sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Malvado cão que me mata outra galinha!

As obras ainda duraram muito tempo até a nossa casinha estar terminada. Todos os sábados, logo de manhã cedo, costumávamos ir da nossa casa alugada na vila, para a "obra", era assim que lhe chamámos durante muito tempo até estar terminada. A distância seria e é de aproximadamente 2 quilómetros. Normalmente arranjava-se maneira de lá passar a noite. Primeiro numa barraquita feita com taipais de madeira e chapas, onde também ficavam guardadas as ferramentas e depois, já dentro da "obra".
Aquele sábado não foi excepção e lá fomos com o farnel para o fim-de-semana. A casa já tinha o rés-do-chão construído bem como uma boa parte de primeiro andar. As escadas exteriores eram divididas em duas partes e quase a meio tinham um patamar, a partir do qual o sentido das escadas se invertia. Elas, as escadas, tinham umas pontas de "verguinhas" de ferro saídas nos degraus visto que ainda não estavam terminadas e aqueles ferros iriam fazer falta para as terminar.
Preto, pêlo curto e ponta da cauda branca como as "pantufas", Dic, era um jovem cão que já não era cachorro e que, vá se lá saber por que razão, tinha uma questão não resolvida com esses seres de inteligência e intelectualidade superior que são as galinhas. Enquanto na nossa casa da vila, fazia questão de comer todo o milho que pudesse às ditas galinhas, sendo que posteriormente, seco como palhas, bebia desalmadamente litros de água...logo de seguida, variadíssimos e reais chichis que faziam do terraço uma piscina. Quando estávamos na "obra", o beligerante animal encetava correrias em perseguições e ainda, encenava emboscadas de cima do patamar das escadas, atirando-se, qual tigre da Malásia, aos pescoços dos galináceos que, pelo menos uma vez, terminara ali mesmo a sua existência terrena.
A meio da manhã, subia as escadas com um tijolo para levar ao meu pai, eis que, num rompante, o Dic vem do primeiro andar a correr, visto que tinha detectado o "inimigo", para descer as escadas para pôr em curso mais uma das suas emboscadas. Eu, sabendo o que ele ia fazer, aflito e tentando ser mais rápido que ele, atiro o tijolo e viro-me para descer as escadas... A minha sandália prendeu-se num dos ferritos e eu lá vou escadas abaixo com o rabo e as costas a descerem pelos ferros... Enquanto as minhas costas reclamavam com uns belos rasgos feitos pelos ferros, bradava a minha avozinha:
- "Malvado cão que me mata outra galinha!"

© Mário Rodrigues - 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

Conífera

Agora vos pergunto! E se um dia eu morresse?

Um segredo vos vou contar.
Se um dia eu morresse, e o resgate da massa sem o sopro da alquimia tal permitisse, ia querer que numa covinha pequenina junto ao pé de uma conífera, o carbono desagregado pela energia que outrora me constituía, fosse depositado.
Assim embrenhando-me no ventre na nossa terra mãe, pelas raízes da conífera junto com a água iria também.
Esse que já fora Adão, Platão e Napoleão, que já fora Abel, Gabriel e papel, esse carbono agora no pé de uma conífera outra vida iria tomar.
Do alto das suas folhas a todos vós iria observar.
Na harmonia das vossas insensatas vidas caminhar.
Mas quem não muito me ama, por tal não vá esperar.
Porque já mais morrerei, enquanto nos corações de quem me queira puder estar.
Porque já mais morrerei enquanto um ser de mim se lembrar.
Porque já mais morrerei enquanto um coração me queira amar...

Mas isso! Isso seria se um dia eu morresse...


© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dias difíceis.

De vez em quando ela aparecia. Tinha um aspecto enganador. Azul quase bebé, tricotada com dedicação pelas mãos maternais, aspecto...ternurento e um bocado "betinho"... Costumava fazer "pandam" com umas calças beije que tinham uns quadrados mais escuros.
Como se já não bastasse o raio das calças de lã, tipo "jardineiras" com os seus suspensórios da treta e sem braguilha, o que me fazia a vida num inferno, principalmente na hora de fazer o meu chichi, tendo em conta que estava no limite da possibilidade de contenção da minha bexiga, porque estava muito ocupado em mais uma das minhas invenções, ainda tinha aquela maravilha do massacre cutâneo que era aquela camisola.
Tinha mangas compridas e gola semi-alta mas o pior de tudo, é que picava como se fosse um ouriço! O diabo da camisola, ainda que vestida por cima de qualquer coisa, tinha picos que tudo atravessavam e se iam ferrar em todo o meu tronco e braços, combinando assim também com as calças que me punham as pernas em brasa e quase com urticária.
"Oh, Mário João, mas ficas tão bem!...", dizia-me a minha mãe, "Oh, mãe mas isto pica muito!...", dizia-lhe eu...
Enfim, claro está, quem é que levava a sua avante, e eu passava um dia inteiro com a impressão de andar vestido com um enxame de abelhas. Ainda hoje quando me lembro disso sinto comichão...

© Mário Rodrigues - 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tango...

Urgente!...

Corram todos venham ver!
Vejam como eles rodopiam, como eles formam um turbilhão de movimento...
Vejam os seus pés...
Vejam os seus corpos...
Vejam as suas cores...
Movem-se em impulsos. Vibram. Parecem raios de luz negra...
Rodopiam e regressam ao mesmo ritmo.
É fascinante...
Num arrojo de suavidade, deslizam graciosamente e chicoteiam as veredas com os tacões e com a alma.
Voltam e bamboleiam-se, desengonçados em movimentos compassados e frenéticos... As árvores arqueiam-se numa vénia de espanto.
As crianças não resistem, rasgam amarras, libertam-se de mãos opressoras e irrompem dos seus pátios de mãos dadas, rodopiam em correrias numa roda em volta...
Urgente! Urgente! Corram todos, venham ver gente feliz...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Desta janela vejo o mundo...

Janela...

Desta, observo uma dama com um vestido até aos pés. Tem uma daquelas armações por debaixo do vestido, que lhe faz parecer ter um rabo de vespa! Emproada, fixa o olhar no horizonte vazio. Não consegue disfarçar o olhar que segue o galã do "Capitan" descapotável...

Não, afinal não! Vejo antes uma criança que corre com uma redinha na mão, atrás de uma bela borboleta. Não sei bem se a quer mesmo apanhar. Talvez queira mesmo só vê-la de mais perto. A Alice disse-lhe que as suas asas eram veludo autêntico...

Bem me parecia! O que ali vai mesmo é um casal de namorados que caminham de mãos dadas e trocando olhares e sorrisos. À frente deles, segue um retratista, com a sua caixa negra, que há quem diga que rouba o espírito das pessoas. Ele segue, andando para trás, numa tentativa de fotografar o casal. Sim, aqui em Paris os artistas fazem de tudo pela sua arte...

Ali, um homem alto, com um casaco até aos pés com uma gola muito peluda, saiu da pastelaria. Tem um ar sinistro. Olha para os que por ali passam, como se fosse detentor de uma altura de pelo menos cinco metros. "Homem do Ministério", é esse o nome que os ardinas lhe atribuem...

Ping, ping, ping... Goteja lentamente da ponta daquela folha, gotas de pranto de aflição... Uma rabanada de vento, abana profundamente toda a cena. Os olhares descuidados dos transeuntes inferem golpes rudes naquelas gotas de ânsia. Ninguém lhes dá valor nem esperança. Não lhes conhecem o sentir e a dor. Ping, ping, ping... Um pequeno pássaro aproxima-se e observa. Não estranha. Acaricia com o bico a folha e, num rompante, abriu asas e voou...

Desta janela, vejo tudo! Reparem como segue sorrateiro, o rosto vai tapado. Quem será a próxima vitima? Nobre senhor, de elegante trato e aspecto, fica por chão. Tinha-lhe sido ofertado por quem muito o admirava, ou simplesmente bajulava. "Longines", inscrito no mostrador de madrepérola, por detrás de um vidro safira com pequenos traços de ouro encrostados... "Assim conseguirei pagar ao Dr. Gaspar as injecções para arrancar o gaiato das unhas da pneumónica". Com duas moedas escondidas na mão, cumprimenta o polícia que vigia a distribuição do açúcar e da farinha racionada, "...já está a contar com isso! Ele e a minha mulher, com o reforço para o conduto dos gaiatos..."

Desta janela vejo o mundo...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Hipócritas...

Abrem os jornais da manhã:
"Chacina em base norte-americana no Texas... Não se sabe o que terá acontecido..."

Hipócritas...

Um homem, militarmente, major; vocacionalmente, psiquiatra; familiarmente, marido e pai; biologicamente, "antropóide sapiens mais"; socialmente, local de despejo de dramas e local de colheita de esperanças e felicidades...

Trinta e nove anos, mata doze colegas e fere trinta e um, só porque os não conseguiu matar. Foi abatido. Não mortalmente. Ponto comum a ele e a todos os colegas que ele atingiu: de partida, novamente, para o Iraque...

Este não é dos que se mataria no final da chacina!

Uma base militar, onde permanecem em constante exercício e alerta 50.000 homens, armados até aos dentes deles e dos avós deles, envoltos em drama, honra, vida, droga, manipulação, loucura; é uma verdadeira bomba atómica.

A exposição à guerra e aos seus efeitos, é derradeira na vida de um homem.

Há muitos modos de morrer, e alguns daqueles homens, que já era a enésima vez que iam para o campo de guerra, e cujos olhos e cérebros lampejam horrores impensáveis, que ficaram gratos ao major médico, que num acto de perfeita eutanásia, os brindou com o fim do sofrimento, tal qual cadáveres sem vida própria digna.

Matar-se no fim? Não! Um homem assim, não se mata no fim... Um homem assim, tem muito claro na sua mente que tem de libertar os seus companheiros. Um homem assim, já escutou, lidou e teve de compreender, as maiores barbaridades que chegam a ser difíceis de imaginar, e quer cá ficar para gritar porque razão o fez.

Quanto? Não! Muito mais! Muitos anos, e centenas de centenas de histórias e de sofrimentos e de esventramentos da alma e arrancamentos de corações, sendo obrigado a permanecer vivo e a corresponder com o que se espera dele.

O contacto permanente com o sofrimento alheio, é corrosivamente destruidor. A guerra tem consequências incalculáveis.

Este homem, socialmente pode ser um criminoso, mas este homem é um fruto da guerra com o discernimento esmagado pelo sofrimento atroz...

© Mário Rodrigues - 2009

Toco de oliveira velha...

Era cedo, bastante cedo. Geralmente acordo muito cedo, o que, quando por lá estou, me possibilita um prazer que tenho dificuldade em descrever.
Sente-se uma frescura de fim de madrugada, o sol, ainda se passeia pelo leste, e dele vislumbro uma nuvem difusa de claridade que traz com ela a promessa dos primeiros raios...
O silêncio do vale é guarnecido com o cantar do ribeiro. Os insectos, parecem ainda não existir. Os pássaros, esses, poucos dão o ar da sua graça!
Os primeiros raios, ao surgirem no cume, trazem despertares aos animais. Sentem-se acordar.
Havia já meia hora, que estava sentado num "toco" de uma oliveira velha, que cortei há algum tempo. É um local privilegiado. Naquele local, sentado com as pernas penduradas, abandono-me. Quando me lá sento, é para lá ficar... Aquele local não pode ser profanado. O vale, escancara-se numa escarpa quase abrupta de uns cem metros a meus pés. De oriente, chega o sol, preguiçoso!
Os primeiros raios, ao surgirem no cume, trazem consigo o início do espectáculo. Os actores já lá estavam; à espera!
Num perfeito acto de natalidade, a montanha deixa que nasça das suas entranhas um vapor matinal que com a chegada dos primeiros raios de sol, e com as correntes térmicas ascendentes por eles provocadas, caminham pela encosta acima como se fossem enormes lençóis alvos... Chegados ao cume, encontram os outros, os de sul e os de oeste, e juntos ascendem nos céus, na qualidade de enormes e lindas nuvens brancas.
Por estas horas, já os melros se divertem nos seus saltos e assobios extraordinários. O pica-pau, lindo no seu negro e escarlate, esconde-se. Esconde-se sempre. Levei algum tempo até ser contemplado com a sua imagem. Soberba! Os esquilos, dormem.

Eu, sinto-me como de fosse uma pedra daquela montanha. Assim como estou, encaixo na perfeição naquele quadro.

A vida do ser humano, pode ser muito simplesmente bela e justificada...

© Mário Rodrigues - 2009

Hoje é sexta-feira.

Sexta. Hoje é sexta-feira. Sinto segredos das pernas, dos braços, dos pés e ouço reclamações do dorso. Esta semana foi algo trabalhosa. Sinto um leve sabor a cansaço.
Esta semana, foi daquelas em que o trabalho rendeu alguma coisa de material, mas este sabor que tenho na "boca", não é a dinheiro!
Esta semana tive a oportunidade, por várias vezes, de ser útil! Tive o prazer de ver pessoas menos apreensivas, na sequência da minha aparição. Tive a felicidade de constatar que, depois do meu trabalho, e quando as já deixava, olhei para trás e vi-as mais felizes e aliviadas.
Envolvidas nos seus universos, acabados de ser alterados, mas onde já havia um amanhã diferente.
Não! Não deram pela minha saída! Não gosto que dêem por ela. Para além de poder provocar num impulso, um acto de agradecimento, o que me deixa sempre encabulado, leva a que mais uma vez me olhem na cara, e que com isso, a possibilidade de me virem a reconhecer mais tarde aumente. A minha missão é trazer e não levar...
Hoje, sinto que nesta semana, o mundo avançou um pouquinho no sentido da nossa natureza, da nossa razão para viver. Apetece-me descansar um pouco...

© Mário Rodrigues - 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Queria que hoje fosse um dia importante

Queria que hoje fosse um dia importante na minha vida... Queria que hoje, numa soma decisões plenas da inexistente liberdade, mas temo que esta intenção, só por si, sirva para boicotar tudo o resto, decidisse decidir, deixar de dar guarida a uma enorme; enorme demais, montanha de porcarias que me tornam o arrasto abrasivamente aderente ao meio...

© Mário Rodrigues - 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Duas lembranças!

Na casa das minhas tias-avós, em plena Serra do Açor, existia um cubículo, que como porta tinha um pano, e que tinha um buraco redondo no chão. Esse buraco, dava directamente para a corte dos porcos. Se bem que enquanto as nossas necessidades fazíamos, víamos o pobres animais a olharem para nós, ou pelo menos para a parte que eles podiam ver, pelo menos, era raro por aqueles lados o uso dos penicos, com os quais, nunca simpatizei; mesmo nos tempos em que se tinha de ir para o meio do mato, fosse à hora que fosse.

A segunda, quanto a mim, sempre me foi muito estranha. Na Lisboa antiga, em pleno Bairro Alto, numa casa onde o meu avô materno vivia, existia uma, apelidada de "pia de despejos", onde realmente se despejava tudo, mesmo tudo; inclusive servia de sanita. O mais estranho, é que a tal pia estava numa parede onde de um lado tinha o lava loiças e do outro um fogão...Pois certo. A pia estava ao meio...Imagine-se uma diarreia em qualquer dos elementos do agregado, durante a confecção dos repastos...

Realmente, ainda há muito pouco tempo, os conceitos de higiene eram...


© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Não era cedo; mas também já não era tarde!

Não era cedo; mas também já não era tarde! A luz era esbatida nas estepes, e frio regelava os pensamentos.

Onde estariam naquele momento? Que estariam a fazer? E ela? Aquela boca, o corpo, as ancas, os seios, as pernas...Seriam ainda, paisagens da sua exclusiva contemplação? E porque haveriam de o ser?

A saudade misturada com a solidão, formavam uma pasta cinza podre, pegajosa que se ladeava no corpo e nos membros, provocando sucessivas quedas pelo torpor no andar dos pensamentos.

A sua existência doía. Doía-lhe mesmo muito existir!

Os dias foram se transformando em coisas miseráveis, que nada tinham de desejado. O urso que sacudia toda a casa, casa...; o urso, com as patas, partia pedaços a cada impacto; desejoso, selvagem, brutal...quando ainda havia cheiros...Era a sua única visita... Mas desde que o ultimo pedaço de gordura de foca se extinguiu... Deixou, sim, deixou de aparecer.

O couro das botas cozido em neve na chama de querosene, foi o último manjar...

Lá fora...branco, muito branco!

Que quente que está o seu ventre... Acabara de lhe beijar os seios, muito suavemente, eles, dormiam já...hoje teria vergonha de fazer amor com ela...está impuro; mas por dentro. Nada fez de condenável, mas sente-se degradado.

Não era cedo; mas também já não era tarde! Talvez, de manso, ela se aproxime. Talvez, sem dor, o acolha. Talvez sedutora o envolva...

Lembro-me de a ver chegar, lenta, discreta, poderosa. Lembro-me de a desejar. Lembro-me de lhe não resistir. Lembro-me de o último suspiro expirar...

Não era cedo; mas também já não era tarde!

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Levi’s e D&G a 500mg...

“...contrafacção de comprimidos?”, “Sim. Não sabias?”, “Então mas isso é como as calças e os perfumes, queres ver!?”, “Pior!”, “Pior porquê?”, “Porque mata pessoal e as calças e os perfumes não!”, “Estás parvo! Explica lá essa!”, “Queres mesmo?”, “ Deixa-te de cenas...”, “Ok! Está bem.”

“Então imagina o seguinte: “, “O quê?”, “Eu tenho um grande laboratório de medicamentos, pago uma fortuna a uns tantos cientistas que trabalham num laboratório que eu paguei, e que me custou outra fortuna. No entanto não estou muito chateado, porque logo que os meus cientistas desenvolvam uma determinada droga, eu vou regista-la e ao abrigo da legislação internacional, vou explora-la em exclusividade durante oito anos. Eu como tenho de recuperar o meu investimento, marco esse produto e vendo-o no mercado com uma margem de 1800%, durante o período em que só eu o tenho. Certo?”, “Épa... Certo...”, “Ok. Continuando. Durante esses oito anos como tenho de demonstrar que a minha droga, é excelente, procedo à sua produção, exclusivamente na minha fábrica, com os meus melhores técnicos e com matéria-prima de qualidade e síntese de primeiríssima qualidade, vigiada e controlada constantemente.”, “Porreiro, ainda bem! Assim é que deve ser, não é?”, “Sim, claro. Deveria ser sempre assim!”, “Deveria?”, “Sim. Deveria. Mas não é! Durante esses anos, as matérias-primas mal sintetizadas, deterioradas, estragadas nos transportes, rejeitadas nos controlos de qualidade, etc, etc...”, “Foram destruídas, claro!”, “Não, Nem por isso! Foram armazenadas na Índia e arredores, nuns armazéns de umas indústrias que foram desmanteladas e que parecem estar abandonadas...”, “Para quê?”, “ Espera, uma coisa de cada vez! No final dos oito anos de exploração exclusiva, as coisas mudam de figura! A fórmula descoberta pelos meus cientistas, passa por força da legislação internacional, para o domínio público, devido ao seu interesse para a sociedade. Aí, desço o preço do meu original para um terço, lanço através dos média em que sou accionista, algum descrédito controlado sobre a passagem da droga para o mercado de outros laboratórios e descredibilizo completamente o mercado dos genéricos, apelidando-os de contrafeitos ou de proveniência duvidosa”, “Pois, mas se eles não fazem as coisas bem?”, “Eles quem?”, “Esses gajos dos genéricos!”, “Espera, deixa-me explicar-te. Em primeiro lugar existem laboratórios de genéricos que laboram em perfeitas condições, tão ou melhores que os de marca. Depois esses outros gajos, são micro “laboratórios” artesanais de vão de escada que existem milhares na Índia, China, Koreia, Países Médio Oriente, Bangladexe e outros, mantidos graças a fundos meus e de amigos meus, tais como outros accionistas de outros laboratórios, rapazes porreiros do tráfico, e industria encoberta do mercado “extasi”. Quando um produto passa para o mercado livre, todos o querem ter mais barato. Assim são feitos concursos/leilão, em círculo altamente secreto para encontrar/adjudicar a produção de uma droga X, a um desses “laboratórios”, sem controlo, de qualquer tipo, com mão-de-obra escrava, por vezes a troco de uma “dose” para o dia, e em que política ambiental e outras, são megalomanias ocidentais. Depois agarra-se a matéria-prima que esteve armazenada e anteriormente rejeitada, mistura-se com substâncias compatíveis e de baixíssimo valor comercial, cujo melhor é o amido de trigo e arroz, mas que também passa por sal-gema, cal, gesso, talco e outras...Faço os comprimidos, dos formatos e cores que me forem encomendados, depois são vendidos a granel às toneladas em leilões cujos licitadores são a industria de blisterização e embalagem e mais tarde introduzem em lotes mistos esse produto no mercado.”, “Mas isso é de loucos!...”, “Achas?”, “Agora imagina que durante uma investigação, os meus cientistas descobriram, por “acaso”, um antigénio que poderia vir a dar uma droga de imunização profiláctica (vacina), porreira para uma pandemia...”, “Sim...E o que é que isso ia dar?”, “Uma extraordinária possibilidade de ganhar dinheiro! Tendo o antigénio, é muito fácil sintetizar um agente infeccioso, depois... Está visto meu amigo, produz-se e distribuí-se no target desejado. Mistura-se nos comprimidos maravilha que estávamos a produzir, ou nas pastilhas, ou na coca que segue para a distribuição, ou no leite em pó dos putos, ou então; também podemos por na ração de uns porquitos num país cujo controlo sanitário seja, digamos... Ligeiro ou ainda nos coktails de hormonas com espermatozóides de inseminação artificial dos frangos, vacas e porcas, etc...e esperar algum tempo...é a gestação...Quando aparecerem os primeiros infectados, voila, eu sou um gajo que não só tenho a cura como a vacina e que ainda ofereço a determinados países os medicamentos para salvar milhões de pessoas que infectei, o país dá-me contrapartidas várias, como axilos e identidades renovadas, proporcionando-me a possibilidade de com a cura, estar a espalhar o meu próximo grande negócio...”.

 

“Épa, mas isso é uma loucura! Tu estás doido?”

“Sim, estou! Ainda ontem teimei durante meia hora que era o Marquês de Pombal... “

 

© Mário Rodrigues - 2009

terça-feira, 29 de setembro de 2009

...DESTRUÇAR!

A sensação era estranha, deveria estar com medo, mas não me lembro de o ter naquele momento.

Apesar de ainda ser Fevereiro, dia 16, o calor era brutal, ou então simplesmente me parecia, a última semana tinha sido passada em intensos exercícios, tudo o que era fatos, máscaras e porcarias para engolir, me tinham garantido, que viriam a ser a barreira entre a morte e a vida lá por aqueles lados.

Dormi em toda a semana menos de uma noite, ou porque em exercícios, ou porque embora em casa e na cama, os olhos não se fechavam de terror e medo. No entanto, ali estava, e aparentemente sem medo... Ainda o sol não nascera quando ali chegámos. A noite tinha sido longa com todos os preparativos e recomendações dos comandantes. Ajustes e mais ajustes de última hora. Estava tudo previsto.

Apesar de casado, não tinha querido a natureza, que eu já fosse pai, apesar da tentativa... Naquele momento, lembro-me de achar que tinha sido um bom e mau sinal!
Bom sinal porque se morresse, não deixaria ninguém órfão de pai; mau sinal porque por instantes tive a sensação que a própria natureza que sempre fora minha amiga, parecia ter conspirado contra mim.

Nas placas, em formatura, há já algumas horas, a imponência do C-130, repousava indiferente a tudo em frente aos nossos olhos. Abastecido e pronto, ali estava ele.

Que raio se passava?

Está bem! Não tinha fome assim como não tinha medo, mas a ansiedade já começava a enlouquecer-nos a todos!

Era a primeira vez que ia andar em um avião grande! Os alouette’s, faziam-me quase parte dos pequenos-almoços mas o hércules não! Era a primeira vez! Diziam que era pouco confortável e que fazia muito barulho lá dentro! Que merda de viagem que eu ia ter! Porra!

Ilha de Chipre, Al Jaharad e depois Al Ahmadi, era o percurso anunciado! Como seria depois?

Da esquina do hangar, aparece o comandante! O seu ar austero e caminhar hirto, deixavam transparecer a ordem de “SENTIDO” e do “EM FRENTE, ...ARCHE”, que nos iria dar. A vida passa-me em flashes ultra-rápidos, pelos olhos! Escola, brincadeiras, mulher, pais...saberão eles o quanto os amo? Que loucura! Sinto-me agoniado! O capacete está a fritar-me os miolos ali ao sol!

“...atenção meus senhores! A força militarizada formada pelos nossos camaradas franceses, irá partir hoje, dentro de momentos, de Nice, para a Ilha de Chipre, na missão de apoio á operação tempestade no deserto, pelo que, ficaremos a aguardar novas ordens! Por isso, ...DESTRUÇAR!”

O estado era tal, que por instantes cheguei a sentir-me estupidamente desiludido...



© Mário Rodrigues - 2009

E neste momento em que as lágrimas me visitam...

E neste momento em que as lágrimas me visitam...

...Pois eu vos digo, a vós que tão bem me compreendeis e que testemunhais a minha alegria e felicidade; como a recuperaria eu?
Como, se um dia dos meus filhos fosse privado, se do cheiro e dos braços da mãe deles não tivesse notícias, se dos afagos dos meus pais fosse arrancado? Dizei-me, dizei-me como recuperaria eu a vida?

© Mário Rodrigues - 2009

sábado, 26 de setembro de 2009

Perdi tudo o que tinha...

Na minha vida, já algumas vezes, perdi "tudo" o que "tinha". No entanto, mais tarde recuperei-as! Hoje, luto principalmente para não perder nada que jamais recuperaria...

© Mário Rodrigues - 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Acasalamento...

Um casamento é uma panela onde se misturam, verdade, humildade, amor, dor, respeito, loucura, responsabilidade, diálogo, serenidade, sexo, concessão, tudo em doses meticulosas. Promessas, é um dos ingredientes que oxida e estraga a sopa.

© Mário Rodrigues - 2009

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Porque teremos nós de sofrer?

Será pânico? Fobia? Será mesmo só medo? E de quê?

As mortes dos nossos queridos, os seus sofrimentos, as possibilidades de eles partirem... deixam-nos com o corpo prensado... com uma cavidade escancarada no tórax... com o cérebro fervilhante e um nó na garganta.

Observo numa ilha do Pacifico, umas fragatas, a pairarem sobre as andorinhas do mar, que de dorso negro, protegem as suas criar; as fragatas, em voos loucos atiram-se sobre as pobres, roubando-lhes os filhotes. Ali mesmo, muitos são engolidos à vista dos pais, outros são levados para o alto, onde acabam por ser objecto de disputa de outras fragatas...

Saberemos nós os sentimentos das andorinhas progenitoras, naquele momento de chacina? Sentiram elas alguma coisa? Se não sentem, porque protegem e guerreiam? E os filhos das fragatas, são eles os vilões? Seres que vivem da morte e com o sofrimento alheio?

Compreenderemos nós os verdadeiros sentidos das nossas vidas? As nossas missões? Saberemos nós a nossa dimensão e como se movimenta a cadeia interminável? Porque sofremos nós? Será o sofrimento, um elemento base e fundamental da existência da vida? Será que vivemos o sofrimento da maneira correcta? Existirá maneira correcta de o viver? Será o sofrimento simplesmente o mais eficaz dos professores? Tal como julgamos, o nosso apoio aos que sofrem, alivia os seus e os nossos sofrimentos?

Para já, apenas me ocorre enviar uma lágrima aos que neste momento têm de sofrer, tão-somente porque lhes é impossível fazer outra coisa.

...muitas outras questões se levantam em redor do sofrimento, que tal como a alegria e a felicidade, são fruto de transmissões eléctricas neurais e... e talvez mais alguma coisa...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Definitivamente, Deus depois do sétimo dia, fez o “Tobom”...

Seria com certeza uma boa viagem. Foi preparada como tantas outras, à pressa.

Chegado, beijos e mais beijos, “então como estão todos? Estão enormes os rapazes! Eles é que nos fazem velhos!”, nunca percebi o significado desta frase, mas também é verdade que a acho parva, e logo, nunca lhe dispensei muita atenção. Havia figos secos em tabuleiros espalhados sob as árvores do quintal, as vespas e as abelhas iam petiscando no melaço dos ditos. Os meus calções eram de um tecido meio acastanhado, aos quadrados, enormes, tinham dois suspensórios, mas como um não tinha botão, andava pendurado. As quedas provocadas por pisar o dito nas correrias foram bastantes, e rapidamente me levantava e continuava a correr ainda a chorar com as pedras cravadas nos joelhos.

Naqueles tempos havia uma coisa que, só por ela já valia a pena viver e adormecer rapidamente para que outro dia trouxesse uma nova possibilidade. Deleitava-me verdadeiramente, era maravilhoso, extraordinário, espectacular... e então se fosse acompanhado com umas batatitas fritas e um ovinho estrelado... Ai...! Nem é bom pensar! Aquele cheiro, aquele sabor... Definitivamente, Deus depois do sétimo dia, fez o “Tobom”!

A família era humilde, de dedicação e esforço reconhecido. Das férias grandes, alguns dias eram passados por lá. Sempre me senti muito bem por aqueles sítios. Naquele ano, fui abençoado com uma verdadeira chuva de maná no deserto. Sem entender porquê, principalmente porque nem me interrogava, o meu suculento” Tobom”, fazia-me visitas diárias, e chegava a trazer umas colegas, as salsichas, extraordinário! Na terça-feira à noite, já na cama, constatava que já tinha comido quatro vezes, e se a sorte me continuasse a bafejar, teria mais seis maravilhosos repastos de “Tobom”...

Não sei se a minha mãe, não terá estado por detrás daquele milagre da gastronomia dos pobres... Certo é, que desde então, até aos dias de hoje, o pensamento traz-me directamente dos neurónios para a língua e para o nariz, aquele abominável cheiro e sabor que, desde então, me consegue indispor... digamos, gástricamente...


© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A morte do homem de quem eu era o único amigo...

Dia 0 - 8.00h – “Atenção fazer a higiene da cama 2 do quarto 4, que vai entrar um doente que vem da oncologia; é o Sr. ... Oliveira, sim é isso Oliveira! 68 anos, etc, etc...”, “então mas na cama 2 não estava a D. Albertina?”, “yap, disseste esteve...”, “ok...”

Dia 1 – 8.30h – “Então Sr. Oliveira, dormiu bem? – Vamos fazer a higiene?... Vá lá, só mais esta bolacha... Não... Os cigarros acabaram! Já sabe!”, “...não se preocupe, Mário, aqui quem precisa de cuidados sou eu! Bem o sei! Vocês é que me ajudam...”, “sim Sr. Oliveira, assim é-nos mais fácil de o ajudar a ficar melhor depressa, para ir jogar á bola com o Ricardito! Não é?”, “Sabes Mário, já vivi umas coisas... a guerra nunca me saio da cabeça...”, “...bem sei, bem sei...Sr. Oliveira, a guerra mata-nos por dentro...”, “Olha, o Ricardito diz que já tem uma namorada!”, “Aí sim! Ele esteve cá ontem?”, “...Não... Não o vejo á seis meses e meio... o pai...”

Dia 4 – 8.00h – “O Sr. Oliveira tem de ir lá abaixo, à imagiologia antes do pequeno-almoço...”, “...Ok. Que acham dele? Doente muito colaborante! Sim senhor!”, “pois é, realmente é... pena a família...”, “vem aí a mulher de quando em vez...”, “ainda não percebi porquê!”, “...tem bem a noção do seu estado, e apesar disso, colabora e chega a esboçar uns sorrisos...”, “...Sim é bastante simpático...”

Dia 6 – 16.00h – “...há visitas no quarto 4?”, “sim hoje há, está lá pessoal do estado maior...”, “... Está lá alguém de lá?”, “Está! Lembraste do Carvalho do aprovisionamento?”, “...há sim, já sei...”, “ pois é ele... dermóide...”, “...então pessoal, como anda aquilo por lá?”, “vai-se andando...”, “...oh, Rodrigues, tens ali uma bela peça...”, “quem?”, “ o Oliveira...”, “então?”, “então!?... tá a paga-las, filho da puta...”, “...eh Zé... dass... o homem mordeu-te?”, “Porra! Se calhar não sabias?”, “Não sabia nem sei!”, “Esse gajo é o maior filho da puta que eu já vi... Ninguém o gramava lá... Nem com molho de tomate...”, “ sabes o que o gajo fez ao...”, “realmente se assim é... Não é lá muito boa rês...”

Dia 7 – 01.00h – “... Porra! Parece que o gajo era mesmo um “granda” cabrão...” – No dia seguinte não o consegui olhar com os olhos cheios de empatia do costume. Tive dificuldade encaixar o que tinha ouvido naquele homem... no entanto, entre muitas outras conversas, apercebi-me que o dito era... mauzinho... as explicações para a ausência da filha e do filho, pareciam esboçar-se sem muitas interrogações! No entanto, a mim, nada de mal me fez, e ainda que tivesse feito... tenho de vencer a coisa! È sempre tempo...

Dia 8 – 16.00h – “olá Mário, não te tenho visto...”, “pois foi Sr. Oliveira, correrias! correrias!”, esforcei-me para não olhar como se tivesse a olhar para um carrasco! Não estava a conseguir ver a imagem do velhinho débil, doente terminal, mas agradável e colaborador!

Dia 9...

Dia 11... “pois, Sr. Oliveira...”

Dia 13... “um abraço, para si também...”

Dia 16...

Dia 18 – 8.00h – “... doente da cama dois do quatro, mudar a sonda e a algália... atenção que a medicação foi alterada!”, “aquilo está melhor?”, “nop, muito instável! Atenção aos registos dos valores...”, “Então amigo Oliveira?”, “...rshrshrs ohá ário, rshsrshsrsh...”, “ não se esforce, já lhe mudo a sonda...”, “...hhhuuuuumm... sabes Mário... tu és o meu único amigo...”, “então, passou-se? A sonda vai para o estômago! Não é para os miolos, homem!”, “...és um parvalhão tu... tu és o meu único amigo...”, “vá, respire fundo...”, “rshrshrs ário!...”, “sim?...”, “...rshrshrs...”

Dia 18 – 11.00h – “...está! Dr. Rocha, pode chegar cá a cima?”, “hora do óbito 10.50, chamem a família...”

Nos meus ouvidos aquela frase ecoa até hoje...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Como lençóis brancos...

Os nossos fantasmas habitam-nos, acompanham-nos, intimidam-nos... Encolhemo-nos sentados sobre os travesseiros velhos nos cantos de luz difusa, com os joelhos junto do queixo... Gotas deslizam pelo rosto... Não trazem etiqueta se de bem, se mal; e porque seriam uma delas? São simplesmente lágrimas... Alguns desejamos exorciza-los... Outros, talvez, nem por isso... Já me habituei á presença de alguns que tolero, outros, faço-lhes mesmo confissões...

© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Uma casinha branca...

“Eu tenho andado tão sozinho ultimamente
Que nem vejo em minha frente
Nada que me dê prazer
Sinto cada vez mais longe a felicidade
Vendo em minha mocidade
Tanto sonho perecer
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde prá plantar e prá colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela para ver o sol nascer
Às vezes saio a caminhar pela cidade
Procura de amizades
Vou seguindo a multidão
Mas eu me retraio olhando em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão”

Cantada por Maria Bethânia

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tocando em frente...

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei
E nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor para poder pulsar
É preciso paz para poder sorrir
É preciso chuva para florir
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu sou
Estrada eu vou
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor para poder pulsar
É preciso paz para poder sorrir
É preciso chuva para florir
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir
Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história e
Cada ser em si carrega um dom de ser capaz
E ser feliz

Autor: Almir Sater/ Renato Teixeira

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

As regras da sensatez

Nunca voltes ao lugar
Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz
Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão
Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez
Por grande a tentação
Que te crie a saudade
Não mates a recordação
Que lembra a felicidade
Nunca voltes ao lugar
Onde o arco-íris se pôs
Só encontrarás a cinza
Que dá na garganta nós
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez

Autores: Carlos Tê / Rui Veloso

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Insólitos… CINCO HISTÓRIAS NOCTURNAS

HISTÓRIA DO DITO CUJO
Se eu quisesse, podia contar muitas histórias sobre o dito cujo.
Mas basta esta, a primeira que me vem à cabeça. Um belo dia, após uma
bela noite de sono, o dito cujo abriu os olhos, levantou-se da cama, dirigiuse
ainda meio ensonado ao quarto de banho, olhou para o espelho e, oh!,
fez uma careta terrível! Caramba, a terrível careta que ele fez! E depois
disse: “Xanto Deux, o gue agontexeu à minha gara? Parexo o Gregor Xamxa.”
O que significa: “Santo Deus, o que aconteceu à minha cara? Pareço
o Gregor Samsa”, mas ele pronunciava mal as palavras, por causa daquilo
que acontecera à sua cara durante a noite. E é tudo.

QUANDO O SILÊNCIO CAIU EM VOLTA
A noite era de um esplendor invulgar. A lua, embora não estivesse
cheia, brilhava e envolvia toda a paisagem com uma beleza que desafiava
qualquer tentativa de descrição. Os campos estavam cheios de sombras
amenas. Não havia vento, nem o mais leve sopro. Os demais corpos celestes
derramavam sobre o lago uma luz pura, estável, branca. As árvores
estavam como que hipnotizadas numa espécie de encantamento misterioso.
A senhora Ava Novak estava sentada na varanda, desfrutando
das ternas e encantadoras sensações daquela noite maravilhosa, e sonhava,
sonhava, sonhava, contemplando a lua resplandecente. Depois, por um
momento, todas as cigarras se calaram, o silêncio caiu em volta e a senhora
Novak deu um pum.

CONSEQUÊNCIAS DE UMA NOITE DE FOLIA
Depois de uma longa e bem preenchida noite de bebedeira, Zavala
Zabehlice acordou dentro de uma garrafa. Uma situação, como é fácil
compreender, pouco ou nada brilhante.
- Efectivamente a minha situação está longe de ser brilhante. Na
verdade, é muito aborrecido uma pessoa acordar e concluir que está presa
no interior de uma garrafa. Talvez para sempre. É sobretudo muito incómodo
– diz o infeliz pândego, secundando a minha opinião.
Pois muito bem. Aqui têm o que proporciona uma noite de folia
como aquela que Zavala Zabehlice teve o ensejo de gozar.

O TRASEIRO COMICHOSO
Um fulano entra à noite furtivamente no gabinete de trabalho
de um escritor famoso, esfrega as mãos e bebe um frasco inteiro de tinta.
Depois pousa o frasco no lugar, coça o traseiro comichoso e volta furtivamente
para casa.
No dia seguinte, o fulano começa a cagar histórias e transformase
num autor famoso. O outro, sem a tinta, pobrezinho, mergulha numa
crise de criatividade e acaba por morrer de desgosto.

SEZAY GORODECKY NÃO CONSEGUIA DORMIR
Noite após noite, agitado, transtornado, ofegante, barrigudo e
com uma borbulha na ponta do nariz, Sezay Gorodecky não conseguia
pregar olho. Ora, passar tantas noites sem dormir não é muito bom para a
saúde. Ao fim de algum tempo uma pessoa começa a morrer de sono. E
nem de propósito! Ao fim de algum tempo, Sezay começou a morrer de
sono. E depois morreu*.

* Esta nota de rodapé é pura garotice minha. Existe apenas para enganar o leitor.
Sezay Gorodecky morreu efectivamente de sono. Fim da história.

Autor: RUI MANUEL AMARAL in “365”

domingo, 30 de agosto de 2009

...os últimos anos da vida de um homem...

Nestes dias, por aqui, muito se tem falado de um assunto muito importante e sério. Quase que é difícil aborda-lo dada a sua complexidade e multiplicidade de vertentes e realidades.
A velhice, ou antes os últimos anos da vida de um homem, e claro está, falo obviamente e igualmente dos últimos anos da vida de uma mulher.
Em primeiro lugar vou tentar identificar os diversos intervenientes e interessados neste processo e nesta realidade, sendo que posteriormente tentarei reflectir um pouco, sobre cada um deles.
Bem, para já lembro-me de:

• O indivíduo (que não tem de ser obrigatoriamente velho)
• O filho(a), ou o que resta dele
• A família, ou o que resta dela, ou outra coisa ainda que não se sabe exactamente que é
• Os centros de saúde e hospitais na qualidade de prestadores de cuidados de saúde
• As igrejas e as religiões
• Os “lares”
• O estado e os governantes
...De momento não me lembro de mais nenhum...

Pois bem, então vamos lá.

O indivíduo... O indivíduo tem, antes de mais, de querer e se deixar tratar e cuidar, conheço vários casos em que a prepotência e de falta de humildade, inviabilizam qualquer possibilidade de ajuda. O indivíduo, apesar de se esquecerem disso é uma pessoa, como tal, pensa, vive na verdadeira acepção da palavra, com todas as componentes dessa vida, gostos, direitos, opiniões, deveres, personalidade, sexo e repito sexo, história, passado, presente e também, sim, também tem futuro… A ideia de criar uma sociedade paralela, tipo prateleira, para o pessoal velho e outros, foi a pior dos últimos milénios! Permitir que isso renda bastante dinheiro a terceiros, é a garantia para a permanência e disseminação da coisa. A idade não pode ser causa de descriminação, mas antes de inclusão e ainda mais ampla... O indivíduo, tão-somente, deseja e tem o direito de ser amado e respeitado, até depois de ter morrido. No entanto devemos envolver os nossos filhos na nossa vida e na dos nossos pais, de modo a que façamos parte do seu projecto de vida, com a dedicação e respeito que temos para com eles. Educar e criar um filho é muito mais que garantir através de muito trabalho, dedicação e ausência, que nada, mas mesmo nada lhe falta, em nenhum âmbito. Menos PSP e mais salto à corda, menos inglês e mais horta, menos vergonha e mais conversas teenager, descer do altar e saber como andam as namoradas e os dramas da menina gorda que antes de cisne é patinho feio...
Com a impressão de ainda muito haver para dizer, avanço para o filho, ou o que resta dele... Se relativizarmos o termo filho, ao fenómeno de uma vida na sequência da união anterior de duas; não teremos muito a dizer...manutenção da espécie e ponto. No entanto, não me parece que essa definição nos baste. Nós, como os nossos filhos e como os nossos pais, somos o resultado, um somatório, de consequências das vivências e das realidades a que fomos submetidos, e devemos ter isso sempre presente, em relação a nós e aos outros. Todos nós temos os nossos dramas, e eles têm de ser respeitados pelos outros. Muitas vezes esse resultado vem a mostrar-se, desolador, revoltante, injustificado, inesperado mesmo, ou pelo contrário mas também; mas sê-lo-á?! A colheita das tempestades na volta da sementeira dos ventos, poderá deixar algum sabor menos agradável na boca... Não me atrevo a atribuir culpas absolutas aos filhos e ou outros por detrás, e também por dentro destas realidades. Têm-nas, sem dúvida, mas repartidas. Os filhos dos filhos, os cônjuges dos filhos, as prioridades dos filhos, os problemas dos filhos, as vidas dos filhos, as futilidades ou não dos filhos, o apelo comercial de um mercado muito rentável, o tapar o sol com a peneira e deixar para depois essas coisas, sem a consciência de que, a menos que morramos novos, chegaremos a velhos, um sistema de saúde mal organizado, uma sociedade que ao mesmo tempo que pretende ser de excelência, o é de mediocridade e de abandono após a exuberância da floração da vida, são também cicatrizes e as mãos que vão moldando os caracteres e as vidas...
Com a mesma sensação do ponto anterior, avanço na direcção da família.
Bem, essa é uma instituição em franca decadência! A família é para a sociedade e para a civilização, o que a célula é para a vida; a sua unidade por excelência, e que em tudo a contém!
Muito há para falar e reflectir sobre a família. Considerando o eventual início da família no momento da decisão de viver uma vida a dois, surge todo um universo de realidades a explorar e reflectir. Antes de mais, e correndo o eventual risco de julgamentos por parte de terceiros, tentarei reflectir sobre uma família convencional, cuja união pressupõe uma mulher e um homem, mesmo porque não concebo outro formato. Para começar, (e como já escrevi há dias em “amores descartáveis”), as relações têm tomado nas últimas décadas, um carácter provisório e de fim quase á vista, uma relação em que, desde o primeiro dia se considera a possibilidade de se descartar logo que deixa de ser uma louca paixão... Poderá parecer uma opinião redutora e retrograda e sinónimo de insensibilidade, mas á precisamente o contrario. Ninguém pode viver a ponderar a morte, não se pode amar tendo em conta a traição, é impossível a entrega total quando se não é proprietário. As relações conjugais carecem de capacidade de ambos os elementos, para evoluir juntos, para se respeitarem nas diferenças, para chorarem muito e rirem bastante mas juntos, para reconhecerem não ofuscados as virtudes e os defeitos um do outro, para se separarem e descolarem definitivamente dos aconchegos dos ninhos parentais, para dialogar em vez de calar, e digo dialogar, não gritar, para não deixar assuntos a meio, com pontas pendentes, para ser e responder pela verdade e pela sinceridade, para tantas outras coisas que infelizmente, cada vez vou vendo menos nos casais de hoje. Ambos têm a obrigação total e imponderável de tornarem as suas casas no seu lar; a nossa casa só pode ser o nosso porto de abrigo, o cais onde atracamos depois de enfrentarmos as tempestades dos oceanos profundos das nossas vidas, o local para onde corremos quando queremos rir, mas também quando queremos chorar, um local onde não há cedências mas sim espaço para ambos, onde acima de tudo haja muita, mas mesmo muita vontade de ser feliz, e de lutar e sofrer por essa felicidade. Vejo muitos sofrimentos neste mundo por causas tão relativas, será que a nossa família e a nossa felicidade os também não merecem? São muitos os sofrimentos de homens e mulheres, não só para subirem Everestes e Kilimanjaros, para correrem dezenas e centenas de quilómetros por uma medalha, mas também para chegarem a horas aos empregos, diariamente, de quem dependem, para serem profissionais e bons no que fazem, enquanto se preocupam com a renda da casa, com o imposto para pagar, com a doença do filho e também do pai, para terem alegria e frescura para receberem o cônjuge no regresso ao lar, para terem braços e coração para apoiarem e chorarem com o outro nas dificuldades... Tenho visto atletas, de uma grandeza e de uma competitividade imensa; gente que ama a vida e quer fazer dela, única e grande! Esta gente, estes pares, são ninhos de veludo para acolherem novas vidas. Pois sim, neste ambiente, um filho desejado e planeado, rebenta como uma semente bruta em solo fértil, sem medos, sem receios, sem dúvidas porque acima de tudo vêem uma campânula aberta, como se de um estádio se tratasse, que os braços e os cuidados dos pais constituem, e lutam para manter e renovar todos os dias e a todas as horas. Fácil? Nada disso! É mesmo muito difícil! Mas é muito bom, mesmo muito bom!
Um crescimento e educação que contemple o convívio diário e em ambiente familiar das nossas crianças com as realidades e do envelhecimento, parece-me imprescindível para que as coisas mudem de trajectória. As circunstâncias, e não só, porque até as habitações conspiram contra a família, têm feito com que os velhos das famílias se tornem em restos de uma civilização que tudo consome. As nossas crianças, cada vez menos, têm a noção de velhice, não sabem como as pessoas envelhecem, das peripécias e das realidades que envolvem a velhice. Um avô a envelhecer na nossa casa, no seio da nossa família, tem vantagens incalculáveis... Os nossos pais, contidos nas nossas vidas, demonstram a continuidade das vidas e das gerações. Conheço crianças que infelizmente não são poucas, que quando questionadas acerca dos seus avós em idades muito avançadas, me dizem “são velhinhos, que têm um cheiro esquisito, e que têm umas conversas que não se percebem”, e que elas vêem uma ou duas vezes por mês, se insistirem com o pai/mãe, “lá numa casa grande onde estão outros velhinhos como eles...” Depois, um dia viram os pais vestidos com roupas escuras e de óculos pretos, com uma cara estranha de aborrecimento. Ficaram em casa de uma vizinha ou de um familiar, ou foram para um dia de actividades culturais muito respeitosas, que as agências funerárias organizam, para ocupar as crianças, durante o período em que se desenrola as cerimónias fúnebres, com o objectivo de não chocar as crianças com a realidade da morte e com a dureza do momento... A cremação apaga definitivamente aquela existência, garantindo que até o trabalho de uma visita aos restos mortais, se torne “higiénica”... dizem... As nossas crianças, são privadas de amar e conviver, com os nossos pais em ambiente familiar, e de se envolverem no envelhecimento e na morte dos nossos pais. Lembro-me perfeitamente de dar comida á minha avó materna, de falar com o meu avô paterno na minha casa (dos meus pais), lembro-me de dar passeios com o meu avô paterno, e de ele me contar historias que mais me pareciam de super-heróis “paleolíticos”, bem como do degradar das suas saúdes e dos dias em que a morte chegou... Na melhor das hipóteses, estamos a criar crianças que ainda que quisessem, não sabem o que fazer com um velho, como se pode e deve lidar com ele e como ira ser a vida com ele por perto... Quanto muito, farão connosco o que viram fazer, quando os nossos pais ficaram com as suas idades avançadas e precisaram dos nossos cuidados... Irão pôr-nos lá nos lares, como se de antecâmaras de morte se tratasse... A velhice e os velhos são vergonhas que embalamos em caixotes e colocamo-los nos fundos das garagens das nossas vidas, esperando que uma qualquer limpeza, os atire definitivamente para o lixo. As nossas famílias nem sempre são os nossos lares, nem dos nossos filhos, muito menos dos nossos pais.
Bem, cá estou eu; hospitais e centros de saúde... Onde me fui meter!!

“Queria de ti um país de bondade e de ternura!
Queria de ti um mar de uma rosa de espuma!...”


De: Mário de Cesaryni de Vasconcelos

Os centros de saúde o os hospitais, deveriam cuidar e tratar quando de tratamento e cuidado é carente, se no hospital no hospital, se em casa em casa. Muito importante a reter a e não esquecer.
Os centros de saúde, nas pessoas dos seus médicos de família, e não vou cair na tentação fácil de dizer mal dos maus, porque esses existem em todo lugar, são locais que têm um papel importante e complexo na vida dos velhos. Ali se procuram, não só as curas dos corpos como as curas das almas, os ouvidos que escutam, as palavras que consolam, etc. Os avanços na área da medicina e da ciência, têm proporcionado o aumento do tempo de vida, mas o sociedade não proporciona a manutenção da qualidade da mesma. Esse aumento não é sinónimo de desejo de viver. A tentativa de corrigir constantemente os valores bioquímicos dos indivíduos, levam a aplicação de terapêuticas pesadíssimas do ponto de vista físico e psíquico, e a um sentimento de culpa profunda por terem prazeres na vida que resta. As listas titânicas de doentes a ver, conjugadas com muitos outros problemas, levam a que a classe dos médicos de família, olhem em vez de verem... Alguma falta de sensibilidade do que é a velhice, retira qualidade de vida aos de idade mais avançada. Posso dar um exemplo e de um local e de um profissional que conheço. Na casa de repouso X, a taxa de mortalidade entre os utentes, (o número de residentes é bastante elevado), rondava as 3 por semana/11 por mês, e numa estimativa que se fez de consumo de drogas antidepressivas, ansiolíticas e soníferas, chegou-se á conclusão que 83% dos utentes, recorriam com regularidade a este tipo de drogas e que 56%, era mesmo consumidor diário. Depois de observar, com alguma preocupação, aquela amostra, o médico responsável decidiu em conjunto com a dietista, fazer alterações de ementas e de alguns hábitos. Os almoços de sábado, passaram a ser churrascos de carne ou peixe, mas nas arcadas, com os grelhadores ali á mão para buscar e comer e com acesso a 1dl de vinho tinto, e o almoço de domingo passou a ser numas semanas cozido á portuguesa e em outras transmontanas ou afim, sendo que depois, as visitas semanais eram feitas no pátio e nas arcadas, integradas na tarde de divertimento que incluía dança, teatro, declamação, etc., os dias deixaram de iguais, houve quebra de rotina, os utentes ajudam a organizar o próximo fim-de-semana, e todas as semanas há o objectivo de chegar fresco como um pêro ao próximo fim-de-semana. A taxa de mortalidade, diminuiu nos primeiros 3 meses para 1,8 por semana/7 por mês e ao fim de um ano para 1,1 por semana/4,5 por mês, e ainda, o consumo das drogas acima referidas passou para 58% de consumo com alguma regularidade e 18% os que consomem diariamente. Eu, talvez prefira viver 80 anos felizes, em vez de 82 angustiados, ou 90 a desejar morrer. Nós, quando tivermos idades bastante avançadas, teremos outras prioridades, que estão bastante longe das de hoje. Devemos nos esforçar para compreende-las assim como fazemos com as nossas crianças, se é que fazemos... Assim, não aumentamos as vidas mas sim os sofrimentos e as angustias. Nos hospitais, para além dos problemas que em parte, apesar de o carácter ser diferente, são idênticos aos dos centros de saúde, acrescem outros. As taxas de ocupação das enfermarias, atiram para a rua, pessoas que ainda se encontram muito instáveis, por vezes, felizmente a maioria, o regresso a casa e ao meio acabam por proporcionar a estabilidade, no entanto o número dos outros também não é pequeno... Para juntar a isso temos o fenómeno que consiste no facto de existirem pessoas que têm alta hospitalar à meses e até á anos, mas que ninguém as vai buscar ou visitar, e mais, todos os anos nas vésperas das festas anuais como as passagens de ano, pascoa, carnaval e mesmo natal, são internadas, ou melhor dizendo, abandonadas dezenas de pessoas nos bancos de urgência dos hospitais, ou com queixas altamente empolgadas, ou com situações de desespero psíquico, que são recolhidas, quando terminadas estão as festas. É prático, é fácil e é vergonhoso. Mesmo porque cada vez que se entra num hospital, as probabilidades de adoecermos aumentam a cada minuto que lá permanecemos, o que naquelas idades, é muito perigoso.

As igrejas e ou religiões, desempenham papeis em duas vertentes fundamentalmente; criadoras e disseminadoras de lares e afins e enquanto instituições religiosas e ideológicas, que é a vertente sobre a qual irei reflectir agora. Independentemente das fés que aclamam, das legitimidades e dos fundadores e até mesmo dos fins, têm um papel muito importante do ponto de vista social. De algum modo, estas instituições podem dar e transmitir, ou pela mensagem ou pelo apoio a causas, sensações de compreensão, bem-estar, objectivos e esperanças; transmitem razões para continuar a querer viver e lutar por isso. Envolvem as pessoas em projectos de caris voluntario ou não, mas que fazem as pessoas sentirem que têm um papel a desempenhar e que fazem falta na sociedade e á sociedade. Só neste sentido, estas instituições evitam que milhares de pessoas se afundem nas toxicodependências legais em que se tornaram os medicamentos, e que entopem os serviços de psiquiatria e psicologia dos hospitais, bem como os médicos de família nos centros de saúde.

Lares, casas de repouso e afins, e centros de dia. Antes de mais, quero separar os centros de dia das restantes valências. Penso que, os centros de dia, desde que projectados e mantidos com os devidos cuidados, podem ter um bom papel na sociedade, como têm o jardim-escola e o ATL (actividades em tempos livres), para as nossas crianças; principalmente se são necessários cuidados e vigilância suplementares devido ao deteriorar do estado de saúde. No entanto, e tal como nos J.I. e nos ATL, o problema é quando esgotamos completamente os horários; se abre às 7.00h, é às 7.00h que entra, se é às 20.00h que fecha é a essa hora que sai, ainda que os pais ou os filhos estejam em casa e até pudessem estar com eles. Quando fazemos isso com um filho, ele fará isso connosco no centro de dia. Mais uma vez, este problema não pode ser visto pelo lado das obrigações mas antes pelos princípios de respeito e do desejo de reunir a família logo que possível. Assim entendo que os outros locais de internamento, apesar de se chamarem muitas outras coisas, são e estão por princípio mal. Acho principalmente que são uma sociedade paralela com realidades á parte e que desconhecemos, não as querendo conhecer. Ouço por vezes idosos a dizerem que “logo que chegue a minha altura, vou para lá espontaneamente, porque é o melhor para mim e para o meu filho”; bem sei que na maioria dos casos mentem, e mentem por razões óbvias. Antes irem que serem levados, ou seja, porventura será o seu último acto de liberdade (como se ela existisse), ou até talvez uma questão de dignidade própria… pelo menos não terão de, envergonhados e tristes, admitirem para consigo e para com os outros que “tenho uns filhos de merda que me enfiaram num asilo”. “Fui eu que escolhi, e vim!”. Quando a mim, acho que esse á só o principio do fim. Quando era pequeno, recordo-me de, muitas vezes e em muitas ocasiões, ouvir uma história que me diziam ser verdadeira, em que se relatava que um dia, estando um homem já muito velho, e de acordo com a tradição, o seu filho acompanho-o ao cume da montanha onde era costume os velhos serem deixados nos fins das suas vidas. O velho trazia com ele um pão, um pote de mel e uma manta. Ao despedirem-se o velho agarrou na manta e rasgou-a ao meio, dando uma metade ao filho dizendo, “toma e leva para que tenhas com que te tapares um dia quando vieres para este mesmo local”, trazido pelo seu filho, neto do velho… A tradição terminou nesse dia, e o velho envelheceu no aconchego do lar, junto dos netos que o viram morrer…

Os lares podem ter vários nomes; casas de repouso, hotéis sénior, resort do descanso, podem cobrar mensalidades que vão dos 500.00€ aos 4.500.00€, (sim não me enganei no número), podem ter massagens, biblioteca, jardim, golfe, restaurante e médico ou tão simplesmente uma tábua para morrer, mas são e serão sempre o cume da montanha de um velho; e eu não gostaria de para lá ir. A alta rentabilidade do negócio tornou-o apetecível e os locais nascem como cogumelos sobre a matéria orgânica morta, que é a família. Conheço-os muitos e de muitos géneros, bons, maus, limpos, sujos, cuidados e descuidados, apetecíveis e nojentos, mas deveriam ser sempre de ultimo recurso, e só para órfãos de família, gratuitos (suportados pela sociedade e pelo estado que somos nós). Repito os “lares” não são nenhuns lares e por principio, estão mal e a sua utilização actual está errada.

Agora, o que me falta? Deixa-me cá ver! Há, governantes!... Os velhos em particular, não são vistos de modo especial, nem diferente do resto dos portugueses; rentabilidade!
Enquanto criança, acelera-se o crescimento para rapidamente se transformarem em contribuintes, enquanto contribuintes, exploram-se até aos últimos suspiros, enquanto velhos, quanto mais degradada for a vida, mais rapidamente desaparecem, aliviando as seguranças sociais e os ministérios das saúdes e afins com os seus consumos sem qualquer rentabilidade… Sinceramente, acho que nessa matéria, possivelmente não iremos melhorar muito, mesmo porque os governantes já de hoje e os de amanhã, nasceram e cresceram em uma sociedade paralela onde não existia velhos; pelo daqueles que cuidamos em casa, simplesmente porque são nossos pais, gostamos deles e são os nossos pais e avós, são os patriarcas e as matriarcas dos nossos clãs… Tenho a ideia que a principal causa das politicas sociais estarem mal é o facto de se não saber exactamente o que constitui e como se constitui a sociedade…

Realmente, constato que a sociedade tem muito para aprender acerca deste assunto. No tempo dos nossos pais, os filhos, eram encarados como mão-de-obra barata, necessária para a agricultura e não só, com poucos cuidados e preocupações, tinha-se grandes quantidades de filhos, sem que eles e as suas educações fossem causa de grandes preocupações. As crianças nas últimas décadas, tornaram-se muito importantes nas vidas dos pais desta sociedade, assumindo um papel central, mas não muito… Os pais até os querem seguir mesmo depois de formarem as suas pequenas famílias. Nem os pais nem os filhos, estão muito interessados em reflectir no facto de ambos sofrerem mudanças físicas e psíquicas naturais e progressivas, decorrentes da existência e que não pedem licença para chegarem e se instalarem. Assim, o ambiente é geralmente de incompreensão, de increspamento e de intransigência. As vidas modernas e os seus problemas crescentes, vão fazendo com que os filhos também deixem de fazer parte das vidas dos pais, aliás conheço casas onde habitam os pais e os filhos, mas em que ninguém faz parte da vida de ninguém, limitando-se a partilhar espaços e a cruzarem-se, não se conhecendo, não se ajudando, não partilhando, não rindo e não sofrendo juntos… Os pais não têm tempo para os filhos, o pai não tem tempo para a mãe nem vice-versa, os filhos não têm tempo para os pais nem para os avós, os filhos não têm tampo para os velhos e estes por sua vez têm tempo, mas não têm ninguém. As crianças têm de ser envolvidas em todo o processo de evolução e desenvolvimento de todas as fases da vida e da família. As famílias têm de ter um lar. As famílias têm de ser uma célula forte e coesa, onde exista amor, respeito mútuo entre os elementos, entrega, muito bom senso e compreensão. O elementos mais velhos da família devem ser encarados como os patriarcas e matriarcas dos nossos “clãs” e em redor dos quais as famílias se devem reunir, na sua diversidade de pequenas células familiares que entretanto se foram formando. Os patriarcas e matriarcas, devem marcar as suas posições de tal, demonstrando e relembrando que o são e não se divorciando desses seus direitos que ao mesmo tempo são deveres. As crianças devem ter conhecimentos empíricos, sobre a velhice, o que é envelhecer e a morte natural pela soma dos anos de vida. As famílias têm de lutar por serem felizes juntas; se não temos tudo o que amamos, amemos tudo o que temos… Os actuais contornos do envelhecimento são muito preocupantes, mas podemos alterá-los, e sermos muito felizes com as alterações. Todos temos um papel muito importante neste processo, de que não podemos prescindir. Gostaria muito de ver os velhos respeitados, porque uma sociedade que não respeita e acaricia as suas crianças e os seus velhos (nas suas qualidades de, futuro e de sabedoria respectivamente), não tem futuro e perde o seu passado, logo se descaracteriza e perde razão para existir. Em culturas supostamente mais evoluídas, estes processos levaram ao auto extermínio e ao desaparecimento.

Será o futuro da nossa?

Seremos nós simples organismos multicelulares, cuja função única e primordial é a manutenção dos genes…

© Mário Rodrigues - 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O AMOR EM VISITA...

O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Autor: Herberto Helder

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Nunca esperei tal coisa...

...Sempre o admirei! Quase venerei! Era um exemplo que queria seguir. Esforçava-me para que reparasse no que eu fazia; que, diga-se de passagem, era uma repetição das coisas que ele fazia... Tinha a esperança de que um qualquer dia, olhasse e visse, e até mesmo dissesse que estava porreiro ou qualquer outra coisa... Nunca assim foi! Quarenta anos depois, as coisas têm outras proporções. O desprezo, que já por si era consequência da ignorância, passou a indiferença que se apodera dos dias e da relação. As amizades, são como os caminhos do bosque; se não forem percorridos, o mato cresce, e fá-los desaparecer! Não se tratava exactamente de uma amizade... O berço embalou ambos... Em histórias, por vezes choradas, e contadas na primeira pessoa.
Repenso e reflicto sobre a história e o passado...
A culpa sempre foi minha!
Aliás, neste, como em outros casos de idênticos contornos, a culpa foi sempre minha. Tenho de o assumir com frontalidade e sem desculpas hipócritas. Que culpa têm os outros das expectativas que depositei neles? Quando e de que modo os questionei acerca delas? Aliás, para ser sincero, nem eles tinham ou têm consciência da existência e da dimensão das tais expectativas que foram depositadas neles!
Reflicto mais um pouco sobre isso. Acho mesmo que, nem poderiam saber, sob pena de que, sabendo, fossem tomados de um exercício de cinismo e encenassem ema personagem para representar no palco das nossas vidas, que então seria uma farsa. Ou então, poderiam ainda ser genuínos, e ignorado como realmente sou, as minhas expectativas caiem por terra, desiludindo-me permanentemente.
Terei eu, alguma legitimidade para depositar expectativas nos outros, e ainda esperar que eles correspondam a elas? Mesmo porque isso é um autêntico jogo de lotaria. Esperar que alguém acerte em algo que nem sequer tem consciência que seria para acertar, só para corresponder às minhas expectativas! Parece-me muito pretensioso da minha parte...
Vou reflectir mais um pouco sobre isto...
Vem-me á lembrança que muitas vezes crio expectativas em pessoas com base nas promessas que me fazem; ou pelo menos em declarações que eu compreendo como se tratando de promessas. Reparo ainda que ao longo da minha vida tenho criado expectativas por razões muito estúpidas! Caras, sorrisos, olhares, espetos exteriores e ou interiores, frases... Eu sei lá... Sou um bocado parvo, e mesmo maniento! Achar que tenho o direito, silencioso e de exclusiva existência na minha cabeça, de esperar que pessoas façam e que eu espero que façam... Quantas vezes espero, que façam coisas incoerentes em contextos diferentes?
O mundo desilude-me tão só porque eu me iludi acerca dele. E ele não tem qualquer obrigação de o não fazer... Estranho seria se tal acontecesse...
Aí... Aí a minha postura perante os mundos mudou. Quanto menos espero, menos me angustio e desiludo com a frustração das expectativas que não tenho. E cada vez mais, espero nas pessoas de quem nada espero, e tudo obtenho...

© Mário Rodrigues - 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

O meu horóscopo...

Aquário

AMOR: Se tiver alguém interessado(a)
em si, vá dando trela sem se envolver,
só para ir alimentando as expectativas
em relação à coisa. Ter alguém interessado
em nós é sempre bom para o
ego, mesmo que não se goste dessa
pessoa.
SAÚDE: Estatisticamente, este será o
ano em que urinará mais, de todos os
da sua vida.
DINHEIRO: Este ano vai ter que trocar
as notas de 5 e 10 contos que tinha
guardado para colecção.
OBJECTO DA SORTE: Nota de 5 ou
10 contos

in "Revista365, nº30"

Famílias modernas...




Sexta-feira...Segunda feira...




sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Afinal não passo de um grande sacana...

Todo o que é merda que se faz neste mundo, é útil a alguém, e acaba por ter benefícios inocentes para terceiros, que se essa merda não houvesse, como eu pretendia, não beneficiariam, e os seus respectivos filhos passariam pior... Afinal não passo de um grande sacana.

Se não fosse o que discordo, como teimaria no que concordo??

© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Dias úteis...

Este texto foi publicado aqui no Recanto, há alguns meses. Agora que estou uns dias de descanso, reli-o e ele reaviva-me a dúvida...

...não raras são as vezes que um ansiolítico faz parte da ceia de domingo.
Adoro trabalhar sempre que esse trabalho está a ser útil de alguma maneira e ou a alguém , caso contrario limito-me a me arrastar pelo mundo para a sopa (minha e da família ). Gosto de pensar, de inventar, de suar, de ajudar, etc. Eu...não gosto de cavar, gosto sim de ver as flores crescerem, não gosto de "alombar", mas antes da “narta” que proporciona uns momentos com os amigos e a família a dissertar sobre uma...qualquer.
Mas fiquei a pensar, no termo, "dias úteis". Será que os dias que mais prazer me dão, são inúteis?!

© Mário Rodrigues - 2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Buxo Sempervirens

BUXO (buxo sempervirens)

Este arbusto é muito utilizado para a topiária. A folhagem é verde escura, muito resistente e regenera-se bem das podas semestrais. Como características principais do buxo, destaco a sua durabilidade e rusticidade, com poucas exigências de manutenção. Deve ser cultivado a sol pleno, com solo fértil e regas regulares. É tolerante ao frio...

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Cinema Paraíso

Há já muito que tenho a sensação de ser o menino, “cinema paraíso”. Por detrás dos cordames que sustentam os cenários de um palco vital, vou espreitando... Ora curioso, ora envergonhado, ora indignado... De quando em vez, chamam-me ao palco. São necessários aplausos para se encha um qualquer ego, insaciável... Os actores, esses representam uma comédia trágica que os contem em si mesma. De fora tenho a sensação de ser espectador único! Mas não! Vou encontrando outros...

© Mário Rodrigues - 2009

Preambulo às instruções para dar corda ao relógio

Pensa nisto: quando te oferecem um relógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma prisão de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente um relógio, muitos parabéns, que te dure muitos e bons, é uma óptima marca, suíço com não sei quantos rubis, não te oferecem somente esse pequeno pedreiro que prenderás ao pulso e passearás contigo. Oferecem-te – ignoram-no, é terrível ignorá-lo – um novo bocado frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é o teu corpo com uma correia, como um bracito desesperado pendente do pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de ver as horas certas nas montras das joalharias, o sinal horário na radio, o serviço telefónico. Oferecem-te o medo de o perder, de seres roubado, de que caia para o chão e se parta. Oferecem-te uma marca, a convicção de que é uma marca superior ás outras, oferecem-te a tentação de comparares o teu com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, és tu o oferecido, a ti oferecem para o nascimento do relógio...

Autor: Júlio Cortázar in "Histórias de Cronópios e de Famas"

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Passos em redor do mesmo…

Ainda não sei, e não tenho a certeza de algum dia vir a saber, se feliz ou infelizmente, a vida não é o que gostaríamos, o que seria correcto!…
È simplesmente uma sequência de realidades, algumas “destroçantes”… mas que nos amaçam, como o diabo amaça o pão com as suas pútridas mãos…

© Mário Rodrigues - 2009

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Durex...




Amores descartáveis…

…O que procuram, não é amor; assim como o que tinham antes também, já o não era!...
O amor não é coisa que se procure, ou que se compre, apesar de muitos o entenderem dessa maneira.
As pessoas, e infelizmente não estou só a falar dos, “teenager inconsientes”, têm medo de olhar para o seu interior, talvez porque possam não gostar do que vêm. Não param, não fazem “intervalos”, não reflectem, não ponderam… e sinceramente acho que não vivem… apenas correm atrás de um, “dar nas vistas”, que chega a ser inconsciente.
Um amor, um filho, um amigo… e outros marcos das nossas vidas, são únicos, e contendo-nos, contêm-nos. Jamais um, ocupa o “espaço” de outro, são muito poucos, irrepetíveis, insubstituíveis, são pedaços (muito grandes de nós) … e esses devemos lutar por mente-los e aumenta-los, se os perdemos; perdemos pedaços de nós, pedaços tão grandes, que podem por em risco a nossa identidade e a nossa vida…

© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O infinito e mais aquém…

No início era…
Depois, mas só depois; força, matéria e alquimia, em absoluto simultâneo…

© Mário Rodrigues - 2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Como chorar...

"Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos."

Autor: Julio Cortázar in "Histórias de Cronópios e de Famas")

Farto de...

sábado, 1 de agosto de 2009

Haveremos de ser um dia…

Haveremos de ser um dia…

…Pessoas que felizes no nosso íntimo, constataremos o bem-estar e os sucessos dos nossos companheiros de “viagem”…

…Pessoas, que não nos achando, melhores e mais distintas que outras, olharemos pelos interesses e bem-estar de todos, não só porque fazendo-o, fazemo-lo a nós próprios, mas também pela obrigação de o fazer a quem jamais nos poderá retribuir…

…Uma enorme multidão de pessoas, que pelas ruas pediremos a todos os que connosco se cruzarem, para que tão-somente, vivam de modo inócuo para com os outros. E então, com a luz que nos será endógena, provocarmos o desejo de nos acompanharem…

E então; então seremos dignos da denominação de seres humanos e inteligentes…

© Mário Rodrigues - 2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009

México, para além do H1N1...

Deixei a luz a um lado

Deixei a luz a um lado e numa beira
da cama em desalinho me sentei,
sombrio, mudo, os olhos imóveis
cravados na parade.
Que tempo estive assim? Não sei; ao deixar-me
a horrível embriaguez da dor
já expirava a luz, e na varanda
ria o sol.

Não sei tão-pouco em tão terríveis horas
em que pensava ou que passou por mim;
recordo só que chorei e blasfemei
e que naquela noite envelheci.

Autor: Gustavo Adolfo Bécquer

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Saudades...

A saudade é um nó que se instala entre a traqueia e a base da língua…
Persiste e insiste numa tentativa de nos sufocar…
Verga-nos o dorso, subjugando-nos…
O alvo, é o que há de bom na saudade, mas que no momento dela… tem um sabor “pálido”, é de um cinzento “amargo”, é…
A saudade, esventra-nos, deixando-nos ocos, vazios… corroídos…

© Mário Rodrigues - 2009

sábado, 25 de julho de 2009

Sei um ninho.

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Autor: Miguel Torga

Talvez - Primeira parte, bocado nº3

...Cherenka Vladsca, que os amigos tratavam, carinhosamente, por “Checa”, não que ela fosse proveniente da República Checa, que não era, tinha trinta e seis anos. Saiu do seu país com vinte e quatro, deixando para trás uma filha com dois anos, a mãe, viúva de um mineiro Ucrâniano, uma irmã, um amor de dois dias com um soldado russo, de que a filha foi o fruto e…

Nas ruas ouvia com frequência que quem partia para ocidente, mandava dinheiro para os que ficavam. Os dias, no leste, eram difíceis… Uma vizinha disponibilizou o contacto de um senhor, que…
- Viaja, e arranja trabalho para mulheres em fábricas e a tomar conta de crianças… - Recebem bom dinheiro! – Dizia a angariadora.

A realidade dos últimos doze anos, foi-lhe bem diferente. Checa, passou por Amesterdão, antes de Barcelona e Lisboa. “Casa Rosso” primeiro e “Bagdad Club” em Barcelona, foram as “fábricas” que Checa viu quando chegou ao, “maravilhoso mundo do ocidente”. Um bar de alterne, nos subúrbios de Lisboa, pô-la a tomar conta de “crianças”. Foi conseguindo arranjar algum dinheiro para comprar um microscópico Tzero, longe do “infantário”. Uma relação “laboral” mais persistente com um cliente, acabou por a tirar de lá.

Júlio, não será exactamente um príncipe encantado, mas, depois de a ter achado, exclusivamente “boa”, começou a ver nela alguém que lhe ouvia os “ventos de revolta” que há muitos anos, “trovoavam”, a sua relação com a sua esposa.

Checa trabalhava agora, como doméstica, em algumas casas de pessoas que, apesar de terem menos habilitações que ela, tinham dinheiro para lhe pagar ao fim do mês. Planeava, agora a possibilidade de trazer para junto dela a sua filha.
AVISO: ATENÇÃO! É possivel que isto continue.

© Mário Rodrigues - 2009

Resposta a Cybe, in "O insubestimavel prazer de observar…"

Olá Cybe,
Tenho enorme respeito por todos os comentários que me dirigem, e a propósito disso, transcrevo para aqui, algo que escrevi no outro dia.
“…Escrevo, principalmente, por falta de espaço dentro de mim para tantas emoções e tão grandes (para mim). Anseio pelos comentários, porque, fico com a sensação de que os pingos de emoção que transbordo, caiem em terras fecundas, e coadjuvam o nascimento de novas emoções, e produzem opiniões e contra pontos e desafios… e isso. Isso é “geleia real”, para as nossas vidas…”
Assim, os comentários, muito menos os teus, são “manchas”, entendo-os sempre como complementos.
Esse eventual defeito de que falas, é tentador, caio também algumas vezes nele, no entanto tem se desvanecido á medida que vou “conhecendo”, outras pessoas que também observam, também respiram lentamente para saborear o ar da manhã, e essas personalidades, são transversais à sociedade, às classes, às habilitações… algumas delas…algumas delas estão internadas, separadas da restante “sociedade normal”, e chamam-lhes… Muitas delas são pessoas livres, sem amarras, amarras de que não nos conseguimos libertar, mas que eles, ditos insanos, pairam acima de nós, em voos rasantes às nossas cabeças que nos assustam, e onde eles largam grandes e rasgadas gargalhadas.
Parafraseando-te, "de uma maneira ou de outra, o mundo faz-se belo todos os dias, mas não é só para mim, é para todos os que queiram ver a sua beleza. Observar, além de um prazer, é um mandamento."

© Mário Rodrigues - 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A menina gorda.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O insubestimavel prazer de observar…

Hoje, sem compreender exactamente porque, acordei!
Acordei muito antes, do despertador que normalmente já costuma tocar depois de eu acordar. O dia ainda não tinha “nascido”. Olhei em redor… e reparei que, com a pouca luz que existia no quarto, observei a minha companheira de “guerra”, de um modo que me não lembro de alguma vez ter feito; meramente biológico. Realmente, a vida é uma grande maravilha. Dormia suave e silenciosamente, aquele complexo bioquímico, organizado numa verdadeira prova de mestria inimitável. Levantei-me e fui até uma janela que abri… Um ar fresco e rico em oxigénio, inundou-me os pulmões de assalto de um modo que quase me provocou dor… O silêncio da manhã e o espectáculo de ver um dia nascer, é-me muito agradável. Mesmo muito. Utilizo-o muitas vezes na sequência de dias menos fáceis. Pergunto-me a mim mesmo, quanta sorte tenho em estar a assistir a um espectáculo, que apesar de se repetir diariamente, raramente reparo como é belo, e tão raramente usufruo da energia inigualável que ele me proporciona. Apesar da minha existência, ser completamente indiferente a ele mesmo, (o nascer do dia).
Ao sair de casa, vi uma minúscula flor violeta de quatro pétalas, que seria capaz de jurar que não existia numa pequena racha do muro de pedra. Aliás, nem tinha reparado bem que o muro era daquelas pedras; grandes. Aquele muro é um enorme habitat. Aquele muro… é o universo de muitos seres… Como será o “muro” que alberga o habitat de seres dos quais eu faço parte, visto pelos olhos do transeunte que acorda cedo e repara num mero muro de pedra?

© Mário Rodrigues - 2009

segunda-feira, 20 de julho de 2009

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