sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Definitivamente, Deus depois do sétimo dia, fez o “Tobom”...

Seria com certeza uma boa viagem. Foi preparada como tantas outras, à pressa.

Chegado, beijos e mais beijos, “então como estão todos? Estão enormes os rapazes! Eles é que nos fazem velhos!”, nunca percebi o significado desta frase, mas também é verdade que a acho parva, e logo, nunca lhe dispensei muita atenção. Havia figos secos em tabuleiros espalhados sob as árvores do quintal, as vespas e as abelhas iam petiscando no melaço dos ditos. Os meus calções eram de um tecido meio acastanhado, aos quadrados, enormes, tinham dois suspensórios, mas como um não tinha botão, andava pendurado. As quedas provocadas por pisar o dito nas correrias foram bastantes, e rapidamente me levantava e continuava a correr ainda a chorar com as pedras cravadas nos joelhos.

Naqueles tempos havia uma coisa que, só por ela já valia a pena viver e adormecer rapidamente para que outro dia trouxesse uma nova possibilidade. Deleitava-me verdadeiramente, era maravilhoso, extraordinário, espectacular... e então se fosse acompanhado com umas batatitas fritas e um ovinho estrelado... Ai...! Nem é bom pensar! Aquele cheiro, aquele sabor... Definitivamente, Deus depois do sétimo dia, fez o “Tobom”!

A família era humilde, de dedicação e esforço reconhecido. Das férias grandes, alguns dias eram passados por lá. Sempre me senti muito bem por aqueles sítios. Naquele ano, fui abençoado com uma verdadeira chuva de maná no deserto. Sem entender porquê, principalmente porque nem me interrogava, o meu suculento” Tobom”, fazia-me visitas diárias, e chegava a trazer umas colegas, as salsichas, extraordinário! Na terça-feira à noite, já na cama, constatava que já tinha comido quatro vezes, e se a sorte me continuasse a bafejar, teria mais seis maravilhosos repastos de “Tobom”...

Não sei se a minha mãe, não terá estado por detrás daquele milagre da gastronomia dos pobres... Certo é, que desde então, até aos dias de hoje, o pensamento traz-me directamente dos neurónios para a língua e para o nariz, aquele abominável cheiro e sabor que, desde então, me consegue indispor... digamos, gástricamente...


© Mário Rodrigues - 2009

8 comentários:

  1. Olá Mário Rodrigues!
    Deixe que lhe diga uma coisa: Tem aqui um blogue muito interessante. Já li alguns textos e fiquei bastante agradada, porque a mensagem neles implítita, vem muito ao encontro de minha forma de ser e de pensar. É bom saber que algures por este mundo fora há pessoas que sentem como nós. Futuramente passarei a acompanhá-lo e já agora pode contar com a minha disponibilidade para comentar, porque eu gosto.

    Na minha infância não tive fartura, ainda hoje não tenho, vou vivendo com este pouco que bem me chega. Por isso lá, na casa da minha infância, sempre que no almoço de Domingo houvesse para cada um de nós, mãe, pai e três filhos, um niquinho de carne acompanhado com batatas fritas, era um dia memorável, a não esquecer. O meu pai era aquilo que se costuma designar na gíria popular por "um unhas de fome", sempre a poupar, até no mais elementar que era a comida. Aborrecia-se por isso, com a minha mãe, por ela fritar as batatas. Na ideia dele era um desperdício! Ele bem via como os filhos faziam desaparecer num ápice uma pratada de batatas fritas, escorregavam bem mais depressa do que a pratada de batatas cozidas temperadas com azeite, que ele achava bem mais conveniente. Felizmente, a minha mãe nem sempre lhe dava ouvidos. Mais tarde, depois da sua morte, passámos a comer batatas fritas regularmente, acompanhadas de frango, umas vezes frito, outras vezes guizado ou até corado no forno, que é a maneira como eu mais gostava e ainda gosto. Um dia um colega nosso, que frequentava amiudadas vezes a nossa casa até se saíu como uma que nada me fazia prever, nunca nisso havia pensado, apesar de ser uma verdade incontestável. Disse ele, que a nossa casa era a casa do frango, isto é, quase só comíamos frango. Então, e o que é que isso tinha de insólito, ora esta! Era barato e era carne! Bem melhor do que a eterna panelada de feijões, presença constante e diária na minha infância. O meu pai adorava feijões, podia comê-los a todas as refeições incluindo o pequeno almoço,como por exemplo: um prato de sopa de feijão com hortaliça, bem esguichado com vinagre, que nunca disso se fartava. Na ânsia de agradar àquele que representava a autoridade máxima da casa, a minha mãe cuidava que nunca o feijão faltasse. Resultado: Desaprendeu! Foi como se tivesse deixado de saber como elaborar refeições com outros ingredientes. Mas, na sopa de feijão ela era boa e continua a ser! Se concursos houvesse de sopas de feijão, não tenho dúvidas que arrebanhava todos os primeiros prémios!

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  2. Olá Milu,

    Sinto-me feliz por ter gostado deste meu e nosso recanto. Aqui vou estendendo grandes panos de vivências, histórias e ficções. Fico contente por achar que vale a pena voltar.
    Quanto aos feijões... Sabes, gosto bastante de sopa de feijão; e se a conseguir fazer na panela de três pernas, por cima da chama da lenha que arde melancólica... o crepitar das pinhas a arder... com sorte, chego a ter direito a uma ponta de caruma na sopa. Há muitos feijões e batatas cozidas nas nossas vidas, não só não são exactamente maus, como nos fazem exercitar outras vidas, e nos ensinam o sabor e o prazer das batatas mas fritas e dos frangos...

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  3. Que delícia de texto Mário. Confesso que me perdeste por aqui um bom bocado. Andei à procura dos conceitos e a relembrar também histórias antigas. É curioso como são sempre as antigas que têm o melhor sabor. Os figos secos... Sim, sempre com as vespas as lembrar-nos que não nos alambazássemos com a visão... Regressei à região (de onde partira antes de saber que haveria de ter uma memória para as coisas) a tempo de conhecer formas de vida absolutamente diferentes da cidade. Nunca me passaria pela cabeça que a mesa dos pobres podia ser mais rica no campo que a mesa dos pobres que a cidade acolhia. Mas era-o. Sempre o terá sido, porque a pobreza do campo era a ausência do supérfluo, da opulência. Enquanto a pobreza da cidade era a ausência do fundamental e a abundância de tentativas de acrescento ao inútil e frívolo. Conheci ainda os velhotes que trocavam géneros, que cultivavam o campo e que tinham os "tós" no pocilgo. E a mesa era farta, sem frigorífico tinha de se consumir o que não fosse para os vizinhos ou para presuntos. A chicha suculenta e inebriante. E eram todos "bons", os "tós" e as gentes.

    (Até chegar a isto andei pelo Google e pelos livros de culinária... confesso...)

    :)

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  4. Sim? Ainda bem!

    Realmente as vespas tinham uma maneira bastante... convincente, de nos manter á distancia. Digo, tinham, porque agora lido com elas como se de uma porcelana fina se tratasse e elas em agradecimento, não só não me ferram, como usam as pontas dos meus dedos para se lançarem em voos invejáveis.

    O campo e a cidade são universos completamente distintos, com belezas mas também com... realidades diferentes, como tu próprio indicas.

    E, sem dúvida que pelos campos, “...eram todos "bons", os "tós" e as gentes.”, hoje nem sempre assim é, mas também há bondades que tal como as maldades, estão encobertas e temos de as querer ver e perscrutar...

    ;)

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  5. Por se falar em vespas:

    Um dia o meu irmão Carlos, mais velho do que eu dois anos, decidiu que havia de andar com a culatra de uma velha espingarda de brinquedo a matar vespas, ou abelhas, sei lá. Às primeiras impressões nem as sei bem distinguir. Ambas mordem a doer! Isso sei! Havia lá pelo terraço, junto do quintal, um pequeno muro de tijolos que à custa das nossas brincadeiras já estava meio partido. Fosse pelo que fosse, o certo é que as ditas pareciam habitar nos burados do interior dos tijolos, pois se de lá saíam...
    Em dada altura uma delas mordeu o meu irmão, deve de ter sido numa pálpebra, que logo inchou, de tal forma que lhe tapou o olho. Entretanto, pelo avançar da tarde, quando demos por ela já tinha os dois olhos tão inchados que ficou sem ver. Apenas ficaram visíveis uns fiozinhos escuros, que eram as pestanas. Nessa noite estávamos todos deitados preparandos-nos para dormir. O meu pai estava ausente, tinha ido para a sua aldeia natal, para amanhar uns bocados de terra que por lá tínhamos. De maneira que a minha mãe, eu e o meu irmão, que agora estava cego, felizmente só até os olhos desincharem, estávamos na cama de casal da minha mãe. O meu irmão mais novo era ainda um bebé e dormia num bercito que estava ao lado da nossa cama, um pouco mais abaixo da mesa de cabeceira, onde estava o candeeiro a petróleo, visto que não tínhamos energia eléctrica.

    Aquele maldito candeeiro fartou-se de fazer das suas. E ainda por cima só tínhamos um, por isso, sempre que alguém pegava nele para se dirigir a outra dependência da casa, nós crianças, seguiamos-lhe no encalço, quais borboletas esvoaçantes. Por causa disto, num dia em que me encontrava sentada num mocho, que era assim que ouvia o meu pai chamar ao banco de madeira, para seguir a luz do candeeiro que a minha mãe carregava em direcção a um dos quartos da casa, ensarilhei os pés, nas traves que o banco tinha para poisar os pés, acabei por cair numa aparatosa queda na qual parti uma asa, isto é, um braço, tinha uns três ou quatro anitos. Mas como estava a contar, estávamos na cama para dormir, quando a minha mãe sem querer derrubou o candeiro e a maldita chaminé, que com tanta facilidade saltava directa ao chão, foi cair desamparada dentro do bercito. Por sorte não foi para cima do bebé, mas a minha mãe atirou um berro desesperado, então vi uma imagem que guardo na memória até hoje. O meu irmão com uns enormes altos no sítio dos olhos, virou o rosto em direcção ao local onde ouviu todo aquele bulício e berrava perguntando: O que foi mãe? O que foi mãe? Lembro-me de ter rido, porque o senti totalmente desamparado e diminuído, E este meu sentimento explica-se pelo facto de ele costumar exercer a superioridade física em relação a mim, para me submeter. Andávamos sempre à porrada, por dá cá aquela palha. Eu ficava sempre pior.

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  6. Fui criada no campo, por isso não sei como é a infância na cidade. De lá, guardo o gosto pela liberdade...
    O que eu mais gostava era mesmo da sopa da minha tia Ana. Aquilo é que era uma sopa! Tinha de tudo! Couve, feijão, carne, batatas, massa, sei lá. Ninguém faz uma sopa igual à dela! E o bife a cavalo com batatas fritas com que me brindava ao fim de semana! Sabia mesmo bem. Sabia a bife. Hoje, saberia (porque já não me lembro de comer carne de vaca) a comida comum, não seria nada de especial, como era na altura.

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…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…

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