coisas, mas que na melhor das hipóteses lhe eram periféricas! Gravitavam em redor dele como se fossem electrões em camadas sucessivas em torno do núcleo que era ele. No entanto, nada disso era ele!

A indignação disparou, quando estando a pensar nisto, chega à conclusão que nem nos desejos e nos actos ele se conseguia identificar e rever. Respeitava regras, seguia princípios, enveredava por condutas, apoiava causas, concordava e discordava tendo em conta causas e efeitos terceiros, fazia a vontade, fazendo-a ou contrariando-a, a uma enorme quantidade de Suatrubs e Acetum, e nesta sopa gigantesca de vontades transversais, com benefícios e prejuízos para muitos e outros tantos, ele...não era nada de concreto!

O que serei realmente eu - perguntava-se a si mesmo - se o melhor que consigo é ter uma ideia de um espaço pseudo virtual onde poderá haver hipóteses de eu por ali andar!... Mas isso, por si, não me diz o que sou!... Na realidade, nem onde estou me diz!...

Esperem!... Esperem que estou a ter uma ideia!...

Aquilo que mais sinto ser é...zinco, cálcio, sódio, hidrogénio, estrôncio, lítio, ródio, oxigénio, bromo...

Finalmente!... Sinto-me um pouco mais calmo! Estou a começar a vislumbrar quem sou!...

RAIOS!!!

Tudo o que por aqui há é o mesmo que eu!!!

Se não sou nada em particular, nem mesmo o que penso, porque o que penso não sou eu mas apenas pensamentos!...
...
Só posso ser, na realidade, aquilo que não sou!


© Mário Rodrigues - 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cardhu...bagaço...álcool etílico...perfumes... (reedição)



Hoje venho aqui reeditar um post já passado, pela única razão de que as coisas melhoraram e um desejo muito profundo de alguém, hoje tornou-se realidade...

Há trabalhos que valem muito, mas mesmo muito os sofrimentos com que nos beijam... Obrigado...

...
"Trinta e seis. Em Lourenço Marques!"
"Sim. Foi uma infância maravilhosa...tinha muitos amigos...e animais...a casa era enorme e tínhamos vários empregados...tínhamos uma divisão muito grande onde nos juntávamos todos à noite, onde havia cabeças de animais que o meu pai caçara...e um aquário...um aquário enorme onde tínhamos Tilápias e Muçambas...lindo..."
"1976. O meu pai veio mais tarde...mas veio...houve quem nunca chegasse..."
"Cedo, muito cedo. Pouco tempo depois de chegar. Os trabalhos piores eram para os "retornados". Um dia, um GNR foi lá a casa levar o recado; tinha-se soltado uma viga e que...talvez no dia seguinte pudéssemos levantar o corpo...no Chile, sim na praça do Chile"
"Não, não parei. Depois fiz mestrado e duas pós-graduações, mas..."
"Bastante bem. Escolhia-os. Nunca ia com homens...menos correctos e desalinhados. Tinham de ter, principalmente, capacidade financeira...percorri uma boa parte da Europa e estive nos melhores hotéis..."
"Um dia bateu-me à porta...outra vez! Iria ser diferente...ia deixar a mulher...mas...antes disso...o teste de gravidez deu positivo e ele...filho da puta...tinha a família dele! Disse-me! Somos sempre muito boas mas já mais se casariam connosco...Vermes!"
"Lindo, claro. Como todas as mães acham os seus bebés..."
"Não! Não nos faltava nada. Aturei clientes que...tinham dinheiro e viajavam muito em negócios e reuniões. Precisavam de uma companhia vistosa e culta para exibir aos outros palhaços nos jantares...indivíduos sexualmente desequilibrados...completamente..."
"Era um SLK. Era muito bonito e não foi completamente oferecido..."
"Não, não eram clientes. Era um grupo de amigos impecáveis...íamos vomitando os nossos fantasmas mutuamente..."
"Sim. Fui para a cama com um deles. Mero sexo animal...era uma pessoa especial...não tinha nada a ver com clientes..."
"Sim, já tínhamos bebido bastante...e uns riscos de branca..."
"Parciais! A esquerda tenho dos terços do fémur e a direita o primeiro terço da tíbia..."
"A principio, do bom e do melhor...depois Martin's, Dimple, Cardhu...bagaço...álcool etílico...perfumes..."
"Só duas vezes por semana! E com a vigilância de uma tipa sempre de olho...lutei muito para lhe dar o melhor...deitei tudo a perder..."
"A assistente social disse-me que se as coisas continuassem a melhorar, falava com o advogado para pedirem uma reapreciação...talvez me deixem voltar a ficar com ele..."
"E...posso contar com a vossa ajuda! Não posso?...pelo menos a tua?!..."

© Mário Rodrigues - 2010

1.830$00


Os "sanjo"... Pois observava-os do lado de fora dos vidros das montras e ia imaginando não só os saltos fabulosos como as velozes corridas que proporcionar-me-iam se nos meus pés estivessem... Mas na verdade nunca por cá passaram...
Não obstante o furor feminino era alcançado com os ténis da "galo"... Um dia vi uns ténis da "galo" numa montra que apesar de não serem exactamente os supremos teriam, com toda a certeza, o poder da sedução, embora menor, mas também eu próprio não era um tipo de "topo"... Tinham no entanto a virtude de serem os menos caros de todos, o que talvez me desse a possibilidade de os almejar...
À questão simples, obtiver da minha mãe uma igualmente simples resposta.

-Junta o dinheiro que logo se vê!

Bem, 1.830$00 era uma fortuna... Mas entre os 100$00 que o meu avô Francisco me dava de quando em vez e mais uns trocos daqui ou dali, mais as gorjas da minha mãe me dava por eu ir a correr serra abaixo, mais ou menos um quilometro e meio, qual "Thomas Sawyer" em busca de uns fechos, de uns botões e de umas entretelas...

Não era de um dia para o outro!
Demorava um bocado!
Demorava bastante!...
Demorou demais...

Realmente, quando cheguei a ter os ditos 1.830$00 fui, com ordens expressas e companhia, à loja...
"Não! Já não tenho nenhuns desses! Tenho ali é..."
Fui a outra loja...
"Não! Já não tenho nenhuns desses! Tenho ali é..."
Fui a outra loja...
"Não meu rapaz! A "Le Coq Sportif " já não produz esse modelo! Tenho ali é..."
...
Bem... Terei de comprar outros... Claro que muito menos fabulosos!...

"O quê? Estás mas é maluco!"

Pois sim! Os 1.830$00 acabaram no mealheiro da conta 9078-4 do MPG...


© Mário Rodrigues - 2010

Cybe ;)

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