sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Hipócritas...

Abrem os jornais da manhã:
"Chacina em base norte-americana no Texas... Não se sabe o que terá acontecido..."

Hipócritas...

Um homem, militarmente, major; vocacionalmente, psiquiatra; familiarmente, marido e pai; biologicamente, "antropóide sapiens mais"; socialmente, local de despejo de dramas e local de colheita de esperanças e felicidades...

Trinta e nove anos, mata doze colegas e fere trinta e um, só porque os não conseguiu matar. Foi abatido. Não mortalmente. Ponto comum a ele e a todos os colegas que ele atingiu: de partida, novamente, para o Iraque...

Este não é dos que se mataria no final da chacina!

Uma base militar, onde permanecem em constante exercício e alerta 50.000 homens, armados até aos dentes deles e dos avós deles, envoltos em drama, honra, vida, droga, manipulação, loucura; é uma verdadeira bomba atómica.

A exposição à guerra e aos seus efeitos, é derradeira na vida de um homem.

Há muitos modos de morrer, e alguns daqueles homens, que já era a enésima vez que iam para o campo de guerra, e cujos olhos e cérebros lampejam horrores impensáveis, que ficaram gratos ao major médico, que num acto de perfeita eutanásia, os brindou com o fim do sofrimento, tal qual cadáveres sem vida própria digna.

Matar-se no fim? Não! Um homem assim, não se mata no fim... Um homem assim, tem muito claro na sua mente que tem de libertar os seus companheiros. Um homem assim, já escutou, lidou e teve de compreender, as maiores barbaridades que chegam a ser difíceis de imaginar, e quer cá ficar para gritar porque razão o fez.

Quanto? Não! Muito mais! Muitos anos, e centenas de centenas de histórias e de sofrimentos e de esventramentos da alma e arrancamentos de corações, sendo obrigado a permanecer vivo e a corresponder com o que se espera dele.

O contacto permanente com o sofrimento alheio, é corrosivamente destruidor. A guerra tem consequências incalculáveis.

Este homem, socialmente pode ser um criminoso, mas este homem é um fruto da guerra com o discernimento esmagado pelo sofrimento atroz...

© Mário Rodrigues - 2009

6 comentários:

  1. Eu consigo apenas imaginar os horrores que se podem ver na guerra. Apenas imaginar os pesadelos que vêm depois. A lutar muitas vezes uma guerra que não é a deles, em que não acreditam.
    Assim como não consigo imaginar o que leva uma pessoa a fazer isto. Ou melhor, consigo entender o desespero, mas não o facto de achar que será o melhor para os outros. Momentos de insanidade, de loucura, não sei...

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  2. Sabes Nirvana, existem modos horríveis de morrer em guerra! Modos tais que a morte através de um tiro, se mostra uma bênção para quem tem quase a certeza que vai morrer, mas não sem sofrer e fazer sofrer muito. Há casos, em que as pessoas ainda que vivas fisicamente, jamais se libertam do inferno que lhes aterroriza o resto da existência...

    Tragédias incalculáveis.

    Uma beijoca

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  3. verdade...como deve ser castrador conviver diariamente com o sofrimento patente na guerra e sentir pés e mãos atadas para o combater
    um beijo

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  4. O sistema cria a máquina. A máquina pode estragar-se com o uso. Que acontece quando se deixa de acreditar no fundamento que um dia nos guiou os passos? Olhamos para os que alinharam connosco e julgamos que tal como nós eles estarão errados, apenas lhes faltará vislumbrar a realidade. Se acreditarmos que só nós temos essa clarividência, será natural odiarmos esses estranhos, ou simplesmente lamentar-lhes a existência. Compreender?... Não compreendo, porque não posso assumir como meus os erros dos poderosos. A vida fica-me sempre como fundamento derradeiro, não aceito a morte como autodefesa para a minha revolta. Já não sou uma máquina de guerra...

    Abraço!

    (P.S.: Desculpa a demora, já cá tinha deixado um comentário, mas devo-me ter esquecido de qualquer coisa e desvaneceu-se, mas era mais ou menos isto...)

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  5. Cybe, meu bom amigo,

    Já não és uma máquina de guerra?
    Tens guerras onde te debates furiosamente!
    Tens que eu sei!
    São outras...Mas também matam e castram...

    Porta-te mal, desde que com dignidade...

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  6. Pois, de facto, tenho Mário...
    E que mau é quando nos habituamos tanto à guerra que ela se começa a parecer com a paz...

    Não fosse a tua sabedoria e perspicácia e ainda agora me perdia...

    Hoje foi um dia menos mau, e por isso já vou respirando. Até quando? Não sei ao certo, mas hoje é que importa. Não, não vou matar ninguém, hoje não! E se for assim poderei dizer nunca, desta vez. E amanhã será um bom dia para viver.

    Grande abraço, meu bom amigo.

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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